Bispos vigilantes
Dom Marcos Barbosa *
Membro da Academia Brasileira de Letras
Membro da Academia Brasileira de Letras
O Evangelho de domingo passado — a parábola das Dez Virgens — foi o Evangelho da Vigilância. Ninguém deve ser mais vigilante que os bispos, pois é esse o significado da palavra grega que lhes deu o nome. E dia 7 do corrente treze bispos do Estado do Rio de Janeiro, tendo à frente o Cardeal Arcebispo Dom Eugênio Sales, redigiram o seguinte documento que reproduzimos por não ter tido a necessária divulgação.
“Nós, bispos Católicos do Estado do Rio de Janeiro, presentes à reunião ordinária, sentimos-nos no dever de manifestar de público nossa profunda preocupação e apreensão pelos abusos que se vêem, a cada momento, nos meios de comunicação social: televisão, jornal, rádio e veículos publicitários.
“Nos referimos em especial à divulgação, sem qualquer medida, de cenas de violência, exploração pornográfica em figuras e atitudes, ao aviltamento dos princípios permanentes da família nas relações entre esposos e entre pais e filhos, à exaltação irresponsável do roubo, da mentira, como formas de vencer na vida, e outros antiv(a)lores que destroem o tecido social. É o que se vê em novelas, filmes, programas humorísticos, noticiários, fotografias e outras formas de veicular no povo atitudes, modos de viver, princípios de convivência, totalmente anti-sociais.
“O direito à livre manifestação do pensamento, da notícia ou da criação supostamente artística, termina onde começa o direito da família, das pessoas e sobretudo dos mais indefesos. Lembramos aos Comunicadores Sociais e aos Governantes que, sem sólidos fundamentos morais, a vida social vai se tornar inviável. Que Deus os inspire em seus caminhos, e lhes desperte a consciência para sua tremenda responsabilidade.”
Muito oportuno esse pronunciamento, quando já lemos que o Vigário Geral da Arquidiocese de São Paulo (a que foi em boa hora dividida), perguntado sobre a censura à televisão, não a julga necessária, porque descobriu que os aparelhos são munidos de um botãozinho que permite ao telespectador desligá-lo quando o que está vendo não lhe agrada.
Também em jornal de São Paulo Dom Evaristo Arns, Prêmio Juca Pato, declara que a CNBB poderá introduzir modificações na famigerada (o adjetivo é nosso) Bíblia Edição Pastoral, lançada pelas Edições Paulinas, que foi por ela aprovada. E qualifica de “precipitadas” as críticas feitas pelo bispo auxiliar de Recife, Dom Martins Terra. Elas “não precisavam ser levadas a público, pois terá canais diretos para comunicar-se com a CNBB e também com os tradutores”. Ora, a CNBB jamais toma em consideração as críticas que lhe são feitas, como costuma ignorar até as orientações de autoridades mais altas. E, quanto aos tradutores-intérpretes da Bíblia em questão, desses nem é bom falar. Enquanto se ficasse lançando mão de panos quentes, a Bíblia distorcida iria se propagando mais velozmente do que já foi.
A respeito da censura, o mesmo Vigário Geral de São Paulo diz que a CNBB já ficou “calejada” com o caso do Je vous salue, Marie. Quer dizer, de que nada adiantou a condenação do filme, que acabou sendo visto de mil modos. Ora, um filme ou as novelas de televisão devem ser condenadas, se for o caso, pela autoridade eclesiástica, mesmo que tais condenações não produzam efeito a curto prazo. O grave não é tanto que filmes ou novelas condenadas continuem a ser exibidos, mas que continuem a sê-lo sem o protesto do clero e dos fiéis, que se tornariam, pelo seu silêncio, cúmplices. Um grego já dissera: “Navegar é preciso”. Nós dizemos: “Protestar é preciso”.
Dom Boaventura Kloppenburg nos falou, em sua última crônica do “silêncio herético”, que hoje ocorre frequentemente, quando se deixa de pregar verdades fundamentais da fé, pouco agradáveis ao paladar do pregador e dos ouvintes. Também pode haver um silêncio não apenas cúmplice, mas herético, quando se toleram sem protesto uma novela perversa ou uma Bíblia distorcida.
Alguém disse que o Governo “não pode governar o sexo dos seus cidadãos”. Mas pode e deve, dizemos nós, impedir que outros o governem, exaltando-o indiscriminadamente, como se fosse o valor supremo e único.
Com tristeza vemos que a missa do próximo Congresso Eucarístico de Natal faz questão de ter como aclamação ao Evangelho um texto do Padre Reginaldo Veloso, que já rimou Supremo Tribunal com “coito venal” e que está suspenso de ordens por seu Arcebispo em Recife. Mas, como é que se ia deixar de lado esta composição genial: “A Palavra se fez carne, / A Palavra se fez pão, / A palavra se fez pobre, Fez-se Evangelização”?
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Fonte: Jornal do Brasil, 15 de novembro de 1990, Rio de Janeiro, p. 11
