SANTÍSSIMO SENHOR NOSSO LEÃO, PELA DIVINA PROVIDÊNCIA PAPA XIII
CARTA ENCÍCLICA
SOBRE OS ESTUDOS DA SAGRADA ESCRITURA
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS DE TODO O ORBE CATÓLICO
QUE TÊM GRAÇA E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
LEÃO PP. XIII
VENERÁVEIS IRMÃOS,
SAUDAÇÃO E BÊNÇÃO APOSTÓLICA
A Providência de Deus, que, por admirável desígnio de caridade, desde o princípio elevou o gênero humano à participação da natureza divina e, depois de o ter libertado da culpa e da perdição comuns, o restituiu à sua primitiva dignidade, concedeu-lhe, por isso, este singular auxílio: revelar-lhe, por via sobrenatural, os mistérios da sua divindade, da sua sabedoria e da sua misericórdia.
Embora na revelação divina também estejam contidas coisas que não são inacessíveis à razão humana, e que por isso foram reveladas aos homens, para que possam ser conhecidas por todos com facilidade, firme certeza e sem qualquer mistura de erro, nem por isso se deve dizer que a revelação seja absolutamente necessária por essa razão; mas porque Deus, em sua infinita bondade, ordenou o homem a um fim sobrenatural (Conc. Vaticano, sessão III, cap. II, Da revelação).
Esta revelação sobrenatural, segundo a fé da Igreja universal, está contida tanto nas tradições não escritas como nos livros escritos, chamados sagrados e canônicos, porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm Deus como autor e, como tais, foram entregues à própria Igreja (Ibid.).
Isto a Igreja sempre sustentou e professou publicamente acerca dos livros de ambos os Testamentos. E disso dão testemunho os mais graves documentos da antiguidade, nos quais se afirma que Deus, tendo falado primeiro pelos profetas, depois por si mesmo e, posteriormente, pelos Apóstolos, também produziu a Escritura chamada canônica (S. Agostinho, A Cidade de Deus, XI, 3); que ela é constituída pelos oráculos e palavras divinas (S. Clemente Romano, I aos Coríntios, 45; S. Policarpo, Aos Filipenses, 7; S. Irineu, Contra as heresias, II, 28, 2); e que são cartas dadas pelo Pai celeste ao gênero humano, que peregrina longe da pátria, e transmitidas por meio dos autores sagrados (S. Crisóstomo, Homilia sobre o Gênesis, II, 2; S. Agostinho, Sobre o Salmo XXX, sermão II, 1; S. Gregório Magno, A Teodoro, ep. IV, 31).
Ora, sendo tão grande a excelência e a dignidade das Escrituras, que, tendo o próprio Deus como autor, abrangem os mais elevados mistérios, desígnios e obras dele, segue-se que também aquela parte da sagrada teologia que se ocupa da defesa e interpretação desses mesmos Livros divinos é de máxima excelência e utilidade.
Nós, portanto, assim como procuramos promover, por meio de frequentes cartas e exortações, não sem fruto e com o auxílio de Deus, alguns outros gêneros de disciplinas que pareciam poder contribuir muito para o crescimento da glória divina e da salvação humana, há muito tempo pensamos em estimular e recomendar este nobilíssimo estudo das Sagradas Letras e também em orientá-lo mais adequadamente às necessidades dos tempos.
Somos movidos, e quase impelidos, pela solicitude do ofício apostólico, não somente para que desejemos abrir com maior segurança e abundância esta ilustre fonte da revelação católica para o benefício do rebanho do Senhor, mas também para que não permitamos que ela seja violada em parte alguma por aqueles que atacam a Sagrada Escritura, seja por uma ímpia audácia manifesta, seja por empreenderem, de maneira enganosa ou imprudente, certas novidades.
Não ignoramos, Veneráveis Irmãos, que há não poucos entre os católicos, homens ricos de talento e de ciência, que se dedicam com entusiasmo tanto à defesa dos Livros divinos quanto à aquisição de um conhecimento e compreensão mais amplos deles.
Embora louvemos justamente o trabalho e os frutos destes, não podemos deixar de exortar também os demais, cuja inteligência, ciência e piedade prometem muito nesta matéria, a aspirarem ardentemente à mesma glória de tão santo propósito.
Desejamos e queremos, sem dúvida, que muitos assumam devidamente a defesa das divinas Letras e a mantenham com perseverança; e, sobretudo, que aqueles que a graça divina chamou à ordem sagrada dediquem cada dia maior diligência e esforço à leitura, meditação e explicação das mesmas, como é justíssimo.
Com efeito, além da própria excelência desse estudo e do respeito devido à palavra de Deus, a principal razão pela qual ele deve ser tão vivamente recomendado encontra-se na multiplicidade dos benefícios que sabemos que dele procedem, tendo como garantia certíssima o Espírito Santo:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra.” (II Timóteo, III, 16-17.)
Que as Escrituras foram dadas por Deus aos homens com esse propósito, mostram-no os exemplos de Cristo Nosso Senhor e dos Apóstolos.
Aquele que “conquistou autoridade pelos milagres, mereceu fé pela autoridade e reuniu a multidão pela fé” (S. Agostinho, Da utilidade de crer, XIV, 32), costumava recorrer às Sagradas Letras no desempenho de sua missão divina. Com efeito, em várias ocasiões, por meio delas, declarou que fora enviado por Deus e que era Deus; delas tirava argumentos para instruir os discípulos e confirmar sua doutrina; defendia os seus testemunhos contra as calúnias dos detratores e os opunha aos saduceus e fariseus para os refutar; e os lançava contra o próprio Satanás, que o tentava com insolência. Finalmente, próximo ao término de sua vida, também delas se serviu e as explicou aos discípulos depois de ressuscitado, até subir à glória do Pai.
Os Apóstolos, conformados à sua voz e aos seus preceitos, embora o próprio Senhor lhes concedesse que “por suas mãos se realizassem sinais e prodígios” (Atos, XIV, 3), extraíram, contudo, grande eficácia dos Livros divinos para persuadir amplamente os povos da sabedoria cristã, quebrar a obstinação dos judeus e reprimir as heresias que surgiam.
Isso é evidente em seus discursos, sobretudo nos do Bem-aventurado Pedro, que entreteceu quase todo o argumento de sua nova pregação com palavras do Antigo Testamento, como demonstração firmíssima da nova aliança. O mesmo se manifesta nos Evangelhos de Mateus e João e nas chamadas Epístolas Católicas; e aparece com máxima clareza no testemunho daquele que se gloria de ter aprendido a Lei de Moisés e os Profetas aos pés de Gamaliel, para depois, armado de armas espirituais, dizer confiantemente: “As armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus” (S. Jerônimo, Do estudo da Escritura, a Paulino, ep. LIII, 3).
Pelos exemplos, portanto, de Cristo Nosso Senhor e dos Apóstolos, todos compreendam, sobretudo os principiantes na milícia sagrada, quão grande deve ser a estima pelas divinas Letras e com que estudo e reverência devem aproximar-se desse verdadeiro arsenal.
Com efeito, aqueles que devem ensinar a doutrina da verdade católica a doutos e ignorantes não encontrarão em parte alguma maior abundância de matéria nem pregação mais ampla acerca de Deus, sumo e perfeitíssimo Bem, e das obras que manifestam sua glória e caridade.
E acerca do Salvador do gênero humano, nada existe mais abundante e expressivo do que aquilo que se encontra em todo o conjunto dos Livros da Bíblia. Com razão afirmou Jerônimo: “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” (Comentário sobre Isaías, Prólogo). Nelas se encontra, por assim dizer, viva e respirante, a imagem dele, da qual se difundem admiravelmente o alívio dos males, a exortação às virtudes e o convite ao amor divino.
Quanto à Igreja, sua instituição, natureza, funções e carismas são mencionados ali com tanta frequência, e tantos e tão firmes argumentos são apresentados em seu favor, que o mesmo Jerônimo declarou com toda verdade: “Aquele que está fortalecido pelos testemunhos das Sagradas Escrituras é uma fortaleza da Igreja” (Comentário sobre Isaías, LIV, 12).
E, se se procura orientação para a formação e disciplina da vida e dos costumes, os homens apostólicos encontrarão nas Escrituras abundantes e excelentes auxílios: preceitos repletos de santidade, exortações dotadas de doçura e força, exemplos notáveis em toda espécie de virtude; e, além disso, a gravíssima promessa de recompensas eternas, feita em nome e pelas próprias palavras de Deus, bem como a ameaça das penas.
Esta virtude própria e singular das Escrituras, proveniente da inspiração divina do Espírito Santo, é precisamente o que acrescenta autoridade ao orador sagrado, lhe concede liberdade apostólica de falar e lhe confere uma eloquência vigorosa e vitoriosa.
Com efeito, aquele que, ao falar, transmite o espírito e a força da palavra divina, “não fala somente com palavras, mas também com poder, com o Espírito Santo e com grande plenitude” (I Tessalonicenses, I, 5).
Por isso, agem de maneira precipitada e imprudente aqueles que pregam sobre religião e anunciam os preceitos divinos de tal modo que quase nada apresentam senão palavras da ciência e prudência humanas, apoiando-se mais em seus próprios argumentos do que nos argumentos divinos.
Necessariamente, o discurso deles, por mais adornado que seja de luzes, há de enfraquecer e esfriar, pois carece do fogo da palavra de Deus (Jeremias, XXIII, 29), e estará muito distante daquela força de que é dotada a palavra divina:
“Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que toda espada de dois gumes, e chega até à divisão da alma e do espírito.” (Hebreus, IV, 12.)
Deve-se, contudo, reconhecer, também para os mais prudentes, que nas Sagradas Letras existe uma eloquência admiravelmente variada e abundante, digna dos grandes assuntos; Santo Agostinho percebeu isso claramente e o demonstrou de modo explícito (Da doutrina cristã, IV, 6-7). A própria realidade o confirma por meio dos mais excelentes oradores sagrados, que reconheceram, dando graças a Deus, que deviam principalmente à assídua convivência com a Bíblia e à piedosa meditação dela os seus méritos como oradores.
Tudo isso os Santos Padres, conhecendo-o profundamente tanto pela ciência quanto pela experiência, jamais cessaram de louvar nas divinas Letras e em seus frutos.
Frequentemente as chamam de “tesouro riquíssimo das doutrinas celestes” (S. Crisóstomo, Homilia sobre o Gênesis, XXI, 2; hom. LX, 3; S. Agostinho, Da disciplina cristã, 2), ou de “fontes perenes da salvação” (S. Atanásio, Epístola festal, 39), ou as apresentam como prados férteis e jardins belíssimos, nos quais o rebanho do Senhor é admiravelmente alimentado e deleitado (S. Agostinho, Sermão XXVI, 24; S. Ambrósio, Sobre o Salmo CXVIII, sermão XIX, 2).
Aplicam-se muito bem aqui aquelas palavras de São Jerônimo ao clérigo Nepociano:
“Lê frequentemente as Sagradas Escrituras; ou melhor, que a leitura sagrada jamais seja deposta de tuas mãos; aprende aquilo que hás de ensinar... O discurso do presbítero seja enriquecido pela leitura das Escrituras.”
E concorda com isso a sentença de São Gregório Magno, que ninguém descreveu com maior sabedoria as funções dos pastores da Igreja:
“É necessário que aqueles que vigiam para o ofício da pregação não se afastem do estudo da leitura sagrada.”
Aqui, porém, é oportuno recordar Santo Agostinho, que adverte que “é um pregador exteriormente vazio da palavra de Deus aquele que interiormente não é seu ouvinte”; e o próprio Gregório, ao prescrever aos pregadores sagrados que, “nos discursos divinos, antes de os apresentarem aos outros, examinem a si mesmos, para que, ao perseguirem as ações dos outros, não se abandonem a si próprios”.
Mas isso já havia sido amplamente prevenido pela voz apostólica, segundo o exemplo e o ensinamento de Cristo, que “começou a fazer e a ensinar”: não dirigindo-se apenas a Timóteo, mas a toda a ordem clerical, com estas palavras:
“Atende a ti mesmo e à doutrina; persevera nestas coisas; pois, fazendo isso, salvarás a ti mesmo e aos que te ouvem.” (I Timóteo, IV, 16.)
Certamente, nas Sagradas Letras estão disponíveis excelentes auxílios para a salvação e perfeição, tanto próprias quanto alheias, celebrados sobretudo nos Salmos; mas somente para aqueles que se aproximam dos divinos oráculos não apenas com mente dócil e atenta, mas também com disposição íntegra e piedosa da vontade.
Com efeito, não se deve considerar a natureza desses livros semelhante à dos livros comuns; mas, porque foram ditados pelo próprio Espírito Santo e contêm coisas de máxima importância, em muitas partes ocultas e mais difíceis, para compreendê-las e explicá-las “necessitamos da vinda do mesmo Espírito” (S. Jerônimo, Comentário sobre Miqueias, I, 10), isto é, de sua luz e graça. Estas devem ser imploradas por meio de humilde oração, conforme frequentemente insiste a autoridade do divino salmista, e devem ser preservadas mediante uma vida santa.
Por isso, sobressai admiravelmente nestas coisas a providência da Igreja, que, “para que aquele tesouro celeste dos Livros sagrados, que o Espírito Santo entregou aos homens com suma liberalidade, não permanecesse abandonado” (Concílio de Trento, sessão V, Decreto de reforma, 1), sempre cuidou disso mediante excelentes instituições e leis.
Ela determinou não somente que grande parte deles fosse lida por todos os seus ministros no ofício diário da sagrada salmodia e piedosamente meditada, mas também que sua exposição e interpretação fossem ensinadas por homens idôneos nas igrejas catedrais, nos mosteiros e nos conventos das demais ordens regulares onde os estudos pudessem florescer convenientemente. Ordenou ainda que, ao menos nos domingos e festas solenes, os fiéis fossem alimentados pelas palavras salutares do Evangelho (Ibid., 1-2).
Igualmente à prudência e diligência da Igreja se deve aquele culto da Sagrada Escritura que, através de todas as épocas, permaneceu vivo e produziu abundantíssimos frutos.
Para reforçar também nossos ensinamentos e exortações, é útil recordar como, desde os primórdios da religião cristã, todos aqueles que se distinguiram pela santidade de vida e pelo conhecimento das coisas divinas foram sempre assíduos e dedicados às Sagradas Letras.
Entre os discípulos mais próximos dos Apóstolos — entre os quais Clemente Romano, Inácio de Antioquia e Policarpo — e entre os Apologistas, especialmente Justino e Irineu, vemos que, em suas cartas e livros, tanto na defesa quanto na recomendação dos dogmas católicos, extraíam principalmente das divinas Letras toda a força, firmeza e graça da piedade.
Quando surgiram escolas catequéticas e teológicas em muitas sedes episcopais, célebres sobretudo as de Alexandria e Antioquia, o ensino nelas ministrado consistia quase inteiramente na leitura, explicação e defesa da palavra divina escrita.
Delas saíram muitos Padres e escritores cujos trabalhos diligentes e livros notáveis enriqueceram de tal modo os três séculos seguintes, que justamente se pode chamar aquela época de idade de ouro da exegese bíblica.
Entre os orientais ocupa o primeiro lugar Orígenes, admirável pela rapidez do engenho e pela constância nos trabalhos, de cujos numerosos escritos e imensa obra dos Hexapla quase todos os posteriores beberam.
Devem ser acrescentados muitos outros que ampliaram os limites dessa disciplina. Entre os mais eminentes, Alexandria produziu Clemente e Cirilo; a Palestina, Eusébio e outro Cirilo; a Capadócia, Basílio Magno e os dois Gregórios, Nazianzeno e Nisseno; Antioquia, aquele João Crisóstomo, no qual a perícia dessa ciência rivalizou com a máxima eloquência.
E não foi menos ilustre o desenvolvimento entre os ocidentais.
Entre os muitos que se distinguiram, são célebres os nomes de Tertuliano e Cipriano, Hilário e Ambrósio, Leão e Gregório Magno; e ainda mais célebres os de Agostinho e Jerônimo.
Um deles destacou-se admiravelmente pela agudeza com que penetrava o sentido da palavra divina e pela abundância com que o aplicava aos auxílios da verdade católica; o outro, pela singular ciência das Escrituras e pelos grandes trabalhos dedicados ao seu uso, foi honrado pela Igreja com o título de Doutor Máximo.
Desde então até o século XI, embora esse esforço de estudo não tenha florescido com o mesmo ardor e fruto de épocas anteriores, ele continuou a existir, sobretudo graças aos homens das ordens sagradas.
Eles procuraram ou selecionar os frutos mais proveitosos que os antigos haviam deixado nesse campo, divulgando-os convenientemente organizados e enriquecidos com suas próprias contribuições, como fizeram sobretudo Isidoro de Sevilha, Beda e Alcuíno; ou ilustrar os códices sagrados com glosas, como fizeram Valafrido Estrabão e Anselmo de Laon; ou cuidar de sua integridade mediante novos esforços, como fizeram Pedro Damião e Lanfranco.
No século XII, muitos trataram com grande mérito da exposição alegórica da Escritura. Nesse gênero, São Bernardo facilmente superou os demais, e seus sermões quase nada têm de outra coisa senão o sabor das divinas Letras.
Mas novos e mais felizes progressos vieram da disciplina dos Escolásticos.
Embora tenham procurado investigar a leitura genuína da versão latina, como testemunham os Correctoria biblica por eles elaborados, dedicaram ainda maior estudo e esforço à interpretação e explicação.
De modo ordenado, claro e preciso, distinguiram os diversos sentidos das palavras sagradas; avaliaram o peso de cada passagem em matéria teológica; definiram as partes dos livros e os argumentos de cada parte; investigaram as intenções dos escritores; explicaram a relação e conexão entre as próprias sentenças. Por essas coisas, qualquer pessoa percebe quanto de luz foi levado às passagens mais obscuras.
Além disso, os comentários que escreveram sobre as Escrituras, bem como suas obras teológicas, revelam amplamente a abundância de sua doutrina acerca das Sagradas Letras. Também neste campo Tomás de Aquino alcançou a palma entre eles.
Depois que nosso predecessor Clemente V enriqueceu o Ateneu da cidade de Roma e as mais célebres universidades com cátedras de línguas orientais, nossos estudiosos começaram a trabalhar com maior profundidade no texto original da Bíblia e na edição latina.
Depois, com a recuperação da erudição grega e, muito mais ainda, com a feliz invenção da nova arte da imprensa, o cultivo da Sagrada Escritura cresceu enormemente.
É admirável, com efeito, como, em tão curto espaço de tempo, as cópias sagradas multiplicadas pela imprensa, sobretudo a Vulgata, tenham preenchido quase todo o mundo católico; e isso justamente numa época em que, contrariamente ao que caluniam os inimigos da Igreja, os Livros divinos eram tidos em grande honra e amor.
Também não se deve deixar de mencionar quão grande número de homens doutos, sobretudo provenientes das famílias religiosas, surgiu entre o Concílio de Viena e o Concílio de Trento para o benefício dos estudos bíblicos. Servindo-se de novos instrumentos e oferecendo os frutos de sua variada erudição e de seu engenho, não somente aumentaram os tesouros acumulados pelos antigos, mas quase prepararam o caminho para a excelência do século seguinte, que surgiu do próprio Concílio de Trento, quando pareceu ter retornado quase uma nova idade de ouro dos Padres.
Ninguém ignora — e para Nós é agradável recordá-lo — que nossos predecessores, de Pio IV a Clemente VIII, foram os autores e promotores da preparação daquelas célebres edições das antigas versões, da Vulgata e da Alexandrina, que depois, por ordem e autoridade de Sisto V e do próprio Clemente, foram publicadas e permanecem em uso comum.
Durante os mesmos tempos, é sabido que foram cuidadosamente editadas tanto outras antigas versões da Bíblia quanto as Poliglotas de Antuérpia e de Paris, extremamente úteis para a investigação do sentido genuíno.
Não há livro de ambos os Testamentos que não tenha encontrado mais de um bom comentador, nem questão mais importante acerca dessas matérias que não tenha exercitado fecundamente o engenho de muitos; entre estes, não poucos, e sobretudo os mais estudiosos dos Santos Padres, conquistaram para si grande renome.
Nem desde aquela época faltou a diligência dos nossos estudiosos, pois, sucessivamente, homens ilustres prestaram grandes serviços a esses estudos e defenderam as Sagradas Letras contra as afirmações do racionalismo, distorcidas da filologia e das disciplinas afins, mediante argumentos do mesmo gênero.
Todos aqueles que considerarem devidamente essas coisas reconhecerão certamente que a Igreja jamais deixou de empregar, por nenhum meio de sua providência, tudo quanto fosse necessário para fazer chegar salutarmente aos seus filhos as fontes das divinas Escrituras; e que conservou perpetuamente e empregou todos os recursos dos estudos para proteger e honrar o auxílio que Deus lhe confiou, de modo que não precisou nem precisa dos estímulos dos homens de fora.
Agora, a natureza do propósito que empreendemos exige que comuniquemos convosco, Veneráveis Irmãos, aquilo que julgamos melhor para ordenar corretamente esses estudos.
Mas, antes de tudo, é importante reconhecer aqui que espécie de homens se opõe a eles e os ameaça, e em quais artes ou armas confiam.
Anteriormente, com efeito, a questão se dava sobretudo com aqueles que, apoiando-se no julgamento privado e rejeitando as tradições divinas e o magistério da Igreja, haviam estabelecido a Escritura como única fonte da revelação e supremo juiz da fé.
Agora, porém, temos de lidar com os racionalistas, que, como filhos e herdeiros daqueles, apoiados igualmente em seu próprio julgamento, rejeitaram inteiramente até mesmo os restos da fé cristã que haviam recebido de seus antepassados.
Eles negam absolutamente qualquer revelação divina, inspiração ou Sagrada Escritura e afirmam que todas essas coisas não são senão obras e invenções humanas.
Afirmam que aquelas narrativas não são verdadeiras histórias de acontecimentos, mas fábulas absurdas ou histórias mentirosas; que aquelas profecias não são verdadeiras profecias nem oráculos, mas previsões inventadas depois dos acontecimentos ou antecipações produzidas por causas naturais; que aqueles milagres não são verdadeiros milagres nem manifestações do poder divino, mas acontecimentos extraordinários que não ultrapassam de modo algum as forças da natureza, ou ainda truques e mitos; e atribuem os Evangelhos e os escritos apostólicos a autores completamente diferentes daqueles a quem a Igreja os atribui.
Apresentam essas monstruosidades de erros, pelas quais pensam destruir a verdade santíssima dos Livros divinos, como se fossem sentenças decisivas de uma nova espécie de “ciência livre”. Entretanto, consideram-nas tão incertas que frequentemente modificam e completam suas próprias opiniões sobre essas mesmas questões.
Embora pensem e ensinem tão impiamente acerca de Deus, de Cristo, do Evangelho e do restante das Escrituras, alguns deles querem ser considerados teólogos, cristãos e evangélicos, e apresentam, sob nomes muito respeitáveis, a temeridade de um engenho insolente.
A eles se associam como participantes e auxiliares de seus desígnios muitos homens provenientes de outras disciplinas, que, movidos pela mesma intolerância em relação às verdades reveladas, são igualmente levados a atacar a Bíblia.
Não podemos lamentar suficientemente quão ampla e vigorosamente esse ataque é promovido a cada dia.
Ele é dirigido contra homens eruditos e sérios, embora estes possam proteger-se com relativa facilidade; mas sobretudo os inimigos se esforçam, por todos os meios e artifícios, contra a multidão ignorante.
Infundem o veneno destruidor em livros, opúsculos e jornais; insinuam-no nas pregações e discursos; já penetraram em toda parte e dominam muitas escolas de jovens afastadas da proteção da Igreja, onde corrompem miseravelmente as mentes crédulas e maleáveis, levando-as ao desprezo da Escritura, até mesmo por meio do escárnio e de gracejos vulgares.
Estas são, Veneráveis Irmãos, as coisas que devem mover e inflamar a solicitude pastoral comum: que à nova “ciência de falso nome” (I Timóteo, VI, 20) seja oposta aquela antiga e verdadeira ciência que a Igreja recebeu de Cristo por meio dos Apóstolos, e que, em tão grande combate, surjam defensores idôneos da Sagrada Escritura.
Portanto, o primeiro cuidado deve ser que, nos Seminários e Academias, as divinas Letras sejam ensinadas exatamente como exigem a dignidade da disciplina e a necessidade dos tempos.
Para isso, nada deve ser mais importante que uma prudente escolha dos professores. Para esse ofício não devem ser escolhidos homens simplesmente dentre muitos, mas aqueles que sejam recomendáveis e aptos pela grande estima e longa familiaridade com a Bíblia, bem como pelo conveniente ornamento de sua ciência.
Não menos cuidadosamente deve-se providenciar desde cedo quem os substituirá posteriormente.
Por isso, onde for conveniente, será útil escolher entre os alunos de melhores esperanças alguns que, depois de terem percorrido com louvor o curso de teologia, se dediquem inteiramente aos Livros divinos, concedendo-lhes por algum tempo a oportunidade de realizar estudos mais profundos.
Assim escolhidos e preparados, os professores poderão assumir com confiança o ofício que lhes foi confiado.
Para que o exerçam da melhor maneira e produzam frutos correspondentes, julgamos oportuno apresentar-lhes algumas instruções mais detalhadas.
Logo no início dos estudos, cuidem de formar e cultivar diligentemente nos principiantes um juízo adequado tanto para a defesa dos Livros divinos quanto para a apreensão de seu verdadeiro sentido.
A isso se refere o tratado que se chama Introdução Bíblica, pelo qual o aluno recebe auxílio conveniente para demonstrar a integridade e autoridade da Bíblia, investigar e alcançar seu sentido legítimo e enfrentar e arrancar pela raiz as objeções capciosas.
Quão importante é que essas questões sejam discutidas desde o início de maneira ordenada e científica, com a teologia como companheira e auxiliar, quase não é necessário dizer, pois todo o restante do tratamento da Escritura depende continuamente desses fundamentos ou é esclarecido por essas luzes.
Depois disso, o professor deverá dedicar-se com grande empenho à parte mais frutuosa dessa ciência, que trata da interpretação, para que os alunos aprendam de que maneira poderão depois converter as riquezas da palavra divina em benefício da religião e da piedade.
Reconhecemos que não é possível explicar nas escolas todas as Escrituras, nem pela extensão do assunto nem pelo tempo disponível.
Entretanto, como é necessário um método seguro para realizar utilmente a interpretação, o professor prudente deve evitar ambos os inconvenientes: tanto o daqueles que oferecem apenas uma rápida consideração de cada livro, como o daqueles que se detêm excessivamente em uma determinada parte.
Se em muitas escolas não for possível alcançar aquilo que se consegue nas Academias maiores — isto é, explicar um ou outro livro de modo contínuo e abundante — deve-se ao menos procurar que as partes dos livros escolhidas para interpretação recebam um tratamento suficientemente completo.
Assim, atraídos e instruídos por esse exemplo, os discípulos poderão ler por si mesmos as demais partes e amá-las durante toda a vida.
Neste ponto, conservando os costumes dos antigos, o professor tomará como modelo a versão Vulgata, que o Concílio de Trento decretou que fosse considerada autêntica “nas leituras públicas, nas disputas, nas pregações e nas exposições” (sessão IV, Decreto sobre a edição e o uso dos Livros sagrados), e que também é recomendada pelo uso cotidiano da Igreja.
Isso, contudo, não significa que se deva deixar de considerar as demais versões que a antiguidade cristã louvou e utilizou, sobretudo os textos originais.
Embora, quanto ao essencial, o sentido hebraico e grego apareça claramente nas palavras da Vulgata, se houver alguma passagem ambígua ou expressa com menor precisão, “o exame da língua anterior”, como aconselha Santo Agostinho, será útil (Da doutrina cristã, III, 4).
É evidente quanto trabalho deve ser dedicado a isso, uma vez que “é dever do comentarista não expor aquilo que ele próprio deseja, mas aquilo que sente aquele a quem interpreta” (S. Jerônimo, A Panmaquio).
Depois de examinada, quando necessário, a leitura com toda diligência, será o momento de investigar e apresentar o sentido.
A primeira regra é que os preceitos universalmente aprovados da interpretação sejam observados com tanto maior vigilância quanto mais acirrada for a controvérsia promovida pelos adversários.
Por isso, juntamente com o estudo cuidadoso do valor das próprias palavras, do sentido exigido pela sequência dos fatos, da semelhança dos lugares e de outros elementos semelhantes, deve-se acrescentar também o auxílio da erudição externa apropriada.
Entretanto, deve-se ter o cuidado de não conceder a essas questões mais tempo e esforço do que ao conhecimento profundo dos Livros divinos, nem permitir que a multiplicidade de conhecimentos reunidos cause às mentes dos jovens mais prejuízo do que auxílio.
Daqui se passará com segurança ao uso da divina Escritura na matéria teológica.
Nesse campo, é preciso observar que, além das causas de dificuldade que geralmente surgem na compreensão de quaisquer livros antigos, existem nos Livros sagrados algumas dificuldades próprias.
Pois, nas palavras deles, tendo o Espírito Santo como autor, estão contidas muitas coisas que ultrapassam imensamente a força e a capacidade da razão humana: os mistérios divinos e muitas outras coisas relacionadas a eles.
Às vezes isso acontece mediante um sentido mais amplo e profundo do que a letra e as regras da hermenêutica parecem indicar.
Além disso, o próprio sentido literal frequentemente admite outros sentidos, destinados a ilustrar os dogmas ou recomendar preceitos de vida.
Por isso não se deve negar que os Livros Sagrados estejam envoltos em uma espécie de obscuridade religiosa, de modo que ninguém possa penetrar neles sem algum guia (S. Jerônimo, A Paulino, sobre o estudo da Escritura, ep. LIII, 4).
Deus assim o quis, segundo a opinião comum dos Santos Padres, para que os homens os perscrutassem com maior desejo e esforço e imprimissem mais profundamente em suas mentes e corações as verdades laboriosamente adquiridas; e sobretudo para que compreendessem que Deus confiou as Escrituras à Igreja, a fim de que, sob sua direção e magistério, utilizassem um guia certíssimo na leitura e tratamento de seus oráculos.
Onde estão os carismas do Senhor, ali se deve aprender a verdade; e daqueles que possuem a sucessão apostólica pode-se expor as Escrituras sem perigo algum, já ensinava Santo Irineu (Contra as heresias, IV, 26, 5).
A doutrina dele e dos demais Padres foi acolhida pelo Concílio Vaticano quando, renovando o decreto do Concílio de Trento sobre a interpretação da palavra divina escrita, declarou que:
“Esta é a sua intenção: que, nas questões de fé e de costumes que pertencem à edificação da doutrina cristã, se tenha como verdadeiro sentido da Sagrada Escritura aquele que foi e é sustentado pela Santa Mãe Igreja, à qual pertence julgar acerca do verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras; e, portanto, a ninguém é lícito interpretar a própria Sagrada Escritura contra este sentido ou ainda contra o consenso unânime dos Padres.” (Concílio Vaticano, sessão III, cap. II, Da revelação; cf. Concílio de Trento, sessão IV, Decreto sobre a edição e o uso dos Livros sagrados.)
Por meio dessa lei, plena de sabedoria, a Igreja de modo algum retarda ou restringe a investigação da ciência bíblica; ao contrário, preserva-a íntegra do erro e contribui poderosamente para seu verdadeiro progresso.
Pois para cada doutor particular permanece aberto um amplo campo, no qual, seguindo caminhos seguros, pode competir honrosamente com seu esforço interpretativo e ser útil à Igreja.
Nas passagens da Sagrada Escritura que ainda carecem de uma explicação certa e definida, pode acontecer, segundo o suave desígnio da providência de Deus, que, mediante o estudo preparado, amadureça o julgamento da Igreja.
Nas passagens já definidas, por sua vez, o doutor particular pode ser útil explicando-as de modo mais claro ao povo fiel e mais engenhoso aos doutos, ou demonstrando de maneira mais brilhante sua verdade contra os adversários.
Por isso, deve ser principal e sagrado dever do intérprete católico interpretar segundo o mesmo sentido aqueles testemunhos da Escritura cujo significado tenha sido autenticamente declarado, seja pelos autores sagrados, sob a inspiração do Espírito Santo — como ocorre em muitos lugares do Novo Testamento —, seja pela Igreja, assistida pelo mesmo Espírito Santo, “por sentença solene ou pelo magistério ordinário e universal” (Concílio Vaticano, sessão III, cap. III, Da fé).
E deve ele demonstrar, mediante os recursos de sua ciência, que somente essa interpretação pode ser legitimamente aprovada segundo as regras da sã hermenêutica.
Nas demais passagens deve-se seguir a analogia da fé e empregar como norma suprema a doutrina católica, tal como recebida da autoridade da Igreja.
Pois, uma vez que tanto os Livros Sagrados quanto a doutrina depositada na Igreja têm o mesmo Deus como autor, não pode acontecer que, por legítima interpretação, se extraia deles um sentido que de algum modo contradiga essa doutrina.
Daí se segue que deve ser rejeitada como inepta e falsa aquela interpretação que faça os autores inspirados parecerem de algum modo contradizer-se entre si ou que se oponha à doutrina da Igreja.
O professor dessa disciplina deve também distinguir-se pelo conhecimento eminente de toda a teologia e pela familiaridade com os comentários dos Santos Padres, dos Doutores e dos melhores intérpretes.
Isso é inculcado por Jerônimo e, com muita força, por Agostinho, que justamente se queixa:
“Se cada disciplina, mesmo vil e fácil, requer um doutor ou mestre para ser aprendida, que há de mais temerário e soberbo do que não querer conhecer os livros dos mistérios divinos por meio de seus intérpretes?”
Os demais Padres pensaram do mesmo modo e confirmaram isso por seu exemplo, pois “seguiam a compreensão das divinas Escrituras não segundo sua própria presunção, mas segundo os escritos e a autoridade dos antigos, que eles próprios haviam recebido da sucessão apostólica a regra de compreensão” (Rufino, História eclesiástica, II, 9).
Ora, a autoridade dos Santos Padres, por meio dos quais, depois dos Apóstolos, a Santa Igreja cresceu como plantadores, irrigadores, edificadores, pastores e nutridores (S. Agostinho, Contra Juliano, II, 10, 37), é máxima sempre que todos explicam um testemunho bíblico, enquanto relacionado à doutrina da fé ou dos costumes, de uma única e mesma maneira.
Pois de seu consenso aparece claramente que isso foi transmitido pelos Apóstolos segundo a fé católica.
A opinião dos mesmos Padres também deve ser altamente estimada quando, nessas questões, exercem quase privadamente o ofício de doutores, pois não somente sua ciência da doutrina revelada e seu conhecimento de muitas coisas úteis à compreensão dos escritos apostólicos os recomendam grandemente, mas o próprio Deus também auxiliou esses homens, ilustres pela santidade da vida e pelo amor à verdade, com maiores auxílios de sua luz.
Portanto, o intérprete deve reconhecer como seu dever seguir reverentemente os seus passos e aproveitar seus trabalhos com discernimento inteligente.
Isso, contudo, não significa que deva considerar fechada a sua via, de modo que não possa, quando houver justa causa, avançar mais na investigação e exposição, contanto que obedeça religiosamente àquela sábia regra proposta por Agostinho: não se deve afastar do sentido literal e, por assim dizer, evidente, a menos que a razão impeça que se mantenha ou a necessidade obrigue a abandoná-lo (Comentário literal ao Gênesis, VIII, 7, 13).
Essa regra deve ser observada com tanto maior firmeza quanto maior é, em meio a tamanha ânsia de novidades e liberdade de opiniões, o perigo de se afastar da verdade.
O intérprete deve igualmente tomar cuidado para não desprezar aquilo que os mesmos Padres transferiram para um sentido alegórico ou semelhante, sobretudo quando esse sentido deriva do literal e é sustentado pela autoridade de muitos.
Pois a Igreja recebeu dos Apóstolos esse modo de interpretar e o confirmou pelo próprio exemplo, como se vê claramente na liturgia; não porque os Padres pretendessem demonstrar por meio dele, por si só, os dogmas da fé, mas porque haviam experimentado que era abundantemente frutuoso para alimentar a virtude e a piedade.
Os demais intérpretes católicos possuem autoridade menor; contudo, uma vez que os estudos bíblicos tiveram na Igreja um progresso contínuo, também aos seus comentários deve ser concedida a devida honra, pois deles se podem oportunamente extrair muitas coisas para refutar opiniões contrárias e esclarecer passagens mais difíceis.
Mas é profundamente vergonhoso que alguém, ignorando ou desprezando as excelentes obras que os nossos autores deixaram em abundância, prefira os livros dos heterodoxos e procure neles a explicação de passagens nas quais os católicos já empregaram, há muito tempo e com grande proveito, seu engenho e seus trabalhos, expondo-se assim ao perigo para a sã doutrina e, não raro, ao prejuízo da fé.
Embora o intérprete católico possa às vezes ser auxiliado pelos estudos dos heterodoxos, quando prudentemente utilizados, deve lembrar-se, também pelos numerosos testemunhos dos antigos, de que o sentido incorrupto das Sagradas Letras não se encontra de modo algum fora da Igreja, nem pode ser transmitido por aqueles que, privados da verdadeira fé, não alcançam a medula da Escritura, mas apenas roem sua casca (S. Gregório Magno, Morais, XX, 9).
É especialmente desejável e necessário que o uso da mesma divina Escritura penetre em toda a disciplina teológica e seja quase sua alma.
Assim sempre professaram e demonstraram na prática, em todas as épocas, os Padres e os mais ilustres teólogos.
Pois procuraram principalmente afirmar e estabelecer nas divinas Letras aquilo que constitui objeto da fé ou dela decorre; e, a partir delas, assim como da divina Tradição, refutar as novas invenções dos hereges e investigar a razão, a compreensão e as conexões dos dogmas católicos.
Isso não causará surpresa a ninguém que considere o lugar eminente que os Livros divinos ocupam entre as fontes da revelação: sem o estudo e uso assíduos deles, a teologia não pode ser tratada corretamente e com a dignidade que merece.
Embora seja justo exercitar especialmente os jovens nas Academias e escolas para que adquiram entendimento e conhecimento dos dogmas, passando dos artigos da fé, mediante argumentação, a outras conclusões deles derivadas segundo as normas de uma filosofia comprovada e sólida, o teólogo grave e erudito não deve de modo algum negligenciar a própria demonstração dos dogmas a partir da autoridade da Bíblia.
“Pois a teologia não recebe seus princípios de outras ciências, mas imediatamente de Deus, mediante a revelação. E, por isso, não os recebe de outras ciências como de superiores, mas delas se utiliza como inferiores e servas.”
Essa maneira de ensinar a doutrina sagrada tem como mestre e defensor o príncipe dos teólogos, Tomás de Aquino (Suma Teológica, I, q. 1, a. 5, ad 2).
Além disso, tendo compreendido bem essa natureza da teologia cristã, ele ensinou de que maneira o teólogo pode defender seus próprios princípios quando alguém os impugna:
“Pode-se argumentar quando o adversário concede alguma coisa daquelas que são reconhecidas pela revelação divina; assim disputamos contra os hereges mediante as autoridades da Sagrada Escritura e mediante um artigo contra aqueles que negam outro. Se, porém, o adversário não crê em nada do que foi divinamente revelado, não resta outro caminho para provar os artigos da fé mediante razões, mas somente para refutar as razões que ele apresentar contra a fé.”
Por isso, deve-se cuidar para que os jovens iniciem os estudos bíblicos devidamente instruídos e protegidos, para que não frustrem a justa esperança que neles se deposita nem, o que é pior, se exponham imprudentemente ao perigo do erro, presos pelas falácias dos racionalistas e pela aparência de erudição que eles apresentam.
Estarão muito bem preparados se, pelo caminho que Nós mesmos indicamos e prescrevemos, cultivarem religiosamente e compreenderem profundamente a formação em filosofia e teologia, tendo São Tomás como guia.
Assim avançarão corretamente tanto na ciência bíblica quanto naquela parte da teologia que se chama positiva, e em ambas poderão progredir com grande fruto.
Ter provado, exposto e ilustrado a doutrina católica mediante uma interpretação legítima e diligente das Sagradas Escrituras é certamente muito; resta, contudo, outra parte, igualmente importante e não menos trabalhosa: afirmar com a maior força possível a autoridade das próprias Escrituras, mantendo-a íntegra.
Isso não poderá ser plenamente conseguido por nenhum outro meio senão pelo magistério vivo e próprio da Igreja. Pois a Igreja, “por sua admirável propagação, sua eminente santidade e sua inesgotável fecundidade em todos os bens, por sua unidade católica e sua invencível estabilidade, é, por si mesma, um grande motivo permanente de credibilidade e um testemunho irrefutável de sua missão divina” (Concílio Vaticano, sessão III, cap. III, Da fé).
Ora, uma vez que o magistério divino e infalível da Igreja também se fundamenta na autoridade da Sagrada Escritura, é necessário, antes de tudo, afirmar e defender ao menos a credibilidade humana desta última; por meio desses livros, como testemunhas antiquíssimas e de máxima autoridade, devem ser estabelecidas com segurança e clareza a divindade e missão de Cristo Nosso Senhor, a instituição hierárquica da Igreja e o primado concedido a Pedro e aos seus sucessores.
Para isso será de grande utilidade haver muitos membros do clero mais preparados, que também nesta parte combatam pela fé e repelam os ataques dos inimigos, revestidos sobretudo da armadura de Deus que o Apóstolo recomenda (Efésios, VI, 13 e seguintes), e que não sejam inexperientes diante das novas armas e dos novos combates dos adversários.
Crisóstomo descreve belamente essa exigência ao falar dos deveres sacerdotais:
“É necessário empregar grande esforço para que a palavra de Cristo habite abundantemente em nós. Pois não devemos estar preparados para apenas um gênero de combate; a guerra é múltipla e diversos são os inimigos. Nem todos usam as mesmas armas, nem procuram combater-nos de uma única maneira. Por isso é necessário que aquele que deverá enfrentar todos conheça as máquinas e as artes de todos, para que seja ao mesmo tempo arqueiro e fundibulário, tribuno e comandante de companhia, general e soldado, infante e cavaleiro, perito tanto no combate naval como no combate de muralhas; pois, se não conhecer todas as artes de combater, o diabo saberá, por uma única parte que tenha sido negligenciada, lançar seus salteadores e dispersar as ovelhas.”
Já mostramos acima as múltiplas falácias e artimanhas dos inimigos para atacar a Escritura nesta matéria; agora devemos indicar os auxílios com os quais se deve sustentar sua defesa.
O primeiro consiste no estudo das antigas línguas orientais e, ao mesmo tempo, daquilo que se chama arte crítica.
Como o conhecimento de ambas as coisas goza hoje de grande estima e prestígio, o clero, conforme as circunstâncias de lugares e pessoas, estando mais ou menos preparado nelas, poderá desempenhar melhor sua dignidade e missão. Pois deve fazer-se “tudo para todos” (I Coríntios, IX, 22), sempre preparado “para dar satisfação a todo aquele que pedir razão da esperança que há nele” (I Pedro, III, 15).
Por isso é necessário aos professores de Sagrada Escritura, e conveniente aos teólogos, conhecer as línguas nas quais os livros canônicos foram originalmente escritos pelos hagiógrafos. E será igualmente muito proveitoso que os alunos da Igreja, sobretudo aqueles que aspiram aos graus acadêmicos de teologia, cultivem essas línguas.
Também se deve cuidar para que em todas as Academias, como já se faz louvavelmente em muitas, existam cátedras das demais línguas antigas, especialmente das semíticas, juntamente com a erudição correspondente, sobretudo para o uso daqueles que são destinados a ensinar as Sagradas Letras.
Esses mesmos homens, pelo mesmo motivo, devem ser mais instruídos e exercitados na verdadeira disciplina da arte crítica.
Foi introduzido indevidamente, com prejuízo da religião, um método honrado com o nome de alta crítica, pelo qual, baseando-se somente naquilo que chamam de razões internas, se procura determinar a origem, integridade e autoridade de um livro.
Ao contrário, é evidente que, nas questões de caráter histórico, como a origem e conservação dos livros, os testemunhos históricos devem valer mais do que qualquer outra coisa e devem ser procurados e examinados com o maior cuidado; ao passo que as chamadas razões internas geralmente não possuem peso suficiente para serem invocadas senão como confirmação.
Se isso não for observado, certamente resultarão grandes inconvenientes.
Pois os inimigos da religião ganharão maior confiança para atacar e despedaçar a autenticidade dos Livros sagrados.
A própria espécie de alta crítica que eles exaltam acabará por se transformar em que cada um siga, na interpretação, sua própria inclinação e opinião preconcebida.
Daí não virá às Escrituras nenhuma luz, nem surgirá qualquer utilidade para a doutrina; pelo contrário, aparecerá aquela marca certa do erro, que é a variedade e divergência das opiniões, como já demonstram os próprios líderes dessa nova disciplina.
Além disso, como muitos deles estão contaminados pelos princípios da filosofia vã e do racionalismo, não hesitarão em retirar dos Livros sagrados as profecias, os milagres e tudo aquilo que ultrapasse a ordem da natureza.
Em segundo lugar, deve-se combater aqueles que, abusando de sua ciência das coisas físicas, investigam os Livros sagrados em busca de qualquer vestígio que lhes permita acusar os autores de ignorância dessas matérias e, assim, censurar os próprios escritos.
Essas acusações são particularmente perigosas porque dizem respeito a coisas sensíveis e, portanto, espalham-se facilmente entre o povo, sobretudo entre a juventude dedicada às letras.
Pois, uma vez que alguém tenha perdido o respeito pela revelação divina em algum ponto, facilmente abandonará sua confiança nela em todos os demais.
É certo que a doutrina acerca da natureza, na medida em que é muito apropriada para compreender a glória do sumo Artífice impressa nas coisas criadas, pode, quando corretamente ensinada, ser de grande utilidade; mas, quando é perversamente inculcada em mentes jovens, pode servir para arrancar os fundamentos de uma filosofia sadia e corromper os costumes.
Por isso, o conhecimento das coisas naturais será um bom auxílio para o professor de Sagrada Escritura, para que possa mais facilmente descobrir e refutar também esse tipo de armadilhas preparadas contra os Livros divinos.
Não haverá verdadeiro conflito entre o teólogo e o físico enquanto cada um permanecer dentro de seus próprios limites, evitando aquilo que Santo Agostinho advertiu: “não afirmar temerariamente como conhecido aquilo que não conhecem”.
Se, contudo, houver divergência, a regra sobre como o teólogo deve proceder foi resumidamente apresentada pelo mesmo santo:
“Tudo quanto eles puderem demonstrar acerca da natureza das coisas mediante provas verdadeiras, mostremos que não é contrário às nossas Escrituras; mas tudo quanto, em quaisquer de seus livros, apresentarem como contrário às nossas Escrituras, isto é, à fé católica, demonstremos que é falso ou, sem qualquer dúvida, creiamos que é falsíssimo.”
Ao considerar a justiça dessa regra, deve-se ter em primeiro lugar presente que os escritores sagrados, ou melhor, o Espírito de Deus que falava por meio deles, não quiseram ensinar aos homens a constituição íntima das coisas visíveis, pois isso de nada lhes aproveitaria para a salvação.
Por isso, em vez de perseguirem diretamente a investigação da natureza, às vezes descrevem e tratam as próprias coisas de modo metafórico ou segundo o modo comum de falar daquela época, como ainda hoje acontece com muitas coisas na linguagem cotidiana, mesmo entre os homens mais instruídos.
Ora, uma vez que na linguagem comum são expressas de modo primeiro e próprio as coisas que caem sob os sentidos, o escritor sagrado — e também o ensinou o Doutor Angélico — “seguiu aquilo que aparece sensivelmente”, ou seja, aquilo que o próprio Deus, ao falar aos homens, manifestou segundo a maneira humana e a capacidade deles.
Quanto à defesa da Sagrada Escritura, que deve ser empreendida com vigor, não se segue que todas as opiniões particulares sustentadas por cada um dos Padres ou pelos intérpretes posteriores devam ser igualmente defendidas.
Eles, conforme as opiniões de sua época, ao explicar passagens relativas às coisas físicas, talvez nem sempre tenham julgado segundo a verdade, de modo que tenham afirmado algumas coisas que hoje são menos aceitáveis.
Por isso, é necessário distinguir cuidadosamente em suas interpretações quais coisas eles realmente apresentam como pertencentes à fé ou intimamente ligadas a ela e quais coisas apresentam de modo unânime.
Pois, como ensina Santo Tomás, “nas coisas que não são necessárias à fé, foi permitido aos santos ter opiniões diferentes, assim como também a nós”.
E em outro lugar ele afirma prudentemente:
“Parece-me mais seguro que essas coisas, que os filósofos comumente sustentaram e que não repugnam à nossa fé, não sejam afirmadas como dogmas da fé, embora às vezes sejam introduzidas sob o nome de filósofos; nem sejam negadas como contrárias à fé, para que não se dê aos sábios deste mundo ocasião de desprezar a doutrina da fé.”
Embora o intérprete deva demonstrar que aquilo que os estudiosos da natureza afirmaram como certo mediante argumentos seguros não se opõe às Escrituras corretamente explicadas, ele não deve ignorar que às vezes aconteceu de certas afirmações por eles apresentadas como certas terem posteriormente sido colocadas em dúvida e rejeitadas.
Se, porém, os autores das ciências físicas ultrapassarem os limites de sua disciplina e invadirem, mediante opiniões perversas, o campo dos filósofos, o intérprete teólogo deverá deixar que tais questões sejam refutadas pelos filósofos.
O mesmo princípio será útil aplicar às disciplinas afins, especialmente à história.
É lamentável que muitos investiguem e apresentem, com grandes esforços, monumentos da antiguidade, costumes e instituições dos povos e testemunhos de coisas semelhantes, mas com demasiada frequência com o propósito de descobrir alguma mancha de erro nos Livros sagrados, para enfraquecer e abalar sua autoridade por toda parte.
Alguns fazem isso com ânimo excessivamente hostil e sem suficiente equidade de julgamento. Confiam tanto nos livros profanos e nos documentos da memória antiga que parecem considerar impossível que neles exista sequer suspeita de erro; mas negam aos livros da Sagrada Escritura igual confiança simplesmente por causa de uma suposta aparência de erro, sem sequer tê-la examinado devidamente.
É possível que alguns erros tenham sido cometidos pelos copistas na transcrição dos códices; isso deve ser julgado com cautela e não facilmente admitido, a não ser nos lugares em que seja devidamente demonstrado.
Também é possível que o verdadeiro sentido de alguma passagem permaneça incerto; para esclarecer isso, as melhores regras de interpretação poderão contribuir muito.
Mas seria absolutamente ímpio restringir a inspiração a apenas algumas partes da Sagrada Escritura ou admitir que o próprio autor sagrado tenha errado.
Não se pode tolerar a posição daqueles que procuram escapar dessas dificuldades afirmando que a inspiração divina se refere somente às coisas da fé e dos costumes e a nada mais, sob o falso argumento de que, quando se trata da verdade das sentenças, não seria necessário investigar tanto o que Deus disse, mas sobretudo a razão pela qual o disse.
Com efeito, todos os livros, em sua integridade, que a Igreja recebe como sagrados e canônicos, em todas as suas partes, foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo.
Longe de a inspiração divina poder admitir algum erro, ela por sua própria natureza exclui todo erro e o exclui e rejeita tão necessariamente quanto é necessário que Deus, a Verdade suprema, não possa ser autor de nenhum erro.
Esta é a antiga e constante fé da Igreja, definida também por sentença solene nos Concílios de Florença e de Trento e, finalmente, confirmada e declarada mais expressamente no Concílio Vaticano, que decretou absolutamente:
“Os livros do Antigo e do Novo Testamento, íntegros com todas as suas partes, tal como são enumerados no decreto do mesmo Concílio [de Trento] e se encontram na antiga edição latina da Vulgata, devem ser recebidos como sagrados e canônicos. A Igreja os considera sagrados e canônicos não porque, tendo sido compostos somente pela indústria humana, tenham depois sido aprovados por sua autoridade; nem somente porque contenham a revelação sem erro; mas porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm Deus como autor.” (Concílio Vaticano, sessão III, cap. II, Da revelação.)
Portanto, pouco importa que o Espírito Santo tenha usado homens como instrumentos para escrever, como se algo falso pudesse escapar dos escritores inspirados, embora não do autor principal.
Pois Ele próprio, mediante sua força sobrenatural, de tal modo os excitou e moveu para escrever, de tal modo os assistiu enquanto escreviam, que concebessem corretamente em suas mentes tudo e somente aquilo que Ele lhes ordenava, quisessem fielmente escrevê-lo e o exprimissem de modo adequado com verdade infalível.
Do contrário, Ele não seria o autor de toda a Sagrada Escritura.
Os Santos Padres sempre tiveram isso como certo.
Assim diz Santo Agostinho:
“Quando eles escreveram aquilo que Ele lhes mostrou e disse, de modo algum se deve dizer que Ele próprio não escreveu, pois seus membros realizaram aquilo que, sob o comando da cabeça, conheceram.”
E São Gregório Magno declara:
“É totalmente supérfluo perguntar quem escreveu essas coisas, quando se crê fielmente que o autor do livro é o Espírito Santo. Ele, portanto, escreveu essas coisas, pois Ele as ditou para serem escritas; Ele escreveu, pois também foi o inspirador de sua obra.”
Segue-se, portanto, que aqueles que julgam que nas passagens autênticas dos Livros sagrados possa haver alguma coisa falsa estão, sem dúvida, pervertendo o conceito católico de inspiração divina ou fazendo do próprio Deus o autor do erro.
Por isso, todos os Padres e Doutores estavam profundamente convencidos de que as divinas Letras, tal como foram produzidas pelos hagiógrafos, são absolutamente livres de qualquer erro.
Por essa razão, procuraram, não menos sutil que religiosamente, harmonizar e conciliar entre si muitas passagens que pareciam apresentar alguma coisa contraditória ou diferente — precisamente muitas das que os adversários da “nova ciência” atualmente apresentam como objeções.
Todos professavam unanimemente que os Livros, tanto em sua totalidade quanto em suas partes, são igualmente inspirados por Deus e que o próprio Deus, falando por meio dos autores sagrados, não poderia ter afirmado nada que se afastasse da verdade.
Valham universalmente as palavras que o mesmo Santo Agostinho escreveu a São Jerônimo:
“Confesso à tua caridade que somente aos livros das Escrituras que já são chamados canônicos aprendi a prestar esta reverência e honra: creio firmissimamente que nenhum de seus autores tenha errado ao escrever. E, se neles encontrar alguma coisa que pareça contrária à verdade, não duvidarei de que ou o códice esteja corrompido, ou o intérprete não tenha alcançado o que foi dito, ou eu mesmo não o tenha compreendido.”
Entretanto, empregar plenamente todos os instrumentos das ciências superiores em defesa da santidade da Bíblia é algo muito maior do que seria justo esperar apenas da diligência dos intérpretes e teólogos.
É desejável que também aqueles católicos que conquistaram alguma autoridade nas ciências externas unam seus esforços e trabalhem em conjunto nessa defesa.
Graças a Deus, a Igreja não carece, agora como antes, de homens dotados de grandes talentos; oxalá estes cresçam ainda mais como auxílio da fé.
Pois consideramos de máxima importância que a verdade encontre mais numerosos e mais fortes defensores do que seus adversários; e nenhuma coisa pode persuadir melhor o povo a respeitar a verdade do que vê-la professada livremente por homens que se destacam em alguma ciência de reconhecido mérito.
Até mesmo a inveja dos detratores cederá facilmente, ou pelo menos não ousarão mais acusar com tanta insolência a fé de ser inimiga da ciência, quando virem homens célebres por sua excelência científica prestarem à fé a máxima honra e reverência.
Como, portanto, aqueles a quem Deus concedeu, juntamente com a graça da profissão católica, um talento feliz podem prestar grande serviço à religião, nesta ardentíssima agitação dos estudos que de algum modo tocam as Escrituras, cada um escolha para si o campo de estudo no qual possa algum dia distinguir-se e, assim, repelir com glória as armas de uma ciência ímpia dirigidas contra elas.
É agradável, neste ponto, aprovar devidamente a iniciativa de alguns católicos que, para que os homens mais doutos disponham de todos os meios necessários para desenvolver e promover tais estudos, costumam reunir sociedades e contribuir generosamente com recursos financeiros.
É, sem dúvida, uma excelente e oportuníssima maneira de empregar o dinheiro.
Quanto menos os católicos puderem esperar publicamente apoio para seus estudos, tanto mais pronta e generosamente deve manifestar-se a liberalidade dos particulares, para que aqueles a quem Deus concedeu riquezas queiram empregá-las na defesa do tesouro da doutrina por Ele revelada.
Para que esses trabalhos realmente contribuam para a ciência bíblica, os estudiosos devem apoiar-se nos princípios que acima estabelecemos e manter fielmente que Deus, criador e governador de todas as coisas, é também o autor das Escrituras.
Por isso, nada que se possa verdadeiramente concluir da natureza das coisas ou dos monumentos da história poderá contradizer realmente as Escrituras.
Se alguma coisa assim parecer, deve ser cuidadosamente afastada, tanto mediante o juízo prudente dos teólogos e intérpretes sobre o sentido mais verdadeiro ou mais provável da passagem da Escritura em discussão, quanto mediante o exame diligente da força dos argumentos apresentados em contrário.
Nem por isso se deve desistir se ainda permanecer alguma aparência de contradição.
Pois, uma vez que a verdade jamais pode contradizer a verdade, deve-se ter como certo que ou ocorreu um erro na interpretação das palavras sagradas ou na outra parte da discussão.
Se, porém, nenhuma das duas coisas ainda puder ser suficientemente demonstrada, deve-se suspender o juízo.
Muitas coisas, provenientes de todos os gêneros de ciência, foram durante muito tempo apresentadas contra a Escritura e agora, por serem vãs, caíram completamente em desuso.
Igualmente, não poucas opiniões foram outrora propostas na interpretação de certas passagens da Escritura, não propriamente pertencentes à regra da fé e dos costumes, nas quais posteriormente uma investigação mais profunda mostrou uma interpretação mais correta.
Pois o tempo apaga as opiniões inventadas; mas “a verdade permanece e se fortalece eternamente” (III Esdras, IV, 38).
Assim como ninguém deve arrogar-se a pretensão de compreender corretamente toda a Escritura, na qual Santo Agostinho confessou que havia mais coisas que ignorava do que coisas que sabia, também, quando surgir alguma passagem mais difícil de explicar, cada um deve adotar a prudência e moderação do mesmo Doutor:
“É melhor permanecer oprimido por sinais desconhecidos, mas úteis, do que, interpretando-os inutilmente, inserir a cabeça, retirada do jugo da servidão, nos laços do erro.”
Se aqueles que se dedicam a esses estudos auxiliares seguirem fiel e humildemente nossos conselhos e mandamentos, e se dirigirem, tanto ao escrever quanto ao ensinar, os frutos de seus estudos para refutar os inimigos da verdade e prevenir os danos à fé entre os jovens, então poderão alegrar-se por prestar às Sagradas Letras um serviço digno deles e por oferecer à causa católica aquele auxílio que a Igreja pode justamente esperar da piedade e da ciência de seus filhos.
Estas são, Veneráveis Irmãos, as coisas que julgamos oportuno, com o auxílio de Deus, advertir e prescrever acerca dos estudos da Sagrada Escritura.
Agora cabe a vós cuidar para que sejam guardadas e observadas com a devida reverência.
Assim, que se manifeste com maior evidência a devida ação de graças a Deus pelos oráculos de sua sabedoria comunicados ao gênero humano e que produzam os frutos desejados, sobretudo na formação da juventude sagrada, que é objeto de nossa tão grande solicitude e esperança da Igreja.
Por vossa autoridade e exortação, trabalhai diligentemente para que, nos Seminários e nas Academias submetidas à vossa jurisdição, esses estudos sejam devidamente honrados e floresçam.
Floresçam de modo íntegro e feliz, sob a direção da Igreja, segundo os salutares ensinamentos e exemplos dos Santos Padres e a louvável tradição dos antigos; e recebam, com o passar do tempo, um crescimento que seja verdadeiramente destinado à defesa e à glória da verdade católica, divinamente estabelecida para a salvação perene dos povos.
Por fim, advertimos com paternal caridade todos os alunos e ministros da Igreja a aproximarem-se das Sagradas Letras sempre com o máximo afeto de reverência e piedade.
Pois a compreensão salutar delas, como é necessário, jamais poderá estar plenamente aberta se não for afastada a arrogância da ciência “terrena” e se não for despertado santamente o amor daquela sabedoria “que vem do alto”.
Uma vez que a mente se submete à disciplina dessa sabedoria e é por ela iluminada e fortalecida, será admiravelmente capaz de reconhecer e evitar também as fraudes da ciência humana, colher seus frutos sólidos e ordená-los às coisas eternas.
Daí, sobretudo, o espírito se inflamará e se esforçará com maior vigor pelos frutos da virtude e do amor divino:
“Bem-aventurados os que examinam os seus testemunhos e o buscam de todo o coração.” (Salmo XVIII, 2.)
Agora, confiantes na esperança do auxílio divino e na vossa solicitude pastoral, concedemos de todo o coração no Senhor a Bênção Apostólica, penhor dos dons celestes e testemunho de nossa singular benevolência, a vós todos, bem como a todo o Clero e povo confiado a cada um de vós.
Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia XVIII de novembro do ano MDCCCXCIII, décimo sexto do Nosso Pontificado.
LEÃO PP. XIII
*AAS, vol. XXVI (1893-1894), pp. 269-292.