A VOZ DO PASTOR
D. Eugênio de Araújo Sales
Há certas transformações no mundo e nas pessoas onde se percebe quase visivelmente a mão de Deus. Entre elas, pode ser incluído o Ecumenismo. Precedido por várias tentativas generosas, e quase sempre isoladas, tomou corpo e assumiu foros de cidadania no Concílio Ecumênico no Vaticano II.
Observado sob o aspecto meramente humano, podemos encontrar algumas explicações para essa frutuosa alteração de atitudes entre católicos, protestantes e ortodoxos. A rapidez das comunicações aproxima os homens de crenças diversas. Desfaz equívocos e incompreensões. Além disso, o perigo maior de uma maré alta do materialismo que nos avassala, exige “crescente união entre os que comungam de algumas verdades básicas idênticas.
Percebe-se facilmente que são numerosos os pontos de contato; superam as divergências. A razão, portanto, nos leva a insistir mais no que nos une do que nos aspectos discordantes. Lutas, não raramente estéreis, são vistas agora sob outro prisma. Evidentemente, o autor dessa aproximação tão fecunda é o Espírito do Senhor que sopra onde quer. E o Ecumenismo começou a medrar para os católicos sob a chancela conciliar.
Protestantes e ortodoxos foram convidados a assistir o exame da vida íntima da Igreja, nas sessões do Vaticano II. Ali eram numerosos os seus representantes. Esse gesto altamente significativo teve também uma resposta à altura, por parte de vários que não pertenciam à nossa Fé Católica.
Episódios marcantes se sucederam, alguns de rara eloquência e mesmo de dramaticidade, como o encontro do Papa Paulo VI com o Patriarca Atenágoras, após séculos de separação entre latinos e ortodoxos. Reuniões memoráveis vêm se realizando.
A marcha é, naturalmente, lenta. E deve ser preservada a pureza desse movimento para que não degenere em uma simples ação terrena e estéril.
Como é natural à nossa fraqueza, desvios se introduziram. Não corrigidos, eles ameaçam a própria genuidade e dinamismo desse caminhar em busca de um ideal evangélico: “que todos sejam um”.
Doloroso é confundir o cumprimento da vontade expressa do Senhor com a ofensa ao mesmo Deus. Afirmar que a busca da unidade leva a identificar, como verdadeiras, todas as separações entre cristãos, é ir de encontro ao ensino manifestado pelo Redentor. A amizade aos irmãos separados não significa aceitação de outra doutrina ou condescendência em assuntos essenciais à Fé, à Moral e à Disciplina.
Toda uma luta se iniciou, já nos dias dos Apóstolos, em defesa do autêntico ensino do Mestre. Bem diversa de uma posição de humilde busca é a dos que açodadamente fazem concessões indébitas.
Por vezes, parece existir em alguns católicos certa falta de coragem, para defender sua Fé, apressam-se em ceder. Igualmente, objetivo tão difícil não será atingido sem uma mútua colaboração. Não se chegará à unidade através de um esforço em um único sentido. Sem reciprocidade não haverá conclusão positiva nessa matéria.
Estas considerações nos levam a pensar em certas cerimônias rotuladas de ecumênicas. Às vezes, todos ou quase todos são católicos mas lhes é questionado o direito de celebrar uma liturgia conforme sua Fé. Simples discursos por motivo de colação de grau recebem este título, o que é um engano, além de prejudicar a eficácia, dessa marcha generosa. Seguir os ditames da moda envelhece as coisas de Deus.
Um lamentável conformismo em matéria doutrinária provoca certos aplausos, mas nada constrói.
Há quem proclame “um cristianismo sem perigosas coerências, sem obrigações de impopulares testemunhos. Um cristianismo conformista; vil, sem que ninguém o qualifique e o condene como tal”. O Povo de Deus, em sua expressão legítima, deseja a verdade, mesmo dura. E esse é o caminho para uma Igreja autêntica, única base sólida de um ecumenismo verdadeiro.
Diz o Concílio (Unitatis redintegratio, 11): “É absolutamente necessário que a doutrina inteira seja lucidamente exposta. Nada é tão alheio ao ecumenismo quanto aquele falso irenismo, pelo qual a pureza da fé católica sofre detrimento, e seu sentido genuíno e certo é obscurecido”. Assim, a obra “A Bíblia na Linguagem de Hoje” é um retrocesso. Sem negar seu valor na adaptação das expressões contidas nos Livros Sagrados à nossa época, ela contém erros, como no que se refere à virgindade de Maria. Não se caminha para a unidade por vias tortuosas. A pureza doutrinária dos interlocutores e um desejo imenso de cumprir a vontade do Senhor “que todos sejam um” são essenciais.
Contrariar a ordem de Cristo não nos leva a realizar seus planos de unidade. Desanimar? Não. Repudiar, sim; os falsos pregoeiros desse movimento. Somente pela prece e nossa contínua conversão encontraremos as trilhas do Senhor. Nesse lento e persistente esforço chegaremos um dia a bom termo: Glorificar Cristo na unidade de seus filhos.
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Fonte: Jornal Luta Democrática, Rio de Janeiro, 5 de julho de 1975, p.3.
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