Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. — Ed. Paulinas, São Paulo 1990, 137 x 190 mm, 1631 pp.
As Edições Paulinas publicaram uma tradução pastoral do Novo Testamento, com suas notas respectivas, em 1986. No ano corrente é a Bíblia inteira que vem entregar ao público dentro do mesmo estilo pastoral.
A tradução se deve a Ivo Storniolo e Euclides Martins Ballancin, autores outrossim das Introduções e notas de todos os livros, excetuando-se 1/2 Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, 1/2 Macabeus e os Profetas, cujo texto foi traduzido por José Luiz Gonzaga do Prado. As características de tal tradução são enunciadas na Apresentação do texto:
“Conservando a fidelidade aos textos originais, procuramos traduzi-los em linguagem corrente, evitando construções rebuscadas e palavras de uso menos comum”. A ótica é a da “realidade desafiadora do nosso país e do nosso continente”.
A edição traz o Imprimatur de D. Vital J. G. Wilderink, Bispo Responsável pela Catequese na CNBB.
Em geral, nada se pode apontar de grave no texto traduzido. Apenas observamos que a palavra grega epískopos é vertida por dirigentes (Fl 1,1; 1Tm 3,2); e por guardiães (At 20,28); presbíteros por ancião (At 20,17) e por presbítero (1Tm 5,17). Verdade é que a nota a Fl 1, 1s explica o sentido de epískopos, palavras — que teria sido melhor não traduzir. — Em Lc 1,34, são pouco condizentes com a dignidade do contexto as palavras atribuídas a Maria: “Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?” É costume traduzir por “... se não conheço nenhum homem?”
As notas procuram sintetizar o conteúdo de seções inteiras do texto sagrado, de modo que este é sumariamente explicado ao leitor. A iniciativa é válida, pois facilita a leitura bíblica. Infelizmente, porém, a orientação doutrinária dessas notas é, em muitos casos, unilateral, pondo em relevo quase exclusivamente as consequências sócio-políticas da mensagem bíblica. Isto é particularmente nítido no Novo Testamento; ver, por exemplo, as notas a Mt 10,26-33; 11, 1-16; 11, 25-30; 24, 32-51; 25, 1-13; 25, 31-46; Mc 10, 17-31; 1Cor 15, 20-28...; retornam constantemente as palavras “opressores, marginalizados, sistema, sistema classista, justiça, interesses, sociedade, estrutura, riqueza, projeto, libertação, liberdade...” Através dessas explicações, tem-se a impressão de que Jesus veio pregar tão somente a prática da justiça social e, por causa disto, foi condenado à morte. Ora Jesus veio, antes do
mais, trazer a revelação do Pai e do seu plano de filiação divina para todos os homens — o que não transparece suficientemente nesses comentários.
Além disso, Jesus é reduzido, cá e lá, à figura de mero profeta inseguro quanto ao seu destino. Referindo-se à oração de Jesus no horto das Oliveiras, diz a nota a Mc 14, 32-42: “O que se passa no íntimo de Jesus? Uma luta dramática, em que se confrontam... o medo e a serenidade, a coragem de continuar o projeto até o fim e a vontade de desistir e fugir”. Jesus superou a crise pela oração.
O presbítero tem a função de “animar a liturgia e ensinar a Sagrada Escritura” (nota a 1Tm 5, 17-25); ora “animar” pode ser tarefa também de um leigo; o presbítero celebra “na pessoa de Cristo”.
Estranha é a explicação dada a 1Cor 7, 36-38: tratar-se-ia de “noivo que sente forte o estímulo do desejo sexual, mas se vê premiado pelo ideal celibatário, apresentado por algum da comunidade como única maneira de realização cristã”. O texto grego é, sem dúvida, obscuro, mas os comentadores da Edição Pastoral vêem aí coisas que os bons exegetas não costumam ver. Confira-se a nota correspondente da Bíblia de Jerusalém.
O tratamento “você, vocês” não é o melhor, nem numa tradução popular da Bíblia. Ver PR 296/1987, pp. 40-48.
Não podemos deixar de observar que as páginas introdutórias nos diversos livros do Antigo e do Novo Testamento são portadoras de informações úteis ao leitor; procuram transmitir noções de exegese científica moderna em linguagem acessível ao grande público, todavia sempre marcadas pela preocupação unilateral dos interesses sócio-econômicos. Veja-se, por exemplo, na Introdução do livro de Jó o seguinte trecho: “A vida do pobre é transformada em lugar da manifestação e da experiência de Deus. A partir disso, podemos dizer que o livro de Jó é a proclamação de que somente o pobre é apto para fazer tal experiência e, por isso, é capaz de anunciar a presença e a ação de Deus dentro da história” (P. 639).
A nota a Gn 19, 30-38 apresenta um erro gráfico de certa monta: fala de Jó em vez de Ló.
Em síntese, a Edição Pastoral é entendida como “incitamento sócio-político” — o que depaupera a mensagem da Bíblia. Esta tem por certo, consequências de Ética Social, mas é, antes do mais, a revelação do mistério de Deus aos homens e a promessa da herança definitiva que toca àqueles que no Espírito pelo Filho caminham para o Pai (cf. Ef 2, 18).
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Fonte: Pergunte e Responderemos, Dom Estêvão Bettencout, p.45-46.