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A Bíblia, Lida e Estudada - Frei João José Pereira de Castro (1953)

 

A Bíblia, Lida e Estudada

Que a Bíblia seja autêntica Palavra de Deus, todos nós cremos e sabemos. Desta fé tão eminentemente consoladora participamos nós, católicos com os muitos milhões de cismáticos e protestantes. Cerca de 1 bilhão de pessoas testemunhamos que as Sagradas Escrituras se distinguem de todos os outros livros que enchem o mundo, sendo só ela a obra que tem o próprio Deus por autor responsável. Urge tirar as consequências desta nossa fé.

Moisés e os demais autores inspirados escreveram as Palavras divinas em tábuas lapideas, em folhas de pergaminho ou em outro qualquer material próprio para receber caracteres legíveis. Mas tudo isso era apenas um meio para o fim. A finalidade era gravar indelévelmente a verdade inspirada nos corações dos homens.

Como? S. Paulo preconiza a palavra falada, a pregação como grande meio escolhido pela Providência para a difusão do Evangelho ou seja de toda a verdade revelada. Assim, a Igreja santa desde sempre mandou seus ministros pelo mundo além pregando e desta forma fazendo ressoar em todos os povos o conteúdo de sua fé que lhe veio sendo transmitido de geração em geração pela autêntica tradição e pela Bíblia Sagrada. Centenas de livros, escritos muitos deles por Santos, e principalmente o Catecismo, bem como Manuais de Religião, contêm e expõem tudo quanto a Providência Divina quis transmitir aos homens ensinando-os, exortando-os, consolando-os. A grande maioria dos católicos de modo particular aqui no Brasil vêm se contentando com esses meios de chegar a uma nítida compreensão do conteúdo da fé e da moral. E, pessoas de pouca instrução dificilmente poderão entrar num contacto mais íntimo com a máxima fonte da revelação que é a Bíblia Sagrada.

Entretanto vai se despertando a consciência cristã sobre a necessidade imperiosa de um estudo mais aprofundado das Escrituras Sagradas. Antes de tudo por coerência. Se Deus escreveu e escreve para nós, seus filhos, urge que nós leiamos os seus escritos. Em seguida pela compreensão de que a leitura da Bíblia nos é absolutamente necessária sob vários pontos de vista, quer para nos inteirarmos mais nitidamente ainda de toda a revelação, quer para nos prevenirmos contra os erros que a heresia vai apregoando por toda parte. Certamente se não poucos católicos que caíram no protestantismo tivessem possuído ao menos uma rudimentar compreensão das Escrituras, não se deixariam desorientar tão facilmente como fizeram.

Para possibilitar a leitura e o estudo da Bíblia já muito se tem feito em nossa Pátria. Os RR. PP. Lazaristas, os Franciscanos da Baía e de Petrópolis, os Padres Paulinos, têm editado centenas de milhares de exemplares de toda a Bíblia ou ao menos do Novo Testamento. Inúmeras famílias possuem em seus lares um exemplar da Bíblia. Do púlpito, em Semanas Bíblicas, em conferências, por artigos em jornais e revistas, sacerdotes e leigos exortam os fiéis a que diàriamente manuseiem a sua Bíblia e dela tirem o alimento espiritual para cada dia.

Mas como ler a Palavra Divina se esta é tantas vezes obscura e de difícil interpretação? Repete-se continuamente o caso do ministro da rainha Candace que no seu carro, a caminho da Etiópia, ia lendo sem compreensão o livro do profeta Isaías. Tiraria esse piedoso prosélito algum proveito da leitura se a Providência não lhe mandasse alguém que lhe abrisse os olhos e iniciasse no ádito sagrado das Escrituras?

Feliz dele ao qual se associou o diácono Filipe esclarecendo-o e preparando-o para as águas batismais.

Para lermos com proveito a Bíblia precisamos esclarecer-nos sobre ela por um sério estudo. A Bíblia pode ser estudada de vários modos em conformidade com o lazer e o alcance intelectual do seu leitor. Eis aí um especializado em conhecimentos linguísticos, arqueológicos, geográficos, em tudo o que se refere ao Texto Sagrado! Poucos serão os que se possam dedicar deste modo a um estudo científico e aprofundado deste ramo de ciências religiosas. Sacerdotes e certo número de leigos terão ensejo de seguir Cursos Teológicos em Seminários e Universidades. Todavia a maioria dos fiéis não disporão de tempo e outros meios para atingir semelhantes conhecimentos. E entretanto do seu espírito de fé e dos seus ideais religiosos nasce-lhes no coração genuíno interesse para conhecer melhor a palavra que seu Deus lhes dirigiu.

Como conseguirão realizar este intento?

Imaginemos alguém que possua uma edição da Bíblia como a de Crampon ou de Pirot ou ainda a editada pelo Revmo. Padre A. Charbel, salesiano (ed. das Américas). O Texto Sagrado é explicado por numerosas notas. Atendendo a essas explicações, muita coisa já poderá ele compreender melhor de modo a poder penetrar no sentido escriturístico. Todavia bem depressa sentirá que lhe falta uma iniciação mais completa nessas páginas, cheias de problemas por vezes complicadíssimos e desejará alguém que o esclareça e norteie... Justo desejo, difícil porém de ser saciado, devido à escassez de pessoas familiarizadas mais de perto com estudos da Escritura.

Possivelmente um Curso de Sagrada Escritura por correspondência possa suprir, ao menos em parte, esta falta. Nos tempos atuais a correspondência vem sendo muito utilizada para os mais variados Cursos como os Técnicos, Linguísticos e outros semelhantes. O seu proveito é incontestável. Também às Escrituras Sagradas, esse mesmo meio pode ser aplicado e aproveitado para um estudo sério, científico e utilíssimo, ao mesmo tempo que ao alcance de todo aquele que possui os conhecimentos de um curso secundário equivalente.

Aos leitores da REB passo a expor brevemente o método que estou seguindo nesta iniciativa que tomei com a autorização eclesiástica. Estou consciente que a grande maioria dos leitores são sacerdotes que já passaram por longa formação eclesiástica e hoje exercem a sua atividade para o bem das almas. De sua benevolência espero queiram indicar esse meio de um estudo escriturístico às pessoas de suas relações que desejam sinceramente estudar a Bíblia.

O método adotado para este Curso consiste em lições adequadas e em testes. O cursista receberá uma lição de quatro páginas impressas com a sucinta exposição de um ou mais temas bíblicos. Esta lição deve ser lida e relida. O cursista que terá à mão o seu exemplar da Bíblia deverá procurar todos os textos indicados na lição. Trabalho fácil, mas que exige paciência e não pequeno esforço. Em seguida o cursista tomará de sua pena para responder às questões e perguntas que lhe são propostas em folha à parte. Nesta mesma folha são indicados outros temas proveitosos e perfeitamente ao seu alcance, temas esses que poderão ser desenvolvidos com maior ou menor amplidão e profundeza em conformidade com o desejo do próprio cursista. Não há prazo determinado para esses trabalhos, mas deseja-se que sejam feitos com a maior brevidade possível. Nesta mesma folha de perguntas e testes haverá sempre um espaço reservado a perguntas sobre a Bíblia que o cursista deseje fazer ao encarregado do Curso. De grande importância é, bem como sinal de interesse da parte do cursista, aproveitar-se ele deste ensejo para elucidar a sua mente sobre questões escriturísticas. A folha dos testes, devidamente preenchida deverá ser enviada ao encarregado do Curso para exame e aprovação. Esta mesma folha, uma vez lida, corrigida e aprovada, será reenviada ao cursista juntamente com a lição seguinte.

E' exatamente este intercâmbio entre o cursista e o encarregado do Curso que manterá vivo o interesse pelos estudos bíblicos.

Possivelmente, mesmo em cursos teológicos de Seminários Eclesiásticos, caso o Revmo. Professor de Exegese o entender, os seminaristas poderão alistar-se neste Curso e tirarem dele algum proveito. Não como se ele substituísse de alguma forma as preleções exegéticas, mas como seu modesto auxiliar.

E' desejo da Igreja que as Religiosas procurem instruir-se sempre mais em todos os problemas teológicos e entre eles de modo todo particular nas ciências bíblicas. Ora, todas elas se queixam da dificuldade em encontrar um sacerdote que se possa dedicar a instruí-las devidamente. Algumas poderão seguir os Cursos apropriados a elas, como o do Instituto Sedes Sapientiae, organizado pelas Cônegas de Santo Agostinho, em São Paulo. Mas serão pouquíssimas relativamente ao grande número de 20.000 Religiosas que existem em nossa Pátria. Muito agradeceríamos aos Revmos. Sacerdotes que me estão lendo, se inculcassem a Comunidades Religiosas de monjas e freiras este Curso por correspondência, sugerindo-lhes ao mesmo tempo que para seu maior proveito o poderão fazer em grupos coletivos para se auxiliarem mutuamente. Indispensável porém é que mandem individualmente as suas respostas e exercícios ao encarregado do Curso.

Aos muitos membros da Ação Católica que tanto se estimulam uns aos outros para uma formação intelectual mais sólida, bem como àquelas pessoas que se preparam para em ginásios e escolas ensinar o Catecismo, penso e espero que este Curso das Sagradas Escrituras não seja inútil. Nele encontrarão uma exposição sistemática e metódica de tudo o que há de mais importante na Bíblia Santa.

Também a aulas de Religião em ginásios, este Curso poderá servir de auxiliar aos professores. Se além de mandarem os seus discípulos ler as lições, ainda as explicarem de viva voz, não será difícil aos jovens que se dedicam a estudos secundários responder às questões propostas na pagela de exercícios.

Por fim, a quaisquer pessoas, homens e senhoras de qualquer idade, a quantos compreenderem de alguma forma a necessidade de se instruírem mais de perto em tudo o que concerne à Palavra de Deus, oferecemos este modesto Curso escriturístico. Exige-se deles apenas boa vontade e perseverança. Imprescindível é, apenas, possuam um exemplar completo da Bíblia, como a edição de Matos Soares, que aliás poderemos fornecer com bom abatimento. A contribuição material destina-se às despesas mais necessárias e em geral ao movimento bíblico.

Com o grande Papa Pio XII exclamemos: Deus o quer. Leiamos a Bíblia Santa. Amemos com afeto sempre mais entranhável a Palavra do Amor infinito que nos é dirigida individualmente a cada um de nós, para iluminar-nos e inflamar-nos o coração.

Para informações, dirigir-se ao articulista. Convento de Santo Antônio do Pari, Praça Padre Bento, São Paulo.

Frei João José Pereira de Castro, O. F. M.


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Fonte: Castro, J. J. P. de. (1953). A Bíblia, Lida e Estudada. Revista Eclesiástica Brasileira, 13(1), 146–148. https://doi.org/10.29386/reb.v13i1.6371