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Carta Pastoral sobre a interpretação da Bíblia - Dom Antônio Ferreira Viçoso (1851)

 




CARTA PASTORAL

ANTONIO por mercê de Deus e da Santa Sé Apostolica, Bispo de Marianna, da Congregação da Missão Brasileira, do conselho de S. Magestade o Imperador, Commendador da Ordem de Christo, a todo o nosso Clero, e Fiéis nossos Diocesanos, saude, paz, e benção no Senhor.

 Tendo-vos dado sufficientes provas, ha sete annos do nosso Episcopado, de que não seguiamos partido algum politico, e de que amavamos effectuosamente no Senhor a nossos Filhos em J. Christo, quaesquer que fossem seus sentimentos politicos, procurando em todos os pulpitos deste Bispado applicar seo animo exaltado, e fazer cessar os odios e inimizades que de ordinario acompanhão os partidos, estamos persuadidos que todos vós conheceis ja a nossa sinceridade e rectidão de intenções. Sabei pois agora, carissimos, que os nossos sentimentos ainda são os mesmos: ainda até agora não temos partido politico, e ainda vos amamos com a mesma cordialidade: e se alguem, não se contentando com a experiencia de 7 annos, ainda suspeita que ha em nós reserva e disfarce, que auxiliamos occultamente a algum dos partidos, e que escolhemos para o clero, para as parochias, ou outros empregos ecclesiasticos exclusivamente os sujeitos de hum só partido, engana-se e nunca poderá fundamentar huma tal suspeita.

Comtudo, e sem ainda tomar partido, he agora necessario que vos fallemos de huma folha moderna, o Apostolo, cujo fim he provar a excellencia de sua forma de governo, sobre qualquer outra. Desde ja vos dizemos muito clara e distinctamente que, em these, não entramos em lita com seus editores sobre a preferencia de tal ou tal forma governativa, e a este respeito nossos fracos conhecimentos em politica seguem os conhecimentos e doutrina de abalizados politicos (a). Mas como Prelado desta Diocese he do nosso dever não tolerar que os editores do Apostolo se sirvão da Sagrada Escriptura em sentidos, que a Santa Igreja, tradição, e Santos padres nunca lhe derão. Qual he o interprete catholico, qual o santo padre, qual o concilio, que assim interpretasse a Sagrada Escriptura, que della viesse a concluir, que tal ou tal forma de governo he opposta a Divina Revelação? Aonde, ou em que interpreto lerão, que aquella expressão do 3.º verso do 2.º Psalmo, Quebremos as cadeias delles, seja posta na bocca dos povos contra os reis, quando he clarissimo e todos os interpretes as entendem sahir da bocca dos impios contra o Senhor, e o seo Christo? S. Ligorio interpreta do modo seguinte: „Dirumpamus vincula eorum. Estas palavras David as applica aos inimigos de Deos e de Christo, quando diz: Livremo-nos de seo imperio e suas leis„

O Sagrado concilio tridentino na Sess. 4.ª no decreto do uso dos livros sagrados diz—Para reprimir os engenhos petulantes, determina o Sagrado concilio, que nenhuma pessoa nas cousas da fé e costumes, que pertencem á edificação da doutrina christã, fiando-se da sua prudencia, torcendo a Sagrada Escriptura para o proprio sentido, se atreva a interpreta-la contra o sentido que teve e tem a Santa Madre Igreja, de quem he proprio julgar do verdadeiro sentido e interpretação da Sagrada Escriptura, ainda que não chegue a dar a luz essa sua interpretação. O contraventor seja declarado pelo Ordinario, (note-se o dever dos Bispos) e punido com as penas do direito„, O Santissimo Padre Pio IX, na Encyclica que dirigio a todos os Bispos do Urbe Catholico a 9 de novembro de 1846, diz, „Quanto errão aquelles que abusando da razão, reputado por obra de homens a palavra de Deos, se atrevem a explica-la, e interpreta-la temerariamente a seo arbitrio, tendo o mesmo Deos estabelecido huma auctoridade viva, que ensinasse e determinasse o verdadeiro e legitimo sentido de sua celestial revelação, e dirimisse todas as controversias da fé e costumes com hum juizo infallivel!“ E mais adiante, „Ha sociedades astutas, chamadas Biblicas que renovando o antigo systema dos hereges, não cessão de repartir gratuitamente e metter á cara a toda a qualidade de homens ainda aos mais rudes, os livros das divinas Escripturas, traduzidos em lingua vulgar, e interpretados muitas vezes com perversas explicações, a fim de que rejeitada a tradição e doutrina dos santos padres, e a auctoridade da igreja catholica, interpretem todos por seo juizo particular a palavra de Deos, pervertão o seo sentido, e caião em muitos erros.“

Recommemdamos por tanto a todos os auctores de artigos de folhas politicas do nosso Bispado, que como filhos obedientes da Santa Igreja Catholica, Apostolica, Romana, se sujeitem a suas determinações, abstendo-se de allegar textos da Sagrada Escriptura, e não estiverem certos de que aquelle he o sentido admittido pela igreja. Saibão que ha na Sagrada Escriptura passagens obscuras, expressões desusadas na nossa linguagem, e allusivas a outras epocas e costumes, de modo que chega a dizer S. Pedro no cap. 3.º da sua 2.ª carta verso 16.—Ha das cartas de nosso carissimo irmão Paulo cousas difficeis, de entender-se, as quaes os homens ignorantes e levianos depravao, assim como as outras escripturas para sua propria perdição—Pode acontecer que em huma expressão ou em huma simples palavra se contenha huma heresia, e ainda huma blasphemia: citaremos hum exemplo do n.º 6.º do Apostolo, columna ultima, nota 3.ª O mesmo Creador não escreve na 1.ª edição de fé. Não acertar e errar não será o mesmo? e dizer que Deos errou, não será blasphemia?

Hun outro motivo nos obriga tambem a dirigir-nos aos Rd.os Parochos da nossa Diocese. Consta que alguns delles tem abusado do Pulpito, para delle invectivarem contra o partido que lhe he opposto, e até se animão a fallar do mesmo lugar contra huma ou outra lei, que não he da sua approvação. Certamente que he este hum abuso temerario, e huma profanação intoleravel„ A estes diremos com o actual sr. Arcebispo de Pariz. A igreja não se embaraça de modo algum com as diversas formas de governo adoptadas pelos differentes povos, como as mais apropriadas aos seos costumes e ás suas necessidades: tambem nós, ministros de Deos no exercicio das nossas sagradas funcções, devemos não fazer selecção de pessoa alguma, e mostrar-nos igualmente dedicados aos nossos semelhantes, sempre promptos para sacrificar a propria vida por todos elles sem distinção de opiniões nem de partidos politicos. Para isso he mister que em nosso trato com os fieis nos conservemos alheios a essas opiniões, a esses partidos, quaesquer que alias sejam nossas convicções e nossas sympathias. O sacerdote que na predica da palavra divina, esquecendo-se do respeito devido á cadeira christã, a transformasse em tribuna, ou sómente fizesse allusões mais ou menos directas aos negocios publicos, e áquelles que nelles tomão parte, esse teria comprometido os augustos interesses da religião.“

Recommemdamos a todos os Rd.os Oradores, que se aproveitem tão muito que ha que dizer nesses discursos, sobre as qualidades dos eleitores, sobre a liberdade dos votos, sobre a invocação das luzes do Divino Espirito sobre as doçuras da paz, e mil cousas, que Deos lhe inspirará, no que lhe encarregamos sua consciencia: na certeza de que se esta nossa exhortação não for ouvida, seremos obrigados a lançar mão das outras armas da igreja. Concluiremos dizendo a todos os Sacerdotes, Ministros do Senhor, está em vosso poder applacar os animos exaltados, e teimosos, por meio de vossas vozes e exemplo. Vencendo com os partidistas de hum lado, chamais e attrahis o odio do outro lado, que triste victoria! Que depravado gosto, affastar de si metade de suas ovelhas! E como podereis então conduzi-las aos pastos saudaveis do Evangelho? Tudo o que lê estas nossas expressões, e as olha como declamações oratorias, e as não toma muito á letra, e em lugar de se entregar ao estudo, a meditação de seos deveres, se dá de todo ás intrigas e cabalas de partidos, poderá vencer, e conseguir seos intentos; mas conhecerá na hora da morte que se deixou vencer de suas paixões, e provavelmente sem remedio. Os Rd.os Parochos e Capellães Curas terão esta á Missa Conventual. Dada em Marianna aos 23 de Abril de 1851.

 

L. ✠ S.  ✠ Antonio Bispo de Marianna.

 

(a) O Exm.º Arcebispo actual de Paris, na sua Pastoral copiada no Jornal do Com. de 5 deste Abril;—O Conselheiro José Joaquim Rodrigues Bastos nas suas Meditações cap. xiv.—Haller Restauração da sciencia politica cap. 21.


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Fonte: O Romano, Ano 1, nº 9, 8 de março de 1851, p.67