CARTA PASTORAL
ANTONIO por mercê de Deus e da Santa Sé Apostolica, Bispo de Marianna, da Congregação da Missão Brasileira, do conselho de S. Magestade o Imperador, Commendador da Ordem de Christo, a todo o nosso Clero, e Fiéis nossos Diocesanos, saude, paz, e benção no Senhor.
Comtudo, e sem ainda tomar partido, he agora
necessario que vos fallemos de huma folha moderna, o Apostolo, cujo fim
he provar a excellencia de sua forma de governo, sobre qualquer outra. Desde ja
vos dizemos muito clara e distinctamente que, em these, não entramos em lita
com seus editores sobre a preferencia de tal ou tal forma governativa, e a este
respeito nossos fracos conhecimentos em politica seguem os conhecimentos e
doutrina de abalizados politicos (a). Mas como Prelado desta Diocese he do
nosso dever não tolerar que os editores do Apostolo se sirvão da Sagrada
Escriptura em sentidos, que a Santa Igreja, tradição, e Santos padres nunca lhe
derão. Qual he o interprete catholico, qual o santo padre, qual o concilio, que
assim interpretasse a Sagrada Escriptura, que della viesse a concluir, que tal
ou tal forma de governo he opposta a Divina Revelação? Aonde, ou em que
interpreto lerão, que aquella expressão do 3.º verso do 2.º Psalmo, Quebremos
as cadeias delles, seja posta na bocca dos povos contra os reis, quando he
clarissimo e todos os interpretes as entendem sahir da bocca dos impios contra
o Senhor, e o seo Christo? S. Ligorio interpreta do modo seguinte: „Dirumpamus
vincula eorum. Estas palavras David as applica aos inimigos de Deos e de
Christo, quando diz: Livremo-nos de seo imperio e suas leis„
O Sagrado concilio tridentino na Sess. 4.ª no
decreto do uso dos livros sagrados diz—Para reprimir os engenhos petulantes,
determina o Sagrado concilio, que nenhuma pessoa nas cousas da fé e costumes,
que pertencem á edificação da doutrina christã, fiando-se da sua prudencia,
torcendo a Sagrada Escriptura para o proprio sentido, se atreva a interpreta-la
contra o sentido que teve e tem a Santa Madre Igreja, de quem he proprio julgar
do verdadeiro sentido e interpretação da Sagrada Escriptura, ainda que não
chegue a dar a luz essa sua interpretação. O contraventor seja declarado pelo
Ordinario, (note-se o dever dos Bispos) e punido com as penas do
direito„, O Santissimo Padre Pio IX, na Encyclica que dirigio a todos os Bispos
do Urbe Catholico a 9 de novembro de 1846, diz, „Quanto errão aquelles que
abusando da razão, reputado por obra de homens a palavra de Deos, se atrevem a
explica-la, e interpreta-la temerariamente a seo arbitrio, tendo o mesmo Deos
estabelecido huma auctoridade viva, que ensinasse e determinasse o verdadeiro e
legitimo sentido de sua celestial revelação, e dirimisse todas as controversias
da fé e costumes com hum juizo infallivel!“ E mais adiante, „Ha sociedades
astutas, chamadas Biblicas que renovando o antigo systema dos hereges, não
cessão de repartir gratuitamente e metter á cara a toda a qualidade de homens
ainda aos mais rudes, os livros das divinas Escripturas, traduzidos em lingua
vulgar, e interpretados muitas vezes com perversas explicações, a fim de que rejeitada
a tradição e doutrina dos santos padres, e a auctoridade da igreja catholica,
interpretem todos por seo juizo particular a palavra de Deos, pervertão o seo
sentido, e caião em muitos erros.“
Recommemdamos por tanto a todos os auctores de
artigos de folhas politicas do nosso Bispado, que como filhos obedientes da
Santa Igreja Catholica, Apostolica, Romana, se sujeitem a suas determinações,
abstendo-se de allegar textos da Sagrada Escriptura, e não estiverem certos de
que aquelle he o sentido admittido pela igreja. Saibão que ha na Sagrada
Escriptura passagens obscuras, expressões desusadas na nossa linguagem, e
allusivas a outras epocas e costumes, de modo que chega a dizer S. Pedro no
cap. 3.º da sua 2.ª carta verso 16.—Ha das cartas de nosso carissimo irmão
Paulo cousas difficeis, de entender-se, as quaes os homens ignorantes e
levianos depravao, assim como as outras escripturas para sua propria
perdição—Pode acontecer que em huma expressão ou em huma simples palavra se
contenha huma heresia, e ainda huma blasphemia: citaremos hum exemplo do n.º
6.º do Apostolo, columna ultima, nota 3.ª O mesmo Creador não escreve na
1.ª edição de fé. Não acertar e errar não será o mesmo? e dizer que Deos errou,
não será blasphemia?
Hun outro motivo nos obriga tambem a dirigir-nos
aos Rd.os Parochos da nossa Diocese. Consta que alguns delles tem abusado do
Pulpito, para delle invectivarem contra o partido que lhe he opposto, e até se
animão a fallar do mesmo lugar contra huma ou outra lei, que não he da sua
approvação. Certamente que he este hum abuso temerario, e huma profanação
intoleravel„ A estes diremos com o actual sr. Arcebispo de Pariz. A igreja não
se embaraça de modo algum com as diversas formas de governo adoptadas pelos
differentes povos, como as mais apropriadas aos seos costumes e ás suas
necessidades: tambem nós, ministros de Deos no exercicio das nossas sagradas
funcções, devemos não fazer selecção de pessoa alguma, e mostrar-nos igualmente
dedicados aos nossos semelhantes, sempre promptos para sacrificar a propria
vida por todos elles sem distinção de opiniões nem de partidos politicos. Para
isso he mister que em nosso trato com os fieis nos conservemos alheios a essas
opiniões, a esses partidos, quaesquer que alias sejam nossas convicções e
nossas sympathias. O sacerdote que na predica da palavra divina, esquecendo-se
do respeito devido á cadeira christã, a transformasse em tribuna, ou sómente
fizesse allusões mais ou menos directas aos negocios publicos, e áquelles que
nelles tomão parte, esse teria comprometido os augustos interesses da
religião.“
Recommemdamos a todos os Rd.os Oradores, que se
aproveitem tão muito que ha que dizer nesses discursos, sobre as qualidades dos
eleitores, sobre a liberdade dos votos, sobre a invocação das luzes do Divino
Espirito sobre as doçuras da paz, e mil cousas, que Deos lhe inspirará, no que
lhe encarregamos sua consciencia: na certeza de que se esta nossa exhortação
não for ouvida, seremos obrigados a lançar mão das outras armas da igreja.
Concluiremos dizendo a todos os Sacerdotes, Ministros do Senhor, está em vosso
poder applacar os animos exaltados, e teimosos, por meio de vossas vozes e
exemplo. Vencendo com os partidistas de hum lado, chamais e attrahis o odio do
outro lado, que triste victoria! Que depravado gosto, affastar de si metade de
suas ovelhas! E como podereis então conduzi-las aos pastos saudaveis do
Evangelho? Tudo o que lê estas nossas expressões, e as olha como declamações
oratorias, e as não toma muito á letra, e em lugar de se entregar ao estudo, a
meditação de seos deveres, se dá de todo ás intrigas e cabalas de partidos,
poderá vencer, e conseguir seos intentos; mas conhecerá na hora da morte que se
deixou vencer de suas paixões, e provavelmente sem remedio. Os Rd.os Parochos e
Capellães Curas terão esta á Missa Conventual. Dada em Marianna aos 23 de Abril
de 1851.
L. ✠ S. ✠ Antonio
Bispo de Marianna.
(a) O Exm.º Arcebispo actual de Paris, na sua Pastoral copiada no Jornal do Com. de 5 deste Abril;—O Conselheiro José Joaquim Rodrigues Bastos nas suas Meditações cap. xiv.—Haller Restauração da sciencia politica cap. 21.
--------------------------------------------
Fonte: O Romano, Ano 1, nº 9, 8 de março de 1851, p.67

