EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PÓS-SINODAL
VERBUM DOMINI
DO SANTO PADRE
BENTO XVI
AO EPISCOPADO, AO CLERO
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E AOS FIÉIS LEIGOS
SOBRE
A PALAVRA DE DEUS
NA VIDA E NA MISSÃO DA IGREJA
ÍNDICE
Introdução [1]
Para que a nossa alegria seja perfeita [2]
Da «Dei Verbum»
ao Sínodo sobre a Palavra de Deus [3]
O Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus [4]
O Prólogo do Evangelho de João por guia [5]
I PARTE
VERBUM DEI
O Deus que fala
Deus em diálogo [6]
Analogia da Palavra de Deus [7]
Dimensão cósmica da Palavra [8]
A criação do homem [9]
O realismo da Palavra [10]
Cristologia da Palavra [11-13]
Dimensão escatológica da Palavra de Deus [14]
A Palavra de Deus e o Espírito Santo [15-16]
Tradição e Escritura [17-18]
Sagrada Escritura, inspiração e verdade [19]
Deus Pai, fonte e origem da Palavra [20-21]
A resposta do
homem a Deus que fala
Chamados a entrar na Aliança com Deus [22]
Deus escuta o homem e responde às suas perguntas [23]
Dialogar com Deus através das suas palavras [24]
A Palavra de Deus e a fé [25]
O pecado como não escuta da Palavra de Deus [26]
Maria «Mater Verbi Dei» e «Mater fidei» [27-28]
A hermenêutica
da Sagrada Escritura na Igreja
A Igreja, lugar originário da hermenêutica da Bíblia [29-30]
«A alma da sagrada teologia» [31]
Desenvolvimento da investigação bíblica e Magistério eclesial [32-33]
A hermenêutica bíblica conciliar: uma indicação a acolher [34]
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada [35]
Fé e razão na abordagem da Escritura [36]
Sentido literal e sentido espiritual [37]
A necessária superação da «letra» [38]
A unidade intrínseca da Bíblia [39]
A relação entre Antigo e Novo Testamento [40-41]
As páginas «obscuras» da Bíblia [42]
Cristãos e judeus, relativamente às Sagradas Escrituras [43]
A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura [44]
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas [45]
Bíblia e ecumenismo [46]
Consequências sobre a organização dos estudos teológicos [47]
Os Santos e a interpretação da Escritura [48-49]
II PARTE
VERBUM IN
ECCLESIA
A palavra de
Deus e a Igreja
A Igreja acolhe a Palavra [50]
Contemporaneidade de Cristo na vida da Igreja [51]
Liturgia, lugar
privilegiado da palavra de Deus
A Palavra de Deus na sagrada Liturgia [52]
Sagrada Escritura e Sacramentos [53]
Palavra de Deus e Eucaristia [54-55]
A sacramentalidade da Palavra [56]
A Sagrada Escritura e o Leccionário [57]
Proclamação da Palavra e ministério do leitorado [58]
A importância da homilia [59]
Conveniência de um Directório homilético [60]
Palavra de Deus, Reconciliação e Unção dos Doentes [61]
Palavra de Deus e Liturgia das Horas [62]
Palavra de Deus e Cerimonial das Bênçãos [63]
Sugestões e propostas concretas para a animação litúrgica [64]
a) Celebrações da Palavra de Deus [65]
b) A Palavra e o silêncio [66]
c) Proclamação solene da Palavra de Deus [67]
d) A Palavra de Deus no templo cristão [68]
e) Exclusividade dos textos bíblicos na liturgia [69]
f) Canto litúrgico biblicamente inspirado [70]
g) Particular atenção aos cegos e aos surdos [71]
A palavra de
Deus na vida eclesial
Encontrar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura [72]
A animação bíblica da pastoral [73]
Dimensão bíblica da catequese [74]
Formação bíblica dos cristãos [75]
A Sagrada Escritura nos grandes encontros eclesiais [76]
Palavra de Deus e vocações [77]
a) Palavra de Deus e Ministros Ordenados [78-81]
b) Palavra de Deus e candidatos às Ordens Sacras [82]
c) Palavra de Deus e vida consagrada [83]
d) Palavra de Deus e fiéis leigos [84]
e) Palavra de Deus, matrimónio e família [85]
Leitura orante da Sagrada Escritura e «lectio divina» [86-87]
Palavra de Deus e oração mariana [88]
Palavra de Deus e Terra Santa [89]
III PARTE
VERBUM MUNDO
A missão da
Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo
A Palavra que sai do Pai e volta para o Pai [90]
Anunciar ao mundo o «Logos» da Esperança [91]
Da Palavra de Deus deriva a missão da Igreja [92]
A Palavra e o Reino de Deus [93]
Todos os baptizados responsáveis do anúncio [94]
A necessidade da «missio ad gentes» [95]
Anúncio e nova evangelização [96]
Palavra de Deus e testemunho cristão [97-98]
Palavra de Deus
e compromisso no mundo
Servir Jesus nos seus «irmãos mais pequeninos» (Mt 25,
40) [99]
Palavra de Deus e compromisso na sociedade pela justiça [100-101]
Anúncio da Palavra de Deus, reconciliação e paz entre os povos [102]
A Palavra de Deus e a caridade activa [103]
Anúncio da Palavra de Deus e os jovens [104]
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes [105]
Anúncio da Palavra de Deus e os doentes [106]
Anúncio da Palavra de Deus e os pobres [107]
Palavra de Deus e defesa da criação [108]
Palavra de Deus
e culturas
O valor da cultura para a vida do homem [109]
A Bíblia como grande código para as culturas [110]
O conhecimento da Bíblia nas escolas e universidades [111]
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas [112]
Palavra de Deus e meios de comunicação social [113]
Bíblia e inculturação [114]
Traduções e difusão da Bíblia [115]
A Palavra de Deus supera os limites das culturas [116]
Palavra de Deus
e diálogo inter-religioso
O valor do diálogo inter-religioso [117]
Diálogo entre cristãos e muçulmanos [118]
Diálogo com as outras religiões [119]
Diálogo e liberdade religiosa [120]
Conclusão
A palavra definitiva de Deus [121]
Nova evangelização e nova escuta [122]
A Palavra e a alegria [123]
«Mater Verbi et Mater laetitiae» [124]
INTRODUÇÃO
1. A palavra do
senhor permanece eternamente. E esta é a palavra do Evangelho que vos foi
anunciada» (1 Pd 1, 25; cf. Is 40, 8). Com esta
citação da Primeira Carta de São Pedro, que retoma as palavras do
profeta Isaías, vemo-nos colocados diante do mistério de Deus que Se comunica a
Si mesmo por meio do dom da sua Palavra. Esta Palavra, que permanece
eternamente, entrou no tempo. Deus pronunciou a sua Palavra eterna de modo
humano; o seu Verbo «fez-Se carne» (Jo 1, 14). Esta é a boa nova.
Este é o anúncio que atravessa os séculos, tendo chegado até aos nossos dias.
A XII Assembleia
Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que se efectuou no Vaticano de 5 a 26 de
Outubro de 2008, teve como tema A Palavra de Deus na vida e
na missão da Igreja. Foi uma experiência profunda de encontro com Cristo,
Verbo do Pai, que está presente onde dois ou três se encontram reunidos em seu
nome (cf. Mt 18, 20). Com esta Exortação apostólica
pós-sinodal, acolho de bom grado o pedido que me fizeram os Padres de dar a
conhecer a todo o Povo de Deus a riqueza surgida naquela reunião vaticana e as
indicações emanadas do trabalho comum.[1] Nesta
linha, pretendo retomar tudo o que foi elaborado pelo Sínodo, tendo em conta os
documentos apresentados: os Lineamenta,
o Instrumentum
laboris, os Relatórios ante e post
disceptationem e os textos das intervenções, tanto os que foram lidos
na sala como os apresentados in scriptis, os Relatórios dos
Círculos Menores e os seus debates, a Mensagem final
ao Povo de Deus e sobretudo algumas propostas específicas (Propositiones),
que os Padres consideraram de particular relevância. Desejo assim indicar
algumas linhas fundamentais para uma redescoberta, na vida da Igreja, da
Palavra divina, fonte de constante renovação, com a esperança de que a mesma se
torne cada vez mais o coração de toda a actividade eclesial.
Para que a nossa alegria seja perfeita
2. Quero, antes de mais nada, recordar a beleza e o fascínio do renovado
encontro com o Senhor Jesus que se experimentou nos dias da assembleia sinodal.
Por isso, fazendo-me eco dos Padres, dirijo-me a todos os fiéis com as palavras
de São João na sua primeira carta: «Nós vos anunciamos a vida eterna, que
estava no Pai e que nos foi manifestada – o que vimos e ouvimos, isso vos
anunciamos, para que também vós tenhais comunhão connosco. Quanto à nossa
comunhão, ela é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo» (1 Jo 1,
2-3). O Apóstolo fala-nos de ouvir, ver, tocar e contemplar (cf. 1
Jo 1, 1) o Verbo da Vida, já que a Vida mesma se manifestou em Cristo.
E nós, chamados à comunhão com Deus e entre nós, devemos ser anunciadores deste
dom. Nesta perspectiva querigmática, a assembleia sinodal foi um testemunho
para a Igreja e para o mundo de como é belo o encontro com a Palavra de Deus na
comunhão eclesial. Portanto, exorto todos os fiéis a redescobrirem o encontro
pessoal e comunitário com Cristo, Verbo da Vida que Se tornou visível, a
fazerem-se seus anunciadores para que o dom da vida divina, a comunhão, se
dilate cada vez mais pelo mundo inteiro. Com efeito, participar na vida de
Deus, Trindade de Amor, é a alegria completa (cf. 1 Jo 1,
4). E é dom e dever imprescindível da Igreja comunicar a alegria que deriva do
encontro com a Pessoa de Cristo, Palavra de Deus presente no meio de nós. Num
mundo que frequentemente sente Deus como supérfluo ou alheio, confessamos como
Pedro que só Ele tem «palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Não
existe prioridade maior do que esta: reabrir ao homem actual o acesso a Deus, a
Deus que fala e nos comunica o seu amor para que tenhamos vida em abundância
(cf. Jo 10, 10).
Da «Dei Verbum»
ao Sínodo sobre a Palavra de Deus
3. Com a XII Assembleia
Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus,
estamos conscientes de nos termos debruçado de certo modo sobre o próprio coração da
vida cristã, dando continuidade à assembleia sinodal anterior sobre a Eucaristia
como fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. De facto, a Igreja
funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela.[2] Ao
longo de todos os séculos da sua história, o Povo de Deus encontrou sempre nela
a sua força, e também hoje a comunidade eclesial cresce na escuta, na
celebração e no estudo da Palavra de Deus. Há que reconhecer que, nas últimas décadas,
a vida eclesial aumentou a sua sensibilidade relativamente a este tema, com
particular referência à Revelação cristã, à Tradição viva e à Sagrada
Escritura. Pode-se afirmar que, a partir do pontificado do Papa Leão XIII, houve um
crescendo de intervenções visando suscitar maior consciência da importância da
Palavra de Deus e dos estudos bíblicos na vida da Igreja,[3] que
teve o seu ponto culminante no Concílio
Vaticano II, de modo especial com a promulgação da Constituição
dogmática sobre a Revelação divina Dei Verbum.
Esta representa um marco miliário no caminho da Igreja. «Os Padres Sinodais (…)
reconhecem, com ânimo agradecido, os grandes benefícios que este documento
trouxe à vida da Igreja a nível exegético, teológico, espiritual, pastoral e
ecuménico».[4] De
modo particular cresceu, nestes anos, a consciência do «horizonte trinitário e
histórico-salvífico da Revelação»[5] em
que se deve reconhecer Jesus Cristo como «o mediador e a plenitude de toda a
Revelação».[6] A
Igreja confessa, incessantemente, a cada geração que Ele, «com toda a sua
presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres,
e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição e, enfim, com o envio do
Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a
Revelação».[7]
É de conhecimento geral o grande impulso dado pela Constituição dogmática Dei Verbum à
redescoberta da Palavra de Deus na vida da Igreja, à reflexão teológica sobre a
Revelação divina e ao estudo da Sagrada Escritura. E numerosas foram também as
intervenções do Magistério eclesial sobre estas matérias nos últimos quarenta
anos.[8] A
Igreja, ciente da continuidade do seu próprio caminho sob a guia do Espírito
Santo, com a celebração deste Sínodo sentiu-se chamada a aprofundar ainda mais
o tema da Palavra divina, seja para verificar a realização das indicações
conciliares seja para enfrentar os novos desafios que o tempo presente coloca a
quem acredita em Cristo.
O Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus
4. Na XII Assembleia
sinodal, Pastores vindos de todo o mundo congregaram-se ao redor da
Palavra de Deus, colocando simbolicamente no centro da Assembleia o texto da
Bíblia, para redescobrirem algo que nos arriscamos de dar por adquirido no
dia-a-dia: o facto de que Deus fale e responda às nossas perguntas.[9] Juntos
escutámos e celebrámos a Palavra do Senhor. Narrámos uns aos outros aquilo que
o Senhor está a realizar no Povo de Deus, partilhando esperanças e
preocupações. Tudo isto nos tornou conscientes de que só podemos aprofundar a
nossa relação com a Palavra de Deus dentro do «nós» da Igreja, na escuta e no
acolhimento recíproco. Daqui nasce a gratidão pelos testemunhos sobre a vida
eclesial nas diversas partes do mundo, surgidos nas várias intervenções feitas
na sala. Ao mesmo tempo foi comovedor também ouvir os Delegados Fraternos, que
aceitaram o convite para participar no encontro sinodal. Penso de modo
particular na meditação que nos ofereceu Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca
Ecuménico de Constantinopla, pela qual os Padres sinodais exprimiram profunda
gratidão.[10] Além
disso, pela primeira vez, o Sínodo dos Bispos quis convidar também um Rabino,
que nos deu um testemunho precioso sobre as Sagradas Escrituras judaicas; estas
são precisamente uma parte das nossas Sagradas Escrituras.[11]
Pudemos assim constatar, com alegria e gratidão, que «na Igreja há um
Pentecostes também hoje, ou seja, que ela fala em muitas línguas; e isto não só
no sentido externo de estarem nela representadas todas as grandes línguas do
mundo mas também, e mais profundamente, no sentido de que nela estão presentes
os variados modos da experiência de Deus e do mundo, a riqueza das culturas, e
só assim se manifesta a vastidão da existência humana e, a partir dela, a
vastidão da Palavra de Deus».[12] Além
disso, pudemos constatar também um Pentecostes ainda a caminho; vários povos
aguardam ainda que seja anunciada a Palavra de Deus na sua própria língua e
cultura.
Como não recordar também que, durante todo o Sínodo, nos acompanhou o
testemunho do Apóstolo Paulo? De facto, foi providencial que a XII Assembleia
Geral Ordinária se tenha realizado precisamente dentro do ano
dedicado à figura do grande Apóstolo das Nações, por ocasião do bimilenário do
seu nascimento. A sua existência caracterizou-se completamente pelo zelo em
difundir a Palavra de Deus. Como não sentir vibrar no nosso coração as palavras
com que se referia à sua missão de anunciador da Palavra divina: «Faço tudo por
causa do Evangelho» (1 Cor 9, 23); «pois eu – escreve na Carta
aos Romanos – não me envergonho do Evangelho, o qual é poder de Deus
para salvação de todo o crente» (1, 16)?! Quando reflectimos sobre a Palavra de
Deus na vida e na missão da Igreja, não podemos deixar de pensar em São Paulo e
na sua vida entregue à difusão do anúncio da salvação de Cristo a todos os
povos.
O Prólogo do Evangelho de João por guia
5. Desejo, através desta Exortação apostólica, que as conclusões do Sínodo
influam eficazmente sobre a vida da Igreja: sobre a relação pessoal com as
Sagradas Escrituras, sobre a sua interpretação na liturgia e na catequese bem
como na investigação científica, para que a Bíblia não permaneça uma Palavra do
passado, mas uma Palavra viva e actual. Com este objectivo, pretendo apresentar
e aprofundar os resultados do Sínodo, tomando por referência constante o Prólogo
do Evangelho de João (Jo 1, 1-18), que nos dá a conhecer o
fundamento da nossa vida: o Verbo, que desde o princípio está junto de Deus,
fez-Se carne e veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14). Trata-se
de um texto admirável, que dá uma síntese de toda a fé cristã. A partir da sua
experiência pessoal do encontro e seguimento de Cristo, João, que a tradição
identifica com «o discípulo que Jesus amava» (Jo 13, 23; 20, 2; 21,
7.20), «chegou a esta certeza íntima: Jesus é a Sabedoria de Deus encarnada, é
a sua Palavra eterna feita homem mortal».[13] Aquele
que «viu e acreditou» (Jo 20, 8) nos ajude também a apoiar a cabeça
sobre o peito de Cristo (cf. Jo 13, 25), donde brotou sangue e
água (cf. Jo 19, 34), símbolos dos Sacramentos da Igreja.
Seguindo o exemplo do Apóstolo João e dos outros autores inspirados,
deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo para podermos amar cada vez mais
a Palavra de Deus.
I PARTE
«No princípio já
existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (…)e o Verbo
fez-Se carne» (Jo 1, 1.14)
Deus em diálogo
6. A novidade da
revelação bíblica consiste no facto de Deus Se dar a conhecer no diálogo, que
deseja ter connosco.[14] A
Constituição dogmática Dei Verbum tinha
exposto esta realidade, reconhecendo que «Deus invisível na riqueza do seu amor
fala aos homens como a amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à
comunhão com Ele».[15] Mas
ainda não teríamos compreendido suficientemente a mensagem do Prólogo de São
João, se nos detivéssemos na constatação de que Deus Se comunica amorosamente a
nós. Na realidade, o Verbo de Deus, por meio do Qual «tudo começou a existir» (Jo 1,
3) e que Se «fez carne» (Jo 1, 14), é o mesmo que já existia «no
princípio» (Jo 1, 1). Se aqui podemos descobrir uma alusão ao
início do livro do Génesis (cf. Gn 1, 1), na realidade
vemo-nos colocados diante de um princípio de carácter
absoluto e que nos narra a vida íntima de Deus. O Prólogo joanino apresenta-nos
o facto de que o Logos existe realmente desde sempre,
e desde sempre Ele mesmo é Deus. Por conseguinte, nunca houve em
Deus um tempo em que não existisse o Logos. O Verbo preexiste à
criação. Portanto, no coração da vida divina, há a comunhão, há o dom absoluto.
«Deus é amor» (1 Jo 4, 16) – dirá noutro lugar o mesmo
Apóstolo, indicando assim «a imagem cristã de Deus e também a consequente
imagem do homem e do seu caminho».[16] Deus
dá-Se-nos a conhecer como mistério de amor infinito, no qual, desde toda a
eternidade, o Pai exprime a sua Palavra no Espírito Santo. Por isso o Verbo,
que desde o princípio está junto de Deus e é Deus, revela-nos o próprio Deus no
diálogo de amor entre as Pessoas divinas e convida-nos a participar nele.
Portanto, feitos à imagem e semelhança de Deus amor, só nos podemos compreender
a nós mesmos no acolhimento do Verbo e na docilidade à obra do Espírito Santo.
É à luz da revelação feita pelo Verbo divino que se esclarece definitivamente o
enigma da condição humana.
Analogia da Palavra de Deus
7. A partir destas considerações que brotam da meditação sobre o mistério
cristão expresso no Prólogo de João, é necessário agora pôr em evidência aquilo
que foi afirmado pelos Padres sinodais a propósito das diversas modalidades com
que usamos a expressão «Palavra de Deus». Falou-se, justamente, de uma sinfonia
da Palavra, de uma Palavra única que se exprime de diversos modos: «um cântico
a diversas vozes».[17] A
este propósito, os Padres sinodais falaram de um uso analógico da linguagem
humana na referência à Palavra de Deus. Com efeito, se esta expressão, por um
lado, diz respeito à comunicação que Deus faz de Si mesmo, por outro assume
significados diversos que devem ser atentamente considerados e relacionados
entre si, tanto do ponto de vista da reflexão teológica como do uso pastoral.
Como nos mostra claramente o Prólogo de João, o Logos indica
originariamente o Verbo eterno, ou seja, o Filho unigénito, gerado pelo Pai
antes de todos os séculos e consubstancial a Ele: o Verbo estava junto
de Deus, o Verbo era Deus. Mas este mesmo Verbo – afirma São João – «fez-Se
carne» (Jo 1, 14); por isso Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria,
é realmente o Verbo de Deus que Se fez consubstancial a nós. Assim a expressão «Palavra
de Deus» acaba por indicar aqui a pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai
feito homem.
Além disso, se no centro da revelação divina está o acontecimento de Cristo, é
preciso reconhecer que a própria criação, o liber naturae,
constitui também essencialmente parte desta sinfonia a diversas vozes na qual
Se exprime o único Verbo. Do mesmo modo confessamos que Deus comunicou a sua
Palavra na história da salvação, fez ouvir a sua voz; com a força do seu
Espírito, «falou pelos profetas».[18] Por
conseguinte, a Palavra divina exprime-se ao longo de toda a história da
salvação e tem a sua plenitude no mistério da encarnação, morte e ressurreição
do Filho de Deus. E Palavra de Deus é ainda aquela pregada pelos Apóstolos, em
obediência ao mandato de Jesus Ressuscitado: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai
a Boa Nova a toda a criatura» (Mc 16, 15). Assim a Palavra de Deus
é transmitida na Tradição viva da Igreja. Enfim, é Palavra de Deus, atestada e
divinamente inspirada, a Sagrada Escritura, Antigo e Novo Testamento. Tudo isto
nos faz compreender por que motivo, na Igreja, veneramos extremamente as
Sagradas Escrituras, apesar da fé cristã não ser uma «religião do Livro»: o
cristianismo é a «religião da Palavra de Deus», não de «uma palavra escrita e
muda, mas do Verbo encarnado e vivo».[19] Por
conseguinte a Sagrada Escritura deve ser proclamada, escutada, lida, acolhida e
vivida como Palavra de Deus, no sulco da Tradição Apostólica de que é
inseparável.[20]
Como afirmaram os
Padres sinodais, encontramo-nos realmente perante um uso analógico da expressão
«Palavra de Deus», e disto mesmo devemos estar conscientes. Por isso, é
necessário que os fiéis sejam melhor formados para identificar os seus diversos
significados e compreender o seu sentido unitário. E do ponto de vista
teológico é preciso também aprofundar a articulação dos vários significados
desta expressão, para que resplandeça melhor a unidade do plano divino e,
neste, a centralidade da pessoa de Cristo.[21]
Dimensão cósmica da Palavra
8. Conscientes do significado fundamental da Palavra de Deus referida ao Verbo
eterno de Deus feito carne, único salvador e mediador entre Deus e o homem,[22] e
escutando esta Palavra, somos levados pela revelação bíblica a reconhecer que
ela é o fundamento de toda a realidade. O Prólogo de São João afirma,
referindo-se ao Logos divino, que «tudo começou a existir por
meio d’Ele, e, sem Ele, nada foi criado» (Jo 1, 3); de igual modo
na Carta aos Colossenses afirma-se, aludindo a Cristo
«primogénito de toda a criação» (1, 15), que «tudo foi criado por Ele e para
Ele» (1, 16). E o autor da Carta aos Hebreus recorda que «pela
fé conhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus, de tal modo que o
que se vê não provém das coisas sensíveis» (11, 3).
Este anúncio é, para nós, uma palavra libertadora. De facto, as afirmações da
Sagrada Escritura indicam que tudo o que existe não é fruto de um acaso
irracional, mas é querido por Deus, está dentro do seu desígnio, em cujo centro
se encontra a oferta de participar na vida divina em Cristo. A criação nasce
do Logos e traz indelével o sinal da Razão criadora
que regula e guia. Esta feliz certeza é cantada nos Salmos:
«Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os
seus exércitos» (Sl 33, 6); e ainda: «Ele falou e as coisas
existiram. Ele mandou e as coisas subsistiram» (Sl 33, 9). A
realidade inteira exprime este mistério: «Os céus proclamam a glória de Deus, o
firmamento anuncia as obras das suas mãos» (Sl 19, 2). É a própria
Sagrada Escritura que nos convida a conhecer o Criador, observando a criação
(cf. Sb 13, 5; Rm 1, 19-20). A tradição do
pensamento cristão soube aprofundar este elemento-chave da sinfonia da Palavra,
quando por exemplo São Boaventura – que, juntamente com a grande tradição dos
Padres Gregos, vê todas as possibilidades da criação no Logos[23] –
afirma que «cada criatura é palavra de Deus, porque proclama Deus».[24] A
Constituição dogmática Dei Verbum sintetizara
este facto dizendo que «Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo
(cf. Jo 1, 3), oferece aos homens um testemunho perene de Si
mesmo na criação».[25]
A criação do homem
9. Deste modo, a realidade nasce da Palavra, como creatura Verbi, e
tudo é chamado a servir a Palavra. A criação é lugar onde se desenvolve toda a
história do amor entre Deus e a sua criatura; por conseguinte, o movente de
tudo é a salvação do homem. Contemplando o universo na perspectiva da história
da salvação, somos levados a descobrir a posição única e singular que ocupa o
homem na criação: «Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus;
Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). Isto permite-nos
reconhecer plenamente os dons preciosos recebidos do Criador: o valor do
próprio corpo, o dom da razão, da liberdade e da consciência. Nisto encontramos
também tudo aquilo que a tradição filosófica chama «lei natural».[26] Com
efeito, «todo o ser humano que atinge a consciência e a responsabilidade
experimenta um chamamento interior para realizar o bem»[27] e,
consequentemente, evitar o mal. Sobre este princípio, como recorda São Tomás de
Aquino, fundam-se também todos os outros preceitos da lei natural.[28] A
escuta da Palavra de Deus leva-nos em primeiro lugar a prezar a exigência de
viver segundo esta lei «escrita no coração» (cf. Rm 2, 15; 7,
23).[29] Depois,
Jesus Cristo dá aos homens a Lei nova, a Lei do Evangelho, que assume e realiza
de modo sublime a lei natural, libertando-nos da lei do pecado, por causa do
qual, come diz São Paulo, «querer o bem está ao meu alcance, mas realizá-lo
não» (Rm 7, 18), e dá aos homens, por meio da graça, a participação
na vida divina e a capacidade de superar o egoísmo.[30]
O realismo da Palavra
10. Quem conhece a Palavra divina conhece plenamente também o significado de
cada criatura. De facto, se todas as coisas «têm a sua subsistência» n’Aquele
que existe «antes de todas as coisas» (Cl 1, 17), então quem
constrói a própria vida sobre a sua Palavra edifica de modo verdadeiramente
sólido e duradouro. A Palavra de Deus impele-nos a mudar o nosso conceito de
realismo: realista é quem reconhece o fundamento de tudo no Verbo de Deus.[31] Isto
revela-se particularmente necessário no nosso tempo, em que manifestam o seu
carácter efémero muitas coisas com as quais se contava para construir a vida e
sobre as quais se era tentado a colocar a própria esperança. Mais cedo ou mais
tarde, o ter, o prazer e o poder manifestam-se incapazes de realizar as
aspirações mais profundas do coração do homem. De facto, para edificar a
própria vida, ele tem necessidade de alicerces sólidos, que permaneçam mesmo quando
falham as certezas humanas. Na realidade, já que «para sempre, Senhor, como os
céus, subsiste a vossa palavra» e a fidelidade do Senhor «atravessa as
gerações» (Sl 119, 89-90), quem constrói sobre esta palavra,
edifica a casa da própria vida sobre a rocha (cf. Mt 7, 24).
Que o nosso coração possa dizer a Deus cada dia: «Sois o meu abrigo, o meu
escudo, na vossa palavra pus a minha esperança» (Sl 119, 114), e
possamos agir cada dia confiando no Senhor Jesus como São Pedro: «Porque Tu o
dizes, lançarei as redes» (L c 5, 5).
Cristologia da Palavra
11. A partir deste olhar sobre a realidade como obra da Santíssima Trindade,
através do Verbo divino, podemos compreender as palavras do autor da Carta
aos Hebreus: «Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de
muitas maneiras, pelos Profetas, agora falou-nos nestes últimos tempos pelo
Filho, a Quem constituiu herdeiro de tudo e por Quem igualmente criou o mundo»
(Hb 1, 1-2). É estupendo observar como todo o Antigo Testamento se
nos apresenta já como história na qual Deus comunica a sua Palavra: de facto,
«tendo estabelecido aliança com Abraão (cf. Gn 15, 18), e com
o povo de Israel por meio de Moisés (cf. Ex 24, 8), revelou-Se
ao Povo escolhido como único Deus verdadeiro e vivo, em palavras e obras, de
tal modo que Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus sobre os
homens, os compreendesse cada vez mais profunda e claramente, ouvindo o mesmo
Deus falar por boca dos profetas, e os difundisse mais amplamente entre os
homens (cf. Sl 21, 28-29; 95, 1-3; Is 2,
1-4; Jr 3, 17)».[32]
Esta condescendência de Deus realiza-se, de modo insuperável, na encarnação do
Verbo. A Palavra eterna que se exprime na criação e comunica na história da
salvação, tornou-se em Cristo um homem, «nascido de mulher» (Gl 4,
4). Aqui a Palavra não se exprime primariamente num discurso, em conceitos ou
regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua
história, única e singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade.
Daqui se compreende por que motivo, «no início do ser cristão, não há uma
decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma
Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».[33] A
renovação deste encontro e desta consciência gera no coração dos fiéis a
maravilha pela iniciativa divina, que o homem, com as suas próprias capacidades
racionais e imaginação, jamais teria podido conceber. Trata-se de uma novidade
inaudita e humanamente inconcebível: «O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós»
(Jo 1, 14a). Estas expressões não indicam uma figura retórica mas
uma experiência vivida. Quem a refere é São João, testemunha ocular: «Nós vimos
a sua glória, glória que Lhe vem do Pai, como Filho único cheio de graça e de
verdade» (Jo 1, 14b). A fé apostólica testemunha que a Palavra
eterna Se fez Um de nós. A Palavra divina exprime-se
verdadeiramente em palavras humanas.
12. A tradição patrística e medieval, contemplando esta «Cristologia da
Palavra», utilizou uma sugestiva expressão: O Verbo abreviou-Se.[34] «Na
sua tradução grega do Antigo Testamento, os Padres da Igreja encontravam uma
frase do profeta Isaías – que o próprio São Paulo cita – para mostrar como os
caminhos novos de Deus estivessem já preanunciados no Antigo Testamento. Eis a
frase: “O Senhor compendiou a sua Palavra, abreviou--a” (Is 10,
23; Rm 9, 28). (…) O próprio Filho é a Palavra, é o Logos:
a Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez--Se
criança, para que a Palavra possa ser compreendida por nós».[35] Desde
então a Palavra já não é apenas audível, não possui somente uma voz;
agora a Palavra tem um rosto, que por isso mesmo podemos ver: Jesus
de Nazaré.[36]
Repassando a narração
dos Evangelhos, notamos como a própria humanidade de Jesus se manifesta em toda
a sua singularidade precisamente quando referida à Palavra de Deus. De facto,
na sua humanidade perfeita, Ele realiza a vontade do Pai a todo o momento;
Jesus ouve a sua voz e obedece-Lhe com todo o seu ser; conhece o Pai e observa
a sua palavra (cf. Jo 8, 55); comunica-nos as coisas do Pai
(cf. Jo 12, 50); «dei-lhes as palavras que Tu Me deste» (Jo 17,
8). Assim Jesus mostra que é o Logos divino que Se dá a nós,
mas é também o novo Adão, o homem verdadeiro, aquele que cumpre em cada momento
não a própria vontade mas a do Pai. Ele «crescia em sabedoria, em estatura e em
graça, diante de Deus e dos homens» (L c 2, 52). De maneira
perfeita, escuta, realiza em Si mesmo e comunica-nos a Palavra divina
(cf. L c 5, 1).
Por fim, a missão de Jesus cumpre-se no Mistério Pascal: aqui vemo-nos
colocados diante da «Palavra da cruz» (cf. 1 Cor 1, 18). O
Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque Se «disse» até calar, nada
retendo do que nos devia comunicar. Sugestivamente os Padres da Igreja, ao
contemplarem este mistério, colocam nos lábios da Mãe de Deus esta expressão:
«Está sem palavra a Palavra do Pai, que fez toda a criatura que fala; sem vida
estão os olhos apagados d’Aquele a cuja palavra e aceno se move tudo o que tem
vida».[37] Aqui
verdadeiramente comunica-se-nos o amor «maior», aquele que dá a vida pelos
próprios amigos (cf. Jo 15, 13).
Neste grande mistério, Jesus manifesta-Se como a Palavra da Nova e
Eterna Aliança: a liberdade de Deus e a liberdade do homem encontraram--se
definitivamente na sua carne crucificada, num pacto indissolúvel, válido para
sempre. O próprio Jesus, na Última Ceia, ao instituir a Eucaristia falara de
«Nova e Eterna Aliança», estabelecida no seu sangue derramado (cf. Mt 26,
28; Mc 14, 24; L c 22, 20), mostrando-Se como
o verdadeiro Cordeiro imolado, no qual se realiza a definitiva libertação da
escravidão.[38]
No mistério refulgente da ressurreição, este silêncio da Palavra manifesta-se
com o seu significado autêntico e definitivo. Cristo, Palavra de Deus
encarnada, crucificada e ressuscitada, é Senhor de todas as coisas; é o Vencedor,
o Pantocrator, e assim todas as coisas ficam recapituladas n’Ele
para sempre (cf. Ef 1, 10). Por isso, Cristo é «a luz do
mundo» (Jo 8, 12), aquela luz que «resplandece nas trevas» (Jo 1,
5) mas as trevas não a acolheram (cf. Jo 1, 5). Aqui se
compreende plenamente o significado do Salmo 119 quando a
designa «farol para os meus passos, e luz para os meus caminhos» (v. 105); esta
luz decisiva na nossa estrada é precisamente a Palavra que ressuscita. Desde o
início, os cristãos tiveram consciência de que, em Cristo, a Palavra de Deus
está presente como Pessoa. A Palavra de Deus é a luz verdadeira, de que o homem
tem necessidade. Sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz do
mundo. Agora, vivendo com Ele e para Ele, podemos viver na luz.
13. Chegados por
assim dizer ao coração da «Cristologia da Palavra», é importante sublinhar a
unidade do desígnio divino no Verbo encarnado: é por isso que o Novo Testamento
nos apresenta o Mistério Pascal de acordo com as Sagradas Escrituras, como a
sua íntima realização. São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios,
afirma que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados, «segundo as Escrituras»
(15, 3) e que ressuscitou no terceiro dia «segundo as Escrituras» (15, 4).
Deste modo o Apóstolo põe o acontecimento da morte e ressurreição do Senhor em
relação com a história da Antiga Aliança de Deus com o seu povo. Mais ainda,
faz-nos compreender que esta história recebe de tal acontecimento a sua lógica
e o seu verdadeiro significado. No Mistério Pascal, realizam-se «as palavras da
Escritura, isto é, esta morte realizada “segundo as Escrituras” é um
acontecimento que contém em si mesmo um logos, uma lógica: a morte
de Cristo testemunha que a Palavra de Deus Se fez totalmente “carne”,
“história” humana».[39] Também
a ressurreição de Jesus acontece «ao terceiro dia, segundo as Escrituras»: dado
que a corrupção, segundo a interpretação judaica, começava depois do terceiro
dia, a palavra da Escritura cumpre-se em Jesus, que ressuscita antes de começar
a corrupção. Deste modo São Paulo, transmitindo fielmente o ensinamento dos
Apóstolos (cf. 1 Cor 15, 3), sublinha que a vitória de Cristo
sobre a morte se verifica através da força criadora da Palavra de Deus. Esta
força divina proporciona esperança e alegria: tal é, em definitivo, o conteúdo
libertador da revelação pascal. Na Páscoa, Deus revela-Se a Si mesmo juntamente
com a força do Amor trinitário que aniquila as forças destruidoras do mal e da
morte.
Assim, recordando
estes elementos essenciais da nossa fé, podemos contemplar a unidade profunda
entre criação e nova criação e de toda a história da salvação em Cristo.
Recorrendo a uma imagem, podemos comparar o universo com uma partitura, um
«livro» – diria Galileu Galilei – considerando-o como «a obra de um Autor que
Se exprime através da “sinfonia” da criação. Dentro desta sinfonia, a
determinado ponto aparece aquilo que, em linguagem musical, se chama um “solo”,
um tema confiado a um só instrumento ou a uma só voz; e é tão importante que
dele depende o significado da obra inteira. Este “solo” é Jesus (…). O Filho do
Homem compendia em Si mesmo a terra e o céu, a criação e o Criador, a carne e o
Espírito. É o centro do universo e da história, porque n’Ele se unem sem se
confundir o Autor e a sua obra».[40]
Dimensão escatológica da Palavra de Deus
14. Por meio de tudo isto, a Igreja exprime a consciência de se encontrar, em
Jesus Cristo, com a Palavra definitiva de Deus; Ele é «o Primeiro e o Último» (Ap 1,
17). Deu à criação e à história o seu sentido definitivo; por isso somos
chamados a viver o tempo, a habitar na criação de Deus dentro deste ritmo
escatológico da Palavra. «Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva
aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública
antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tm 6,
14; Tt 2, 13)».[41] De
facto, como recordaram os Padres durante o Sínodo, a «especificidade do
cristianismo manifesta-se no acontecimento que é Jesus Cristo, ápice da
Revelação, cumprimento das promessas de Deus e mediador do encontro entre o
homem e Deus. Ele, “que nos deu a conhecer Deus” (Jo 1, 18), é a
Palavra única e definitiva confiada à humanidade».[42] São
João da Cruz exprimiu esta verdade de modo admirável: «Ao dar-nos, como nos
deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo
ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para
dizer (…). Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o
totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse
consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um
disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e
buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade».[43]
Consequentemente, o Sínodo recomendou que «se ajudassem os fiéis a bem
distinguir a Palavra de Deus das revelações privadas»,[44] cujo
«papel não é (…) “completar” a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a
vivê-la mais plenamente, numa determinada época histórica».[45] O
valor das revelações privadas é essencialmente diverso do da única revelação
pública: esta exige a nossa fé; de facto nela, por meio de palavras humanas e
da mediação da comunidade viva da Igreja, fala-nos o próprio Deus. O critério
da verdade de uma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo.
Quando aquela nos afasta d’Ele, certamente não vem do Espírito Santo, que nos
guia no âmbito do Evangelho e não fora dele. A revelação privada é uma ajuda
para a fé, e manifesta-se como credível precisamente porque orienta para a
única revelação pública. Por isso, a aprovação eclesiástica de uma revelação
privada indica essencialmente que a respectiva mensagem não contém nada que
contradiga a fé e os bons costumes; é lícito torná-la pública, e os fiéis são
autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão. Uma revelação privada
pode introduzir novas acentuações, fazer surgir novas formas de piedade ou
aprofundar antigas. Pode revestir-se de um certo carácter profético (cf. 1
Ts 5, 19-21) e ser uma válida ajuda para compreender e viver melhor o
Evangelho na hora actual; por isso não se deve desprezá-la. É uma ajuda, que é
oferecida, mas da qual não é obrigatório fazer uso. Em todo o caso, deve tratar-se
de um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são o caminho
permanente da salvação para todos.[46]
A Palavra de Deus e o Espírito Santo
15. Depois de nos termos detido sobre a Palavra última e definitiva de Deus ao
mundo, é necessário recordar agora a missão do Espírito Santo relativamente à
Palavra divina. De facto, não é possível uma compreensão autêntica da revelação
cristã fora da acção do Paráclito. Isto deve-se ao facto de a comunicação que
Deus faz de Si mesmo implicar sempre a relação entre o Filho e o Espírito
Santo, a Quem Ireneu de Lião realmente chama «as duas mãos do Pai».[47] Aliás,
é a Sagrada Escritura que nos indica a presença do Espírito Santo na história
da salvação e, particularmente, na vida de Jesus, o Qual é concebido no seio da
Virgem Maria por obra do Espírito Santo (cf. Mt 1, 18; L c 1,
35); ao iniciar a sua missão pública nas margens do Jordão, vê-O descer sobre
Si em forma de pomba (cf. Mt 3, 16); neste mesmo Espírito,
Jesus age, fala e exulta (cf. L c 10, 21); é no Espírito que
Se oferece a Si mesmo (cf. Hb 9, 14). Quando está para
terminar a sua missão – segundo narra o evangelista São João –, o próprio Jesus
relaciona claramente o dom da sua vida com o envio do Espírito aos Seus
(cf. Jo 16, 7). Depois Jesus ressuscitado, trazendo na sua
carne os sinais da paixão, derrama o Espírito (cf. Jo 20, 22),
tornando os discípulos participantes da sua própria missão (cf. Jo 20,
21). O Espírito Santo ensinará aos discípulos todas as coisas, recordando-lhes
tudo o que Cristo disse (cf. Jo 14, 26), porque será Ele, o
Espírito de Verdade (cf. Jo 15, 26), a guiar os discípulos
para a Verdade inteira (cf. Jo 16, 13). Por fim, como se lê
nos Actos dos Apóstolos, o Espírito desce sobre os Doze reunidos em
oração com Maria no dia de Pentecostes (cf. 2, 1-4) e anima-os na missão de
anunciar a Boa Nova a todos os povos.[48]
Por conseguinte, a Palavra de Deus exprime-se em palavras humanas graças à obra
do Espírito Santo. A missão do Filho e a do Espírito Santo são inseparáveis e
constituem uma única economia da salvação. O mesmo Espírito, que actua na
encarnação do Verbo no seio da Virgem Maria, guia Jesus ao longo de toda a sua
missão e é prometido aos discípulos. O mesmo Espírito que falou por meio dos
profetas, sustenta e inspira a Igreja no dever de anunciar a Palavra de Deus e
na pregação dos Apóstolos; e, enfim, é este Espírito que inspira os autores das
Sagradas Escrituras.
16. Conscientes deste
horizonte pneumatológico, os Padres sinodais quiseram lembrar a importância da
acção do Espírito Santo na vida da Igreja e no coração dos fiéis relativamente
à Sagrada Escritura:[49] sem
a acção eficaz do «Espírito da Verdade» (Jo 14, 16), não se podem
compreender as palavras do Senhor. Como recorda ainda Santo Ireneu: «Aqueles
que não participam do Espírito não recebem do peito da sua mãe [a Igreja] o
alimento da vida; nada recebem da fonte mais pura que brota do corpo de
Cristo».[50] Tal
como a Palavra de Deus vem até nós no corpo de Cristo, no corpo eucarístico e
no corpo das Escrituras por meio do Espírito Santo, assim também só pode ser
acolhida e compreendida verdadeiramente graças ao mesmo Espírito.
Os grandes escritores da tradição cristã são unânimes ao considerar o papel do
Espírito Santo na relação que os fiéis devem ter com as Escrituras. São João
Crisóstomo afirma que a Escritura «tem necessidade da revelação do Espírito, a
fim de que, descobrindo o verdadeiro sentido das coisas que nela se encerram,
disso mesmo tiremos abundante proveito».[51] Também
São Jerónimo está firmemente convencido de que «não podemos chegar a
compreender a Escritura sem a ajuda do Espírito Santo que a inspirou».[52] Depois,
São Gregório Magno sublinha, de modo sugestivo, a obra do mesmo Espírito na
formação e na interpretação da Bíblia: «Ele mesmo criou as palavras dos
Testamentos Sagrados, Ele mesmo as desvendou».[53] Ricardo
de São Víctor recorda que são necessários «olhos de pomba», iluminados e
instruídos pelo Espírito, para compreender o texto sagrado.[54]
Desejaria ainda
sublinhar como é significativo o testemunho a respeito da relação entre o
Espírito Santo e a Escritura que encontramos nos textos litúrgicos, onde a
Palavra de Deus é proclamada, escutada e explicada aos fiéis. É o caso de
antigas orações que, em forma de epiclese, invocam o Espírito antes da
proclamação das leituras: «Mandai o vosso Espírito Santo Paráclito às nossas
almas e fazei-nos compreender as Escrituras por Ele inspiradas; e concedei-me
interpretá-las de maneira digna, para que os fiéis aqui reunidos delas tirem
proveito». De igual modo, encontramos orações que, no fim da homilia, novamente
invocam de Deus o dom do Espírito sobre os fiéis: «Deus salvador (…), nós Vos
pedimos por este povo: Mandai sobre ele o Espírito Santo; o Senhor Jesus venha
visitá-lo, fale à mente de todos e abra os corações à fé e conduza para Vós as
nossas almas, Deus das Misericórdias».[55] Por
tudo isto bem podemos compreender que não é possível alcançar o sentido da
Palavra, se não se acolhe a acção do Paráclito na Igreja e nos corações dos
fiéis.
Tradição e Escritura
17. Reafirmando o vínculo profundo entre o Espírito Santo e a Palavra de Deus,
lançamos também as bases para compreender o sentido e o valor decisivo da
Tradição viva e das Sagradas Escrituras na Igreja. De facto, uma vez que Deus
«amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único» (Jo 3,
16), a Palavra divina, pronunciada no tempo, deu-Se e «entregou-Se» à Igreja
definitivamente para que o anúncio da salvação possa ser eficazmente comunicado
em todos os tempos e lugares. Como nos recorda a Constituição dogmática Dei Verbum,
o próprio Jesus Cristo «mandou aos Apóstolos que pregassem a todos, como fonte
de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, o Evangelho
prometido antes pelos profetas e por Ele cumprido e promulgado pessoalmente,
comunicando-lhes assim os dons divinos. Isto foi realizado com fidelidade tanto
pelos Apóstolos que, na sua pregação oral, exemplos e instituições,
transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e
o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo, como por aqueles
Apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do Espírito Santo, escreveram
a mensagem da salvação».[56]
Além disso o Concílio
Vaticano II recorda que esta Tradição de origem apostólica é
realidade viva e dinâmica: ela «progride na Igreja sob a assistência do
Espírito Santo»; não no sentido de mudar na sua verdade, que é perene, mas
«progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas», com a
contemplação e o estudo, com a inteligência dada por uma experiência espiritual
mais profunda, e por meio da «pregação daqueles que, com a sucessão do
episcopado, receberam o carisma da verdade».[57]
A Tradição viva é essencial para que a Igreja, no tempo, possa crescer na compreensão
da verdade revelada nas Escrituras; de facto, «mediante a mesma Tradição,
conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada
Escritura entende-se nela mais profundamente e torna-se incessantemente
operante».[58] Em
última análise, é a Tradição viva da Igreja que nos faz compreender
adequadamente a Sagrada Escritura como Palavra de Deus. Embora o Verbo de Deus
preceda e exceda a Sagrada Escritura, todavia, enquanto inspirada por Deus,
esta contém a Palavra divina (cf. 2 Tm 3, 16) «de modo
totalmente singular».[59]
18. Disto conclui-se
como é importante que o Povo de Deus seja educado e formado claramente para se
abeirar das Sagradas Escrituras na sua relação com a Tradição viva da Igreja,
reconhecendo nelas a própria Palavra de Deus. É muito importante, do ponto de
vista da vida espiritual, fazer crescer esta atitude nos fiéis. A este respeito
pode ajudar a recordação de uma analogia desenvolvida pelos Padres da Igreja
entre o Verbo de Deus que Se faz «carne» e a Palavra que se faz «livro».[60] A
Constituição dogmática Dei Verbum,
ao recolher esta tradição antiga segundo a qual «o corpo do Filho é a Escritura
que nos foi transmitida» – como afirma Santo Ambrósio[61] –,
declara: «As palavras de Deus, com efeito, expressas por línguas humanas,
tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do
eterno Pai Se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana».[62] Vista
assim, a Sagrada Escritura, apesar da multiplicidade das suas formas e
conteúdos, aparece-nos como uma realidade unitária. De facto, «através de todas
as palavras da Sagrada Escritura, Deus não diz mais que uma só palavra, o seu
Verbo único, em quem totalmente Se diz (cf. Hb 1, 1-3)»,[63] como
claramente afirmava já Santo Agostinho: «Lembrai-vos de que o discurso de Deus
que se desenvolve em todas as Escrituras é um só, e um só é o Verbo que Se faz
ouvir na boca de todos os escritores sagrados».[64]
Em última análise, através da obra do Espírito Santo e sob a guia do
Magistério, a Igreja transmite a todas as gerações aquilo que foi revelado em
Cristo. A Igreja vive na certeza de que o seu Senhor, tendo falado outrora, não
cessa de comunicar hoje a sua Palavra na Tradição viva da Igreja e na Sagrada
Escritura. De facto, a Palavra de Deus dá-se a nós na Sagrada Escritura,
enquanto testemunho inspirado da revelação, que, juntamente com a Tradição viva
da Igreja, constitui a regra suprema da fé.[65]
Sagrada Escritura, inspiração
e verdade
19. Um conceito-chave
para receber o texto sagrado como Palavra de Deus em palavras humanas é, sem
dúvida, o de inspiração. Também aqui se pode sugerir uma analogia:
assim como o Verbo de Deus Se fez carne por obra do Espírito Santo no seio da
Virgem Maria, assim também a Sagrada Escritura nasce do seio da Igreja por obra
do mesmo Espírito. A Sagrada Escritura é «Palavra de Deus enquanto foi escrita
por inspiração do Espírito de Deus».[66] Deste
modo se reconhece toda a importância do autor humano que escreveu os textos
inspirados e, ao mesmo tempo, do próprio Deus como verdadeiro autor.
Daqui se vê com toda a clareza – lembraram os Padres sinodais – como o tema da
inspiração é decisivo para uma adequada abordagem das Escrituras e para a sua
correcta hermenêutica,[67] que
deve, por sua vez, ser feita no mesmo Espírito em que foi escrita.[68] Quando
esmorece em nós a consciência da inspiração, corre-se o risco de ler a
Escritura como objecto de curiosidade histórica e não como obra do Espírito
Santo, na qual podemos ouvir a própria voz do Senhor e conhecer a sua presença
na história.
Além disso, os Padres sinodais puseram em evidência como ligado com o tema da
inspiração esteja também o tema da verdade das Escrituras.[69] Por
isso, um aprofundamento da dinâmica da inspiração levará, sem dúvida, também a
uma maior compreensão da verdade contida nos livros sagrados. Como indica a
doutrina conciliar sobre o tema, os livros inspirados ensinam a verdade: «E
assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser
tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os
livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que
Deus, para nossa salvação, quis que fosse consi-gnada nas sagradas Letras. Por
isso, “toda a Escri-tura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para
corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito,
experimentado em todas as boas obras (2 Tm 3, 16-17 gr.)”».[70]
Não há dúvida que a reflexão teológica sempre considerou inspiração e verdade
como dois conceitos-chave para uma hermenêutica eclesial das Sagradas
Escrituras. No entanto, deve-se reconhecer a necessidade actual de um condigno
aprofundamento destas realidades, para se responder melhor às exigências
relativas à interpretação dos textos sagrados segundo a sua natureza. Nesta
perspectiva, desejo vivamente que a investigação possa avançar neste campo e dê
fruto para a ciência bíblica e para a vida espiritual dos fiéis.
Deus Pai, fonte e
origem da Palavra
20. A economia da revelação tem o seu início e a sua origem em Deus Pai. Pela
sua palavra «foram feitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os seus
exércitos» (Sl 33, 6). É Ele que faz resplandecer «o conhecimento
da glória de Deus, que se reflecte na face de Cristo» (2 Cor 4, 6;
cf. Mt 16, 17; L c 9, 29).
No Filho, «Logos feito
carne» (cf. Jo 1, 14), que veio para cumprir a vontade
d’Aquele que O enviou (cf. Jo 4, 34), Deus, fonte da
revelação, manifesta-Se como Pai e leva à perfeição a educação divina do homem,
já anteriormente animada pela palavra dos profetas e pelas maravilhas
realizadas na criação e na história do seu povo e de todos os homens. O apogeu
da revelação de Deus Pai é oferecido pelo Filho com o dom do Paráclito (cf. Jo 14,
16), Espírito do Pai e do Filho, que nos «guiará para a verdade total» (Jo 16,
13).
Deste modo, todas as
promessas de Deus se tornam «sim» em Jesus Cristo (cf. 2 Cor 1,
20). Abre-se assim, para o homem, a possibilidade de percorrer o caminho que o
conduz ao Pai (cf. Jo 14, 6), para que no fim «Deus seja tudo
em todos» (1 Cor 15, 28).
21. Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. O
silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa
decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no
madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-Lo lamentar: «Meu
Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mc 15, 34; Mt 27,
46). Avançando na obediência até ao último respiro, na obscuridade da morte,
Jesus invocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da
morte, para a vida eterna: «Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito» (L c 23,
46).
Esta experiência de
Jesus é sintomática da situação do homem que, depois de ter escutado e
reconhecido a Palavra de Deus, deve confrontar-se também com o seu silêncio. É
uma experiência vivida por muitos Santos e místicos, e que ainda hoje faz parte
do caminho de muitos fiéis. O silêncio de Deus prolonga as suas palavras
anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio.
Portanto, na dinâmica da revelação cristã, o silêncio aparece como uma
expressão importante da Palavra de Deus.
A resposta do homem a Deus que fala
Chamados a entrar na
Aliança com Deus
22. Ao sublinhar a pluralidade de formas da Palavra, pudemos ver através de
quantas modalidades Deus fala e vem ao encontro do homem, dando-Se a conhecer
no diálogo. É certo que o diálogo, como afirmaram os Padres sinodais, «quando
se refere à Revelação comporta o primado da Palavra de Deus
dirigida ao homem».[71] O
mistério da Aliança exprime esta relação entre Deus que chama através da sua
Palavra e o homem que responde, sabendo claramente que não se trata de um
encontro entre dois contraentes iguais; aquilo que designamos por Antiga e Nova
Aliança não é um acto de entendimento entre duas partes iguais, mas puro dom de
Deus. Por meio deste dom do seu amor, Ele, superando toda a distância,
torna--nos verdadeiramente seus «parceiros», de modo a realizar o mistério
nupcial do amor entre Cristo e a Igreja. Nesta perspectiva, todo o homem
aparece como o destinatário da Palavra, interpelado e chamado a entrar, por uma
resposta livre, em tal diálogo de amor. Assim Deus torna cada um de nós capaz
de escutar e responder à Palavra divina. O homem é criado na
Palavra e vive nela; e não se pode compreender a si mesmo, se não se abre a
este diálogo. A Palavra de Deus revela a natureza filial e relacional da nossa
vida. Por graça, somos verdadeiramente chamados a configurar-nos com Cristo, o
Filho do Pai, e a ser transformados n’Ele.
Deus escuta o homem e responde às suas perguntas
23. Neste diálogo com Deus, compreendemo-nos a nós mesmos e encontramos
resposta para as perguntas mais profundas que habitam no nosso coração. De
facto, a Palavra de Deus não se contrapõe ao homem, nem mortifica os seus
anseios verdadeiros; pelo contrário, ilumina-os, purifica-os e realiza-os. Como
é importante, para o nosso tempo, descobrir que só Deus responde à sede
que está no coração de cada homem! Infelizmente na nossa época, sobretudo
no Ocidente, difundiu-se a ideia de que Deus é alheio à vida e aos problemas do
homem; pior ainda, de que a sua presença pode até ser uma ameaça à autonomia
humana. Na realidade, toda a economia da salvação mostra-nos que Deus fala e
intervém na história a favor do homem e da sua salvação integral. Por conseguinte
é decisivo, do ponto de vista pastoral, apresentar a Palavra de Deus na sua
capacidade de dialogar com os problemas que o homem deve enfrentar na vida
diária. Jesus apresenta-Se-nos precisamente como Aquele que veio para que
pudéssemos ter a vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Por isso,
devemos fazer todo o esforço para mostrar a Palavra de Deus precisamente como
abertura aos próprios problemas, como resposta às próprias perguntas, uma
dilatação dos próprios valores e, conjuntamente, uma satisfação das próprias
aspirações. A pastoral da Igreja deve ilustrar claramente como Deus ouve a
necessidade do homem e o seu apelo. São Boaventura afirma no Breviloquium:
«O fruto da Sagrada Escritura não é um fruto qualquer, mas a plenitude da
felicidade eterna. De facto, a Sagrada Escritura é precisamente o livro no qual
estão escritas palavras de vida eterna, porque não só acreditamos mas também
possuímos a vida eterna, em que veremos, amaremos e serão realizados todos os
nossos desejos».[72]
Dialogar com Deus através das suas palavras
24. A Palavra divina introduz cada um de nós no diálogo com o Senhor: o Deus
que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele. Espontaneamente o pensamento
detém-se no Livro dos Salmos, onde Ele nos fornece as palavras com
que podemos dirigir-nos a Ele, levar a nossa vida para o colóquio com Ele,
transformando assim a própria vida num movimento para Deus.[73] De
facto, nos Salmos, encontramos articulada toda a gama de sentimentos que o homem
pode ter na sua própria existência e que são sapientemente colocados diante de
Deus; alegria e sofrimento, angústia e esperança, medo e perplexidade encontram
lá a sua expressão. E, juntamente com os Salmos, pensamos também em numerosos
textos da Sagrada Escritura que apresentam o homem a dirigir-se a Deus sob a
forma de oração de intercessão (cf. Ex 33, 12-16), de canto de
júbilo pela vitória (cf. Ex 15), ou de lamento no desempenho
da própria missão (cf. Jr 20, 7-18). Deste modo, a palavra que
o homem dirige a Deus torna-se também Palavra de Deus, como confirmação do
carácter dialógico de toda a revelação cristã,[74] e
a existência inteira do homem torna-se um diálogo com Deus que fala e escuta,
que chama e dinamiza a nossa vida. Aqui a Palavra de Deus revela que toda a
existência do homem está sob o chamamento divino.[75]
A Palavra de Deus e a fé
25. «A Deus que Se revela é devida “a obediência da fé” (Rm 16, 26;
cf. Rm 1, 5; 2 Cor 10, 5-6); pela fé, o homem
entrega-se total e livremente a Deus oferecendo a Deus revelador “o obséquio
pleno da inteligência e da vontade” e prestando voluntário assentimento à sua
revelação».[76] Com
estas palavras, a Constituição dogmática Dei Verbum exprimiu
de modo claro a atitude do homem diante de Deus. A resposta própria do
homem a Deus, que fala, é a fé. Isto coloca em evidência que, «para acolher
a Revelação, o homem deve abrir a mente e o coração à acção do Espírito Santo
que lhe faz compreender a Palavra de Deus presente nas Sagradas Escrituras».[77] De
facto, é precisamente a pregação da Palavra divina que faz surgir a fé, pela
qual aderimos de coração à verdade que nos foi revelada e entregamos todo o
nosso ser a Cristo: «A fé vem da pregação, e a pregação pela palavra de Cristo»
(Rm 10, 17). Toda a história da salvação nos mostra progressivamente
esta ligação íntima entre a Palavra de Deus e a fé que se realiza no encontro
com Cristo. De facto, com Ele a fé toma a forma de encontro com uma Pessoa à
qual se confia a própria vida. Cristo Jesus continua hoje presente, na
história, no seu corpo que é a Igreja; por isso, o acto da nossa fé é um acto
simultaneamente pessoal e eclesial.
O pecado como não escuta da Palavra de Deus
26. A Palavra de Deus revela inevitavelmente também a dramática possibilidade
que tem a liberdade do homem de subtrair-se a este diálogo de aliança com Deus,
para o qual fomos criados. De facto, a Palavra divina desvenda também o pecado
que habita no coração do homem. Muitas vezes encontramos, tanto no Antigo como
no Novo Testamento, a descrição do pecado como não escuta da Palavra,
como ruptura da Aliança e, consequentemente, como fechar-se a
Deus que chama à comunhão com Ele.[78] Com
efeito, a Sagrada Escritura mostra-nos como o pecado do homem é essencialmente
desobediência e «não escuta». Precisamente a obediência radical de Jesus até à
morte de Cruz (cf. Fl 2, 8) desmascara totalmente este pecado.
Na sua obediência, realiza-se a Nova Aliança entre Deus e o homem e é-nos
concedida a possibilidade da reconciliação. De facto, Jesus foi mandado pelo
Pai como vítima de expiação pelos nossos pecados e pelos do mundo inteiro
(cf. 1 Jo 2, 2; 4, 10; Hb 7, 27). Assim,
é-nos oferecida misericordiosamente a possibilidade da redenção e o início de
uma vida nova em Cristo. Por isso, é importante que os fiéis sejam educados a
reconhecer a raiz do pecado na não escuta da Palavra do Senhor e a acolher em
Jesus, Verbo de Deus, o perdão que nos abre à salvação.
Maria «Mater Verbi Dei» e «Mater fidei»
27. Os Padres sinodais declararam que o objectivo fundamental da XII Assembleia foi
«renovar a fé da Igreja na Palavra de Deus»; por isso é necessário olhar para
uma pessoa em Quem a reciprocidade entre Palavra de Deus e fé foi perfeita, ou
seja, para a Virgem Maria, «que, com o seu sim à Palavra da Aliança e à sua
missão, realiza perfeitamente a vocação divina da humanidade».[79] A
realidade humana, criada por meio do Verbo, encontra a sua figura perfeita
precisamente na fé obediente de Maria. Desde a Anunciação ao Pentecostes,
vemo-La como mulher totalmente disponível à vontade de Deus. É a Imaculada
Conceição, Aquela que é «cheia de graça» de Deus (cf. L c 1,
28), incondicionalmente dócil à Palavra divina (cf. L c 1,
38). A sua fé obediente face à iniciativa de Deus plasma cada instante da sua
vida. Virgem à escuta, vive em plena sintonia com a Palavra divina; conserva no
seu coração os acontecimentos do seu Filho, compondo-os por assim dizer num
único mosaico (cf. L c 2, 19.51).[80]
No nosso tempo, é preciso que os fiéis sejam ajudados a descobrir melhor a
ligação entre Maria de Nazaré e a escuta crente da Palavra divina. Exorto
também os estudiosos a aprofundarem ainda mais a relação entre mariologia
e teologia da Palavra. Daí poderá vir grande benefício tanto para a vida
espiritual como para os estudos teológicos e bíblicos. De facto, quando a
inteligência da fé olha um tema à luz de Maria, coloca-se no centro mais íntimo
da verdade cristã. Na realidade, a encarnação do Verbo não pode ser pensada
prescindindo da liberdade desta jovem mulher que, com o seu assentimento,
coopera de modo decisivo para a entrada do Eterno no tempo. Ela é a figura da
Igreja à escuta da Palavra de Deus que nela Se fez carne. Maria é também
símbolo da abertura a Deus e aos outros; escuta activa, que interioriza,
assimila, na qual a Palavra se torna forma de vida.
28. Nesta ocasião, desejo chamar a atenção para a familiaridade de Maria com a
Palavra de Deus. Isto transparece com particular vigor no Magnificat.
Aqui, em certa medida, vê-se como Ela Se identifica com a Palavra, e nela
entra; neste maravilhoso cântico de fé, a Virgem exalta o Senhor com a sua
própria Palavra: «O Magnificat – um retrato, por assim dizer,
da sua alma – é inteiramente tecido de fios da Sagrada Escritura, com fios
tirados da Palavra de Deus. Desta maneira se manifesta que Ela Se sente
verdadeiramente em casa na Palavra de Deus, dela sai e a ela volta com
naturalidade. Fala e pensa com a Palavra de Deus; esta torna-se Palavra d’Ela,
e a sua palavra nasce da Palavra de Deus. Além disso, fica assim patente que os
seus pensamentos estão em sintonia com os de Deus, que o d’Ela é um querer
juntamente com Deus. Vivendo intimamente permeada pela Palavra de Deus, Ela
pôde tornar-Se mãe da Palavra encarnada».[81]
Além disso, a referência à Mãe de Deus mostra-nos como o agir de Deus no mundo
envolve sempre a nossa liberdade, porque, na fé, a Palavra divina
transforma-nos. Também a nossa acção apostólica e pastoral não poderá jamais
ser eficaz, se não aprendermos de Maria a deixar-nos plasmar pela acção de Deus
em nós: «A atenção devota e amorosa à figura de Maria, como modelo e arquétipo
da fé da Igreja, é de importância capital para efectuar também nos nossos dias
uma mudança concreta de paradigma na relação da Igreja com a Palavra, tanto na
atitude de escuta orante como na generosidade do compromisso em prol da missão
e do anúncio».[82]
Contemplando na Mãe de Deus uma vida modelada totalmente pela Palavra,
descobrimo-nos também nós chamados a entrar no mistério da fé, pela qual Cristo
vem habitar na nossa vida. Como nos recorda Santo Ambrósio, cada cristão que
crê, em certo sentido, concebe e gera em si mesmo o Verbo de Deus: se há uma só
Mãe de Cristo segundo a carne, segundo a fé, porém, Cristo é o fruto de todos.[83] Portanto,
o que aconteceu em Maria pode voltar a acontecer em cada um de nós diariamente
na escuta da Palavra e na celebração dos Sacramentos.
A hermenêutica da
Sagrada Escritura na Igreja
A Igreja, lugar originário da hermenêutica da Bíblia
29. Outro grande tema surgido durante o Sínodo, sobre o qual quero debruçar-me
agora, é a interpretação da Sagrada Escritura na Igreja. E
precisamente a ligação intrínseca entre Palavra e fé põe em evidência que a
autêntica hermenêutica da Bíblia só pode ser feita na fé eclesial, que tem o
seu paradigma no sim de Maria. A este respeito, São Boaventura afirma que, sem
a fé, não há chave de acesso ao texto sagrado: «Esta é o conhecimento de Jesus
Cristo, do qual têm origem, como de uma fonte, a segurança e a inteligência de
toda a Sagrada Escritura. Por isso é impossível que alguém possa entrar para a
conhecer, se antes não tiver a fé infusa de Cristo que é lanterna, porta e
também fundamento de toda a Escritura».[84] E
São Tomás de Aquino, mencionando Santo Agostinho, insiste vigorosamente: «A
letra do Evangelho também mata, se faltar a graça interior da fé que cura».[85]
Isto permite-nos assinalar um critério fundamental da hermenêutica
bíblica: o lugar originário da interpretação da Escritura é a vida da
Igreja. Esta afirmação não indica a referência eclesial como um critério
extrínseco ao qual se devem submeter os exegetas, mas é uma exigência da
própria realidade das Escrituras e do modo como se formaram ao longo do tempo.
De facto, «as tradições de fé formavam o ambiente vital onde se inseriu a
actividade literária dos autores da Sagrada Escritura. Esta inserção englobava
também a participação na vida litúrgica e na actividade externa das
comunidades, no seu mundo espiritual, na sua cultura e nas vicissitudes do seu
destino histórico. Por isso, de modo semelhante, a interpretação da Sagrada
Escritura exige a participação dos exegetas em toda a vida e em toda a fé da
comunidade crente do seu tempo».[86] Por
conseguinte, «devendo a Sagrada Escritura ser lida e interpretada com o mesmo
Espírito com que foi escrita»,[87] é
preciso que os exegetas, os teólogos e todo o Povo de Deus se abeirem dela por
aquilo que realmente é: como Palavra de Deus que Se nos comunica através de
palavras humanas (cf. 1 Ts 2, 13). Trata-se de um dado
constante e implícito na própria Bíblia: «Nenhuma profecia da Escritura é de
interpretação particular, porque jamais uma profecia foi proferida pela vontade
dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo é que os homens santos falaram em
nome de Deus» (2 Pd 1, 20-21). Aliás, é precisamente a fé da Igreja
que reconhece na Bíblia a Palavra de Deus; como admiravelmente diz Santo
Agostinho, «não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade
da Igreja Católica».[88] O
Espírito Santo, que anima a vida da Igreja, é que torna capaz de interpretar autenticamente
as Escrituras. A Bíblia é o livro da Igreja e, a partir da imanência dela na
vida eclesial, brota também a sua verdadeira hermenêutica.
30. São Jerónimo recorda que, sozinhos, nunca poderemos ler a Escritura.
Encontramos demasiadas portas fechadas e caímos facilmente em erro. A Bíblia
foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do
Espírito Santo. Somente com o «nós», isto é, nesta comunhão com o Povo de Deus,
podemos realmente entrar no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer
dizer.[89] Aquele
grande estudioso, para quem «a ignorância das Escrituras é ignorância de
Cristo»,[90] afirma
que o carácter eclesial da interpretação bíblica não é uma exigência imposta do
exterior; o Livro é precisamente a voz do Povo de Deus peregrino, e só na fé
deste Povo é que estamos, por assim dizer, na tonalidade justa para compreender
a Sagrada Escritura. Uma autêntica interpretação da Bíblia deve estar sempre em
harmónica concordância com a fé da Igreja Católica. Jerónimo escrevia assim a
um sacerdote: «Permanece firmemente apegado à doutrina tradicional que te foi
ensinada, para que possas exortar segundo a sã doutrina e rebater aqueles que a
contradizem».[91]
Abordagens do texto sagrado que prescindam da fé podem sugerir elementos
interessantes ao deterem-se sobre a estrutura do texto e as suas formas;
inevitavelmente, porém, tal tentativa seria apenas preliminar e estruturalmente
incompleta. De facto, como foi afirmado pela Pontifícia Comissão Bíblica,
repercutindo um princípio compartilhado na hermenêutica moderna, «o justo conhecimento
do texto bíblico só é acessível a quem tem uma afinidade vital com aquilo de
que fala o texto».[92] Tudo
isto põe em relevo a relação entre a vida espiritual e a hermenêutica da
Escritura. De facto, «com o crescimento da vida no Espírito, cresce também no
leitor a compreensão das realidades de que fala o texto bíblico».[93] Uma
intensa e verdadeira experiência eclesial não pode deixar de incrementar a
inteligência da fé autêntica a respeito da Palavra de Deus; e, vice-versa, a
leitura na fé das Escrituras faz crescer a própria vida eclesial. Daqui podemos
compreender de um modo novo a conhecida afirmação de São Gregório Magno: «As
palavras divinas crescem juntamente com quem as lê».[94] Assim,
a escuta da Palavra de Deus introduz e incrementa a comunhão eclesial com todos
os que caminham na fé.
«A alma da sagrada teologia»
31. «O estudo destes sagrados livros deve ser como que a alma da sagrada
teologia»:[95] esta
afirmação da Constituição dogmática Dei Verbum foi-se-nos
tornando ao longo destes anos cada vez mais familiar. Podemos dizer que o
período sucessivo ao Concílio
Vaticano II, no que se refere aos estudos teológicos e exegéticos,
citou frequentemente esta frase como símbolo do renovado interesse pela Sagrada
Escritura. Também a XII Assembleia
do Sínodo dos Bispos se referiu várias vezes a esta conhecida
afirmação, para indicar a relação entre investigação histórica e hermenêutica
da fé aplicadas ao texto sagrado. Nesta perspectiva, os Padres reconheceram,
com alegria, o crescimento do estudo da Palavra de Deus na Igreja ao longo dos
últimos decénios e exprimiram um vivo agradecimento aos numerosos
exegetas e teólogos que, com a sua dedicação, empenho e competência,
deram e ainda dão uma contribuição essencial para o aprofundamento do sentido
das Escrituras, enfrentando os problemas complexos que o nosso tempo coloca à
investigação bíblica.[96] Expressaram
sentimentos de sincera gratidão também aos membros da Pontifícia
Comissão Bíblica que se sucederam nestes últimos anos e
que, em estreita relação com a Congregação para a Doutrina da Fé, continuam a
dar o seu qualificado contributo para enfrentar questões peculiares inerentes
ao estudo da Sagrada Escritura. Além disso, o Sínodo sentiu a necessidade de se
interrogar sobre o estado dos estudos bíblicos actuais e sobre a sua relevância
no âmbito teológico. De facto, da relação fecunda entre exegese e teologia
depende, em grande parte, a eficácia pastoral da acção da Igreja e da vida
espiritual dos fiéis. Por isso, considero importante retomar algumas reflexões
surgidas no debate havido sobre este tema nos trabalhos do Sínodo.
Desenvolvimento da investigação bíblica e Magistério eclesial
32. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer os benefícios que a exegese
histórico-crítica e os outros métodos de análise do texto, desenvolvidos em
tempos mais recentes, trouxeram para a vida da Igreja.[97] Segundo
a visão católica da Sagrada Escritura, a atenção a estes métodos é
imprescindível e está ligada ao realismo da encarnação: «Esta necessidade é a
consequência do princípio cristão formulado no Evangelho de João 1, 14: Verbum
caro factum est. O facto histórico é uma dimensão constitutiva da fé
cristã. A história da salvação não é uma mitologia, mas uma verdadeira história
e, por isso, deve-se estudar com os métodos de uma investigação histórica
séria».[98] Por
isso, o estudo da Bíblia exige o conhecimento e o uso apropriado destes métodos
de pesquisa. Se é verdade que esta sensibilidade no âmbito dos estudos se
desenvolveu mais intensamente na época moderna, embora não de igual modo por
toda a parte, todavia na sã tradição eclesial sempre houve amor pelo estudo da
«letra». Basta recordar aqui a cultura monástica, à qual em última análise
devemos o fundamento da cultura europeia: na sua raiz, está o interesse pela
palavra. O desejo de Deus inclui o amor pela palavra em todas as suas
dimensões: «Visto que, na Palavra bíblica, Deus caminha para nós e nós para
Ele, é preciso aprender a penetrar no segredo da língua, compreendê--la na sua
estrutura e no seu modo de se exprimir. Assim, devido precisamente à procura de
Deus, tornam-se importantes as ciências profanas que nos indicam as vias rumo à
língua».[99]
33. O Magistério vivo da Igreja, ao qual compete «o encargo de interpretar
autenticamente a Palavra de Deus escrita ou contida na Tradição»,[100] interveio
com sapiente equilíbrio relativamente à justa posição a tomar face à introdução
dos novos métodos de análise histórica. Refiro-me, de modo particular, às
encíclicas Providentissimus
Deus do Papa Leão XIII e Divino afflante
Spiritu do Papa Pio XII. O meu
venerável predecessor João Paulo II recordou
a importância destes documentos para a exegese e a teologia, por ocasião da
celebração do centenário e cinquentenário respectivamente da sua publicação.[101] A
intervenção do Papa Leão XIII teve
o mérito de proteger a interpretação católica da Bíblia dos ataques do
racionalismo, sem contudo se refugiar num sentido espiritual separado da
história. Não desprezava a crítica científica; desconfiava-se somente «das
opiniões preconcebidas que pretendem fundar-se sobre a ciência mas, na
realidade, fazem astuciosamente sair a ciência do seu campo».[102] Por
sua vez, o Papa Pio XII encontrava-se
perante os ataques dos adeptos duma exegese chamada mística, que recusava
qualquer abordagem científica. Com grande sensibilidade, a Encíclica Divino afflante
Spiritu evitou que se desenvolvesse a ideia de uma
dicotomia entre a «exegese científica» para o uso apologético e a
«interpretação espiritual reservada ao uso interno», afirmando, pelo contrário,
quer o «alcance teológico do sentido literal metodicamente definido», quer a
pertença da «determinação do sentido espiritual (…) ao campo da ciência
exegética».[103] De
tal modo ambos os documentos recusam «a ruptura entre o humano e o divino,
entre a pesquisa científica e a visão da fé, entre o sentido literal e o
sentido espiritual».[104] Este
equilíbrio foi, sucessivamente, expresso no documento de 1993 da Pontifícia
Comissão Bíblica: «No seu trabalho de interpretação, os exegetas católicos
jamais devem esquecer que interpretam a Palavra de Deus. A sua tarefa não
termina depois que distinguiram as fontes, definiram as formas ou explicaram os
processos literários. O objectivo do seu trabalho só está alcançado quando
tiverem esclarecido o significado do texto bíblico como Palavra actual de
Deus».[105]
A hermenêutica bíblica conciliar: uma indicação a acolher
34. A partir deste horizonte, podem-se apreciar melhor os grandes princípios da
interpretação próprios da exegese católica expressos pelo Concílio
Vaticano II, particularmente na Constituição dogmática Dei Verbum:
«Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira
humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis
comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente
quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas
palavras».[106] O
Concílio, por um lado, sublinha, como elementos fundamentais para identificar o
significado pretendido pelo hagiógrafo, o estudo dos géneros literários e a
contextualização; por outro, devendo a Escritura ser interpretada no mesmo
Espírito em que foi escrita, a Constituição dogmática indica três critérios de
base para se respeitar a dimensão divina da Bíblia: 1) interpretar o texto
tendo presente a unidade de toda a Escritura; isto hoje chama-se
exegese canónica; 2) ter presente a Tradição viva de toda a Igreja;
3) observar a analogia da fé. «Somente quando se observam os dois
níveis metodológicos, histórico-crítico e teológico, é que se pode falar de uma
exegese teológica, de uma exegese adequada a este Livro».[107]
Os Padres sinodais afirmaram, justamente, que o fruto positivo produzido pelo
uso da investigação histórico-crítica moderna é inegável. Mas, enquanto a exegese
académica actual, mesmo católica, trabalha a alto nível no que se refere à
metodologia histórico-crítica, incluindo as suas mais recentes integrações, é
forçoso exigir um estudo análogo da dimensão teológica dos textos bíblicos,
para que progrida o aprofundamento segundo os três elementos indicados pela
Constituição dogmática Dei Verbum.[108]
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada
35. A este propósito, é preciso sublinhar hoje o grave risco de um dualismo que
se gera ao abordar as Sagradas Escrituras. De facto, distinguindo os dois
níveis da abordagem bíblica, não se pretende de modo algum separá-los,
contrapô-los, ou simplesmente justapô-los. Só funcionam em reciprocidade.
Infelizmente, não raro uma infrutífera separação dos mesmos leva a exegese e a
teologia a comportarem-se como estranhas; e isto «acontece mesmo aos níveis
académicos mais altos».[109] Desejo
aqui lembrar as consequências mais preocupantes que se devem evitar.
a) Antes de mais nada, se a actividade exegética se reduz só ao primeiro
nível, consequentemente a própria Escritura torna-se um texto só do
passado: «Daí podem-se tirar consequências morais, pode-se aprender a
história, mas o Livro como tal fala só do passado e a exegese já não é
realmente teológica, mas torna-se pura historiografia, história da literatura».[110] É
claro que, numa tal redução, não é possível de modo algum compreender o
acontecimento da revelação de Deus através da sua Palavra que nos é transmitida
na Tradição viva e na Escritura.
b) A falta de uma
hermenêutica da fé na abordagem da Escritura não se apresenta apenas em termos
de uma ausência; o seu lugar acaba inevitavelmente ocupado por outra
hermenêutica, uma hermenêutica secularizada, positivista, cuja
chave fundamental é a convicção de que o Divino não aparece na história humana.
Segundo esta hermenêutica, quando parecer que há um elemento divino, isso
deve-se explicar de outro modo, reduzindo tudo ao elemento humano. Consequentemente
propõem-se interpretações que negam a historicidade dos elementos divinos.[111]
c) Uma tal posição não pode deixar de danificar a vida da Igreja,
fazendo surgir dúvidas sobre mistérios fundamentais do cristianismo e sobre o
seu valor histórico, como, por exemplo, a instituição da Eucaristia e a
ressurreição de Cristo. De facto, assim impõe-se uma hermenêutica filosófica,
que nega a possibilidade de ingresso e presença do Divino na história. A
assunção de tal hermenêutica no âmbito dos estudos teológicos introduz,
inevitavelmente, um gravoso dualismo entre a exegese, que se situa unicamente
no primeiro nível, e a teologia que leva a uma espiritualização do sentido das
Escrituras não respeitadora do carácter histórico da revelação.
Tudo isto não pode
deixar de resultar negativo também para a vida espiritual e a actividade
pastoral; «a consequência da ausência do segundo nível metodológico é que se
criou um fosso profundo entre exegese científica e lectio divina. E
precisamente daqui nasce às vezes uma forma de perplexidade na própria
preparação das homilias».[112] Além
disso, há que assinalar que tal dualismo produz às vezes incerteza e pouca
solidez no caminho de formação intelectual mesmo de alguns candidatos aos
ministérios eclesiais.[113] Enfim,
«onde a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia e,
vice-versa, onde a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na
Igreja, esta teologia já não tem fundamento».[114] Portanto,
é necessário voltar decididamente a considerar com mais atenção as indicações
dadas pela Constituição dogmática Dei Verbum a
este propósito.
Fé e razão na abordagem da Escritura
36. Creio que pode contribuir para uma compreensão mais completa da exegese e,
consequentemente, da sua relação com a teologia inteira aquilo que escreveu
o João Paulo II na
Encíclica Fides et ratio a
este respeito. Afirmava ele que não se deve subestimar «o perigo que existe
quando se quer individuar a verdade da Sagrada Escritura com a aplicação de uma
única metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese mais ampla que
permita o acesso, em união com toda a Igreja, ao sentido pleno dos textos. Os
que se dedicam ao estudo da Sagrada Escritura nunca devem esquecer que as
diversas metodologias hermenêuticas têm também na sua base uma concepção
filosófica: é preciso examiná-las com grande discernimento, antes de as
aplicar aos textos sagrados».[115]
Esta clarividente
reflexão permite-nos ver como, na abordagem hermenêutica da Sagrada Escritura,
está em jogo inevitavelmente a relação correcta entre fé e razão. De facto, a
hermenêutica secularizada da Sagrada Escritura é actuada por uma razão que quer
estruturalmente fechar-se à possibilidade de Deus entrar na vida dos homens e
falar aos homens com palavras humanas. Por isso é necessário, também neste
caso, convidar a alargar os espaços da própria racionalidade.[116] Na
utilização dos métodos de análise histórica, dever-se-á evitar de assumir,
sempre que aparecem, critérios que preconceituosamente se fechem à revelação de
Deus na vida dos homens. A unidade dos dois níveis do trabalho interpretativo
da Sagrada Escritura pressupõe, em última análise, uma harmonia entre a
fé e a razão. Por um lado, é necessária uma fé que, mantendo uma adequada
relação com a recta razão, nunca degenere em fideísmo, que se tornaria, a
respeito da Escritura, fautor de leituras fundamentalistas. Por outro, é
necessária uma razão que, investigando os elementos históricos presentes na
Bíblia, se mostre aberta e não recuse aprioristicamente tudo o que excede a
própria medida. Aliás, a religião do Logos encarnado não
poderá deixar de apresentar-se profundamente razoável ao homem que sinceramente
procura a verdade e o sentido último da própria vida e da história.
Sentido literal e sentido espiritual
37. Como foi afirmado na assembleia sinodal, um significativo contributo para a
recuperação de uma adequada hermenêutica da Escritura provém de uma renovada
escuta dos Padres da Igreja e da sua abordagem exegética.[117] Com
efeito, os Padres da Igreja oferecem-nos, ainda hoje, uma teologia de grande
valor, porque no centro está o estudo da Sagrada Escritura na sua integridade.
De facto, os Padres são primária e essencialmente «comentadores da Sagrada
Escritura».[118] O
seu exemplo pode «ensinar aos exegetas modernos uma abordagem verdadeiramente
religiosa da Sagrada Escritura, e também uma interpretação que se atém
constantemente ao critério de comunhão com a experiência da Igreja, que caminha
através da história sob a guia do Espírito Santo».[119]
Apesar de não conhecer, obviamente, os recursos de ordem filológica e histórica
à disposição da exegese moderna, a tradição patrística e medieval sabia
reconhecer os vários sentidos da Escritura, a começar pelo literal, isto é, «o
expresso pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese segundo as
regras da recta interpretação».[120] Por
exemplo, São Tomás de Aquino afirma: «Todos os sentidos da Sagrada Escritura se
fundamentam no literal».[121] É
preciso, porém, recordar-se de que, no período patrístico e medieval, toda a
forma de exegese, incluindo a literal, era feita com base na fé, não havendo
necessariamente distinção entre sentido literal e sentido
espiritual. A propósito, recorde-se o dístico clássico que traduz a relação
entre os diversos sentidos da Escritura:
«Littera gesta
docet, quid credas allegoria,
Moralis quid agas,
quo tendas anagogia.
Moralis quid agas,
quo tendas anagogia.
A letra ensina-te os
factos [passados], a alegoria o que deves crer,
A moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender».[122]
Sobressai aqui a
unidade e a articulação entre sentido literal e sentido espiritual,
o qual, por sua vez, se subdivide em três sentidos que descrevem os conteúdos
da fé, da moral e da tensão escatológica.
Em suma, reconhecendo
o valor e a necessidade – apesar dos seus limites – do método
histórico-crítico, pela exegese patrística, aprendemos que «só se é fiel à
intencionalidade dos textos bíblicos na medida em que se procura encontrar, no
coração da sua formulação, a realidade de fé que os mesmos exprimem e em que se
liga esta realidade com a experiência crente do nosso mundo».[123] Somente
nesta perspectiva se pode reconhecer que a Palavra de Deus é viva e se dirige a
cada um de nós no momento presente da nossa vida. Continua assim plenamente
válida a afirmação da Pontifícia Comissão Bíblica que define o sentido
espiritual, segundo a fé cristã, como «o sentido expresso pelos textos bíblicos
quando são lidos sob o influxo do Espírito Santo no contexto do mistério pascal
de Cristo e da vida nova que dele resulta. Este contexto existe efectivamente.
O Novo Testamento reconhece nele o cumprimento das Escrituras. Por isso, é
normal reler as Escrituras à luz deste novo contexto, o da vida no Espírito».[124]
A necessária superação da «letra»
38. Para se recuperar a articulação entre os diversos sentidos da Escritura,
torna-se então decisivo identificar a passagem entre letra e espírito.
Não se trata de uma passagem automática e espontânea; antes, é preciso
transcender a letra: «de facto, a Palavra do próprio Deus nunca se apresenta na
simples literalidade do texto. Para alcançá-la, é preciso transcender a
literalidade num processo de compreensão, que se deixa guiar pelo movimento
interior do conjunto e, portanto, deve tornar-se também um processo de vida».[125] Descobrimos
assim o motivo por que um autêntico processo interpretativo nunca é apenas
intelectual, mas também vital, que requer o pleno envolvimento na vida eclesial
enquanto vida «segundo o Espírito» (Gl 5, 16). Deste modo tornam-se
mais claros os critérios evidenciados pelo número 12 da Constituição
dogmática Dei Verbum:
a referida superação não pode verificar-se no fragmento literário individual
mas em relação com a totalidade da Escritura. De facto, é uma única Palavra
aquela para a qual somos chamados a transcender. Este processo possui uma
íntima dramaticidade, porque, no processo de superação, a passagem que acontece
em virtude do Espírito tem inevitavelmente a ver também com a liberdade de cada
um. São Paulo viveu plenamente na sua própria vida esta passagem. O que
significa transcender a letra e a sua compreensão unicamente a partir do conjunto,
expressou-o ele de modo radical nesta frase: «A letra mata, mas o Espírito
vivifica» (2 Cor 3, 6). São Paulo descobre que «o Espírito
libertador tem um nome e que a liberdade tem, consequentemente, uma medida
interior: “O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade”
(2 Cor 3, 17). O Espírito libertador não é simplesmente a própria
ideia, a visão pessoal de quem interpreta. O Espírito é Cristo, e Cristo é o
Senhor que nos indica a estrada».[126] Sabemos
como esta passagem foi dramática e simultaneamente libertadora em Santo
Agostinho; ele acreditou nas Escrituras, que antes se lhe apresentavam muito
diversificadas em si mesmas e às vezes indelicadas, precisamente por esta
superação que aprendeu de Santo Ambrósio mediante a interpretação tipológica,
segundo a qual todo o Antigo Testamento é um caminho para Jesus Cristo. Para Santo
Agostinho, transcender a letra tornou credível a própria letra e permitiu-lhe
encontrar finalmente a resposta às profundas inquietações do seu espírito,
sedento da verdade.[127]
A unidade intrínseca da Bíblia
39. Na escola da grande tradição da Igreja, aprendemos na passagem da letra ao
espírito a identificar também a unidade de toda a Escritura, pois única é a
Palavra de Deus que interpela a nossa vida, chamando-a constantemente à
conversão.[128] Continuam
a ser para nós uma guia segura as expressões de Hugo de São Víctor: «Toda a
Escritura divina constitui um único livro e este único livro é Cristo, fala de
Cristo e encontra em Cristo a sua realização».[129] É
certo que a Bíblia, vista sob o aspecto puramente histórico ou literário, não é
simplesmente um livro, mas uma colectânea de textos literários, cuja redacção
se estende por mais de um milénio e cujos diversos livros não são facilmente
reconhecíveis como partes duma unidade interior; antes, há tensões palpáveis
entre eles. Se isto já se verifica no interior da Bíblia de Israel, que nós,
cristãos, chamamos Antigo Testamento, muito mais quando nós, como cristãos,
ligamos o Novo Testamento e os seus escritos – como se fosse a chave
hermenêutica – com a Bíblia de Israel interpretando-a como caminho para Cristo.
No Novo Testamento, aparece menos a expressão «a Escritura» (cf. Rm 4,
3; 1 Pd 1, 6), do que «as Escrituras» (cf. Mt 21,
43; Jo 5, 39; Rm 1, 2; 2 Pd 3,
16), que porém, no seu conjunto, são depois consideradas como a única Palavra
de Deus dirigida a nós.[130] Por
isso se vê claramente como é a pessoa de Cristo que dá unidade a todas as
«Escrituras» postas em relação com a única «Palavra». Compreende-se assim a
afirmação do número 12 da Constituição dogmática Dei Verbum,
quando indica a unidade interna de toda a Bíblia como critério decisivo para
uma correcta hermenêutica da fé.
A relação entre Antigo e Novo Testamento
40. Na perspectiva da unidade das Escrituras em Cristo, tanto os teólogos como
os pastores necessitam de estar conscientes das relações entre o Antigo e o
Novo Testamento. Em primeiro lugar, é evidente que o próprio Novo
Testamento reconhece o Antigo Testamento como Palavra de Deus e, por
conseguinte, admite a autoridade das Sagradas Escrituras do povo judeu.[131] Reconhece-as
implicitamente, quando usa a mesma linguagem e frequentemente alude a trechos
destas Escrituras; reconhece-as explicitamente, porque cita muitas partes
servindo-se delas para argumentar. Uma argumentação baseada nos textos do
Antigo Testamento reveste-se assim, no Novo Testamento, de um valor decisivo,
superior ao de raciocínios simplesmente humanos. No quarto Evangelho, a este
propósito Jesus declara que «a Escritura não pode ser anulada» (Jo 10,
35) e São Paulo especifica de modo particular que a revelação do Antigo
Testamento continua a valer para nós, cristãos (cf. Rm 15,
4; 1 Cor 10, 11).[132] Além
disso, afirmamos que «Jesus de Nazaré foi um judeu e a Terra Santa é terra-mãe
da Igreja»;[133] a
raiz do cristianismo encontra-se no Antigo Testamento e sempre se nutre desta
raiz. Por isso a sã doutrina cristã sempre recusou qualquer forma emergente de
marcionismo, que tende de diversos modos a contrapor entre si o Antigo e o Novo
Testamento.[134]
Além disso, o próprio Novo Testamento se diz em conformidade com o Antigo e
proclama que, no mistério da vida, morte e ressurreição de Cristo, encontraram
o seu perfeito cumprimento as Escrituras Sagradas do povo judeu. Mas é preciso
notar que o conceito de cumprimento das Escrituras é complexo, porque comporta
uma tríplice dimensão: um aspecto fundamental de continuidade com
a revelação do Antigo Testamento, um aspecto de ruptura e um
aspecto de cumprimento e superação. O mistério de Cristo está em
continuidade de intenção com o culto sacrificial do Antigo Testamento; mas
realizou-se de um modo muito diferente, que corresponde a muitos oráculos dos
profetas, e alcançou assim uma perfeição nunca antes obtida. De facto, o Antigo
Testamento está cheio de tensões entre os seus aspectos institucionais e os
seus aspectos proféticos. O mistério pascal de Cristo está plenamente de acordo
– embora de uma forma que era imprevisível – com as profecias e o aspecto
prefigurativo das Escrituras; mas apresenta evidentes aspectos de
descontinuidade relativamente às instituições do Antigo Testamento.
41. Estas considerações mostram assim a importância insubstituível do Antigo
Testamento para os cristãos, mas ao mesmo tempo evidenciam a
originalidade da leitura cristológica. Desde os tempos apostólicos e
depois na Tradição viva, a Igreja deixou clara a unidade do plano divino nos
dois Testamentos graças à tipologia, que não tem carácter arbitrário mas é
intrínseca aos acontecimentos narrados pelo texto sagrado e, por conseguinte,
diz respeito a toda a Escritura. A tipologia «descobre nas obras de Deus, na
Antiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou, na plenitude dos
tempos, na pessoa do seu Filho encarnado».[135] Por
isso os cristãos lêem o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado.
Se a leitura tipológica revela o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento
relativamente ao Novo, não deve todavia fazer-nos esquecer que aquele mantém o
seu próprio valor de Revelação que Nosso Senhor veio reafirmar (cf. Mc 12,
29-31). Por isso «também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo. A
catequese cristã primitiva recorreu constantemente a este método (cf. 1
Cor 5, 6-8; 10, 1-11)».[136] Por
este motivo, os Padres sinodais afirmaram que «a compreensão judaica da Bíblia
pode ajudar a inteligência e o estudo das Escrituras por parte dos cristãos».[137]
Assim se exprimia, com aguda sabedoria, Santo Agostinho sobre este tema: «O
Novo Testamento está oculto no Antigo e o Antigo está patente no Novo».[138] Deste
modo, tanto em âmbito pastoral como em âmbito académico, importa que seja
colocada bem em evidência a relação íntima entre os dois Testamentos,
recordando com São Gregório Magno que aquilo que «o Antigo Testamento prometeu,
o Novo Testamento fê-lo ver; o que aquele anuncia de maneira oculta, este
proclama abertamente como presente. Por isso, o Antigo Testamento é profecia do
Novo Testamento; e o melhor comentário do Antigo Testamento é o Novo
Testamento».[139]
As páginas «obscuras» da Bíblia
42. No contexto da relação entre Antigo e Novo Testamento, o Sínodo enfrentou
também o caso de páginas da Bíblia que às vezes se apresentam obscuras e
difíceis por causa da violência e imoralidade nelas referidas. Em relação a
isto, deve-se ter presente antes de mais nada que a revelação bíblica
está profundamente radicada na história. Nela se vai progressivamente manifestando
o desígnio de Deus, actuando-se lentamente ao longo de etapas
sucessivas, não obstante a resistência dos homens. Deus escolhe um povo e,
pacientemente, realiza a sua educação. A revelação adapta-se ao nível cultural
e moral de épocas antigas, referindo consequentemente factos e usos como, por
exemplo, manobras fraudulentas, intervenções violentas, extermínio de
populações, sem denunciar explicitamente a sua imoralidade. Isto explica-se a
partir do contexto histórico, mas pode surpreender o leitor moderno, sobretudo
quando se esquecem tantos comportamentos «obscuros» que os homens sempre
tiveram ao longo dos séculos, inclusive nos nossos dias. No Antigo Testamento,
a pregação dos profetas ergue-se vigorosamente contra todo o tipo de injustiça
e de violência, colectiva ou individual, tornando-se assim o instrumento da
educação dada por Deus ao seu povo como preparação para o Evangelho. Seria,
pois, errado não considerar aqueles passos da Escritura que nos aparecem
problemáticos. Entretanto deve-se ter consciência de que a leitura destas
páginas requer a aquisição de uma adequada competência, através duma formação
que leia os textos no seu contexto histórico-literário e na perspectiva cristã,
que tem como chave hermenêutica última «o Evangelho e o mandamento novo de
Jesus Cristo realizado no mistério pascal».[140] Por
isso exorto os estudiosos e os pastores a ajudarem todos os fiéis a abeirar-se
também destas páginas por meio de uma leitura que leve a descobrir o seu
significado à luz do mistério de Cristo.
Cristãos e judeus, relativamente às Sagradas Escrituras
43. Depois de considerar a íntima relação que une o Novo Testamento ao Antigo,
é espontâneo fixar a atenção no vínculo peculiar que isso cria entre cristãos e
judeus, um vínculo que não deveria jamais ser esquecido. Aos judeus, o
Papa João Paulo II declarou:
sois «os nossos “irmãos predilectos” na fé de Abraão, nosso patriarca».[141] Por
certo, estas afirmações não significam ignorar as rupturas atestadas no Novo
Testamento relativamente às instituições do Antigo Testamento e menos ainda o
cumprimento das Escrituras no mistério de Jesus Cristo, reconhecido Messias e
Filho de Deus. Mas esta diferença profunda e radical não implica de modo algum
hostilidade recíproca. Pelo contrário, o exemplo de São Paulo (cf. Rm 9–11)
demonstra que «uma atitude de respeito, estima e amor pelo povo judeu é a única
atitude verdadeiramente cristã nesta situação que, misteriosamente, faz parte
do desígnio totalmente positivo de Deus».[142] De
facto, o Apóstolo afirma que os judeus, «quanto à escolha divina, são amados
por causa dos Patriarcas, pois os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis»
(Rm 11, 28-29).
Além disso, usa a bela imagem da oliveira para descrever as relações muito
estreitas entre cristãos e judeus: a Igreja dos gentios é como um rebento de
oliveira brava enxertado na oliveira boa que é o povo da Aliança (cf. Rm 11,
17-24). Alimentamo-nos, pois, das mesmas raízes espirituais. Encontramo-nos
como irmãos; irmãos que em certos momentos da sua história tiveram um
relacionamento tenso, mas agora estão firmemente comprometidos na construção de
pontes de amizade duradoura.[143] Como
disse o Papa João Paulo II noutra
ocasião: «Temos muito em comum. Juntos podemos fazer muito pela paz, pela
justiça e por um mundo mais fraterno e mais humano».[144]
Desejo afirmar uma vez mais quão precioso é para a Igreja o diálogo
com os judeus. É bom que, onde isto se apresentar como oportuno, se criem
possibilidades mesmo públicas de encontro e diálogo, que favoreçam o crescimento
do conhecimento mútuo, da estima recíproca e da colaboração inclusive no
próprio estudo das Sagradas Escrituras.
A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura
44. A atenção que quisemos dar até agora ao tema da hermenêutica bíblica, nos
seus diversos aspectos, permite-nos abordar o tema – muitas vezes aflorado no
debate sinodal – da interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura.[145] Sobre
este tema, a Pontifícia Comissão Bíblica, no documento A interpretação
da Bíblia na Igreja, formulou indicações importantes. Neste
contexto, desejo chamar a atenção sobretudo para aquelas leituras que não
respeitam o texto sagrado na sua natureza autêntica, promovendo interpretações
subjectivistas e arbitrárias. Na realidade, o «literalismo» propugnado pela
leitura fundamentalista constitui uma traição tanto do sentido literal como do
espiritual, abrindo caminho a instrumentalizações de variada natureza,
difundindo por exemplo interpretações anti-eclesiais das próprias Escrituras. O
aspecto problemático da «leitura fundamentalista é que, recusando ter em conta
o carácter histórico da revelação bíblica, torna-se incapaz de aceitar
plenamente a verdade da própria Encarnação. O fundamentalismo evita a íntima
ligação do divino e do humano nas relações com Deus. (…) Por este motivo, tende
a tratar o texto bíblico como se fosse ditado palavra por palavra pelo Espírito
e não chega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada numa linguagem e
numa fraseologia condicionadas por uma dada época».[146] Ao
contrário, o cristianismo divisa nas palavras a Palavra,
o próprio Logos, que estende o seu mistério através de tal
multiplicidade e da realidade de uma história humana.[147] A
verdadeira resposta a uma leitura fundamentalista é «a leitura crente da
Sagrada Escritura, praticada desde a antiguidade na Tradição da Igreja. [Tal
leitura] procura a verdade salvífica para a vida do indivíduo fiel e para a
Igreja. Esta leitura reconhece o valor histórico da tradição bíblica.
Precisamente por este valor de testemunho histórico é que ela quer descobrir o
significado vivo das Sagradas Escrituras destinadas também à vida do fiel de
hoje»,[148] sem
ignorar, portanto, a mediação humana do texto inspirado e os seus géneros
literários.
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas
45. A autêntica hermenêutica da fé acarreta algumas consequências importantes
no âmbito da actividade pastoral da Igreja. Precisamente a este respeito, os
Padres sinodais recomendaram, por exemplo, um relacionamento mais assíduo entre
Pastores, exegetas e teólogos. É bom que as Conferências Episcopais favoreçam
estes encontros com o «fim de promover uma maior comunhão no serviço da Palavra
de Deus».[149] Tal
cooperação ajudará a todos a realizarem melhor o próprio trabalho em benefício
da Igreja inteira. De facto, situar-se no horizonte do trabalho pastoral quer
dizer, mesmo para os estudiosos, olhar o texto sagrado na sua natureza de
comunicação que o Senhor faz aos homens para a salvação. Portanto, como afirmou
a Constituição dogmática Dei Verbum,
«é preciso que os exegetas católicos e demais estudiosos da sagrada teologia
trabalhem em íntima colaboração de esforços, para que, sob a vigilância do
sagrado magistério, lançando mão de meios aptos, estudem e expliquem as divinas
Letras, de modo que o maior número possível de ministros da Palavra de Deus
possa oferecer com fruto ao Povo de Deus o alimento das Escrituras, que ilumine
o espírito, robusteça as vontades e inflame os corações dos homens no amor de
Deus».[150]
Bíblia e ecumenismo
46. Na certeza de que a Igreja tem o seu fundamento em Cristo, Verbo de Deus
feito carne, o Sínodo quis sublinhar a centralidade dos estudos bíblicos no
diálogo ecuménico, que visa a plena expressão da unidade de todos os crentes em
Cristo.[151] De
facto, na própria Escritura, encontramos a comovente súplica de Jesus ao Pai
pelos seus discípulos para que sejam um só a fim de que o mundo creia
(cf. Jo 17, 21). Tudo isto nos fortalece na convicção de que
escutar e meditar juntos as Escrituras nos faz viver uma comunhão real, embora
ainda não plena;[152] pois
«a escuta comum das Escrituras impele ao diálogo da caridade e faz crescer o da
verdade».[153] De
facto, ouvir juntos a Palavra de Deus, praticar a lectio divina da
Bíblia, deixar-se surpreender pela novidade que nunca envelhece e jamais se
esgota da Palavra de Deus, superar a nossa surdez àquelas palavras que não
estão de acordo com as nossas opiniões ou preconceitos, escutar e estudar na
comunhão dos fiéis de todos os tempos: tudo isto constitui um caminho a
percorrer para alcançar a unidade da fé, como resposta à escuta da Palavra.[154] Verdadeiramente
esclarecedoras eram estas palavras do Concílio
Vaticano II: «No próprio diálogo [ecuménico], a Sagrada Escritura é
um exímio instrumento da poderosa mão de Deus para a consecução daquela unidade
que o Salvador oferece a todos os homens».[155] Por
isso, é bom incrementar o estudo, o diálogo e as celebrações ecuménicas da
Palavra de Deus, no respeito das regras vigentes e das diversas tradições.[156] Estas
celebrações são úteis à causa ecuménica e, se vividas no seu verdadeiro
significado, constituem momentos intensos de autêntica oração nos quais se pede
a Deus para apressar o suspirado dia em que será possível abeirar-nos todos da
mesma mesa e beber do único cálice. Entretanto, na justa e louvável promoção
destes momentos, faça-se de modo que os mesmos não sejam propostos aos fiéis em
substituição da participação na Santa Missa nos dias de preceito.
Neste trabalho de estudo e de oração, reconhecemos com serenidade também os
aspectos que requerem ser aprofundados e que nos mantêm ainda distantes, como,
por exemplo, a compreensão do sujeito da interpretação com autoridade na Igreja
e o papel decisivo do Magistério.[157]
Além disso queria sublinhar o que os Padres sinodais disseram da importância
que têm, neste trabalho ecuménico, as traduções da Bíblia nas diversas
línguas. De facto, sabemos que traduzir um texto não é trabalho meramente
mecânico, mas faz parte em certo sentido do trabalho interpretativo. A este
respeito, o Venerável João Paulo II afirmou:
«Quem recorda como influíram nas divisões, especialmente no Ocidente, os
debates em torno da Escritura, pode compreender quanto seja notável o passo em
frente representado por tais traduções comuns».[158] Por
isso, a promoção das traduções comuns da Bíblia faz parte do trabalho
ecuménico. Desejo aqui agradecer a todos os que estão comprometidos nesta
importante tarefa e encorajá-los a continuarem na sua obra.
Consequências sobre a organização dos estudos teológicos
47. Outra consequência que deriva de uma adequada hermenêutica da fé diz
respeito à necessidade de mostrar as suas implicações na formação exegética e
teológica, particularmente dos candidatos ao sacerdócio. Faça-se com que o
estudo da Sagrada Escritura seja verdadeiramente a alma da teologia, enquanto
se reconhece nela a Palavra que Deus hoje dirige ao mundo, à Igreja e a cada um
pessoalmente. É importante que os critérios indicados pelo número 12 da
Constituição dogmática Dei Verbum sejam
efectivamente tomados em consideração e se tornem objecto de aprofundamento.
Evite-se cultivar uma noção de pesquisa científica, que se considera neutral
face à Escritura. Por isso, juntamente com o estudo das línguas próprias em que
foi escrita a Bíblia e dos métodos interpretativos adequados, é necessário que
os estudantes tenham uma profunda vida espiritual, para se aperceberem de que
só é possível compreender a Escritura se a viverem.
Nesta perspectiva,
recomendo que o estudo da Palavra de Deus, transmitida e escrita, se verifique
sempre em profundo espírito eclesial, tendo em devida conta, na formação
académica, as intervenções sobre estas temáticas feitas pelo Magistério, o qual
«não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o
que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do
Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente».[159] Portanto
tenha-se o cuidado de que os estudos se realizem reconhecendo que «a sagrada
Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo
desígnio de Deus, de tal maneira se unem e associam que um sem os outros não se
mantém».[160] Desejo
pois que, segundo a doutrina do Concílio
Vaticano II, o estudo da Sagrada Escritura, lida na comunhão da
Igreja universal, seja realmente como que a alma do estudo teológico.[161]
Os Santos e a interpretação da Escritura
48. A interpretação da Sagrada Escritura ficaria incompleta se não se ouvisse
também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus, ou seja, os
Santos.[162] De
facto, «viva lectio est vita bonorum».[163] Realmente
a interpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles que se
deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e
meditação assídua.
Certamente não é por
acaso que as grandes espiritualidades, que marcaram a história da Igreja,
nasceram de uma explícita referência à Escritura. Penso, por exemplo, em Santo
Antão Abade, que se decide ao ouvir esta palavra de Cristo: «Se queres ser
perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um
tesouro no céus; depois, vem e segue-Me» (Mt 19, 21).[164] Igualmente
sugestivo é São Basílio Magno, quando, na sua obra Moralia, se
interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das
palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio do fiel? Com tal certeza
plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar
tirar nem acrescentar seja o que for».[165] São
Bento, na sua Regra, remete para a Escritura como «norma rectíssima
para a vida do homem».[166] São
Francisco de Assis – escreve Tomás de Celano – «ao ouvir que os discípulos de
Cristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazer
alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares de
calçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo:
Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!».[167] E
Santa Clara de Assis reproduz plenamente a experiência de São Francisco: «A
forma de vida da Ordem das Irmãs pobres (…) é esta: observar o santo Evangelho
do Senhor nosso Jesus Cristo».[168] Por
sua vez, São Domingos de Gusmão «em toda a parte se manifestava como um homem
evangélico, tanto nas palavras como nas obras»,[169] e
tais queria que fossem também os seus padres pregadores: «homens evangélicos».[170] Santa
Teresa de Ávila, nos seus escritos, recorre continuamente a imagens bíblicas
para explicar a sua experiência mística, e lembra que o próprio Jesus lhe
manifesta que «todo o mal do mundo deriva de não se conhecer claramente a
verdade da Sagrada Escritura».[171] Santa
Teresa do Menino Jesus encontra o Amor como sua vocação pessoal, quando
perscruta as Escrituras, em particular os capítulos 12 e 13 da Primeira
Carta aos Coríntios;[172] e
a mesma Santa assim nos descreve o fascínio das Escrituras: «Apenas lanço o
olhar sobre o Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e
sei para onde correr».[173] Cada
Santo constitui uma espécie de raio de luz que brota da Palavra de Deus: assim
o vemos também em Santo Inácio de Loyola na sua busca da verdade e no
discernimento espiritual, em São João Bosco na sua paixão pela educação dos
jovens, em São João Maria Vianney na sua consciência da grandeza do sacerdócio
como dom e dever; em São Pio de Pietrelcina no seu ser instrumento da
misericórdia divina; em São Josemaria Escrivá na sua pregação sobre a vocação
universal à santidade; na Beata Teresa de Calcutá missionária da caridade de
Deus pelos últimos; e nos mártires do nazismo e do comunismo representados, os
primeiros, por Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), monja carmelita, e
os segundos pelo Beato Aloísio Stepinac, Cardeal Arcebispo de Zagrábia.
49. Assim a santidade relacionada com a Palavra de Deus inscreve-se de certo
modo na tradição profética, na qual a Palavra de Deus se serve da própria vida
do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da
Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os
autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho.
Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efectuar uma hermenêutica
viva e eficaz da Palavra de Deus.
Tivemos um testemunho directo desta ligação entre Palavra de Deus e santidade
durante a XII Assembleia
do Sínodo quando, a 12 de Outubro na Praça de São Pedro, se
realizou a canonização de
quatro novos Santos: o sacerdote Caetano Errico, fundador da
Congregação dos Missionários dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria; a Irmã
Maria Bernarda Bütler, nascida na Suíça e missionária no Equador e na Colômbia;
a Irmã Afonsa da Imaculada Conceição, primeira santa canonizada nascida na
Índia; a jovem leiga equatoriana Narcisa de Jesus Martillo Morán. Com a sua
vida, deram testemunho ao mundo e à Igreja da perene fecundidade do Evangelho
de Cristo. Pedimos ao Senhor que, por intercessão destes Santos canonizados
precisamente nos dias da assembleia sinodal sobre a Palavra de Deus, a nossa
vida seja aquele «terreno bom» onde o Semeador divino possa semear a Palavra
para que produza em nós frutos de santidade, a «trinta, sessenta, e cem por um»
(Mc 4, 20).
II PARTE
«A todos os que O
receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12)
A palavra de Deus e a Igreja
A Igreja acolhe a
Palavra
50. O Senhor pronuncia a sua Palavra para que seja acolhida por aqueles que
foram criados precisamente «por meio» do Verbo. «Veio ao que era Seu» (Jo 1,
11): desde as origens, a Palavra tem a ver connosco e a criação foi desejada
numa relação de familiaridade com a vida divina. O Prólogo do quarto Evangelho
apresenta-nos também a rejeição da Palavra divina por parte dos «Seus» que «não
O receberam» (Jo 1, 11). Não recebê-Lo quer dizer não ouvir a sua
voz, não se configurar ao Logos. Mas, quando o homem, apesar de
frágil e pecador, se abre sinceramente ao encontro com Cristo, começa uma
transformação radical: «A todos os que O receberam, (…) deu-lhes o poder de se
tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Receber o Verbo significa
deixar-se plasmar por Ele, para se tornar, pelo poder do Espírito Santo,
conforme a Cristo, ao «Filho Único que vem do Pai» (Jo 1, 14). É o
início de uma nova criação: nasce a criatura nova, um povo novo. Aqueles que
crêem, ou seja, aqueles que vivem a obediência da fé «nasceram de Deus» (Jo 1,
13), são feitos participantes da vida divina: filhos no Filho (cf. Gl 4,
5-6; Rm 8, 14-17). Santo Agostinho, comentando este trecho
do Evangelho de João, afirma de modo sugestivo: «Por meio do Verbo
foste feito, mas é necessário que por meio do Verbo sejas refeito».[174] Vemos
esboçar-se aqui o rosto da Igreja como realidade que se define pelo acolhimento
do Verbo de Deus, que, encarnando, colocou a sua tenda entre nós (cf. Jo 1,
14). Esta morada de Deus entre os homens – a shekinah (cf. Ex 26,
1) –, prefigurada no Antigo Testamento, realiza-se agora com a presença
definitiva de Deus no meio dos homens em Cristo.
Contemporaneidade de Cristo na vida da Igreja
51. A relação entre Cristo, Palavra do Pai, e a Igreja não pode ser
compreendida em termos de um acontecimento simplesmente passado, mas trata-se
de uma relação vital na qual cada fiel, pessoalmente, é chamado a entrar.
Realmente, falamos da Palavra de Deus que está hoje presente connosco: «Eu
estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Como
afirmou o Papa João Paulo II,
«a contemporaneidade de Cristo com o homem de cada época realiza-se no seu
corpo, que é a Igreja. Por esta razão, o Senhor prometeu aos seus discípulos o
Espírito Santo, que lhes haveria de “lembrar” e fazer compreender os seus
mandamentos (cf. Jo 14, 26) e seria o princípio fontal de uma
nova vida no mundo (cf. Jo 3, 5-8; Rm 8,
1-13)».[175] A
Constituição dogmática Dei Verbum expressa
este mistério com os termos bíblicos de um diálogo nupcial: «Deus, que outrora
falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito
Santo – por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo –
introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles
habite em toda a sua riqueza (cf. Cl 3, 16)».[176]
Mestra de escuta, a
Esposa de Cristo repete, com fé, também hoje: «Falai, Senhor, que a vossa
Igreja Vos escuta».[177] Por
isso, a Constituição dogmática Dei Verbum começa
com estes termos: «O sagrado Concílio, ouvindo religiosamente a Palavra de Deus
e proclamando-a com confiança…».[178] Com
efeito, trata-se de uma definição dinâmica da vida da Igreja: «São palavras com
as quais o Concílio indica um aspecto qualificante da Igreja: esta é uma
comunidade que escuta e anuncia a Palavra de Deus. A Igreja não vive de si
mesma, mas do Evangelho; e do Evangelho tira, sem cessar, orientação para o seu
caminho. Temos aqui uma advertência que cada cristão deve acolher e aplicar a
si mesmo: só quem se coloca primeiro à escuta da Palavra é que pode depois
tornar-se seu anunciador».[179] Na
Palavra de Deus proclamada e ouvida e nos Sacramentos, Jesus hoje, aqui e
agora, diz a cada um: «Eu sou teu, dou-Me a ti», para que o homem O possa
acolher e responder-Lhe dizendo por sua vez: «Eu sou teu».[180] Assim
a Igreja apresenta-se como o âmbito onde podemos, por graça, experimentar o que
diz o Prólogo de João: «A todos os que O receberam, deu-lhes o poder de se
tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12).
Liturgia, lugar
privilegiado da Palavra de Deus
A Palavra de Deus na
sagrada Liturgia
52. Considerando a
Igreja como «casa da Palavra»,[181] deve-se
antes de tudo dar atenção à Liturgia sagrada. Esta constitui, efectivamente, o
âmbito privilegiado onde Deus nos fala no momento presente da nossa vida: fala
hoje ao seu povo, que escuta e responde. Cada acção litúrgica está, por sua
natureza, impregnada da Sagrada Escritura. Como afirma a Constituição Sacrosanctum
Concilium, «é enorme a importância da Sagrada Escritura na
celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se
explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua
inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a
sua capacidade de significação as acções e os sinais».[182] Mais
ainda, deve-se afirmar que o próprio Cristo «está presente na sua palavra, pois
é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura».[183] Com
efeito, «a celebração litúrgica torna-se uma contínua, plena e eficaz
proclamação da Palavra de Deus. Por isso, constantemente anunciada na liturgia,
a Palavra de Deus permanece viva e eficaz pela força do Espírito Santo, e
manifesta aquele amor operante do Pai que não cessa jamais de agir em favor de
todos os homens».[184] De
facto, a Igreja sempre mostrou ter consciência de que, na acção litúrgica, a
Palavra de Deus é acompanhada pela acção íntima do Espírito Santo que a torna
operante no coração dos fiéis. Na realidade, graças ao Paráclito é que «a
Palavra de Deus se torna fundamento da acção litúrgica, norma e sustentáculo da
vida inteira. A acção do próprio Espírito Santo (…) sugere a cada um, no íntimo
do coração, tudo aquilo que, na proclamação da Palavra de Deus, é dito para a
assembleia inteira dos fiéis e, enquanto reforça a unidade de todos, favorece
também a diversidade dos carismas e valoriza a acção multiforme».[185]
Por isso, para a
compreensão da Palavra de Deus, é necessário entender e viver o valor essencial
da acção litúrgica. Em certo sentido, a hermenêutica da fé
relativamente à Sagrada Escritura deve ter sempre como ponto de referência a
liturgia, onde a Palavra de Deus é celebrada como palavra actual e viva: «A
Igreja, na liturgia, segue fielmente o modo de ler e interpretar as Sagradas
Escrituras seguido pelo próprio Cristo, quando, a partir do “hoje” do seu
evento, exorta a perscrutar todas as Escrituras».[186]
Aqui se vê também a sábia pedagogia da Igreja que proclama e escuta a Sagrada
Escritura seguindo o ritmo do ano litúrgico. Vemos a Palavra de Deus
distribuída ao longo do tempo, particularmente na celebração eucarística e na
Liturgia das Horas. No centro de tudo, refulge o Mistério Pascal, ao qual se
unem todos os mistérios de Cristo e da história da salvação actualizados
sacramentalmente: «Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja
oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto
de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contacto
com eles, se encham de graça».[187] Por
isso exorto os Pastores da Igreja e os agentes pastorais a fazer com que todos
os fiéis sejam educados para saborear o sentido profundo da Palavra de Deus que
está distribuída ao longo do ano na liturgia, mostrando os mistérios
fundamentais da nossa fé. Também disto depende a correcta abordagem da Sagrada
Escritura.
Sagrada Escritura e
Sacramentos
53. Ocupando-se do
tema do valor da liturgia para a compreensão da Palavra de Deus, o Sínodo dos
Bispos quis sublinhar também a relação entre a Sagrada Escritura e a acção
sacramental. É muito oportuno aprofundar o vínculo entre Palavra e Sacramento,
tanto na acção pastoral da Igreja como na investigação teológica.[188] Certamente,
«a liturgia da Palavra é um elemento decisivo na celebração de cada um dos
sacramentos da Igreja»;[189] na
prática pastoral, porém, nem sempre os fiéis estão conscientes deste vínculo,
vendo a unidade entre o gesto e a palavra. É «dever dos sacerdotes e diáconos,
sobretudo quando administram os sacramentos, evidenciar a unidade que formam
Palavra e Sacramento no ministério da Igreja».[190] De
facto, na relação entre Palavra e gesto sacramental, mostra-se de forma
litúrgica o agir próprio de Deus na história, por meio do carácter
performativo da Palavra. Com efeito, na história da salvação, não há
separação entre o que Deus diz e faz; a sua
própria Palavra apresenta-se como viva e eficaz (cf. Hb 4,
12), como aliás indica o significado do termo hebraico dabar. Do
mesmo modo, na acção litúrgica, vemo-nos colocados diante da sua Palavra que realiza
aquilo que diz. Quando se educa o Povo de Deus para descobrir o carácter
performativo da Palavra de Deus na liturgia, ajudamo-lo também a perceber o
agir de Deus na história da salvação e na vida pessoal de cada um dos seus
membros.
Palavra de Deus e
Eucaristia
54. Quanto foi dito de modo geral a respeito da relação entre Palavra e
Sacramentos, ganha maior profundidade aplicado à celebração eucarística. Aliás
a unidade íntima entre Palavra e Eucaristia está radicada no testemunho da
Escritura (cf. Jo 6; L c 24), é atestada
pelos Padres da Igreja e reafirmada pelo Concílio
Vaticano II.[191] A
este propósito, pensemos no grande discurso de Jesus sobre o pão da vida na
sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6, 22-69), que tem como pano de
fundo o confronto entre Moisés e Jesus, entre aquele que falou face a face com
Deus (cf. Ex 33, 11) e aquele que revelou Deus (cf. Jo 1,
18). De facto, o discurso sobre o pão evoca o dom de Deus que Moisés obteve
para o seu povo com o maná no deserto, que na realidade é a Torah,
a Palavra de Deus que faz viver (cf. Sl 119; Pr 9,
5). Em Si mesmo, Jesus torna realidade esta figura antiga: «O pão de Deus é o
que desce do Céu e dá a vida ao mundo. (...) Eu sou o pão da vida» (Jo 6,
33.35). Aqui, «a Lei tornou-se Pessoa. Encontrando Jesus, alimentamo-nos por
assim dizer do próprio Deus vivo, comemos verdadeiramente o pão do céu».[192] No
discurso de Cafarnaum, aprofunda-se o Prólogo de João: se neste o Logos de
Deus Se faz carne, naquele a carne faz-Se «pão» dado para a vida do
mundo (cf. Jo 6, 51), aludindo assim ao dom que Jesus fará de
Si mesmo no mistério da cruz, confirmado pela afirmação acerca do seu sangue
dado a «beber» (cf. Jo 6, 53). Assim, no mistério da
Eucaristia, mostra-se qual é o verdadeiro maná, o verdadeiro pão do céu: é
o Logos de Deus que Se fez carne, que Se entregou a Si mesmo
por nós no Mistério Pascal.
A narração de Lucas sobre os discípulos de Emaús permite-nos uma reflexão
subsequente acerca do vínculo entre a escuta da Palavra e a fracção do pão
(cf. L c 24, 13-35). Jesus foi ter com eles no dia depois do
sábado, escutou as expressões da sua esperança desiludida e, acompanhando-os ao
longo do caminho, «explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia
respeito» (24, 27). Juntamente com este viajante que inesperadamente se
manifesta tão familiar às suas vidas, os dois discípulos começam a ver as
Escrituras de um novo modo. O que acontecera naqueles dias já não aparece como
um fracasso, mas cumprimento e novo início. Todavia, mesmo estas palavras não
parecem ainda suficientes para os dois discípulos. O Evangelho de Lucas diz
que «abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No» (24, 31) somente quando Jesus
tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lho deu; antes, «os seus olhos estavam
impedidos de O reconhecerem» (24, 16). A presença de Jesus, primeiro com as
palavras e depois com o gesto de partir o pão, tornou possível aos discípulos
reconhecê-Lo e apreciar de modo novo tudo o que tinham vivido anteriormente com
Ele: «Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos explicava as
Escrituras?» (24, 32).
55. Vê-se a partir destas narrações como a própria Escritura leva a descobrir o
seu nexo indissolúvel com a Eucaristia. «Por conseguinte, deve-se ter sempre
presente que a Palavra de Deus, lida e proclamada na liturgia pela Igreja,
conduz, como se de alguma forma se tratasse da sua própria finalidade, ao
sacrifício da aliança e ao banquete da graça, ou seja, à
Eucaristia».[193] Palavra
e Eucaristia correspondem-se tão intimamente que não podem ser compreendidas
uma sem a outra: a Palavra de Deus faz-Se carne, sacramentalmente, no evento
eucarístico. A Eucaristia abre-nos à inteligência da Sagrada Escritura, como
esta, por sua vez, ilumina e explica o Mistério eucarístico. Com efeito, sem o
reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia, permanece incompleta a
compreensão da Escritura. Por isso, «à palavra de Deus e ao mistério
eucarístico a Igreja tributou e quis e estabeleceu que, sempre e em todo o
lugar, se tributasse a mesma veneração embora não o mesmo culto. Movida pelo
exemplo do seu fundador, nunca cessou de celebrar o mistério pascal,
reunindo-se num mesmo lugar para ler, “em todas as Escrituras, aquilo que Lhe
dizia respeito” (L c 24, 27) e actualizar, com o memorial do Senhor
e os sacramentos, a obra da salvação».[194]
A sacramentalidade da
Palavra
56. Com o apelo ao
carácter performativo da Palavra de Deus na acção sacramental e o
aprofundamento da relação entre Palavra e Eucaristia, somos introduzidos num
tema significativo, referido durante a Assembleia do Sínodo: a sacramentalidade
da Palavra.[195] A
este respeito é útil recordar que o Papa João Paulo II já
aludira «ao horizonte sacramental da Revelação e, de forma
particular, ao sinal eucarístico, onde a união indivisível entre a realidade e
o respectivo significado permite identificar a profundidade do mistério».[196] Daqui
se compreende que, na origem da sacramentalidade da Palavra de Deus, esteja
precisamente o mistério da encarnação: «o Verbo fez-Se carne» (Jo 1,
14), a realidade do mistério revelado oferece-se a nós na «carne» do Filho. A
Palavra de Deus torna-se perceptível à fé através do «sinal» de palavras e
gestos humanos. A fé reconhece o Verbo de Deus, acolhendo os gestos e as
palavras com que Ele mesmo se nos apresenta. Portanto, o horizonte sacramental
da revelação indica a modalidade histórico-salvífica com que o Verbo de Deus
entra no tempo e no espaço, tornando-Se interlocutor do homem, chamado a
acolher na fé o seu dom.
Assim é possível compreender a sacramentalidade da Palavra através da analogia
com a presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagrados.[197] Aproximando-nos
do altar e participando no banquete eucarístico, comungamos realmente o corpo e
o sangue de Cristo. A proclamação da Palavra de Deus na celebração comporta
reconhecer que é o próprio Cristo que Se faz presente e Se dirige a nós[198] para
ser acolhido. Referindo-se à atitude que se deve adoptar tanto em relação à
Eucaristia como à Palavra de Deus, São Jerónimo afirma: «Lemos as Sagradas
Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas
Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a
minha carne e beber o meu sangue” (Jo 6, 53), embora estas
palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra
da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o
seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha
sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é
derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se
nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?».[199] Realmente
presente nas espécies do pão e do vinho, Cristo está presente, de modo análogo,
também na Palavra proclamada na liturgia. Por isso, aprofundar o sentido da
sacramentalidade da Palavra de Deus pode favorecer uma maior compreensão
unitária do mistério da revelação em «acções e palavras intimamente
relacionadas»,[200] sendo
de proveito à vida espiritual dos fiéis e à acção pastoral da Igreja.
A Sagrada Escritura e o Leccionário
57. Ao acentuar o
nexo entre Palavra e Eucaristia, o Sínodo quis justamente evocar também alguns
aspectos da celebração inerentes ao serviço da Palavra. Quero mencionar, em
primeiro lugar, a importância do Leccionário. A reforma desejada pelo Concílio
Vaticano II[201] mostrou
os seus frutos, tornando mais rico o acesso à Sagrada Escritura que é oferecida
abundantemente sobretudo nas liturgias do domingo. A estrutura actual, além de
apresentar com frequência os textos mais importantes da Escritura, favorece a
compreensão da unidade do plano divino, através da correlação entre as leituras
do Antigo e do Novo Testamento, «centrada em Cristo e no seu mistério pascal».[202] Certas
dificuldades que se sentem ao querer identificar as relações entre as leituras
dos dois Testamentos devem ser consideradas à luz da leitura canónica, ou seja,
da unidade intrínseca da Bíblia inteira. Onde se sentir a necessidade, os
organismos competentes podem prover à publicação de subsídios que tornem mais
fácil compreender o nexo entre as leituras propostas pelo Leccionário, que
devem ser todas proclamadas na assembleia litúrgica, como previsto pela liturgia
do dia. Eventuais problemas e dificuldades sejam assinalados à Congregação para
o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
Além disso, não
devemos esquecer que o Leccionário actual do rito latino tem também um
significado ecuménico, visto que é utilizado e apreciado mesmo por confissões
em comunhão ainda não plena com a Igreja Católica. De modo diverso se apresenta
o problema do Leccionário nas liturgias das Igrejas Católicas Orientais, que o
Sínodo pede para ser «examinado com autoridade»[203] segundo
a tradição própria e as competências das Igrejas sui iuris e
tendo em conta também o contexto ecuménico.
Proclamação da Palavra e ministério do leitorado
58. Na assembleia sinodal sobre a Eucaristia, já se tinha pedido maior cuidado
com a proclamação da Palavra de Deus.[204] Como
é sabido, enquanto o Evangelho é proclamado pelo sacerdote ou pelo diácono, a
primeira e a segunda leitura na tradição latina são proclamadas pelo leitor
encarregado, homem ou mulher. Quero aqui fazer-me eco dos Padres sinodais que
sublinharam, também naquela circunstância, a necessidade de cuidar, com uma
adequada formação,[205] o
exercício da função de leitor na celebração litúrgica[206] e
de modo particular o ministério do leitorado que enquanto tal, no rito latino,
é ministério laical. É necessário que os leitores encarregados de tal serviço,
ainda que não tenham recebido a instituição no mesmo, sejam verdadeiramente
idóneos e preparados com empenho. Tal preparação deve ser não apenas bíblica e
litúrgica mas também técnica: «A formação bíblica deve levar os leitores a
saberem enquadrar as leituras no seu contexto e a identificarem o centro do
anúncio revelado à luz da fé. A formação litúrgica deve comunicar aos leitores
uma certa facilidade em perceber o sentido e a estrutura da liturgia da Palavra
e os motivos da relação entre a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística. A
preparação técnica deve tornar os leitores cada vez mais idóneos na arte de
lerem em público tanto com a simples voz natural, como com a ajuda dos
instrumentos modernos de amplificação sonora».[207]
A importância da homilia
59. «As tarefas e funções que competem a cada um relativamente à Palavra de
Deus são diversas: aos fiéis compete ouvi-la e meditá-la, enquanto a sua
exposição cabe somente àqueles que, em virtude da Ordem sacra, receberam a
tarefa do magistério, ou àqueles a quem é confiado o exercício deste
ministério»,[208] ou
seja, bispos, presbíteros e diáconos. Daqui se compreende a atenção particular
que, no Sínodo, foi dispensada ao tema da homilia. Já na Exortação apostólica
pós-sinodal Sacramentum
caritatis, recordei como, «pensando na importância da palavra de
Deus, surge a necessidade de melhorar a qualidade da homilia; de facto, “esta
constitui parte integrante da acção litúrgica”, cuja função é favorecer uma
compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fiéis».[209] A
homilia constitui uma actualização da mensagem da Sagrada Escritura, de tal
modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e a eficácia da Palavra
de Deus no momento actual da sua vida. Aquela deve levar à compreensão do
mistério que se celebra; convidar para a missão, preparando a assembleia para a
profissão de fé, a oração universal e a liturgia eucarística. Consequentemente
aqueles que, por ministério específico, estão incumbidos da pregação tenham
verdadeiramente a peito esta tarefa. Devem-se evitar tanto homilias genéricas e
abstractas que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus, como inúteis
divagações que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que para o
coração da mensagem evangélica. Deve resultar claramente aos fiéis que aquilo
que o pregador tem a peito é mostrar Cristo, que deve estar no centro de cada
homilia. Por isso, é preciso que os pregadores tenham familiaridade e contacto
assíduo com o texto sagrado;[210] preparem-se
para a homilia na meditação e na oração, a fim de pregarem com convicção e
paixão. A assembleia sinodal exortou a ter presente as seguintes perguntas: «O
que dizem as leituras proclamadas? O que dizem a mim pessoalmente? O que devo
dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação concreta?».[211] O
pregador deve deixar-se «interpelar primeiro pela Palavra de Deus que anuncia»,[212] porque
– como diz Santo Agostinho – «seguramente fica sem fruto aquele que prega
exteriormente a Palavra de Deus sem a escutar no seu íntimo».[213] Cuide-se,
com atenção particular, a homilia dos domingos e solenidades; e mesmo durante a
semana nas Missas cum populo, quando possível, não se deixe de
oferecer breves reflexões, apropriadas à situação, para ajudar os fiéis a
acolherem e tornarem fecunda a Palavra escutada.
Conveniência de um Directório homilético
60. Pregar de modo adequado referindo-se ao Leccionário é verdadeiramente uma
arte que deve ser cultivada. Por isso, dando continuidade à solicitação feita
no Sínodo anterior,[214] peço
às autoridades competentes que, correlativamente ao Compêndio Eucarístico,[215] se
pense também em instrumentos e subsídios adequados para ajudar os ministros a
desempenhar da melhor forma possível a sua tarefa, como, por exemplo, um
Directório sobre a homilia, de modo que os pregadores possam encontrar nele uma
ajuda útil a fim de se prepararem no exercício do ministério. E depois, como
nos lembra São Jerónimo, a pregação deve ser acompanhada pelo testemunho da
própria vida: «Que as tuas acções não desmintam as tuas palavras, para que não
aconteça que, quando tu pregares na igreja, alguém comente no seu íntimo:
“Então porque é que tu não ages assim?” (…) No sacerdote de Cristo, devem estar
de acordo a mente e a palavra».[216]
Palavra de Deus, Reconciliação e Unção dos Doentes
61. Embora no centro da relação entre Palavra de Deus e Sacramentos esteja
indubitavelmente a Eucaristia, todavia é bom sublinhar a importância da Sagrada
Escritura também nos outros Sacramentos, particularmente nos Sacramentos de
cura: a Reconciliação ou Penitência e a Unção dos Doentes. Nestes Sacramentos,
muitas vezes é negligenciada a referência à Sagrada Escritura, quando, ao
contrário, é necessário dar-lhe o espaço que lhe compete. De facto, nunca se
deve esquecer que «a Palavra de Deus é palavra de reconciliação, porque nela
Deus reconcilia consigo todas as coisas (cf. 2 Cor 5,
18-20; Ef 1, 10). O perdão misericordioso de Deus, encarnado
em Jesus, reabilita o pecador».[217] Pela
Palavra de Deus, «o fiel é iluminado para poder conhecer os seus pecados e é
chamado à conversão e à confiança na misericórdia de Deus».[218] Para
que se aprofunde a força reconciliadora da Palavra de Deus, recomenda-se que o
indivíduo penitente se prepare para a confissão meditando um trecho apropriado
da Sagrada Escritura e possa começar a confissão com a leitura ou a escuta de
uma advertência bíblica, como aliás está previsto no próprio ritual. Depois, ao
manifestar a sua contrição, é bom que o penitente utilize «uma oração composta
de palavras da Sagrada Escritura»,[219] prevista
pelo ritual. Sempre que possível, seria bom que, em momentos particulares do
ano ou quando houver oportunidade, a confissão individual da multidão de
penitentes tenha lugar no âmbito de celebrações penitenciais, como previsto
pelo ritual, no respeito das várias tradições litúrgicas, para se poder dar
amplo espaço à celebração da Palavra com o uso de leituras apropriadas.
Passando ao sacramento da Unção dos Doentes, não se esqueça que «a força
salutar da Palavra de Deus é apelo vivo a uma conversão pessoal constante do
próprio ouvinte».[220] A
Sagrada Escritura contém numerosas páginas de conforto, amparo e cura, que se
devem à intervenção de Deus. Em particular, recorde-se a atenção dada por Jesus
aos doentes e como Ele mesmo, Verbo de Deus encarnado, carregou as nossas dores
e sofreu por amor do homem, dando assim sentido à doença e à morte. É bom que,
nas paróquias e sobretudo nos hospitais, se celebre – desde que as
circunstâncias o permitam – o Sacramento dos Doentes de forma comunitária. Em
tais ocasiões, seja dado amplo espaço à celebração da Palavra e ajudem-se os fiéis
doentes a viver com fé a própria condição de sofrimento, em união com o
Sacrifício redentor de Cristo que nos liberta do mal.
Palavra de Deus e Liturgia das Horas
62. Entre as formas de oração que exaltam a Sagrada Escritura, conta-se, sem
dúvida, a Liturgia das Horas. Os Padres sinodais afirmaram que esta constitui
«uma forma privilegiada de escuta da Palavra de Deus, porque põe os fiéis em
contacto com a Sagrada Escritura e com a Tradição viva da Igreja».[221] Antes
de mais nada, há que lembrar a profunda dignidade teológica e eclesial desta
oração. De facto, «na Liturgia das Horas, a Igreja exerce a função sacerdotal
da sua Cabeça, “oferecendo ininterruptamente (1 Ts 5, 17) a Deus o
sacrifício de louvor, ou seja, o fruto dos lábios que glorificam o seu nome
(cf. Hb 13, 15)”. Esta oração é a “voz da Esposa a falar ao
Esposo e também a oração que o próprio Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao
Pai”».[222] A
este propósito, o Concílio
Vaticano II afirmara: «Todos os que rezam assim, cumprem, por
um lado, a obrigação própria da Igreja, e, por outro, participam na imensa
honra da Esposa de Cristo, porque estão em nome da Igreja, diante do trono de
Deus, a louvar o Senhor».[223] Na
Liturgia das Horas, enquanto oração pública da Igreja, manifesta-se o ideal
cristão de santificação do dia inteiro, ritmado pela escuta da Palavra de Deus
e pela oração dos Salmos, de modo que toda a actividade encontre o seu ponto de
referência no louvor prestado a Deus.
Aqueles que, em virtude
do próprio estado de vida, são obrigados a rezar a Liturgia das Horas, vivam
fielmente tal compromisso em benefício de toda a Igreja. Os bispos, os
sacerdotes e os diáconos aspirantes ao sacerdócio, que receberam da Igreja o
mandato de a celebrar, têm a obrigação de rezar diariamente todas as Horas.[224] Relativamente
à obrigatoriedade desta liturgia nas Igrejas Orientais Católicas sui
iuris, siga-se o que está indicado no direito próprio.[225] Além
disso, encorajo as comunidades de vida consagrada a serem exemplares na
celebração da Liturgia das Horas, a fim de poderem constituir um ponto de
referência e inspiração para a vida espiritual e pastoral de toda a Igreja.
O Sínodo exprimiu o desejo de uma maior difusão no Povo de Deus desta forma de
oração, especialmente a recitação de Laudes e Vésperas. Este incremento não
deixará de fazer crescer nos fiéis a familiaridade com a Palavra de Deus.
Saliente-se também o valor da Liturgia das Horas prevista para as Primeiras
Vésperas do domingo e das solenidades, particularmente nas Igrejas Orientais
Católicas. Com tal finalidade, recomendo que, onde for possível, as paróquias e
as comunidades de vida religiosa favoreçam esta oração com a participação dos
fiéis.
Palavra de Deus e
Cerimonial das Bênçãos
63. No uso do Cerimonial das Bênçãos, preste-se atenção também ao espaço
previsto para a proclamação, a escuta e a explicação da Palavra de Deus,
através de breves advertências. Com efeito, o gesto da bênção, nos casos
previstos pela Igreja e quando pedido pelos fiéis, não deve aparecer isolado em
si mesmo, mas relacionado, no grau que lhe é próprio, com a vida litúrgica do
Povo de Deus. Neste sentido, a bênção, como verdadeiro sinal sagrado, «adquire
sentido e eficácia da proclamação da Palavra de Deus».[226] Por
isso, é importante aproveitar também estas circunstâncias para suscitar nos
fiéis fome e sede de toda a palavra que sai da boca de Deus (cf. Mt 4,
4).
Sugestões e propostas concretas para a animação litúrgica
64. Depois de ter lembrado alguns elementos fundamentais da relação entre
Liturgia e Palavra de Deus, quero agora assumir e valorizar algumas propostas e
sugestões que os Padres sinodais recomendaram para favorecer, no Povo de Deus,
uma crescente familiaridade com a Palavra de Deus no âmbito das acções
litúrgicas ou de algum modo relacionadas com elas.
a) Celebrações da Palavra de Deus
65. Os Padres
sinodais exortaram todos os Pastores a difundir, nas comunidades a eles
confiadas, os momentos de celebração da Palavra:[227] são
ocasiões privilegiadas de encontro com o Senhor. Por isso, tal prática não pode
deixar de trazer grande proveito aos fiéis, e deve considerar-se um elemento
importante da pastoral litúrgica. Estas celebrações assumem particular
relevância como preparação para a Eucaristia dominical, de modo que os fiéis
tenham possibilidade de penetrar melhor na riqueza do Leccionário para meditar
e rezar a Sagrada Escritura, sobretudo nos tempos litúrgicos fortes do Advento
e Natal, da Quaresma e Páscoa. Entretanto a celebração da Palavra de Deus é
vivamente recomendada nas comunidades onde não é possível, por causa da
escassez de sacerdotes, celebrar o Sacrifício Eucarístico nos dias festivos de
preceito. Tendo em conta as indicações já expressas na Exortação apostólica
pós-sinodal Sacramentum
caritatis sobre as assembleias dominicais à espera de
sacerdote,[228] recomendo
que sejam redigidos pelas competentes autoridades directórios rituais,
valorizando a experiência das Igrejas Particulares. Assim, em tais situações,
hão-de favorecer-se celebrações da Palavra que alimentem a fé dos fiéis, mas
evitando que as mesmas sejam confundidas com celebrações eucarísticas; «devem
antes tornar-se ocasiões privilegiadas de oração a Deus para que mande
sacerdotes santos segundo o seu Coração».[229]
Além disso, os Padres
sinodais convidaram a celebrar a Palavra de Deus também por ocasião de
peregrinações, festas particulares, missões populares, retiros espirituais e
dias especiais de penitência, reparação e perdão. No que se refere às diversas
formas de piedade popular, embora não sejam actos litúrgicos nem se devam
confundir com as celebrações litúrgicas, todavia é bom que se inspirem nelas e
sobretudo que dêem espaço adequado à proclamação e escuta da Palavra de Deus; de
facto, «a piedade popular encontrará nas palavras da Bíblia uma fonte
inesgotável de inspiração, modelos insuperáveis de oração e fecundas propostas
de diversos temas».[230]
b) A Palavra e o
silêncio
66. Várias
intervenções dos Padres sinodais insistiram sobre o valor do silêncio para a
recepção da Palavra de Deus na vida dos fiéis.[231] De
facto, a palavra pode ser pronunciada e ouvida apenas no silêncio, exterior e
interior. O nosso tempo não favorece o recolhimento e, às vezes, fica-se com a
impressão de ter medo de se separar, por um só momento, dos instrumentos de
comunicação de massa. Por isso, hoje é necessário educar o Povo de Deus para o
valor do silêncio. Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da
Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da
tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os
mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio[232] e
só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria,
mulher indivisivelmente da Palavra e do silêncio. As nossas liturgias devem
facilitar esta escuta autêntica: Verbo crescente, verba deficiunt.[233]
Que este valor brilhe
particularmente na Liturgia da Palavra, que «deve ser celebrada de modo a
favorecer a meditação».[234] O
silêncio, quando previsto, deve ser considerado «como parte da celebração».[235] Por
isso, exorto os Pastores a estimularem os momentos de recolhimento, nos quais,
com a ajuda do Espírito Santo, a Palavra de Deus é acolhida no coração.
c) Proclamação solene
da Palavra de Deus
67. Outra sugestão
feita pelo Sínodo foi a de solenizar, sobretudo em ocorrências litúrgicas
relevantes, a proclamação da Palavra, especialmente do Evangelho, utilizando o
Evangeliário, conduzido processionalmente durante os ritos iniciais e depois
levado ao ambão pelo diácono ou por um sacerdote para a proclamação. Deste modo
ajuda-se o Povo de Deus a reconhecer que «a leitura do Evangelho constitui o
ápice da própria liturgia da Palavra».[236] Seguindo
as indicações contidas no Ordenamento das Leituras da Missa, é bom
valorizar a proclamação da Palavra de Deus com o canto, particularmente o
Evangelho, de modo especial em determinadas solenidades. A saudação, o anúncio
inicial: «Evangelho de Nosso Senhor…» e a exclamação final «Palavra da
salvação», seria bom proferi-los em canto para evidenciar a importância do que é
lido.[237]
d) A Palavra de Deus
no templo cristão
68. Para favorecer a
escuta da Palavra de Deus, não se devem menosprezar os meios que possam ajudar
os fiéis a prestar maior atenção. Neste sentido, é necessário que, nos
edifícios sagrados, nunca se descuide a acústica, no respeito das normas
litúrgicas e arquitectónicas. «Na construção das igrejas, os Bispos, valendo-se
da devida ajuda, procurem que sejam locais adequados à proclamação da Palavra,
à meditação e à celebração eucarística. Os espaços sagrados, mesmo fora da
acção litúrgica, revistam-se de eloquência, apresentando o mistério cristão
relacionado com a Palavra de Deus».[238]
Uma atenção especial seja dada ao ambão, enquanto lugar litúrgico
donde é proclamada a Palavra de Deus. Deve estar colocado em lugar bem visível,
para onde se dirija espontaneamente a atenção dos fiéis durante a liturgia da
Palavra. É bom que seja fixo, esculturalmente em harmonia estética com o altar,
de modo a representar mesmo visivelmente o sentido teológico da dupla
mesa da Palavra e da Eucaristia. A partir do ambão, são proclamadas as
leituras, o salmo responsorial e o Precónio pascal; de lá podem ser feitas
também a homilia e a leitura da oração dos fiéis.[239]
Além disso, os Padres sinodais sugerem que, nas igrejas, haja um local de honra
onde se possa colocar a Sagrada Escritura mesmo fora da celebração.[240] Realmente
é bom que o livro onde está contida a Palavra de Deus tenha dentro do templo
cristão um lugar visível e de honra, mas sem tirar a centralidade que compete
ao Sacrário que contém o Santíssimo Sacramento.[241]
e) Exclusividade dos
textos bíblicos na liturgia
69. O Sínodo
reafirmou vivamente também aquilo que, aliás, já está estabelecido pela norma
litúrgica da Igreja,[242] isto
é, que as leituras tiradas da Sagrada Escritura nunca sejam
substituídas por outros textos, por mais significativos que estes possam
parecer do ponto de vista pastoral ou espiritual: «Nenhum texto de
espiritualidade ou de literatura pode atingir o valor e a riqueza contida na
Sagrada Escritura que é Palavra de Deus».[243] Trata-se
de uma disposição antiga da Igreja que se deve manter.[244] Face
a alguns abusos, já o Papa João Paulo II lembrara
a importância de nunca se substituir a Sagrada Escritura por outras leituras.[245] Recorde-se
que também o Salmo Responsorial é Palavra de Deus, pela qual
respondemos à voz do Senhor e por isso não deve ser substituído por outros
textos; entretanto é muito oportuno poder proclamá-lo de forma cantada.
f) Canto litúrgico
biblicamente inspirado
70. No âmbito da
valorização da Palavra de Deus durante a celebração litúrgica, tenha-se
presente também o canto nos momentos previstos pelo próprio rito, favorecendo o
canto de clara inspiração bíblica capaz de exprimir a beleza da Palavra divina
por meio de um harmonioso acordo entre as palavras e a música. Neste sentido, é
bom valorizar aqueles cânticos que a tradição da Igreja nos legou e que
respeitam este critério; penso particularmente na importância do canto gregoriano.[246]
g) Particular atenção
aos cegos e aos surdos
71. Neste contexto,
queria também recordar que o Sínodo recomendou uma atenção particular àqueles
que, por causa da própria condição, sentem dificuldade em participar
activamente na liturgia, como por exemplo os cegos e os surdos. Na medida do
possível, encorajo as comunidades cristãs a providenciarem instrumentos
adequados para ir ao encontro da dificuldade que padecem estes irmãos e irmãs,
para que lhes seja possível também estabelecer um contacto vivo com a Palavra
do Senhor.[247]
A palavra de Deus
na vida eclesial
Encontrar a Palavra
de Deus na Sagrada Escritura
72. Se é verdade que
a liturgia constitui o lugar privilegiado para a proclamação, escuta e
celebração da Palavra de Deus, é igualmente verdade que este encontro deve ser
preparado nos corações dos fiéis e sobretudo por eles aprofundado e assimilado.
De facto, a vida cristã caracteriza-se essencialmente pelo encontro com Jesus
Cristo que nos chama a segui-Lo. Por isso, o Sínodo dos Bispos afirmou várias
vezes a importância da pastoral nas comunidades cristãs como âmbito apropriado
onde percorrer um itinerário pessoal e comunitário relativo à Palavra de Deus,
de modo que esta esteja verdadeiramente no fundamento da vida espiritual.
Juntamente com os Padres sinodais, expresso o vivo desejo de que floresça «uma
nova estação de maior amor pela Sagrada Escritura da parte de todos os membros
do Povo de Deus, de modo que, a partir da sua leitura orante e fiel no tempo,
se aprofunde a ligação com a própria pessoa de Jesus».[248]
Na história da Igreja, não faltam recomendações dos Santos sobre a necessidade
de conhecer a Escritura para crescer no amor de Cristo. Trata-se de um dado
particularmente evidente nos Padres da Igreja. São Jerónimo, grande «enamorado»
da Palavra de Deus, interrogava-se: «Como seria possível viver sem o
conhecimento das Escrituras, se é por elas que se aprende a conhecer o próprio
Cristo, que é a vida dos crentes?».[249] Estava
bem ciente de que a Bíblia é o instrumento «pelo qual diariamente Deus fala aos
crentes».[250] Eis
os conselhos que ele dava a Leta, uma matrona romana, para a educação da filha:
«Assegura-te de que ela estude diariamente alguma passagem da Escritura. (…) À
oração faça seguir a leitura, e à leitura a oração. (…) Que em vez das jóias e
dos vestidos de seda, ame os Livros divinos».[251] Permanece
válido para nós aquilo que São Jerónimo escrevia ao sacerdote Nepociano: «Lê
com muita frequência as Escrituras divinas; mais ainda, que as tuas mãos nunca
abandonem o Livro sagrado. Aprende nele o que deves ensinar».[252] Seguindo
o exemplo deste grande Santo que dedicou a sua vida ao estudo da Bíblia, tendo
dado à Igreja a tradução latina chamada Vulgata, e de todos os
Santos que colocaram no centro da sua vida espiritual o encontro com Cristo,
renovemos o nosso compromisso de aprofundar a Palavra que Deus deu à Igreja;
poderemos assim tender para aquela «medida alta da vida cristã ordinária»,[253] desejada
pelo Papa João Paulo II no
início do terceiro milénio cristão, que se alimenta constantemente na escuta da
Palavra de Deus.
73. A animação
bíblica da pastoral
Nesta linha, o Sínodo
convidou a um esforço pastoral particular para que a Palavra de Deus apareça em
lugar central na vida da Igreja, recomendando que «se incremente a “pastoral
bíblica”, não em justaposição com outras formas da pastoral mas como animação
bíblica da pastoral inteira».[254] Não
se trata simplesmente de acrescentar qualquer encontro na paróquia ou na
diocese, mas de verificar que, nas actividades habituais das comunidades
cristãs, nas paróquias, nas associações e nos movimentos, se tenha realmente a
peito o encontro pessoal com Cristo que Se comunica a nós na sua Palavra. Dado
que «a ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo»,[255] então
podemos esperar que a animação bíblica de toda a pastoral ordinária e
extraordinária levará a um maior conhecimento da Pessoa de Cristo, Revelador do
Pai e plenitude da Revelação divina.
Por isso exorto os
pastores e os fiéis a terem em conta a importância desta animação: será o modo
melhor também de enfrentar alguns problemas pastorais referidos durante a
assembleia sinodal, ligados por exemplo à proliferação de seitas,
que difundem uma leitura deformada e instrumentalizada da Sagrada Escritura.
Quando não se formam os fiéis num conhecimento da Bíblia conforme à fé da
Igreja no sulco da sua Tradição viva, deixa-se efectivamente um vazio pastoral,
onde realidades como as seitas podem encontrar fácil terreno para lançar
raízes. Por isso é necessário prover também a uma preparação adequada dos
sacerdotes e dos leigos, para poderem instruir o Povo de Deus na genuína
abordagem das Escrituras.
Além disso, como foi
sublinhado durante os trabalhos sinodais, é bom que, na actividade pastoral, se
favoreça também a difusão de pequenas comunidades, «formadas por
famílias ou radicadas nas paróquias ou ainda ligadas aos diversos movimentos
eclesiais e novas comunidades»,[256] nas
quais se promova a formação, a oração e o conhecimento da Bíblia segundo a fé
da Igreja.
Dimensão bíblica da
catequese
74. Um momento
importante da animação pastoral da Igreja, onde se pode sapientemente descobrir
a centralidade da Palavra de Deus, é a catequese, que, nas suas diversas formas
e fases, sempre deve acompanhar o Povo de Deus. O encontro dos discípulos de
Emaús com Jesus, descrito pelo evangelista Lucas (cf. L c 24,
13-35), representa em certo sentido o modelo de uma catequese em cujo centro
está a «explicação das Escrituras», que somente Cristo é capaz de dar
(cf. L c 24, 27-28), mostrando o seu cumprimento em Si mesmo.[257] Assim,
renasce a esperança, mais forte do que qualquer revés, que faz daqueles
discípulos testemunhas convictas e credíveis do Ressuscitado.
No Directório Geral
da Catequese, encontramos válidas indicações para animar
biblicamente a catequese e, para elas, de bom grado remeto.[258] Neste
momento, desejo principalmente sublinhar que a catequese «tem de ser impregnada
e embebida de pensamento, espírito e atitudes bíblicas e evangélicas, mediante
um contacto assíduo com os próprios textos sagrados; e recordar que a catequese
será tanto mais rica e eficaz quanto mais ler os textos com a inteligência e o
coração da Igreja»[259] e
quanto mais se inspirar na reflexão e na vida bimilenária da mesma Igreja. Por
isso, deve-se encorajar o conhecimento das figuras, acontecimentos e expressões
fundamentais do texto sagrado; com tal finalidade, pode ser útil a memorização inteligente
de algumas passagens bíblicas particularmente expressivas dos mistérios
cristãos. A actividade catequética implica sempre abeirar-se das Escrituras na
fé e na Tradição da Igreja, de modo que aquelas palavras sejam sentidas vivas,
como Cristo está vivo hoje onde duas ou três pessoas se reúnem em seu nome
(cf. Mt 18, 20). A catequese deve comunicar com vitalidade a
história da salvação e os conteúdos da fé da Igreja, para que cada fiel
reconheça que a sua vida pessoal pertence também àquela história.
Nesta perspectiva, é importante sublinhar a relação entre a Sagrada Escritura e
o Catecismo da
Igreja Católica, como afirma o Directório Geral
da Catequese: «A Sagrada Escritura, como “Palavra de Deus
escrita sob a inspiração do Espírito Santo”, e o Catecismo da
Igreja Católica, enquanto importante expressão actual da
Tradição viva da Igreja e norma segura para o ensino da fé, são chamados a
fecundar a catequese na Igreja contemporânea, cada um segundo o seu próprio
modo e a sua autoridade específica».[260]
Formação bíblica dos
cristãos
75. Para se alcançar
o objectivo desejado pelo Sínodo de conferir maior carácter bíblico a toda a
pastoral da Igreja, é necessário que exista uma adequada formação dos cristãos
e, em particular, dos catequistas. A este propósito, é preciso prestar atenção
ao apostolado bíblico, método muito válido para se atingir tal
finalidade, como demonstra a experiência eclesial. Além disso, os Padres
sinodais recomendaram que se estabeleçam, possivelmente através da valorização
de estruturas académicas já existentes, centros de formação para leigos e
missionários, nos quais se aprenda a compreender, viver e anunciar a Palavra de
Deus e, onde houver necessidade, constituam-se Institutos especializados em
estudos bíblicos a fim de dotarem os exegetas de uma sólida compreensão
teológica e uma adequada sensibilidade para os ambientes da sua missão.[261]
76. A Sagrada
Escritura nos grandes encontros eclesiais
Entre as múltiplas
iniciativas que podem ser tomadas, o Sínodo sugere que nos encontros, tanto a
nível diocesano como nacional ou internacional, se ponha em maior evidência a
importância da Palavra de Deus, da sua escuta e da leitura crente e orante da
Bíblia. Por isso, no âmbito dos Congressos Eucarísticos, nacionais e
internacionais, das Jornadas Mundiais da Juventude e de outros encontros
poder-se-á louvavelmente reservar maior espaço para celebrações da Palavra e
para momentos de formação de carácter bíblico.[262]
Palavra de Deus e
vocações
77. O Sínodo, quando sublinhou a exigência intrínseca que tem a fé de
aprofundar a relação com Cristo, Palavra de Deus entre nós, quis também
evidenciar que esta Palavra chama cada um em termos pessoais, revelando assim
que a própria vida é vocação em relação a Deus. Isto significa
que quanto mais aprofundarmos a nossa relação pessoal com o Senhor Jesus, tanto
mais nos damos conta de que Ele nos chama à santidade, através de opções
definitivas, pelas quais a nossa vida responde ao seu amor, assumindo funções e
ministérios para edificar a Igreja. É neste horizonte que se entendem os
convites feitos pelo Sínodo a todos os cristãos para aprofundarem a relação com
a Palavra de Deus, não só como baptizados mas também enquanto chamados a viver
segundo os diversos estados de vida. Aqui tocamos um dos pontos fundamentais da
doutrina do Concílio
Vaticano II, que sublinhou a vocação à santidade de todo o fiel,
cada um no seu próprio estado de vida.[263] Na
Sagrada Escritura, encontramos revelada a nossa vocação à santidade: «Sede
santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (cf. Lv 11,
44; 19, 2; 20, 7). Depois São Paulo põe em evidência a sua raiz cristológica: o
Pai, em Cristo, «escolheu-nos, antes da constituição do mundo, para sermos
santos e imaculados diante dos seus olhos» (Ef 1, 4). Deste modo
podemos tomar como dirigida a cada um de nós a saudação dele aos irmãos e irmãs
da comunidade de Roma: «A todos os amados de Deus (…), chamados à santidade:
Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e da do Senhor Jesus
Cristo» (Rm 1, 7).
a) Palavra de Deus e
Ministros Ordenados
78. Dirigindo-me em
primeiro lugar aos Ministros Ordenados da Igreja, recordo-lhes o que afirmou o
Sínodo: «A Palavra de Deus é indispensável para formar o coração de um bom
pastor, ministro da Palavra».[264] Bispos,
presbíteros e diáconos não podem de forma alguma pensar viver a sua vocação e
missão sem um decidido e renovado compromisso de santificação, que tem um dos
seus pilares no contacto com a Bíblia.
79. Àqueles que foram chamados ao episcopado e que são os
anunciadores primeiros e com maior autoridade da Palavra, desejo reafirmar o
que o Papa João Paulo II deixou
escrito na Exortação apostólica pós-sinodal Pastores gregis:
Para nutrir e fazer crescer a vida espiritual, o Bispo deve colocar sempre em
«primeiro lugar a leitura e a meditação da Palavra de Deus. Cada Bispo deverá
sempre confiar-se e sentir-se confiado “a Deus e à palavra da sua graça que tem
o poder de construir o edifício e de conceder parte na herança com todos os
santificados” (Act 20, 32). Por isso, antes de ser transmissor da
Palavra, o Bispo, como os seus sacerdotes e como qualquer fiel – mais ainda,
como a própria Igreja – deve ser ouvinte da Palavra. Deve de certo modo estar
“dentro” da Palavra, para deixar-se guardar e nutrir dela como de um ventre
materno».[265] À
imitação de Maria, Virgo audiens e Rainha dos Apóstolos,
recomendo a todos os irmãos no episcopado a leitura pessoal frequente e o
estudo assíduo da Sagrada Escritura.
80. Quanto aos sacerdotes, quero apontar-lhes as palavras do Papa João Paulo II,
quando, na Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo
vobis, recordou que, «antes de mais, o sacerdote é ministro
da Palavra de Deus, é consagrado e enviado a anunciar a todos o Evangelho
do Reino, chamando cada homem à obediência da fé e conduzindo os crentes a um
conhecimento e comunhão sempre mais profundos do mistério de Deus, revelado e
comunicado a nós em Cristo. Por isso, o próprio sacerdote deve ser o primeiro a
desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: não basta
conhecer o aspecto linguístico ou exegético, sem dúvida necessário; é preciso
abeirar-se da Palavra com coração dócil e orante, a fim de que ela penetre a
fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade – “o
pensamento de Cristo” (1 Cor 2, 16)».[266] E
consequentemente as suas palavras, as suas opções e atitudes devem ser cada vez
mais uma transparência, um anúncio e um testemunho do Evangelho; «só
“permanecendo” na Palavra, é que o presbítero se tornará perfeito discípulo do
Senhor, conhecerá a verdade e será realmente livre».[267]
Em suma, a vocação ao sacerdócio requer que sejam consagrados «na
verdade». O próprio Jesus formula esta exigência referindo-se
aos seus discípulos: «Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim
como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os envio ao mundo» (Jo 17,
17-18). Os discípulos, de certo modo, «são atraídos para a intimidade de Deus
por meio da sua imersão na Palavra divina. Esta é, por assim dizer, o banho que
os purifica, o poder criador que os transforma no ser de Deus».[268] E
visto que o próprio Cristo é a Palavra de Deus feita carne (cf. Jo 1,
14), é «a Verdade» (Jo 14, 6), então a oração de Jesus ao Pai
«consagra-os na verdade» quer dizer fundamentalmente: «Torna-os um só comigo.
Une-os a Mim. Atrai-os para dentro de Mim. E de facto, em última análise, há
apenas um único sacerdote da Nova Aliança: o próprio Jesus Cristo».[269] É
necessário, pois, que os sacerdotes renovem sempre mais profundamente em si a
consciência desta realidade.
81. Quero referir-me
também ao lugar da Palavra de Deus na vida daqueles que são chamados ao diaconado,
não só como grau prévio da Ordem do Presbiterado, mas também enquanto serviço
permanente. O Directório para
o diaconado permanente afirma que «da identidade teológica
do diácono derivam com clareza os traços da sua espiritualidade específica, que
se apresenta essencialmente como espiritualidade de serviço. O modelo por
excelência é Cristo servo, que viveu totalmente ao serviço de Deus, para o bem
dos homens».[270] Nesta
perspectiva, compreende-se como, nas várias dimensões do ministério diaconal,
um «elemento caracterizador da espiritualidade diaconal seja a Palavra de Deus,
que o diácono é chamado a anunciar com autoridade, acreditando naquilo que
proclama, ensinando aquilo que acredita, vivendo aquilo que ensina».[271] Por
isso recomendo aos diáconos que incrementem uma leitura crente da Sagrada
Escritura na própria vida com o estudo e a oração. Sejam iniciados na Sagrada
Escritura e na sua recta interpretação, na mútua relação entre a Escritura e a
Tradição, e particularmente na utilização da Escritura na pregação, na
catequese e na actividade pastoral em geral.[272]
b) Palavra de Deus e
candidatos às Ordens Sacras
82. O Sínodo deu particular atenção ao papel decisivo da Palavra de Deus na
vida espiritual dos candidatos ao sacerdócio ministerial: «Os candidatos ao
sacerdócio devem aprender a amar a Palavra de Deus. Por isso, seja a Escritura
a alma da sua formação teológica, evidenciando a circularidade indispensável
entre exegese, teologia, espiritualidade e missão».[273] Os
aspirantes ao sacerdócio ministerial são chamados a uma profunda relação
pessoal com a Palavra de Deus, particularmente na lectio divina,
porque é de tal relação que se alimenta a sua vocação: é com a luz e a força da
Palavra de Deus que pode ser descoberta, compreendida, amada e seguida a
respectiva vocação e levada a cabo a própria missão, alimentando no coração os
pensamentos de Deus, de modo que a fé, como resposta à Palavra, se torne o novo
critério de juízo e avaliação dos homens e das coisas, dos acontecimentos e dos
problemas.[274]
Esta atenção à leitura orante da Escritura não deve, de modo algum, alimentar
uma dicotomia com o estudo exegético que se requer durante o tempo da formação.
O Sínodo recomendou que os seminaristas sejam concretamente ajudados a ver
a relação entre o estudo bíblico e a oração com a Escritura. O
estudo das Escrituras deve torná-los mais conscientes do mistério da revelação
divina e alimentar uma atitude de resposta orante ao Senhor que fala. Por sua
vez, uma vida autêntica de oração não poderá deixar de fazer crescer, na alma
do candidato, o desejo de conhecer cada vez mais a Deus que Se revelou na sua
Palavra como amor infinito. Por isso, dever-se-á procurar com o máximo cuidado
que, na vida dos seminaristas, se cultive esta reciprocidade entre
estudo e oração. Para tal objectivo, é útil que os candidatos sejam
iniciados no estudo da Sagrada Escritura segundo métodos que favoreçam esta
abordagem integral.
c) Palavra de Deus e vida consagrada
83. Relativamente à
vida consagrada, o Sínodo lembrou em primeiro lugar que esta «nasce da escuta
da Palavra de Deus e acolhe o Evangelho como sua norma de vida».[275] Deste
modo, viver no seguimento de Cristo casto, pobre e obediente é uma «“exegese”
viva da Palavra de Deus».[276] O
Espírito Santo, por cuja virtude foi escrita a Bíblia, é o mesmo que ilumina «a
Palavra de Deus, com nova luz, para os fundadores e fundadoras. Dela brotou
cada um dos carismas e dela cada regra quer ser expressão»,[277] dando
origem a itinerários de vida cristã marcados pela radicalidade evangélica.
Desejo lembrar que a grande tradição monástica sempre teve como factor
constitutivo da própria espiritualidade a meditação da Sagrada Escritura,
particularmente na forma da lectio divina. De igual modo, hoje, as
realidades antigas e novas de especial consagração são chamadas a ser
verdadeiras escolas de vida espiritual onde se há-de ler as Escrituras segundo
o Espírito Santo na Igreja, de modo que todo o Povo de Deus disso mesmo possa
beneficiar. Por isso, o Sínodo recomenda que nunca falte nas comunidades de
vida consagrada uma sólida formação para a leitura crente da Bíblia.[278]
Desejo fazer-me eco da solicitude e gratidão que o Sínodo exprimiu pelas formas
de vida contemplativa, que, pelo seu carisma específico, dedicam
boa parte das suas jornadas a imitar a Mãe de Deus que meditava assiduamente as
palavras e os factos do seu Filho (cf. L c 2, 19.51) e Maria
de Betânia que, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra (cf. L c 10,
38). Penso de modo particular nos monges e monjas de clausura que, sob a forma
de separação do mundo, se encontram mais intimamente unidos a Cristo, coração
do mundo. A Igreja tem extrema necessidade do testemunho de quem se compromete
a «nada antepor ao amor de Cristo».[279] Com
frequência, o mundo actual vive demasiadamente absorvido pelas actividades
exteriores, onde corre o risco de se perder. As mulheres e os homens
contemplativos, com a sua vida de oração, de escuta e meditação da Palavra de
Deus lembram-nos que não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai
da boca de Deus (cf. Mt 4, 4). Por isso, todos os fiéis tenham
bem presente que uma tal forma de vida «indica ao mundo de hoje o que é mais
importante e, no fim de contas, a única coisa decisiva: existe uma razão última
pela qual vale a pena viver, isto é, Deus e o seu amor imperscrutável».[280]
d) Palavra de Deus e
fiéis leigos
84. O Sínodo
concentrou muitas vezes a sua atenção nos fiéis leigos, agradecendo-lhes o
generoso empenho com que difundem o Evangelho nos vários âmbitos da vida
diária: no trabalho, na escola, na família e na educação.[281] Tal
obrigação, que deriva do baptismo, deve poder desenrolar-se através de uma vida
cristã cada vez mais consciente e capaz de dar «razão da esperança» que vive em
nós (cf. 1 Pd 3, 15). Jesus, no Evangelho de Mateus,
indica que «o campo é o mundo, a boa semente são os filhos do Reino» (13, 38).
Estas palavras aplicam-se de modo particular aos leigos cristãos, que realizam
a própria vocação à santidade com uma vida segundo o Espírito que se exprime
«de forma peculiar na sua inserção nas realidades temporais e
na sua participação nas actividades terrenas».[282] Precisam
de ser formados a discernir a vontade de Deus por meio de uma familiaridade com
a Palavra de Deus, lida e estudada na Igreja, sob a guia dos legítimos
Pastores. Possam eles beber esta formação nas escolas das grandes
espiritualidades eclesiais, em cuja raiz está sempre a Sagrada Escritura. As
próprias dioceses, na medida das suas possibilidades, proporcionem
oportunidades de uma tal formação aos leigos com particulares responsabilidades
eclesiais.[283]
e) Palavra de Deus, matrimónio e família
85. O Sínodo sentiu
necessidade de sublinhar também a relação entre Palavra de Deus, matrimónio e
família cristã. Com efeito, «com o anúncio da Palavra de Deus, a Igreja revela
à família cristã a sua verdadeira identidade, o que ela é e deve ser segundo o
desígnio do Senhor».[284] Por
isso, nunca se perca de vista que a Palavra de Deus está na origem do
matrimónio (cf. Gn 2, 24) e que o próprio Jesus quis
incluir o matrimónio entre as instituições do seu Reino (cf. Mt 19,
4-8), elevando a sacramento o que originalmente estava inscrito na natureza
humana. «Na celebração sacramental, o homem e a mulher pronunciam uma palavra
profética de doação recíproca: ser “uma só carne”, sinal do mistério da união
de Cristo e da Igreja (cf. Ef 5, 31-32)».[285] A
fidelidade à Palavra de Deus leva também a evidenciar que hoje esta instituição
encontra-se, em muitos aspectos, sujeita a ataques pela mentalidade corrente.
Perante a difundida desordem dos sentimentos e o despontar de modos de pensar
que banalizam o corpo humano e a diferença sexual, a Palavra de Deus reafirma a
bondade originária do ser humano, criado como homem e mulher e chamado ao amor
fiel, recíproco e fecundo.
Do grande mistério nupcial deriva uma imprescindível responsabilidade
dos pais em relação aos seus filhos. De facto, pertence à autêntica
paternidade e maternidade a comunicação e o testemunho do sentido da vida em
Cristo: através da fidelidade e unidade da vida familiar, os esposos são, para
os seus filhos, os primeiros anunciadores da Palavra de Deus. A comunidade
eclesial deve sustentá-los e ajudá-los a desenvolverem a oração em família, a
escuta da Palavra, o conhecimento da Bíblia. Por isso, o Sínodo deseja que cada
casa tenha a sua Bíblia e a conserve em lugar digno para poder lê-la e
utilizá-la na oração. A ajuda necessária pode ser fornecida por sacerdotes,
diáconos e leigos bem preparados. O Sínodo recomendou também a formação de
pequenas comunidades entre famílias, onde se cultive a oração e a meditação em
comum de trechos apropriados da Sagrada Escritura.[286] Os
esposos lembrem-se de que «a Palavra de Deus é um amparo precioso inclusive nas
dificuldades da vida conjugal e familiar».[287]
Neste contexto, quero
evidenciar as recomendações do Sínodo quanto à função das mulheres
relativamente à Palavra de Deus. A contribuição do «génio feminino» – assim
lhe chamava o Papa João Paulo II[288] –
para o conhecimento da Escritura e para a vida inteira da Igreja é hoje maior
do que no passado e tem a ver com o campo dos próprios estudos bíblicos. De
modo especial, o Sínodo deteve-se sobre o papel indispensável das mulheres na
família, na educação, na catequese e na transmissão dos valores. Com efeito,
elas «sabem suscitar a escuta da Palavra, a relação pessoal com Deus e
comunicar o sentido do perdão e da partilha evangélica»,[289] como
também ser portadoras de amor, mestras de misericórdia e construtoras de paz,
comunicadoras de calor e humanidade num mundo que demasiadas vezes se limita a
avaliar as pessoas com os critérios frios da exploração e do lucro.
Leitura orante da
Sagrada Escritura e «lectio divina»
86. O Sínodo insistiu
repetidamente sobre a exigência de uma abordagem orante do texto sagrado como
elemento fundamental da vida espiritual de todo o fiel, nos diversos
ministérios e estados de vida, com particular referência à lectio
divina.[290] Com
efeito, a Palavra de Deus está na base de toda a espiritualidade cristã
autêntica. Esta posição dos Padres sinodais está em sintonia com o que diz a
Constituição dogmática Dei Verbum:
Todos os fiéis «debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer
através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura
espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por
toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se,
porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração».[291] A
reflexão conciliar pretendia retomar a grande tradição patrística que sempre
recomendou abeirar-se da Escritura em diálogo com Deus. Como diz Santo
Agostinho: «A tua oração é a tua palavra dirigida a Deus. Quando lês, é Deus
que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus».[292] Orígenes,
um dos mestres nesta leitura da Bíblia, defende que a inteligência das
Escrituras exige, ainda mais do que o estudo, a intimidade com Cristo e a
oração; realmente é sua convicção que o caminho privilegiado para conhecer Deus
é o amor e de que não existe uma autêntica scientia Christi sem
enamorar-se d’Ele. Na Carta a Gregório, o grande teólogo
alexandrino recomenda: «Dedica-te à lectio das divinas
Escrituras; aplica-te a isto com perseverança. Empenha-te na lectio com
a intenção de crer e agradar a Deus. Se durante a lectio te
encontras diante de uma porta fechada, bate e ser-te-á aberta por aquele
guardião de que falou Jesus: “O guardião abrir-lha-á”. Aplicando-te assim
à lectio divina, procura com lealdade e inabalável confiança em
Deus o sentido das Escrituras divinas, que nelas amplamente se encerra. Mas não
deves contentar-te com bater e procurar; para compreender as coisas de Deus,
tens necessidade absoluta da oratio. Precisamente para nos exortar
a ela é que o Salvador não se limitou a dizer: “procurai e encontrareis” e
“batei e ser-vos-á aberto”, mas acrescentou: “pedi e recebereis”».[293]
A este propósito,
porém, deve-se evitar o risco de uma abordagem individualista,
tendo presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir
comunhão, para nos unir na Verdade no nosso caminho para Deus. Sendo uma
Palavra que se dirige a cada um pessoalmente, é também uma Palavra que constrói
comunidade, que constrói a Igreja. Por isso, o texto sagrado deve-se
abordar sempre na comunhão eclesial. Com efeito, «é muito importante a
leitura comunitária, porque o sujeito vivo da Sagrada Escritura é o Povo de
Deus, é a Igreja. (…) A Escritura não pertence ao passado, porque o seu
sujeito, o Povo de Deus inspirado pelo próprio Deus, é sempre o mesmo e,
portanto, a Palavra está sempre viva no sujeito vivo. Então é importante ler a
Sagrada Escritura e ouvi-la na comunhão da Igreja, isto é, com todas as grandes
testemunhas desta Palavra, a começar dos primeiros Padres até aos Santos de
hoje e ao Magistério actual».[294]
Por isso, na leitura orante da Sagrada Escritura, o lugar privilegiado
é a Liturgia, particularmente a Eucaristia, na qual, ao
celebrar o Corpo e o Sangue de Cristo no Sacramento, se actualiza no meio de
nós a própria Palavra. Em certo sentido, a leitura orante pessoal e comunitária
deve ser vivida sempre em relação com a celebração eucarística. Assim como a
adoração eucarística prepara, acompanha e prolonga a liturgia eucarística,[295] assim
também a leitura orante pessoal e comunitária prepara, acompanha e aprofunda o
que a Igreja celebra com a proclamação da Palavra no âmbito litúrgico.
Colocando em relação tão estreita lectio e liturgia, podem-se
identificar melhor os critérios que devem guiar esta leitura no contexto da
pastoral e da vida espiritual do Povo de Deus.
87. Nos documentos
que prepararam e acompanharam o Sínodo, falou-se dos vários métodos para se
abeirar, com fruto e na fé, das Sagradas Escrituras. Todavia prestou-se maior
atenção à lectio divina, que «é verdadeiramente capaz não só de
desvendar ao fiel o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro
com Cristo, Palavra divina viva».[296] Quero
aqui lembrar, brevemente, os seus passos fundamentais: começa com a leitura (lectio)
do texto, que suscita a interrogação sobre um autêntico conhecimento do seu
conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? Sem este momento,
corre-se o risco que o texto se torne somente um pretexto para nunca
ultrapassar os nossos pensamentos. Segue-se depois a meditação (meditatio),
durante a qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? Aqui
cada um, pessoalmente mas também como realidade comunitária, deve deixar-se
sensibilizar e pôr em questão, porque não se trata de considerar palavras
pronunciadas no passado, mas no presente. Sucessivamente chega-se ao momento da
oração (oratio), que supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em
resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão, acção de
graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma. Finalmente,
a lectio divina conclui-se com a contemplação (contemplatio),
durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao julgar a
realidade, e interrogamo-nos: qual é a conversão da mente, do coração e
da vida que o Senhor nos pede? São Paulo, na Carta aos Romanos,
afirma: «Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação
da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe
é agradável e o que é perfeito» (12, 2). De facto, a contemplação tende a criar
em nós uma visão sapiencial da realidade segundo Deus e a formar em nós «o
pensamento de Cristo» (1 Cor 2, 16). Aqui a Palavra de Deus aparece
como critério de discernimento: ela é «viva, eficaz e mais penetrante que uma
espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as
medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração» (Hb 4,
12). Há que recordar ainda que a lectio divina não está
concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à acção (actio), que
impele a existência do fiel a doar-se aos outros na caridade.
Estes passos
encontramo-los sintetizados e resumidos, de forma sublime, na figura da Mãe de
Deus. Modelo para todo o fiel de acolhimento dócil da Palavra divina, Ela
«conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (L c 2,
19; cf. 2, 51), e sabia encontrar o nexo profundo que une os acontecimentos, os
actos e as realidades, aparentemente desconexos, no grande desígnio divino.[297]
Além disso, quero
lembrar a recomendação feita durante o Sínodo relativa à importância da leitura
pessoal da Escritura como prática que prevê a possibilidade também de obter,
segundo as disposições habituais da Igreja, a indulgência para si próprio ou
para os defuntos.[298] A
prática da indulgência[299] implica
a doutrina dos méritos infinitos de Cristo – que a Igreja, como ministra da
redenção, concede e aplica –, mas supõe também a doutrina da Comunhão dos
Santos, que nos mostra «como é íntima a nossa união em Cristo e quanto a vida
sobrenatural de cada um pode auxiliar os outros».[300] Nesta
perspectiva, a leitura da Palavra de Deus apoia-nos no caminho de penitência e
conversão, permite-nos aprofundar o sentido de pertença eclesial e conserva-nos
numa familiaridade mais profunda com Deus. Como afirmava Santo Ambrósio, quando
tomamos nas mãos, com fé, as Sagradas Escrituras e as lemos com a Igreja, a
pessoa humana volta a passear com Deus no paraíso.[301]
Palavra de Deus e oração mariana
88. Pensando na relação indivisível entre a Palavra de Deus e Maria de Nazaré,
convido, juntamente com os Padres sinodais, a promover entre os fiéis,
sobretudo na vida familiar, as orações marianas que constituem uma ajuda para
meditar os santos mistérios narrados pela Sagrada Escritura. Um meio muito útil
é, por exemplo, a recitação pessoal ou comunitária do Rosário,[302] que
repercorre juntamente com Maria os mistérios da vida de Cristo[303] e
que o Papa João Paulo II quis
enriquecer com os mistérios de luz.[304] É
conveniente que o anúncio dos diversos mistérios seja acompanhado por breves
trechos da Bíblia sobre o mistério enunciado, para assim favorecer a
memorização de algumas expressões significativas da Escritura relativas aos
mistérios da vida de Cristo.
Além disso, o Sínodo
recomendou que se promova entre os fiéis a recitação da oração do Angelus
Domini. Trata-se de uma oração simples e profunda que nos permite «recordar
diariamente o Verbo Encarnado».[305] É
oportuno que o Povo de Deus, as famílias e as comunidades de pessoas
consagradas sejam fiéis a esta oração mariana, que a tradição nos convida a
rezar ao alvorecer, ao meio-dia e ao entardecer. Na oração do Angelus
Domini, pedimos a Deus que, pela intercessão de Maria, nos seja concedido
também cumprir a vontade de Deus como Ela e acolher em nós a sua Palavra. Esta
prática pode ajudar-nos a intensificar um amor autêntico ao mistério da
Encarnação.
Merecem ser conhecidas, apreciadas e difundidas também algumas antigas orações
do Oriente cristão que, através de uma referência à Theotokos, à
Mãe de Deus, percorrem toda a história da salvação. Referimo-nos
particularmente ao Akathistos e à Paraklesis. São
hinos de louvor cantados em forma de litania, impregnados de fé eclesial e de
alusões bíblicas, que ajudam os fiéis a meditar juntamente com Maria os
mistérios de Cristo. De modo especial, o venerável hino à Mãe de Deus
denominado Akathistos – quer dizer: cantado permanecendo de pé
–, representa uma das mais altas expressões de piedade mariana da tradição
bizantina.[306] Rezar
com estas palavras dilata a alma e dispõe-na para a paz que vem do Alto, de
Deus – a paz que é o próprio Cristo, nascido de Maria para a nossa salvação.
Palavra de Deus e Terra Santa
89. Recordando o
Verbo de Deus que Se faz carne no seio de Maria de Nazaré, o nosso coração
volta-se agora para aquela Terra onde se cumpriu o mistério da nossa redenção e
donde a Palavra de Deus se difundiu até aos confins do mundo. De facto, por
obra do Espírito Santo, o Verbo encarnou num momento concreto e num lugar
determinado, numa orla de terra situada nos confins do Império Romano. Por
isso, quanto mais contemplamos a universalidade e a unicidade da pessoa de
Cristo, tanto mais olhamos agradecidos para aquela Terra onde Jesus nasceu,
viveu e Se entregou a Si mesmo por todos nós. As pedras sobre as quais caminhou
o nosso Redentor permanecem para nós carregadas de recordações e continuam a
«gritar» a Boa Nova. Por isso, os Padres sinodais lembraram a expressão feliz
dada à Terra Santa: «o quinto Evangelho».[307] Como
é importante a existência de comunidades cristãs naqueles lugares, apesar das
inúmeras dificuldades! O Sínodo dos Bispos exprime profunda solidariedade a
todos os cristãos que vivem na Terra de Jesus, dando testemunho da fé no
Ressuscitado. Lá os cristãos são chamados a servir como «um farol de fé para a
Igreja universal e também como fermento de harmonia, sabedoria e equilíbrio na
vida duma sociedade que tradicionalmente foi e continua a ser pluralista,
multiétnica e multirreligiosa».[308]
A Terra Santa continua ainda hoje a ser meta de peregrinação do povo cristão,
vivida como gesto de oração e de penitência, como o era já na antiguidade
segundo o testemunho de autores como São Jerónimo.[309] Quanto
mais voltamos o olhar e o coração para a Jerusalém terrena, tanto mais se
inflama em nós o desejo da Jerusalém celeste, verdadeira meta de toda a
peregrinação, e a paixão de que o nome de Jesus – o único em que se encontra a
salvação – seja reconhecido por todos (cf. Act 4, 12).
III PARTE
«Ninguém jamais viu a
Deus:o Filho único, que está no seio do Pai,é que O deu a conhecer» (Jo 1, 18)
A missão da Igreja: anunciar
a palavra de Deus ao mundo
A Palavra que sai do Pai e volta para o Pai
90. São João sublinha fortemente o paradoxo fundamental da fé cristã. Por um
lado, afirma que «ninguém jamais viu a Deus» (Jo 1, 18; cf. 1
Jo 4, 12): de modo nenhum podem as nossas imagens, conceitos ou
palavras definir ou calcular a realidade infinita do Altíssimo; permanece
o Deus semper maior. Por outro lado, diz que realmente o Verbo «Se
fez carne» (Jo 1, 14). O Filho unigénito, que está voltado para o
seio do Pai, revelou o Deus que «ninguém jamais viu» (Jo 1, 18).
Jesus Cristo vem a nós «cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14),
que nos são dadas por meio d’Ele (cf. Jo 1, 17); de facto, «da
sua plenitude é que todos nós recebemos, graça sobre graça» (Jo 1,
16). E assim, no Prólogo, o evangelista João contempla o Verbo desde o seu
estar junto de Deus passando pelo fazer-Se carne, até ao regresso ao seio do
Pai, levando consigo a nossa própria humanidade que assumiu para sempre. Neste
sair do Pai e voltar ao Pai (cf. Jo 13, 3; 16, 28; 17, 8.10),
Ele apresenta-Se-nos como o «Narrador» de Deus (cf. Jo 1, 18).
De facto, o Filho – afirma Santo Ireneu de Lião – «é o Revelador do Pai».[310] Jesus
de Nazaré é, por assim dizer, o «exegeta» de Deus que «ninguém jamais viu»;
«Ele é a imagem do Deus invisível» (Cl 1, 15). Cumpre-se aqui a
profecia de Isaías relativa à eficácia da Palavra do Senhor: assim como a chuva
e a neve descem do céu para regar e fazer germinar a terra, assim também a
Palavra de Deus «não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter executado a
minha vontade e cumprido a sua missão» (Is 55, 10-11). Jesus Cristo
é esta Palavra definitiva e eficaz que saiu do Pai e voltou a Ele, realizando
perfeitamente no mundo a sua vontade.
Anunciar ao mundo o «Logos» da Esperança
91. O Verbo de Deus
comunicou-nos a vida divina que transfigura a face da terra, fazendo novas
todas as coisas (cf. Ap 21, 5). A sua Palavra envolve-nos não
só como destinatários da revelação divina, mas também como
seus arautos. Ele, o enviado do Pai para cumprir a sua vontade
(cf. Jo 5, 36-38; 6, 38-40; 7, 16-18), atrai-nos a Si e
envolve-nos na sua vida e missão. Assim o Espírito do Ressuscitado habilita a
nossa vida para o anúncio eficaz da Palavra em todo o mundo. É a experiência da
primeira comunidade cristã, que via difundir-se a Palavra por meio da pregação
e do testemunho (cf. Act 6, 7). Quero citar aqui
particularmente a vida do Apóstolo Paulo, um homem arrebatado completamente
pelo Senhor (cf. Fl 3, 12) – «já não sou eu que vivo, é Cristo
que vive em mim» (Gl 2, 20) – e pela sua missão: «Ai de mim se não
evangelizar!» (1 Cor 9, 16), ciente de que em Cristo se revela
realmente a salvação de todas as nações, a libertação da escravidão do pecado
para entrar na liberdade dos filhos de Deus.
Com efeito, o que a Igreja anuncia ao mundo é o Logos da Esperança (cf. 1
Pd 3, 15); o homem precisa da «grande Esperança» para poder viver o
seu próprio presente – a grande esperança que é «aquele Deus que possui um
rosto humano e que nos “amou até ao fim” (Jo 13, 1)».[311] Por
isso, na sua essência, a Igreja é missionária. Não podemos guardar para nós as
palavras de vida eterna, que recebemos no encontro com Jesus Cristo: são para
todos, para cada homem. Cada pessoa do nosso tempo – quer o saiba quer não –
tem necessidade deste anúncio. Oxalá o Senhor suscite entre os homens, como nos
tempos do profeta Amós, nova fome e nova sede das palavras do Senhor (cf. Am 8,
11). A nós cabe a responsabilidade de transmitir aquilo que por nossa vez
tínhamos, por graça, recebido.
Da Palavra de Deus deriva a missão da Igreja
92. O Sínodo dos Bispos reafirmou com veemência a necessidade de revigorar na
Igreja a consciência missionária, presente no Povo de Deus desde a sua origem.
Os primeiros cristãos consideraram o seu anúncio missionário como uma
necessidade derivada da própria natureza da fé: o Deus em quem acreditavam era
o Deus de todos, o Deus único e verdadeiro que Se manifestara na história de
Israel e, por fim, no seu Filho, oferecendo assim a resposta que todos os
homens, no seu íntimo, aguardam. As primeiras comunidades cristãs sentiram que
a sua fé não pertencia a um costume cultural particular, que diverge de povo
para povo, mas ao âmbito da verdade, que diz respeito igualmente a todos os
homens.
Também aqui São Paulo nos ilustra, com a sua vida, o sentido da missão cristã e
a sua originária universalidade. Pensemos no episódio do Areópago de Atenas,
narrado pelos Actos dos Apóstolos (cf. 17, 16-34). O Apóstolo
das Nações entra em diálogo com homens de culturas diversas, na certeza de que
o mistério de Deus, Conhecido-Desconhecido, do qual todo o homem tem uma certa
percepção embora confusa, revelou-Se realmente na história: «O que venerais sem
conhecer, é que eu vos anuncio» (Act 17, 23). De facto, a novidade
do anúncio cristão é a possibilidade de dizer a todos os povos: «Ele
mostrou-Se. Ele em pessoa. E agora está aberto o caminho para Ele. A novidade
do anúncio cristão não consiste num pensamento mas num facto: Ele revelou-Se».[312]
A Palavra e o Reino de Deus
93. Por conseguinte, a missão da Igreja não pode ser considerada como realidade
facultativa ou suplementar da vida eclesial. Trata-se de deixar que o Espírito
Santo nos assimile a Cristo, participando assim na sua própria missão: «Assim
como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21), de
modo a comunicar a Palavra com a vida inteira. É a própria Palavra que nos
impele para os irmãos: é a Palavra que ilumina, purifica, converte; nós somos
apenas servidores.
Por isso, é
necessário descobrir cada vez mais a urgência e a beleza de anunciar a Palavra
para a vinda do Reino de Deus, que o próprio Cristo pregou. Neste sentido,
renovamos a consciência – tão familiar aos Padres da Igreja – de que o anúncio
da Palavra tem como conteúdo o Reino de Deus (cf. Mc 1, 14-15),
sendo este a própria pessoa de Jesus (o Autobasileia),
como sugestivamente lembra Orígenes.[313]
O Senhor oferece a salvação aos homens de cada época. Todos nos damos conta de
quão necessário é que a luz de Cristo ilumine cada âmbito da humanidade: a
família, a escola, a cultura, o trabalho, o tempo livre e os outros sectores da
vida social.[314] Não
se trata de anunciar uma palavra anestesiante, mas desinstaladora, que chama à
conversão, que torna acessível o encontro com Ele, através do qual floresce uma
humanidade nova.
Todos os baptizados responsáveis do anúncio
94. Uma vez que todo o Povo de Deus é um povo «enviado», o Sínodo reafirmou que
«a missão de anunciar a Palavra de Deus é dever de todos os discípulos de Jesus
Cristo, em consequência do seu baptismo».[315] Nenhuma
pessoa que crê em Cristo pode sentir-se alheia a esta responsabilidade que
deriva do facto de ela pertencer sacramentalmente ao Corpo de Cristo. Esta
consciência deve ser despertada em cada família, paróquia, comunidade,
associação e movimento eclesial. Portanto toda a Igreja, enquanto mistério de
comunhão, é missionária e cada um, no seu próprio estado de vida, é chamado a
dar uma contribuição incisiva para o anúncio cristão.
Bispos e sacerdotes, segundo a missão
própria de cada um, são os primeiros chamados a uma vida cativada pelo serviço
da Palavra, para anunciar o Evangelho, celebrar os Sacramentos e formar os
fiéis no conhecimento autêntico das Escrituras. Sintam-se também os diáconos chamados
a colaborar, segundo a própria missão, para este compromisso de evangelização.
A vida consagrada resplandece, em
toda a história da Igreja, pela sua capacidade de assumir explicitamente o
dever do anúncio e da pregação da Palavra de Deus na missio ad gentes e
nas situações mais difíceis, mostrando-se disponível também para as novas condições
de evangelização, empreendendo com coragem e audácia novos percursos e novos
desafios para o anúncio eficaz da Palavra de Deus.[316]
Os fiéis leigos são chamados a exercer a sua missão profética, que
deriva directamente do baptismo, e testemunhar o Evangelho na vida diária onde
quer que se encontrem. A este respeito, os Padres sinodais exprimiram «a mais
viva estima e gratidão bem como encorajamento pelo serviço à evangelização que
muitos leigos, e particularmente as mulheres, prestam com generosidade e
diligência nas comunidades espalhadas pelo mundo, a exemplo de Maria de
Magdala, primeira testemunha da alegria pascal».[317] Além
disso, o Sínodo reconhece, com gratidão, que os movimentos eclesiais e as novas
comunidades constituem, na Igreja, uma grande força para a evangelização neste
tempo, impelindo a desenvolver novas formas de anúncio do Evangelho.[318]
A necessidade da «missio ad gentes»
95. Ao exortar todos os fiéis para o anúncio da Palavra divina, os Padres
sinodais reafirmaram a necessidade, no nosso tempo também, de um decidido
empenho na missio ad gentes. A Igreja não pode de modo algum
limitar-se a uma pastoral de «manutenção» para aqueles que já conhecem o
Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma
comunidade eclesial. Além disso, os Padres exprimiram vivamente a consciência
de que a Palavra de Deus é a verdade salvífica da qual tem necessidade cada
homem em todo o tempo. Por isso, o anúncio deve ser explícito. A Igreja deve ir
ao encontro de todos com a força do Espírito (cf. 1 Cor 2, 5)
e continuar profeticamente a defender o direito e a liberdade das pessoas
escutarem a Palavra de Deus, procurando os meios mais eficazes para a
proclamar, mesmo sob risco de perseguição.[319] A
todos a Igreja se sente devedora de anunciar a Palavra que salva (cf. Rm 1,
14).
Anúncio e nova evangelização
96. O Papa João Paulo II,
na esteira de quanto já expressara o Papa Paulo VI na
Exortação apostólica Evangelii
nuntiandi, tinha de muitos modos lembrado aos fiéis a
necessidade de uma nova estação missionária para todo o Povo de Deus.[320] Na
alvorada do terceiro milénio, não só existem muitos povos que ainda não
conheceram a Boa Nova, mas há também muitos cristãos que têm necessidade que
lhes seja anunciada novamente, de modo persuasivo, a Palavra de Deus, para
poderem assim experimentar concretamente a força do Evangelho. Há muitos irmãos
que são «baptizados mas não suficientemente evangelizados».[321] É
frequente ver nações, outrora ricas de fé e de vocações, que vão perdendo a
própria identidade, sob a influência de uma cultura secularizada.[322] A
exigência de uma nova evangelização, tão sentida pelo meu venerado Predecessor,
deve-se reafirmar sem medo, na certeza da eficácia da Palavra divina. A Igreja,
segura da fidelidade do seu Senhor, não se cansa de anunciar a boa nova do
Evangelho e convida todos os cristãos a redescobrirem o fascínio de seguir
Cristo.
Palavra de Deus e testemunho cristão
97. Os horizontes imensos da missão eclesial e a complexidade da situação
presente requerem hoje modalidades renovadas para se poder comunicar
eficazmente a Palavra de Deus. O Espírito Santo, agente primário de toda a
evangelização, nunca deixará de guiar a Igreja de Cristo nesta actividade.
Antes de mais nada, é importante que cada modalidade de anúncio tenha presente
a relação intrínseca entre comunicação da Palavra de Deus e testemunho
cristão; disso depende a própria credibilidade do anúncio. Por um lado, é
necessária a Palavra que comunique aquilo que o próprio Senhor nos disse; por
outro, é indispensável dar, com o testemunho, credibilidade a esta Palavra,
para que não apareça como uma bela filosofia ou utopia, mas antes como uma
realidade que se pode viver e que faz viver. Esta reciprocidade entre Palavra e
testemunho recorda o modo como o próprio Deus Se comunicou por meio da
encarnação do seu Verbo. A Palavra de Deus alcança os homens «através do
encontro com testemunhas que a tornam presente e viva».[323] Particularmente
as novas gerações têm necessidade de ser introduzidas na Palavra de Deus
«através do encontro e do testemunho autêntico do adulto, da influência
positiva dos amigos e da grande companhia que é a comunidade eclesial».[324]
Há uma relação
estreita entre o testemunho da Escritura, como atestado que a Palavra de Deus
dá de si mesma, e o testemunho de vida dos crentes. Um implica e conduz ao
outro. O testemunho cristão comunica a Palavra atestada nas Escrituras. Por sua
vez, as Escrituras explicam o testemunho que os cristãos são chamados a dar com
a própria vida. Deste modo, aqueles que encontram testemunhas credíveis do
Evangelho são levados a constatar a eficácia da Palavra de Deus naqueles que a
acolhem.
Nesta circularidade entre testemunho e Palavra, compreendem-se as afirmações
do Papa Paulo VI na
Exortação apostólica Evangelii
nuntiandi. A nossa responsabilidade não se limita a sugerir ao
mundo valores que compartilhamos; mas é preciso chegar ao anúncio explícito da
Palavra de Deus. Só assim seremos fiéis ao mandato de Cristo: «Por conseguinte
a Boa Nova proclamada pelo testemunho de vida deverá, mais cedo ou mais tarde,
ser anunciada pela palavra de vida. Não há verdadeira evangelização, se o nome,
a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho
de Deus, não forem proclamados».[325]
O facto do anúncio da
Palavra de Deus requerer o testemunho da própria vida é um dado bem presente na
consciência cristã desde as suas origens. O próprio Cristo é a testemunha fiel
e verdadeira (cf. Ap 1, 5; 3, 14), testemunha da Verdade
(cf. Jo 18, 37). A este propósito, desejo recordar os inumeráveis
testemunhos que tivemos a graça de ouvir durante a assembleia sinodal. Ficámos
profundamente impressionados com o relato daqueles que souberam viver a fé e
dar luminosos testemunhos do Evangelho mesmo sob regimes contrários ao
cristianismo ou em situações de perseguição.
Tudo isto não nos deve meter medo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos:
«Um servo não é maior que o seu senhor. Se a Mim Me perseguiram também vos
perseguirão a vós» (Jo 15, 20). Por isso desejo elevar a Deus, com
toda a Igreja, um hino de louvor pelo testemunho de muitos irmãos e irmãs que,
mesmo neste nosso tempo, deram a vida para comunicar a verdade do amor de Deus
que nos foi revelado em Cristo crucificado e ressuscitado. Além disso, exprimo
a gratidão da Igreja inteira aos cristãos que não se rendem perante os
obstáculos e as perseguições por causa do Evangelho. Ao mesmo tempo unimo-nos,
com profunda e solidária estima, aos fiéis de todas as comunidades cristãs,
particularmente na Ásia e na África, que neste tempo arriscam a vida ou a
marginalização social por causa da fé. Vemos realizar-se aqui o espírito das
bem-aventuranças do Evangelho para aqueles que são perseguidos por causa do
Senhor Jesus (cf. Mt 5, 11). Ao mesmo tempo não cessamos de
erguer a nossa voz para que os governos das nações garantam a todos liberdade
de consciência e de religião, inclusive para poder testemunhar publicamente a
própria fé.[326]
Palavra de Deus e
compromisso no mundo
Servir Jesus nos seus
«irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40)
99. A Palavra divina ilumina a existência humana e leva as consciências a
reverem em profundidade a própria vida, porque toda a história da humanidade
está sob o juízo de Deus: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória,
acompanhado por todos os seus anjos, sentar-Se-á, então, no seu trono de
glória. Perante Ele reunir-se-ão todas as nações» (Mt 25, 31-32).
No nosso tempo, detemo-nos muitas vezes superficialmente no valor do instante
que passa, como se fosse irrelevante para o futuro. Diversamente, o Evangelho
recorda-nos que cada momento da nossa existência é importante e deve ser vivido
intensamente, sabendo que cada um deverá prestar contas da própria vida. No
capítulo vinte e cinco do Evangelho de Mateus, o Filho do Homem
considera como feito ou não feito a Si aquilo que tivermos feito ou deixado de
fazer a um só dos seus «irmãos mais pequeninos» (25, 40.45): «Tive fome e
destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e
recolhestes-Me; estava nu e destes-Me de vestir; adoeci e visitastes-Me; estive
na prisão e fostes ter comigo» (25, 35-36). Deste modo, é a própria Palavra de
Deus que nos recorda a necessidade do nosso compromisso no mundo e a nossa
responsabilidade diante de Cristo, Senhor da História. Quando anunciamos o
Evangelho, exortamo-nos reciprocamente a cumprir o bem e a empenhar-nos pela
justiça, pela reconciliação e pela paz.
Palavra de Deus e compromisso na sociedade pela justiça
100. A Palavra de Deus impele o homem para relações animadas pela rectidão e
pela justiça, confirma o valor precioso aos olhos de Deus de todas as fadigas
do homem para tornar o mundo mais justo e mais habitável.[327] A
própria Palavra de Deus denuncia, sem ambiguidade, as injustiças e promove a
solidariedade e a igualdade.[328] À
luz das palavras do Senhor, reconheçamos pois os «sinais dos tempos» presentes
na história, não nos furtemos ao compromisso em favor de quantos sofrem e são
vítimas do egoísmo. O Sínodo lembrou que o compromisso pela justiça e a
transformação do mundo é constitutivo da evangelização. Como dizia o Papa Paulo VI, trata-se de
«chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios
de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de
pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se
apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação».[329]
Com este objectivo,
os Padres sinodais dirigiram um pensamento particular a quantos estão
empenhados na vida política e social. A evangelização e a difusão da Palavra de
Deus devem inspirar a sua acção no mundo à procura do verdadeiro bem de todos,
no respeito e promoção da dignidade de toda a pessoa. Certamente não é tarefa
directa da Igreja criar uma sociedade mais justa, embora lhe caiba o direito e
o dever de intervir sobre as questões éticas e morais que dizem respeito ao bem
das pessoas e dos povos. Compete sobretudo aos fiéis leigos formados na escola
do Evangelho intervir directamente na acção social e política. Por isso o
Sínodo recomenda uma adequada educação segundo os princípios da doutrina social
da Igreja.[330]
101. Além disso, quero chamar a atenção geral para a importância de defender e
promover os direitos humanos de toda a pessoa, que, como tais, são
«universais, invioláveis e inalienáveis».[331] A
Igreja aproveita a ocasião extraordinária oferecida pelo nosso tempo para que a
dignidade humana, através da afirmação de tais direitos, seja mais eficazmente
reconhecida e promovida universalmente,[332] como
característica impressa por Deus criador na sua criatura, assumida e redimida
por Jesus Cristo através da sua encarnação, morte e ressurreição. Por isso a
difusão da Palavra de Deus não pode deixar de reforçar a consolidação e o
respeito dos direitos humanos de cada pessoa.[333]
Anúncio da Palavra de
Deus, reconciliação e paz entre os povos
102. Dentre os numerosos âmbitos de compromisso, o Sínodo recomendou vivamente
a promoção da reconciliação e da paz. No contexto actual, é grande a
necessidade de descobrir a Palavra de Deus como fonte de reconciliação e de
paz, porque nela Deus reconcilia em Si todas as coisas (cf. 2 Cor 5,
18-20; Ef 1, 10): Cristo «é a nossa paz» (Ef 2,
14), Aquele que derruba os muros de divisão. Muitos testemunhos no Sínodo
comprovaram os graves e sangrentos conflitos e as tensões presentes no nosso
planeta. Às vezes tais hostilidades parecem assumir o aspecto de conflito
inter-religioso. Quero uma vez mais reafirmar que a religião nunca pode
justificar a intolerância ou as guerras. Não se pode usar a violência em nome
de Deus![334] Toda
a religião devia impelir para um uso correcto da razão e promover valores
éticos que edifiquem a convivência civil.
Fiéis à obra de reconciliação realizada por Deus em Jesus Cristo, crucificado e
ressuscitado, os católicos e todos os homens de boa vontade empenhem-se por dar
exemplos de reconciliação para se construir uma sociedade justa e pacífica.[335] Nunca
esqueçamos que «onde as palavras humanas se tornam impotentes, porque prevalece
o trágico clamor da violência e das armas, a força profética da Palavra de Deus
não esmorece e repete-nos que a paz é possível e que devemos, nós mesmos, ser
instrumentos de reconciliação e de paz».[336]
A Palavra de Deus e a caridade activa
103. O compromisso pela justiça, a reconciliação e a paz encontra a sua raiz
última e perfeição no amor que nos foi revelado em Cristo. Ouvindo os
testemunhos proferidos no Sínodo, tornámo-nos mais atentos à ligação que há
entre a escuta amorosa da Palavra de Deus e o serviço desinteressado aos
irmãos; que todos os fiéis compreendam «a necessidade de traduzir em gestos de
amor a palavra escutada, porque só assim se torna credível o anúncio do
Evangelho, apesar das fragilidades humanas que marcam as pessoas».[337] Jesus
passou por este mundo fazendo o bem (cf. Act 10, 38).
Escutando com ânimo disponível a Palavra de Deus na Igreja, desperta-se «a
caridade e a justiça para com todos, sobretudo para com os pobres».[338] É
preciso nunca esquecer que «o amor – caritas – será sempre
necessário, mesmo na sociedade mais justa. (…) Quem quer desfazer-se do amor,
prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem».[339] Por
isso, exorto todos os fiéis a meditarem com frequência o hino à caridade
escrito pelo Apóstolo Paulo, deixando-se inspirar por ele: «A caridade é
paciente, a caridade é benigna, não é invejosa; a caridade não se ufana, não se
ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita,
não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade nunca acabará» (1
Cor 13, 4-8).
Deste modo o amor do próximo, radicado no amor de Deus, deve ser o nosso
compromisso constante como indivíduos e como comunidade eclesial local e
universal. Diz Santo Agostinho: «É fundamental compreender que a plenitude da
Lei, bem como de todas as Escrituras divinas, é o amor (…). Por isso quem julga
ter compreendido as Escrituras, ou pelo menos uma parte qualquer delas, mas não
se empenha a construir, através da sua inteligência, este duplo amor de Deus e
do próximo, demonstra que ainda não as compreendeu».[340]
Anúncio da Palavra de Deus e os jovens
104. O Sínodo reservou uma atenção particular ao anúncio da Palavra divina
feito às novas gerações. Os jovens já são membros activos da Igreja e
representam o seu futuro. Muitas vezes encontramos neles uma abertura
espontânea à escuta da Palavra de Deus e um desejo sincero de conhecer
Jesus. De facto, na idade da juventude, surgem de modo irreprimível e
sincero as questões sobre o sentido da própria vida e sobre a
direcção que se deve dar à própria existência. A estas questões só Deus sabe
dar verdadeira resposta. Esta solicitude pelo mundo juvenil implica a coragem
de um anúncio claro; devemos ajudar os jovens a ganharem confidência e
familiaridade com a Sagrada Escritura, para que seja como uma bússola que
indica a estrada a seguir.[341] Para
isso, precisam de testemunhas e mestres, que caminhem com eles e os orientem
para amarem e por sua vez comunicarem o Evangelho sobretudo aos da sua idade,
tornando-se eles mesmos arautos autênticos e credíveis.[342]
É preciso que a Palavra divina seja apresentada também nas suas implicações
vocacionais de modo a ajudar e orientar os jovens nas suas opções de vida,
incluindo a consagração total.[343] Autênticas
vocações para a vida consagrada e para o sacerdócio encontram o seu terreno
propício no contacto fiel com a Palavra de Deus. Repito aqui o convite que fiz
no início do meu pontificado para abrir de par em par as portas a Cristo: «Quem
faz entrar Cristo, nada perde, nada – absolutamente nada daquilo que torna a
vida livre, bela e grande. Não! Só nesta amizade se abrem de par em par as
portas da vida. Só nesta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades
da condição humana. (…) Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo! Ele não
tira nada, e dá tudo. Quem se entrega a Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de
par em par as portas a Cristo, e encontrareis a vida verdadeira».[344]
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes
105. A Palavra de Deus torna-nos atentos à história e a tudo o que de novo
germina nela. Por isso o Sínodo quis, a propósito da missão evangelizadora da
Igreja, fixar a atenção também no fenómeno complexo dos movimentos migratórios,
que tem assumido nestes anos proporções inéditas. Aqui levantam-se questões
bastante delicadas relativas à segurança das nações e ao acolhimento que
se deve oferecer a quantos buscam refúgio, melhores condições de vida, saúde,
trabalho. Um grande número de pessoas, que não conhece Cristo ou possui uma
imagem imperfeita d’Ele, estabelece-se em países de tradição cristã. Ao mesmo
tempo pessoas que pertencem a povos marcados profundamente pela fé cristã
emigram para países onde há necessidade de levar o anúncio de Cristo e de uma
nova evangelização. Estas novas situações oferecem novas possibilidades para a
difusão da Palavra de Deus. A este propósito, os Padres sinodais afirmaram que
os migrantes têm o direito de ouvir o kerygma, que lhes é proposto,
não imposto. Se forem cristãos, necessitam de uma assistência pastoral adequada
para fortalecer a fé e serem eles mesmos portadores do anúncio evangélico.
Conscientes da complexidade do fenómeno, é necessário que todas as dioceses
interessadas se mobilizem para que os movimentos migratórios sejam considerados
também como ocasião para descobrir novas modalidades de presença e de anúncio e
se proveja, segundo as próprias possibilidades, a um condigno acolhimento e
animação destes nossos irmãos para que, tocados pela Boa Nova, se façam eles
mesmos anunciadores da Palavra de Deus e testemunhas do Senhor Ressuscitado,
esperança do mundo.[345]
Anúncio da Palavra de Deus e os doentes
106. Ao longo dos trabalhos sinodais, a atenção dos Padres deteve-se também na
necessidade de anunciar a Palavra de Deus a todos aqueles que estão em
condições de sofrimento físico, psíquico ou espiritual. De facto, é na hora do
sofrimento que se levantam mais acutilantes no coração do homem as
questões últimas sobre o sentido da própria vida. Se a palavra do homem
parece emudecer diante do mistério do mal e da dor e a nossa sociedade parece
dar valor à vida apenas se corresponde a certos níveis de eficiência e
bem-estar, a Palavra de Deus revela-nos que mesmo estas circunstâncias são
misteriosamente «abraçadas» pela ternura divina. A fé que nasce do encontro com
a Palavra divina ajuda-nos a considerar a vida humana digna de ser
vivida plenamente, mesmo quando está debilitada pelo mal. Deus criou o
homem para a felicidade e a vida, enquanto a doença e a morte entraram no mundo
em consequência do pecado (cf. Sb 2, 23-24). Mas o Pai da vida
é o médico por excelência do homem e não cessa de inclinar-
-Se amorosamente sobre a humanidade que sofre. Contemplamos o apogeu da
proximidade de Deus ao sofrimento do homem, no próprio Jesus que é «Palavra
encarnada. Sofreu connosco, morreu. Com a sua paixão e morte, assumiu e
transformou profundamente a nossa debilidade».[346]
A proximidade de Jesus aos doentes não se interrompeu: prolonga-se no
tempo graças à acção do Espírito Santo na missão da Igreja, na Palavra e nos
Sacramentos, nos homens de boa vontade, nas actividades de assistência que as
comunidades promovem com caridade fraterna, mostrando assim o verdadeiro rosto
de Deus e o seu amor. O Sínodo dá graças a Deus pelo testemunho esplêndido,
frequentemente escondido, de muitos cristãos – sacerdotes, religiosos e leigos
– que emprestaram e continuam a emprestar as suas mãos, os seus olhos e os seus
corações a Cristo, verdadeiro médico dos corpos e das almas. Depois exorta para
que se continue a cuidar das pessoas doentes, levando-lhes a presença
vivificadora do Senhor Jesus na Palavra e na Eucaristia. Sejam ajudadas a ler a
Escritura e a descobrir que podem, precisamente na sua condição, participar de
um modo particular no sofrimento redentor de Cristo pela salvação do mundo
(cf. 2 Cor 4, 8-11.14).[347]
Anúncio da Palavra de Deus e os pobres
107. A Sagrada Escritura manifesta a predilecção de Deus pelos pobres e necessitados
(cf. Mt 25, 31-46). Com frequência, os Padres sinodais
lembraram a necessidade de que o anúncio evangélico e o empenho dos pastores e
das comunidades se dirijam a estes nossos irmãos. Com efeito, «os primeiros que
têm direito ao anúncio do Evangelho são precisamente os pobres, necessitados
não só de pão mas também de palavras de vida».[348] A
diaconia da caridade, que nunca deve faltar nas nossas Igrejas, tem de estar
sempre ligada ao anúncio da Palavra e à celebração dos santos mistérios.[349] Ao
mesmo tempo é preciso reconhecer e valorizar o facto de que os próprios pobres
são também agentes de evangelização. Na Bíblia, o verdadeiro pobre é aquele que
se confia totalmente a Deus e, no Evangelho, o próprio Jesus chama-os bem-aventurados,
«porque deles é o reino dos céus» (Mt 5, 3; cf. L c 6,
20). O Senhor exalta a simplicidade de coração de quem reconhece em Deus a
verdadeira riqueza, coloca n’Ele a sua esperança e não nos bens deste mundo. A
Igreja não pode desiludir os pobres: «Os pastores são chamados a ouvi-los, a
aprender deles, a guiá-los na sua fé e a motivá-los para serem construtores da
própria história».[350]
A Igreja está ciente
também de que existe uma pobreza que é virtude a cultivar e a
abraçar livremente, como fizeram muitos Santos, e há a miséria,
muitas vezes resultante de injustiças e provocada pelo egoísmo, que produz
indigência e fome e alimenta os conflitos. Quando a Igreja anuncia a Palavra de
Deus sabe que é preciso favorecer um «círculo virtuoso» entre a pobreza «que
se deve escolher» e a pobreza «que se deve combater», redescobrindo
«a sobriedade e a solidariedade como valores simultaneamente evangélicos e
universais. (…) Isto obriga a opções de justiça e de sobriedade».[351]
Palavra de Deus e defesa da criação
108. O compromiso no mundo requerido pela Palavra divina impele-nos a ver com
olhos novos todo o universo criado por Deus e que traz já em si os vestígios do
Verbo, por Quem tudo foi feito (cf. Jo 1, 2). Com efeito, há
uma responsabilidade que nos compete como fiéis e anunciadores do Evangelho
também a respeito da criação. A revelação, ao mesmo tempo que nos dá a conhecer
o desígnio de Deus sobre o universo, leva-nos também a denunciar os
comportamentos errados do homem, quando não reconhece todas as coisas como
reflexo do Criador, mas mera matéria que se pode manipular sem escrúpulos.
Deste modo, falta ao homem aquela humildade essencial que lhe permite
reconhecer a criação como dom de Deus que se deve acolher e usar segundo o seu
desígnio. Ao contrário, a arrogância do homem que vive como se Deus não
existisse, leva a explorar e deturpar a natureza, não a reconhecendo como uma
obra da Palavra criadora. Neste quadro teológico, desejo lembrar as afirmações
dos Padres sinodais ao recordarem que o facto de «acolher a Palavra de Deus
atestada na Sagrada Escritura e na Tradição viva da Igreja gera um novo modo de
ver as coisas, promovendo um ecologia autêntica, que tem a sua raiz mais
profunda na obediência da fé, (…) e desenvolvendo una renovada sensibilidade teológica
sobre a bondade de todas as coisas, criadas em Cristo».[352] O
homem precisa de ser novamente educado para se maravilhar, reconhecendo a
verdadeira beleza que se manifesta nas coisas criadas.[353]
O valor da cultura
para a vida do homem
109. O anúncio joanino referente à encarnação do Verbo revela o vínculo
indissolúvel que existe entre a Palavra divina e as palavras
humanas, através das quais Se nos comunica. Foi no âmbito desta reflexão
que o Sínodo dos Bispos se deteve sobre a relação entre Palavra de Deus e
cultura. De facto, Deus não Se revela ao homem abstractamente, mas assumindo
linguagens, imagens e expressões ligadas às diversas culturas. Trata-se de uma
relação fecunda, largamente testemunhada na história da Igreja. Hoje tal
relação entra também numa nova fase, devido à propagação e enraizamento da
evangelização dentro das diversas culturas e nas mais recentes evoluções da
cultura ocidental. Isto implica, antes de mais nada, reconhecer a importância
da cultura como tal para a vida de cada homem. De facto, o fenómeno da cultura,
nos seus múltiplos aspectos, apresenta-se como um dado constitutivo da
experiência humana: «O homem vive sempre segundo uma cultura que lhe é própria
e por sua vez cria entre os homens um laço, que lhes é próprio também,
determinando o carácter inter-humano e social da existência humana».[354]
A Palavra de Deus inspirou, ao longo dos séculos, as diversas culturas, gerando
valores morais fundamentais, expressões artísticas magníficas e estilos de vida
exemplares.[355] Assim,
na esperança de um renovado encontro entre Bíblia e culturas, quero reafirmar a
todos os agentes culturais que nada têm a temer da sua abertura à Palavra de
Deus, que nunca destrói a verdadeira cultura, mas constitui um estímulo
constante para a busca de expressões humanas cada vez mais apropriadas e
significativas. Para servir verdadeiramente o homem, cada cultura autêntica
deve estar aberta à transcendência e, em última análise, a Deus.
A Bíblia como grande código para as culturas
110. Os Padres sinodais sublinharam a importância de favorecer um adequado
conhecimento da Bíblia entre os agentes culturais, mesmo nos ambientes
secularizados e entre os não crentes;[356] na
Sagrada Escritura, estão contidos valores antropológicos e filosóficos que
influíram positivamente sobre toda a humanidade.[357] Deve-se
recuperar plenamente o sentido da Bíblia como grande código para as culturas.
O conhecimento da Bíblia nas escolas e universidades
111. Um âmbito particular do encontro entre Palavra de Deus e culturas é o
da escola e da universidade. Os Pastores tenham um
cuidado especial por estes ambientes, promovendo um conhecimento profundo da
Bíblia para se poder individuar, também hoje, as suas fecundas implicações
culturais. Os centros de estudo promovidos pelas realidades católicas oferecem
uma contribuição original – que deve ser reconhecida – para a promoção da
cultura e da instrução. Além disso, não se deve descuidar o ensino da
religião, formando cuidadosamente os professores. Em muitos casos, isto
representa para os estudantes uma ocasião única de contacto com a mensagem da
fé. É bom que se promova, neste ensino, o conhecimento da Sagrada Escritura,
superando antigos e novos preconceitos e procurando dar a conhecer a sua
verdade.[358]
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas
112. A relação entre Palavra de Deus e cultura encontrou expressão em obras de
âmbitos diversos, particularmente no mundo da arte. Por isso a grande
tradição do Oriente e do Ocidente sempre estimou as manifestações artísticas
inspiradas na Sagrada Escritura, como, por exemplo, as artes figurativas e a
arquitectura, a literatura e a música. Penso também na antiga linguagem
expressa pelos ícones que, partindo da tradição oriental, aos
poucos se foi espalhando por todo o mundo. Com os Padres sinodais, a Igreja
inteira exprime apreço, estima e admiração pelos artistas «enamorados da
beleza», que se deixaram inspirar pelos textos sagrados; contribuíram para a
decoração das nossas igrejas, a celebração da nossa fé, o enriquecimento da
nossa liturgia, e muitos deles ajudaram ao mesmo tempo a tornar de algum modo
perceptível no tempo e no espaço as realidades invisíveis e eternas.[359] Exorto
os organismos competentes a promoverem na Igreja uma sólida formação dos
artistas sobre a Sagrada Escritura à luz da Tradição viva da Igreja e do
Magistério.
Palavra de Deus e meios de comunicação social
113. Ligada à relação entre Palavra de Deus e culturas está também a
importância da utilização cuidadosa e inteligente dos meios, antigos e novos,
de comunicação social. Os Padres sinodais recomendaram um conhecimento
apropriado destes instrumentos, estando atentos ao seu rápido desenvolvimento e
aos diversos níveis de interacção e investindo maiores energias para adquirir
competência nos vários sectores, particularmente nos novos meios de
comunuicação, como por exemplo a internet. Por parte da Igreja, já
existe uma si-gnificativa presença no mundo da comunicação de massa, e o
próprio Magistério eclesial exprimiu-se várias vezes sobre este tema a partir
do Concílio
Vaticano II.[360] A
aquisição de novos métodos para transmitir a mensagem evangélica faz parte da
constante tensão evangelizadora dos fiéis, e hoje a rede de comunicação envolve
o mundo inteiro, tendo adquirido um novo significado o apelo de Cristo: «O que
vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia, e o que escutais ao ouvido,
proclamai-o sobre os terraços» (Mt 10, 27). Para além da forma
escrita, a Palavra divina deve ressoar também através das outras formas de
comunicação.[361] Por
isso, juntamente com os Padres sinodais, desejo agradecer aos católicos que
lutam com competência por uma presença significativa no mundo dos mass
media, solicitando um empenhamento ainda mais amplo e qualificado.[362]
Entre as novas formas de comunicação de massa, há que reconhecer hoje um papel
crescente à internet, que constitui um novo fórum onde fazer
ressoar o Evangelho, na certeza, porém, de que o mundo virtual nunca poderá
substituir o mundo real e que a evangelização só poderá usufruir da virtualidade oferecida
pelos novos meios de comunicação para instaurar relações significativas, se se
chegar ao encontro pessoal que permanece insubstituível. No
mundo da internet, que permite que bilhões de imagens apareçam
sobre milhões de monitores em todo o mundo, deverá sobressair o rosto
de Cristo e ouvir-se a sua voz, porque, «se não há espaço para Cristo,
não há espaço para o homem».[363]
Bíblia e inculturação
114. O mistério da encarnação mostra-nos que Deus, por um lado, comunica-Se
sempre numa história concreta, assumindo os códigos culturais nela inscritos,
mas, por outro, a própria Palavra pode e deve transmitir-se em culturas
diferentes, transfigurando-as a partir de dentro através daquilo que Paulo VI chamava a
evangelização das culturas.[364] Deste
modo a Palavra de Deus, como aliás a fé cristã, manifesta um carácter
profundamente intercultural, capaz de encontrar e fazer encontrar
culturas diversas.[365]
Neste contexto, compreende-se também o valor da inculturação do
Evangelho.[366] A
Igreja está firmemente persuadida da capacidade intrínseca que tem a Palavra de
Deus de atingir todas as pessoas humanas no contexto cultural onde vivem: «Esta
convicção deriva da própria Bíblia, que, desde o livro do Génesis, assume uma
orientação universal (cf. Gn 1, 27-28), mantém-na depois na
bênção prometida a todos os povos graças a Abraão e à sua descendência
(cf. Gn 12, 3; 18, 18) e confirma-a definitivamente quando
estende a “todas as nações” a evangelização».[367] Por
isso, a inculturação não deve ser confundida com processos de adaptação
superficial, nem mesmo com a amálgama sincretista que dilui a originalidade do
Evangelho para o tornar mais facilmente aceitável.[368] O
autêntico paradigma da inculturação é a própria encarnação do Verbo: «A
“aculturação” ou “inculturação” será realmente um reflexo da encarnação do
Verbo, quando uma cultura, transformada e regenerada pelo Evangelho produzir na
sua própria tradição expressões originais de vida, de celebração, de pensamento
cristão»,[369] levedando
como o fermento dentro da cultura local, valorizando as semina Verbi e
tudo o que de positivo haja nela, abrindo-a aos valores evangélicos.[370]
Traduções e difusão da Bíblia
115. Se a inculturação da Palavra de Deus é parte imprescindível da missão da
Igreja no mundo, um momento decisivo deste processo é a difusão da Bíblia por
meio do valioso trabalho de tradução nas diversas línguas. A este propósito,
nunca se deve esquecer que a obra de tradução das Escrituras «teve início desde
os tempos do Antigo Testamento quando o texto hebraico da Bíblia foi traduzido
oralmente para aramaico (Ne 8, 8.12) e, mais tarde, traduzido de
forma escrita para grego. De facto, uma tradução é sempre algo mais do que uma
simples transcrição do texto original. A passagem de uma língua para outra
comporta necessariamente uma mudança de contexto cultural: os conceitos não são
idênticos e o alcance dos símbolos é diferente, porque põem em relação com
outras tradições de pensamento e outros modos de viver».[371]
Durante os trabalhos
sinodais, pôde-se constatar que várias Igrejas locais ainda não dispõem de uma
tradução integral da Bíblia nas suas próprias línguas. Actualmente quantos
povos têm fome e sede da Palavra de Deus, mas infelizmente não podem ainda ter
um «acesso patente à Sagrada Escritura»,[372] como
desejara o Concílio
Vaticano II. Por isso, o Sínodo considera importante, antes de mais
nada, a formação de especialistas que se dediquem a traduzir a Bíblia nas
diversas línguas.[373] Encorajo
a que se invistam recursos neste âmbito. De modo particular, quero recomendar
que seja apoiado o empenho da Federação Bíblica Católica para um incremento
ainda maior do número das traduções da Sagrada Escritura e da sua minuciosa
difusão.[374] Bom
será que tal trabalho, pela sua própria natureza, seja feito na medida do
possível em colaboração com as diversas Sociedades Bíblicas.
A Palavra de Deus supera os limites das culturas
116. No debate sobre a relação entre Palavra de Deus e culturas, a assembleia
sinodal sentiu necessidade de reafirmar aquilo que os primeiros cristãos
puderam experimentar desde o dia de Pentecostes (cf. Act 2,
1-13). A Palavra divina é capaz de penetrar e exprimir-se em culturas e línguas
diferentes, mas a própria Palavra transfigura os limites de cada uma das
culturas criando comunhão entre povos diversos. A Palavra do Senhor convida-nos
a avançar para uma comunhão mais vasta. «Saímos da estreiteza das nossas
experiências e entramos na realidade que é verdadeiramente universal. Entrando
na comunhão com a Palavra de Deus, entramos na comunhão da Igreja que vive a Palavra
de Deus. (…) É sair dos limites de cada uma das culturas para a universalidade
que nos vincula a todos, a todos nos une e faz irmãos».[375] Portanto,
anunciar a Palavra de Deus começa sempre por nos pedir a nós mesmos um renovado
êxodo, deixando as nossas medidas e as nossas imaginações limitadas para abrir
espaço em nós à presença de Cristo.
Palavra de Deus e diálogo
inter-religioso
O valor do diálogo inter-religioso
117. A Igreja reconhece como parte essencial do anúncio da Palavra o encontro,
o diálogo e a colaboração com todos os homens de boa vontade, particularmente
com as pessoas pertencentes às diversas tradições religiosas da humanidade,
evitando formas de sincretismo e de relativismo e seguindo as linhas indicadas
pela Declaração do Concílio
Vaticano II Nostra aetate e
desenvolvidas pelo Magistério sucessivo dos Sumos Pontífices.[376] O
processo veloz de globalização, característico da nossa época, permite viver em
contacto mais estreito com pessoas de culturas e religiões diferentes. Trata-se
de uma oportunidade providencial para manifestar como o autêntico sentido
religioso pode promover entre os homens relações de fraternidade universal. É
muito importante que as religiões possam favorecer, nas nossas sociedades
frequentemente secularizadas, uma mentalidade que veja em Deus Omnipotente o
fundamento de todo o bem, a fonte inexaurível da vida moral, o sustentáculo de
um profundo sentido de fraternidade universal.
Na tradição
judaico-cristã, por exemplo, encontra-se sugestivamente confirmado o amor de
Deus por todos os povos, que Ele, já na Aliança estabelecida com Noé, reúne num
único e grande abraço simbolizado pelo «arco nas nuvens» (Gn 9,
13.14.16) e que, segundo as palavras dos profetas, pretende congregar numa
única família universal (cf. Is 2, 2ss; 42, 6; 66,
18-21; Jr 4, 2; Sl 47). Na realidade
aparecem, em muitas das grandes tradições religiosas, testemunhos da ligação
íntima que existe entre a relação com Deus e a ética do amor por todo o homem.
Diálogo entre cristãos e muçulmanos
118. De entre as diversas religiões, a Igreja olha com estima os muçulmanos,
que reconhecem a existência de um único Deus;[377] fazem
referimento a Abraão e prestam culto a Deus sobretudo com a oração, a esmola e
o jejum. Reconhecemos que, na tradição do Islão, há muitas figuras, símbolos e
temas bíblicos. Em continuidade com a importante acção empreendida pelo
Venerável João Paulo II,
desejo que as relações baseadas na confiança, que estão instauradas desde há
diversos anos entre cristãos e muçulmanos, continuem e se desenvolvam num
espírito de diálogo sincero e respeitoso.[378] Neste
diálogo, o Sínodo fez votos de que se possam aprofundar o respeito da vida como
valor fundamental, os direitos inalienáveis do homem e da mulher e a sua igual
dignidade. Tendo em conta a distinção entre a ordem sociopolítica e a ordem
religiosa, as religiões devem dar a sua contribuição para o bem comum. O Sínodo
pede às Conferências Episcopais que se favoreçam, onde for oportuno e profícuo,
encontros para um conhecimento recíproco entre cristãos e muçulmanos a fim de
se promoverem os valores de que a sociedade tem necessidade para uma convivência
pacífica e positiva.[379]
Diálogo com as outras religiões
119. Além disso, desejo aqui manifestar o respeito da Igreja pelas antigas
religiões e tradições espirituais dos vários Continentes; contêm valores que
podem favorecer imenso a compreensão entre as pessoas e os povos.[380] Muitas
vezes constatamos sintonias com valores expressos também nos seus livros
religiosos, como, por exemplo, o respeito pela vida, a contemplação, o silêncio
e a simplicidade, no Budismo; o sentido da sacralidade, do sacrifício e do
jejum, no Hinduísmo; e ainda os valores familiares e sociais no Confucionismo.
Vemos, ainda noutras experiências religiosas, uma sincera atenção à
transcendência de Deus, reconhecido como Criador, e também ao respeito da vida,
do matrimónio e da família e ainda um forte sentido da solidariedade.
Diálogo e liberdade religiosa
120. Todavia o diálogo não seria fecundo, se não incluísse também um verdadeiro
respeito por toda a pessoa para que possa aderir livremente à sua própria
religião. Por isso o Sínodo, ao mesmo tempo que promove a colaboração entre os
expoentes das diversas religiões, recorda igualmente «a necessidade de que seja
efectivamente assegurada a todos os crentes a liberdade de professar, privada e
publicamente a sua própria religião, e também a liberdade de consciência»;[381] de
facto «o respeito e o diálogo exigem a reciprocidade em todos os campos,
sobretudo no que diz respeito às liberdades fundamentais e, de modo muito
particular, à liberdade religiosa. Tal respeito e diálogo favorecem a paz e a
harmonia entre os povos».[382]
CONCLUSÃO
A palavra definitiva de Deus
121. No termo destas reflexões, em que reuni e aprofundei a riqueza da XII Assembleia
Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus na
vida e na missão da Igreja, desejo uma vez mais exortar todo o Povo de Deus, os
Pastores, as pessoas consagradas e os fiéis leigos a empenharem-se para que as
Sagradas Escrituras se lhes tornem cada vez mais familiares. Nunca devemos
esquecer que, na base de toda a espiritualidade cristã autêntica e viva,
está a Palavra de Deus anunciada, acolhida, celebrada e meditada na
Igreja. A intensificação do relacionamento com a Palavra divina acontecerá
com tanto maior decisão quanto mais cientes estivermos de nos encontrar, quer
na Escritura quer na Tradição viva da Igreja, em presença da Palavra definitiva
de Deus sobre o universo e a história.
Como nos leva a
contemplar o Prólogo do Evangelho de João, todo o ser está sob o
signo da Palavra. O Verbo sai do Pai e vem habitar entre os Seus e regressa ao
seio do Pai para levar consigo toda a criação que n’Ele e para Ele fora criada.
Agora a Igreja vive a sua missão na veemente expectativa da manifestação
escatológica do Esposo: «O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!”» (Ap 22,
17). Esta expectativa nunca é passiva, mas tensão missionária de anúncio da
Palavra de Deus que cura e redime todo o homem; ainda hoje Jesus ressuscitado
nos diz: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura» (Mc 16,
15).
Nova evangelização e
nova escuta
122. Por isso, o nosso deve ser cada vez mais o tempo de uma nova escuta da
Palavra de Deus e de uma nova evangelização. É que descobrir a
centralidade da Palavra de Deus na vida cristã faz-nos encontrar o sentido mais
profundo daquilo que João Paulo II incansavelmente
lembrou: continuar a missio ad gentes e empreender com todas
as forças a nova evangelização, sobretudo naquelas nações onde o Evangelho foi
esquecido ou é vítima da indiferença da maioria por causa de um difundido
secularismo. O Espírito Santo desperte nos homens fome e sede da Palavra de
Deus e os torne zelosos anunciadores e testemunhas do Evangelho.
À imitação do grande
Apóstolo das Nações, que ficou transformado depois de ter ouvido a voz do
Senhor (cf. Act 9, 1-30), escutemos também nós a Palavra
divina que não cessa de nos interpelar pessoalmente aqui e agora. O Espírito
Santo reservou para Si – narram os Actos dos Apóstolos – Paulo
e Barnabé para a pregação e a difusão da Boa Nova (cf. 13, 2). Também hoje de
igual modo o Espírito Santo não cessa de chamar ouvintes e anunciadores
convictos e persuasivos da Palavra do Senhor.
A Palavra e a alegria
123. Quanto mais soubermos colocar-nos à disposição da Palavra divina, tanto
mais poderemos constatar como o mistério do Pentecostes se está a realizar
ainda hoje na Igreja de Deus. O Espírito do Senhor continua a derramar os seus
dons sobre a Igreja, para que sejamos guiados para a verdade total,
desvendando-nos o sentido das Escrituras e tornando-nos anunciadores credíveis
da Palavra de salvação. E assim regressamos à Primeira Carta de São
João. Na Palavra de Deus, também nós escutámos, vimos e tocámos o Verbo da
vida. Por graça, acolhemos o anúncio de que a vida eterna se manifestou, de
modo que agora reconhecemos que estamos em comunhão uns com os outros, com quem
nos precedeu no sinal da fé e com todos aqueles que, espalhados pelo mundo,
escutam a Palavra, celebram a Eucaristia, vivem o testemunho da caridade.
Recebemos a comunicação deste anúncio – recorda-nos o apóstolo João – para que
«a nossa alegria seja completa» (cf. 1 Jo 1, 4).
A Assembleia sinodal permitiu-nos experimentar tudo isto que está contido na
mensagem joanina: o anúncio da Palavra cria comunhão e gera
a alegria. Trata-se de uma alegria profunda que brota do próprio
coração da vida trinitária e é-nos comunicada no Filho. Trata-se da alegria
como dom inefável que o mundo não pode dar. Podem-se organizar festas, mas não
a alegria. Segundo a Escritura, a alegria é fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5,
22), que nos permite entrar na Palavra e fazer com que a Palavra divina entre
em nós e frutifique para a vida eterna. Anunciando a Palavra de Deus na força
do Espírito Santo, queremos comunicar também a fonte da verdadeira alegria, não
uma alegria superficial e efémera, mas aquela que brota da certeza de que só o
Senhor Jesus tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68).
«Mater Verbi et Mater laetitiae»
124. Esta relação íntima entre a Palavra de Deus e a alegria aparece em
evidência precisamente na Mãe de Deus. Recordemos as palavras de Santa Isabel:
«Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram
ditas da parte do Senhor» (L c 1, 45). Maria é feliz porque tem fé,
porque acreditou, e, nesta fé, acolheu no seu ventre o Verbo de Deus para O dar
ao mundo. A alegria recebida da Palavra pode agora estender-se a todos aqueles
que na fé se deixam transformar pela Palavra de Deus. O Evangelho de
Lucas apresenta-nos este mistério de escuta e de alegria, em dois
textos. Jesus afirma: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra
de Deus e a põem em prática» (8, 21). E, em resposta à exclamação duma mulher
que, do meio da multidão, pretende exaltar o ventre que O trouxe e o seio que O
amamentou, Jesus revela o segredo da verdadeira alegria: «Diz antes: Felizes os
que escutam a palavra de Deus e a põem em prática» (11, 28). Jesus manifesta a
verdadeira grandeza de Maria, abrindo assim também a cada um de nós a
possibilidade daquela bem-aventurança que nasce da Palavra acolhida e posta em
prática. Por isso, recordo a todos os cristãos que o nosso relacionamento
pessoal e comunitário com Deus depende do incremento da nossa familiaridade com
a Palavra divina. Por fim, dirijo-me a todos os homens, mesmo a quantos se
afastaram da Igreja, que abandonaram a fé ou que nunca ouviram o anúncio de
salvação. O Senhor diz a cada um: «Eis que estou à porta e bato. Se alguém
ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele
comigo» (Ap 3, 20).
Por isso, cada um dos
nossos dias seja plasmado pelo encontro renovado com Cristo, Verbo do Pai feito
carne: Ele está no início e no fim de tudo, e n’Ele todas as coisas subsistem
(cf. Cl 1, 17). Façamos silêncio para ouvir a Palavra do
Senhor e meditá-la, a fim de que a mesma, através da acção eficaz do Espírito
Santo, continue a habitar e a viver em nós e a falar-nos ao longo de todos os
dias da nossa vida. Desta forma, a Igreja sempre se renova e rejuvenesce graças
à Palavra do Senhor, que permanece eternamente (cf. 1 Pd 1,
25; Is 40, 8). Assim também nós poderemos entrar no esplêndido
diálogo nupcial com que se encerra a Sagrada Escritura: «O Espírito e a Esposa
dizem: “Vem”! E, aquele que ouve, diga: “Vem”! (…) O que dá testemunho destas
coisas diz. “Sim, Eu venho em breve”! Amen. Vem, Senhor Jesus!» (Ap 22,
17.20).
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 30 de Setembro – memória de São
Jerónimo – de 2010, sexto ano de Pontificado.
BENEDICTUS PP. XVI
[1] Cf. Propositio 1.
[2] Cf. XII Assembleia
Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Instrumentum
laboris, 27.
[3] Cf. Leão XIII, Carta
enc. Providentissimus
Deus (18 de Novembro de 1893): ASS 26
(1893-94), 269-292; Bento XV,
Carta enc. Spiritus
Paraclitus (15 de Setembro de 1920): AAS 12
(1920), 385-422; Pio XII,
Carta enc. Divino afflante
Spiritu (30 de Setembro de 1943): AAS 35
(1943), 297-325.
[4] Propositio 2.
[5] Ibidem.
[6] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
2.
[7] Ibid., 4.
[8] Entre as várias intervenções, de natureza diversa,
há que recordar: Paulo VI,
Carta ap. Summi Dei Verbum (4
de Novembro de 1963): AAS 55 (1963), 979-995; Idem, Motu
proprio Sedula cura (27
de Junho de 1971): AAS 63 (1971), 665-669; João Paulo II, Audiência Geral (1 de Maio
de 1985): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de
5/V/1985), p. 12; Idem, Discurso sobre a
interpretação da Bíblia na Igreja (23 de Abril de
1993): AAS 86 (1994), 232-243; Bento XVI, Discurso no
Congresso internacional por ocasião do 40º aniversário da Dei Verbum (16
de Setembro de 2005): AAS 97 (2005), 957; Idem, Angelus (6
de Novembro de 2005): Insegnamenti I (2005), 759-760. Há que
citar ainda as intervenções da Pont. Comissão Bíblica, De sacra
Scriptura et Christologia (1984): Ench. Vat. 9,
n. 1208-1339; Unidade e diversidade na Igreja (11 de Abril de
1988): Ench. Vat. 11, n. 544-643; A interpretação
da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993): Ench.
Vat. 13, n. 2846-3150; O povo judeu e
as suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã (24 de Maio de
2001): Ench. Vat. 20, n. 733-1150; Bíblia e moral.
Raízes bíblicas do agir cristão (11 de Maio de 2008),
Cidade do Vaticano 2008.
[9] Cf. Bento XVI, Discurso à Cúria
Romana (22 de Dezembro de 2008): AAS 101
(2009), 49.
[10] Cf. Propositio 37.
[11] Cf. Pont. Comissão Bíblica, O povo judeu e
as suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã (24 de Maio de 2001): Ench.
Vat. 20, n. 733-1150.
[12] Bento XVI, Discurso à Cúria
Romana (22 de Dezembro de 2008): AAS 101
(2009), 50.
[13] Bento XVI, Angelus (4
de Janeiro de 2009): Insegnamenti, V/1 (2009), 13.
[14] Cf. Relatio ante disceptationem,
I.
[15] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
2.
[16] Bento XVI,
Carta enc. Deus caritas est (25
de Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218.
[18] Credo de Niceia-Constantinopla: DS
150.
[19] São Bernardo de Claraval, Homilia super
missus est, IV, 11: PL 183, 86 B.
[20] Cf. Conc. Ecum. VAT. II, Const. dogm. sobre a
Revela-ção divina Dei Verbum,
10.
[21] Cf. Propositio 3.
[22] Cf. Congr. para a Doutrina da Fé, Declaração sobre
a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja Dominus Iesus (6
de Agosto de 2000), 13-15: AAS 92 (2000), 754-756.
[23] Cf. In Hexaemeron, XX, 5: Opera
Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 425-426; Breviloquium, I,
8: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 216-217.
[24] Itinerarium mentis in Deum, II,
12: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 302-303; cf. Commentarius
in librum Ecclesiastes, cap. 1, vers. 11, Quaestiones, II,
3: Opera Omnia, VI (Quaracchi 1891), p. 16.
[25] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
3; cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius,
cap. 2 – De revelatione: DS 3004.
[26] Cf. Propositio 13.
[27] Comissão Teológica Internacional, À procura de uma
ética universal: novo olhar sobre a lei natural, Cidade do
Vaticano 2009, n. 39.
[28] Cf. Summa theologiae, Ia-IIae, q. 94,
a. 2.
[29] Cf. Pont. Comissão Bíblica, Bíblia e moral.
Raízes bíblicas do agir cristão (11 de Maio de 2008),
Cidade do Vaticano 2008, nn. 13, 32 e 109.
[30] Cf. Comissão Teológica Internacional, À procura de uma
ética universal: novo olhar sobre a lei natural, Cidade do
Vaticano 2009, n. 102.
[31] Cf. Bento XVI, Homilia
durante a Hora Tércia no início da I Congregação Geral do
Sínodo dos Bispos (6 de Outubro de 2008): AAS 100
(2008), 758-761.
[32] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
14.
[33] Bento XVI,
Carta enc. Deus caritas est (25
Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218.
[34] « Ho Logos pachynetai (ou brachynetai)».
Cf. Orígenes, Peri Archon, I, 2, 8: SC 252,
127-129.
[35] Bento XVI, Homilia na
solenidade do Natal do Senhor (24 de Dezembro de
2006): AAS 99 (2007), 12.
[36] Cf. Mensagem final, II, 4-6.
[37] Máximo o Confessor, A vida de Maria,
n. 89: Textos marianos do primeiro milénio, 2, Roma 1989, p.
253.
[38] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 9-10: AAS 99
(2007), 111-112.
[39] Bento XVI, Audiência Geral (15 de
Abril de 2009): L’Osservatore Romano (ed.
portuguesa de 18/IV/2009), p. 12.
[40] Bento XVI, Homilia na
solenidade da Epifania (6 de Janeiro de 2009): L’Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 10/I/2009), p. 3.
[41] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
4.
[42] Propositio 4.
[43] São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo,
II, 22.
[44] Propositio 47.
[45] Catecismo da
Igreja Católica, 67.
[46] Cf. Congr. para a Doutrina da Fé, A mensagem de
Fátima (26 de Junho de 2000): Ench. Vat., 19,
n. 974-1021.
[47] Adversus haereses, IV, 7, 4: PG 7,
992-993; V, 1, 3: PG 7, 1123; V, 6, 1: PG 7,
1137; V, 28, 4: PG 7, 1200.
[48] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 12: AAS 99
(2007), 113-114.
[49] Cf. Propositio 5.
[50] Adversus haereses III, 24,
1: PG 7, 966.
[51] Homiliae in Genesim, XXII,
1: PG 53, 175.
[52] Epistula 120, 10: CSEL 55,
500-506.
[53] Homiliae in Ezechielem, I, VII,
17: CC 142, 94.
[54] «Oculi ergo devotae animae sunt columbarum quia
sensus eius per Spiritum sanctum sunt illuminati et edocti, spiritualia
sapientes. (…) Nunc quidem aperitur animae talis sensus, ut intellegat
Scripturas»: Ricardo de São Víctor, Explicatio in Cantica canticorum,
15: PL 196, 450 B.D.
[55] Sacramentarium Serapionis II
(XX): Didascalia et Constitutiones apostolorum, ed. F. X. Funk, II
(Paderborn 1906), 161.
[56] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
7.
[57] Ibid., 8.
[58] Ibid., 8.
[59] Cf. Propositio 3.
[60] Cf. Mensagem final, II, 5.
[61] Expositio Evangelii secundum Lucam 6,
33: PL 15, 1677.
[62] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
13.
[63] Catecismo da
Igreja Católica, 102. Cf. também Ruperto de Deutz, De
operibus Spiritus Sancti, I, 6: SC 131, 72-74.
[64] Enarrationes in Psalmos, 103, IV,
1: PL 37, 1378. Análogas afirmações em Orígenes, In
Iohannem V, 5-6: SC 120, pp. 380-384.
[65] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
21.
[66] Ibid., 9.
[67] Cf. Propositiones 5 e 12.
[68] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
12.
[69] Cf. Propositio 12.
[70] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
11.
[71] Propositio 4.
[72] Prol.: Opera Omnia, V (Quaracchi
1891), pp. 201-202.
[73] Cf. Bento XVI, Discurso aos
homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12
de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 721-730.
[74] Cf. Propositio 4.
[75] Cf. Relatio post disceptationem,
12.
[76] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
5.
[77] Propositio 4.
[78] Por exemplo Dt 28, 1-2.15.45; 32,
1; nos grandes profetas cf. Jr 7, 22-28; Ez 2,
8; 3, 10; 6, 3; 13, 2; mas também nos menores: cf. Zc 3, 8. Em
São Paulo, cf. Rm 10, 14-18; 1 Ts 2,
13.
[79] Propositio 55.
[80] Cf. Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 33: AAS 99
(2007), 132-133.
[81] Bento XVI,
Carta enc. Deus caritas est (25
de Dezembro de 2005), 41: AAS 98 (2006), 251.
[82] Propositio 55.
[83] Cf. Expositio Evangelii secundum Lucam 2,
19: PL 15, 1559-1560.
[84] Breviloquium, Prol.: Opera
Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 201-202.
[85] Summa theologiae, Ia-IIae, q. 106,
art. 2.
[86] Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993),
III, A, 3: Ench. Vat. 13, n. 3035.
[87] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
12.
[88] Contra epistolam Manichaei quam vocant
fundamenti, V, 6:PL 42, 176.
[89] Cf. Bento XVI, Audiência Geral (14 de
Novembro de 2007): Insegnamenti III/2 (2007),
586-591.
[90] Commentariorum in Isaiam libri,
Prol.: PL 24, 17.
[91] Epistula 52, 7: CSEL 54,
426.
[92] Pont. Comissão Bíblica, A interpretação
da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), II, A, 2: Ench.
Vat. 13, n. 2988.
[93] Ibid., II, A, 2: o.c., n.
2991.
[94] Homiliae in Ezechielem I, VII,
8: PL 76, 843 D.
[95] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
24; cf. Leão XIII, Carta enc. Providentissimus
Deus (18 de Novembro de 1893), Pars II, sub fine: ASS 26
(1893-94), 269-292; Bento XV, Carta enc. Spiritus Paraclitus (15
de Setembro de 1920), Pars III: AAS 12 (1920), 385-422.
[96] Cf. Propositio 26.
[97] Cf. Pont. Comissão Bíblica, A interpretação
da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), A-B: Ench.
Vat. 13, n. 2846-3150.
[98] Bento XVI, Intervenção na
XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008): Insegnamenti IV/2
(2008), 492; cf. Propositio 25.
[99] Bento XVI, Discurso aos
homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12
de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 722-723.
[100] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
10.
[101] Cf. João Paulo II, Discurso por
ocasião do centenário da Providentissimus Deus e do
cinquentenário da Divino afflante Spiritu (23 de Abril de 1993): AAS 86
(1994), 232-243.
[102] Ibid., 4: o.c.,
235.
[103] Ibid., 5: o.c.,
235.
[104] Ibid., 5: o.c.,
236.
[105] Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993),
III, C, 1: Ench. Vat. 13, n. 3065.
[106] N. 12.
[107] Bento XVI, Intervenção na
XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008): Insegnamenti IV/2
(2008), 493; cf. Propositio 25.
[108] Cf. Propositio 26.
[109] Propositio 27.
[110] Bento XVI, Intervenção na
XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008): Insegnamenti IV/2
(2008), 493; cf. Propositio 26.
[111] Cf. ibid.: o.c. 493; propositio 26.
[112] Ibid.: o.c. 493;
cf. Propositio 26.
[113] Cf. Propositio 27.
[114] Bento XVI, Intervenção na
XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008): Insegnamenti IV/2
(2008), 493-494.
[115] João Paulo II,
Carta enc. Fides et ratio (14
de Setembro de 1998), 55: AAS 91 (1999), 49-50.
[116] Cf. Bento XVI, Discurso no IV
Congresso Nacional da Igreja em Itália (19 de Outubro de 2006): AAS 98
(2006),804-815.
[117] Cf. Propositio 6.
[118] Cf. Santo Agostinho, De libero arbitrio,
III, XXI, 59: PL 32, 1300; De Trinitate, II, I,
2: PL 42, 845.
[119] Congr. para a Educação Católica, Instr. Inspectis
dierum (10 de Novembro de 1989), 26: AAS 82 (1990),
618.
[120] Catecismo da
Igreja Católica, 116.
[121] Summa theologiae, I, q.1, art.10, ad
1.
[122] Catecismo da
Igreja Católica, 118.
[123] Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993),
II, A, 2: Ench. Vat. 13, n. 2987.
[124] Ibid., II, B, 2: o.c., n.
3003.
[125] Bento XVI, Discurso aos
homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12
de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 726.
[126] Ibid.: o.c., 726.
[127] Cf. Bento XVI, Audiência Geral (9 de
Janeiro de 2008): Insegnamenti IV/1 (2008),
41-45.
[128] Cf. Propositio 29.
[129] De arca Noe, 2, 8: PL 176,
642 C-D.
[130] Cf. Bento XVI, Discurso aos
homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12
de Setembro de 2008: AAS 100 (2008), 725.
[131] Cf. Propositio 10; Pont. Comissão
Bíblica, O povo judeu e as suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã (24
de Maio de 2001), 3-5: Ench. Vat. 20, n. 748-755.
[132] Cf. Catecismo da
Igreja Católica, 121-122.
[133] Propositio 52.
[134] Cf. Pont. Comissão Bíblica, O povo judeu e
as suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã (24 de Maio de 2001),
19: Ench. Vat. 20, n. 799-801; Orígenes, Homilia sobre
Números 9, 4: SC 415, 238-242.
[135] Catecismo da
Igreja Católica, 128.
[136] Ibid., 129.
[137] Propositio 52.
[138] Quaestiones in Heptateuchum, 2,
73: PL 34, 623.
[139] Homiliae in Ezechielem, I, VI,
15: PL 76, 836 B.
[140] Propositio 29.
[141] João Paulo II, Mensagem ao
Rabino-Chefe de Roma (22 de Maio de 2004): Insegnamenti 27/1
(2004), 655.
[142] Pont. Comissão Bíblica, O povo judeu e as
suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã (24 de Maio de 2001),
87: Ench. Vat. 20, n. 1150.
[143] Cf. Bento XVI, Discurso de
despedida no Aeroporto Ben Gurion de Telavive (15 de Maio de 2009): Insegnamenti V/1
(2009), 847-849.
[144] João Paulo II, Discurso aos
Rabinos-Chefes de Israel (23 de Março de 2000): Insegnamenti 23/1
(2000), 434.
[145] Cf. Propositiones 46 e 47.
[146] Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), I,
F: Ench. Vat. 13, n. 2974.
[147] Cf. Bento XVI, Discurso aos
homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12
de Setembro de 2008: AAS 100 (2008), 726.
[148] Propositio 46.
[149] Propositio 28.
[150] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
23.
[151] Em todo o caso não se esqueça que, relativamente
aos chamados Livros Deuterocanónicos do Antigo Testamento e à sua inspiração,
os católicos e os ortodoxos não possuem exactamente o mesmo cânon bíblico que
os anglicanos e os protestantes.
[152] Cf. Relatio post disceptationem,
36.
[153] Propositio 36.
[154] Cf. Bento XVI, Discurso no XI
Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos (25 de
Janeiro de 2007): AAS 99 (2007), 85-86.
[155] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o
ecumenismo Unitatis
redintegratio, 21.
[156] Cf. Propositio 36.
[157] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
10.
[158] Carta enc. Ut unum sint (25
de Maio de 1995), 44: AAS 87 (1995), 947.
[159] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação
divina Dei Verbum,
10
[160] Ibid., 10.
[161] Cf. ibid., 24.
[162] Cf. Propositio 22.
[163] São Gregório Magno, Moralia in Job 24,
8, 16: PL 76, 295.
[164] Cf. Santo Atanásio, Vita Antonii,
II: PL 73, 127.
[165] Moralia, Regula 80,
22: PG 31, 867.
[166] Regra 73, 3: SC 182,
672.
[167] Tomás de Celano, Vita prima Sancti
Francisci, IX, 22: Fontes franciscani, 356.
[168] Regra I, 1-2: Fontes
franciscani, 2750.
[169] Beato Jordão da Saxónia, Libellus de
principiis Ordinis Praedicatorum, 104: Monumenta Fratrum
Praedicatorum Historica, 16 (Roma 1935), p. 75.
[170] Ordem dos Padres Pregadores, Primeiras
Constituições ou Costumes, II, 31.
[171] Vida 40, 1.
[172] Cf. História de uma alma, Manuscrito
B, 3vº.
[173] Ibid., Manuscrito C, 35vº.
[174] In Iohannis Evangelium Tractatus, I,
12: PL 35, 1385.
[175] Carta enc. Veritatis splendor (6
de Agosto de 1993), 25: AAS 85 (1993), 1153.
[176] N. 8.
[177] Relatio post disceptationem,
11.
[178] N. 1.
[179] Bento XVI, Discurso no
Congresso Internacional «A Sagrada Escritura na vida da Igreja» (16 de
Setembro de 2005): AAS 97 (2005), 956.
[180] Cf. Relatio post disceptationem,
10.
[181] Mensagem final, III, 6.
[182] Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada
Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 24.
[183] Ibid., 7.
[184] Ordenamento das Leituras da Missa,
4.
[185] Ibid., 9.
[186] Ibid., 3; cf. L c 4,
16-21; 24, 25-35.44-49.
[187] Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada
Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 102.
[188] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 44-45: AAS 99
(2007), 139-141.
[189] Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993),
IV, C, 1: Ench. Vat. 13, n. 3123.
[190] Ibid., III, B, 3: o.c.,
n. 3056.
[191] Cf. Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 48.51.56; Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum,
21.26; Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes,
6.15; Decr. sobre o ministério e a vida dos presbíteros Presbyterorum
ordinis, 18; Decr. sobre a renovação da vida religiosa Perfectae
caritatis, 6. Na grande tradição da Igreja, aparecem expressões
significativas como: « Corpus Christi intelligitur etiam (…) Scriptura
Dei – a Escritura de Deus também se considera Corpo de Cristo»:
Waltramus, De unitate Ecclesiae conservanda, 1, 14 (ed.
W. Schwenkenbecher, Hannoverae 1883), p. 33; «A carne do Senhor é verdadeiro alimento,
e o seu sangue verdadeira bebida; tal é o verdadeiro bem que nos está reservado
na vida presente: nutrirmo-nos da sua carne e beber o seu sangue, não só na
Eucaristia mas também na leitura da Sagrada Escritura. De facto, verdadeiro
alimento e verdadeira bebida é a Palavra de Deus que se absorve do conhecimento
das Escrituras»: São Jerónimo, Commentarius in Ecclesiasten,
III: PL 23, 1092 A.
[192] J. Ratzinger ( Bento XVI), Jesus
de Nazaré (Lisboa 2007), 336.
[193] Ordenamento das Leituras da Missa,
10.
[194] Ibidem.
[195] Cf. Propositio 7.
[196] Carta enc. Fides et ratio (14
de Setembro de 1998), 13: AAS 91 (1999), 16.
[197] Cf. Catecismo da
Igreja Católica, 1373-1374.
[198] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada
Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 7.
[199] In Psalmum 147: CCL 78,
337-338.
[200] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
2.
[201] Cf. Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 107-108.
[202] Ordenamento das Leituras da Missa,
66.
[203] Propositio 16.
[204] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22
de Fevereiro de 2007), 45: AAS 99 (2007), 140-141.
[205] Cf. Propositio 14.
[206] Cf. Código de Direito Canónico, cân.
230-§2; 204-§1.
[207] Ordenamento das Leituras da Missa,
55.
[208] Ibid., 8.
[209] N. 46: AAS 99 (2007), 141.
[210] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
25.
[211] Propositio 15.
[212] Ibidem.
[213] Sermo 179, 1: PL 38,
966.
[214] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 93: AAS 99
(2007), 177.
[215] Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Compendium Eucharisticum (25 de Março de 2009),
Cidade do Vaticano 2009.
[216] Epistula 52, 7: CSEL 54,
426-427.
[217] Propositio 8.
[218] Ritual da Penitência. Preliminares,
17.
[219] Ibid., 19.
[220] Propositio 8.
[221] Propositio 19.
[222] Princípios e normas para a Liturgia das
Horas, III, 15.
[223] Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 85.
[224] Cf. Código de Direito Canónico,
cânones 276-§ 3; 1174-§ 1.
[225] Cf. Código dos Cânones das Igrejas
Orientais, cânones 377; 473-§§ 1 e 2/1º; 538-§ 1; 881-§ 1.
[226] Ritual Romano, Cerimonial das Bênçãos.
Preliminares gerais, 21.
[227] Cf. Propositio 18; Conc. Ecum.
Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 35.
[228] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 75: AAS 99
(2007), 162-163.
[229] Ibid., 75: o.c., 163.
[230] Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Directório sobre Piedade Popular e Liturgia. Princípios e
Orientações (17 de Dezembro de 2001), 87: Ench. Vat. 20,
n. 2461.
[231] Cf. Propositio 14.
[232] Cf. Santo Inácio de Antioquia, Ad Ephesios,
XV, 2: Patres Apostolici (ed. F. X. Funk, Tubingae 1901), I,
224.
[233] Cf. Santo Agostinho, Sermo 288,
5: PL 38, 1307; Sermo 120, 2: PL 38,
677.
[234] Ordenamento Geral do Missal Romano, 56.
[235] Ibid., 45; cf. Conc. Ecum. Vat. II,
Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 30.
[236] Ordenamento das Leituras da Missa, 13.
[237] Cf. ibid., 17.
[238] Propositio 40.
[239] Cf. Ordenamento Geral do Missal Romano,
309.
[240] Cf. Propositio 14.
[241] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 69: AAS 99
(2007), 157.
[242] Cf. Ordenamento Geral do Missal Romano,
57.
[243] Propositio 14.
[244] Veja-se o cânon 36 do Sínodo de Hipona do
ano de 393: DS 186.
[245] Cf. João Paulo II,
Carta ap. Vicesimus
quintus annus (4 de Dezembro de 1988), 13: AAS 81
(1989), 910; Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instr.
sobre alguns aspectos que se devem observar e evitar em relação à Santíssima
Eucaristia Redemptionis
sacramentum (25 de Março de 2004), 62: Ench. Vat. 22,
n. 2248.
[246] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada
Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 116; Ordenamento Geral do Missal
Romano, 41.
[247] Cf. Propositio 14.
[248] Propositio 9.
[249] Epistula 30, 7: CSEL 54,
246.
[250] Idem, Epistula 133, 13: CSEL 56,
260.
[251] Idem, Epistula 107, 9.12: CSEL 55,
300.302.
[252] Idem, Epistula 52, 7: CSEL 54,
426.
[253] João Paulo II,
Carta ap. Novo millennio
ineunte (6 de Janeiro de 2001), 31: AAS 93
(2001), 287-288.
[254] Propositio 30; cf. Conc. Ecum.
Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum,
24.
[255] São Jerónimo, Commentariorum in Isaiam
libri, Prol.: PL 24, 17B.
[256] Propositio 21.
[257] Cf. Propositio 23.
[258] Cf. Congr. para o Clero, Directório Geral
da Catequese (15 de Agosto de 1997), 94-96: Ench.
Vat. 16, n. 875-878 João Paulo II,
Exort. ap. Catechesi
tradendae (16 de Outubro de 1979), 27: AAS 71
(1979), 1298-1299.
[259] Congr. para o Clero, Directório Geral
da Catequese (15 de Agosto de 1997), 127: Ench.
Vat. 16, n. 935; cf. João Paulo II,
Exort. ap. Catechesi
tradendae (16 de Outubro de 1979), 27: AAS 71
(1979), 1299.
[260] N. 128: Ench. Vat. 16, n.
936.
[261] Cf. Propositio 33.
[262] Cf. Propositio 45.
[263] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Igreja Lumen gentium,
39-42.
[264] Propositio 31.
[265] N. 15: AAS 96 (2004),
846-847.
[266] N. 26: AAS 84 (1992), 698.
[267] Ibid., 26: o.c.,
698.
[268] Bento XVI, Homilia na Missa
Crismal (9 de Abril de 2009): AAS 101 (2009),
355.
[269] Ibid.: o.c., 356.
[270] Congr. para a Educação Católica, Normas
fundamentais para a formação dos diáconos permanentes (22 de
Fevereiro de 1998), 11: Ench. Vat. 17, nn.
174-175.
[271] Ibid., 74: o.c.,
263.
[272] Cf. ibid., 81: o.c.,
271.
[273] Propositio 32.
[274] Cf. João Paulo II,
Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo
vobis (25 de Março de 1992), 47: AAS 84
(1992), 740-742.
[275] Propositio 24.
[276] Bento XVI, Homilia no Dia
Mundial da Vida Consagrada (2 de Fevereiro de 2008): AAS 100
(2008), 133; cf. João Paulo II,
Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25
de Março de 1996), 82: AAS 88 (1996), 458-460.
[277] Congr. para os Institutos de Vida Consagrada e as
Sociedades de Vida Apostólica, Instr. Recomeçar a
partir de Cristo. Um renovado compromisso da vida consagrada no terceiro
milénio (19 de Maio de 2002), 24: Ench. Vat. 21,
n. 447.
[278] Cf. Propositio 24.
[279] São Bento, Regra, IV, 21: SC 181,
456-458.
[280] Bento XVI, Discurso durante
a visita à Abadia de «Heiligenkreuz» (9 de Setembro de 2007): AAS 99
(2007), 856.
[281] Cf. Propositio 30.
[282] João Paulo II,
Exort. ap. pós-sinodal Christifideles
laici (30 de Dezembro de 1988), 17: AAS 81
(1989), 418.
[283] Cf. Propositio 33.
[284] João Paulo II,
Exort. ap. Familiaris
consortio (22 de Novembro de 1981), 49: AAS 74
(1982), 140-141.
[285] Propositio 20.
[286] Cf. Propositio 21.
[287] Propositio 20.
[288] Cf. Carta ap. Mulieris
dignitatem (15 de Agosto de 1988), 31: AAS 80
(1988), 1727-1729.
[289] Propositio 17.
[290] Cf. Propositiones 9 e 22.
[291] N. 25.
[292] Enarrationes in Psalmos, 85,
7: PL 37, 1086.
[293] Orígenes, Epistola ad Gregorium,
3: PG 11, 92.
[294] Bento XVI, Discurso aos
alunos do Seminário Maior Romano (19 de Fevereiro de
2007): AAS 99 (2007), 253-254.
[295] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 66: AAS 99
(2007), 155-156.
[296] Mensagem final, III, 9.
[297] Cf. ibidem.
[298] « Plenaria indulgentia conceditur
christifideli qui Sacram Scripturam, iuxta textum a competenti auctoritate
adprobatum, cum veneratione divino eloquio debita et ad modum lectionis
spiritalis, per dimidiam saltem horam legerit; si per minus tempus id
egerit indulgentia erit partialis –
Concede-se a indulgência plenária ao fiel que ler a Sagrada
Escritura, num texto aprovado pela autoridade competente, com a devoção devida
à palavra divina e a modo de leitura espiritual, pelo menos meia hora; se a
leitura durar menos tempo, a indulgência é parcial»:
Paenitentiaria Apostolica, Enchiridion Indulgentiarum. Normae et
concessiones (16 de Julho de 1999), concessão n. 30-§ 1.
[299] Cf. Catecismo da
Igreja Católica, 1471-1479.
[300] Paulo VI, Const. ap. Indulgentiarum
doctrina (1 de Janeiro de 1967), 9: AAS 59
(1967), 18-19.
[301] Cf. Epistula 49, 3: PL 16,
1204A.
[302] Cf. Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Directório sobre
Piedade Popular e Liturgia. Princípios e Orientações (17 de
Dezembro de 2001), 197-202: Ench. Vat. 20, nn.
2638-2643.
[303] Cf. Propositio 55.
[304] Cf. João Paulo II,
Carta ap. Rosarium
Virginis Mariae (16 de Outubro de 2002): AAS 95
(2003), 5-36.
[305] Propositio 55.
[306] Cf. Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Directório sobre
Piedade Popular e Liturgia. Princípios e Orientações (17 de
Dezembro de 2001), 207: Ench. Vat. 20, nn. 2656-2657.
[307] Cf. Propositio 51.
[308] Bento XVI, Homilia na Santa
Missa junto do Vale de Josafat, em Jerusalém (12 de Maio de
2009): AAS 101 (2009), 473.
[309] Cf. Epistula 108, 14: CSEL 55,
324-325.
[310] Adversus haereses, IV, 20, 7: PG 7,
1037.
[311] Bento XVI,
Carta enc. Spe salvi (30
de Novembro de 2007), 31: AAS 99 (2007), 1010.
[312] Bento XVI, Discurso aos
homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12 de
Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 730.
[313] Cf. In Evangelium secundum Matthaeum 17,
7: PG 13, 1197B; S. Jerónimo, Translatio homiliarum
Origenis in Lucam 36: PL 26, 324-325.
[314] Cf. Bento XVI, Homilia por
ocasião da abertura da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (5 de
Outubro de 2008): AAS 100 (2008), 757.
[315] Propositio 38.
[316] Cf. Congr. para os Institutos de Vida Consagrada e
as Sociedades de Vida Apostólica, Instr. Recomeçar a
partir de Cristo. Um renovado compromisso da vida consagrada no terceiro
milénio (19 de Maio de 2002), 36: Ench. Vat. 21,
nn. 488-491.
[317] Propositio 30.
[318] Cf. Propositio 38.
[319] Cf. Propositio 49.
[320] Cf. João Paulo II,
Carta enc. Redemptoris
missio (7 de Dezembro de 1990): AAS 83
(1991), 294-340; Idem, Carta ap. Novo millennio
ineunte (6 de Janeiro de 2001), 40: AAS 93
(2001), 294-295.
[321] Propositio 38.
[322] Cf. Bento XVI, Homilia por
ocasião da abertura da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (5 de
Outubro de 2008): AAS 100 (2008), 753-757.
[323] Propositio 38.
[324] Mensagem final, IV, 12.
[325] Paulo VI, Exort. ap. Evangelii
nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 22: AAS 68
(1976), 20.
[326] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Dignitatis
humanae, 2.7.
[327] Cf. Propositio 39.
[328] Cf. Bento XVI, Mensagem para o
Dia Mundial da Paz de 2009 (8 de Dezembro de
2008): Insegnamenti IV/2 (2008), 792-802.
[329] Exort. ap. Evangelii
nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 19: AAS 68
(1976), 18.
[330] Cf. Propositio 39.
[331] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11
de Abril de 1963), I: AAS 55 (1963), 259.
[332] Cf. João Paulo II,
Carta enc. Centesimus annus (1
de Maio de 1991), 47: AAS 83 (1991), 851-852; Idem, Discurso à
Assembleia Geral das Nações Unidas (2 de Outubro de 1979),
13: AAS 71 (1979), 1152-1153.
[333] Cf. Compêndio da
Doutrina Social da Igreja, 152-159.
[334] Cf. Bento XVI, Mensagem para o
Dia Mundial da Paz de 2007 (8 de Dezembro de 2006): Insegnamenti,
II/2 (2006), 780.
[335] Cf. Propositio 8.
[336] Bento XVI, Homilia (25 de
Janeiro de 2009): Insegnamenti V/1 (2009),
141.
[337] Bento XVI, Homilia por
ocasião do encerramento da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (26 de
Outubro de 2008): AAS 100 (2008), 779.
[338] Propositio 11.
[339] Bento XVI,
Carta enc. Deus caritas est (25
de Dezembro de 2005), 28: AAS 98 (2006), 240.
[340] De doctrina christiana, I, 35, 39 –
36, 40: PL 34, 34.
[341] Cf. Bento XVI, Mensagem para a
XXI Jornada Mundial da Juventude em 2006 (22 de Fevereiro de 2006): AAS 98
(2006), 282-286.
[342] Cf. Propositio 34.
[343] Cf. ibidem.
[344] Homilia (24 de Abril
de 2005): AAS 97 (2005), 712.
[345] Cf. Propositio 38.
[346] Bento XVI, Homilia por
ocasião da XVII Jornada Mundial do Doente (11 de Fevereiro de 2009): Insegnamenti V/1
(2009), 232.
[347] Cf. Propositio 35.
[348] Propositio 11.
[349] Cf. Bento XVI,
Carta enc. Deus caritas est (25
de Dezembro de 2005), 25: AAS 98 (2006), 236-237.
[350] Propositio 11.
[351] Bento XVI, Homilia (1 de
Janeiro de 2009): Insegnamenti V/1 (2009), 5.
[352] Propositio 54.
[353] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 92: AAS 99
(2007), 176-177.
[354] João Paulo II, Discurso à
UNESCO (2 de Junho de 1980), 6: AAS 72 (1980),
738.
[355] Cf. Propositio 41.
[356] Cf. ibidem.
[357] Cf. João Paulo II,
Carta enc. Fides et ratio (14
de Setembro de 1998), 80: AAS 91 (1999), 67-68.
[358] Cf. Lineamenta 23.
[359] Cf. Propositio 40.
[360] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre os
instrumentos de comunicação social Inter mirifica;
Pont. Cons. para as Comunicações Sociais, Instr. past. Communio et
progressio sobre os instrumentos da comunicação social,
publicada por disposição do Concílio Ecuménico Vaticano II (23 de Maio de
1971): AAS 63 (1971) 593-656; João Paulo II,
Carta ap. O rápido
desenvolvimento (24 de Janeiro de 2005): AAS 97
(2005) 265-274; Pont. Cons. para as Comunicações Sociais, Instr. past.
sobre as comunicações sociais no XX aniversário da «Communio et
progressio» Aetatis novae (22 de Fevereiro de 1992): AAS 84
(1992) 447-468; Idem, A Igreja e
internet (22 de Fevereiro de 2002): Ench. Vat. 21,
nn. 66-95; Idem, Ética na
internet (22 de Fevereiro de 2002): Ench. Vat. 21,
nn. 96-127.
[361] Cf. Mensagem final IV, 11; Bento
XVI, Mensagem para o
XLIII Dia Mundial das Comunicações Sociais (24 de Janeiro de 2009): Insegnamenti V/1
(2009), 123-127.
[362] Cf. Propositio 44.
[363] João Paulo II, Mensagem para o
XXXVI Dia Mundial das Comunicações Sociais (24 de Janeiro de 2002),
6: Insegnamenti XXV/1 (2002), 94-95.
[364] Cf. Exort. ap. Evangelii
nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 20: AAS 68
(1976), 18-19.
[365] Cf. Bento XVI,
Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 78: AAS 99
(2007), 165.
[366] Cf. Propositio 48.
[367] Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993),
IV, B: Ench. Vat. 13, nn. 3112.
[368] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre a actividade
missionária da Igreja Ad gentes,
22; Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993),
IV, B: Ench. Vat. 13, nn. 3111-3117.
[369] João Paulo II, Discurso aos
Bispos do Quénia (7 de Maio de 1980), 6: AAS 72
(1980), 497.
[370] Cf. Instrumentum
laboris, 56.
[371] Pont. Comissão Bíblica, A
interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993),
IV, B: Ench. Vat. 13, n. 3113.
[372] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei Verbum,
22.
[373] Cf. Propositio 42.
[374] Cf. Propositio 43.
[375] Bento XVI, Homilia durante
a Hora Tércia, no início da I Congregação Geral do Sínodo dos Bispos (6 de
Outubro de 2008): AAS 100 (2008), 760.
[376] De entre as numerosas e diversificadas
intervenções, recorde-se: João Paulo II,
Carta enc. Dominum et
vivificantem (18 de Maio de 1986): AAS 78
(1986), 809-900; Idem, Carta enc. Redemptoris missio (7
de Dezembro de 1990): AAS 83 (1991), 249-340; Idem, Discursos
e homilias em Assis, por ocasião do Dia de Oração pela Paz em 27 de Outubro de
1986: Insegnamenti, IX/2 (1986), 1249-1273; Idem, Dia de Oração
pela Paz no Mundo (24 de Janeiro de 2002): Insegnamenti XXV/1
(2002), 97-108; Congr. para a Doutrina da Fé, Decl. sobre a unicidade e
universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja Dominus Iesus (6
de Agosto de 2000): AAS 92 (2000), 742-765.
[377] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. sobre as relações
da Igreja com as religiões não-cristãs Nostra aetate,
3.
[378] Cf. Bento XVI, Discurso a
Embaixadores dos países maioritariamente muçulmanos acreditados junto da Santa
Sé (25 de Setembro de 2006): AAS 98
(2006), 704-706.
[379] Cf. Propositio 53.
[380] Cf. Propositio 50.
[381] Ibidem.
[382] João Paulo II, Discurso no
encontro com os jovens muçulmanos em Casablanca (Marrocos,
19 de Agosto de 1985), 5: AAS 78 (1986), 99.