22/07/2001 - 10h16
CNBB lança tradução oficial da Bíblia
da Folha de S.Paulo
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) está lançando uma tradução oficial da Bíblia que servirá de referência para a Igreja Católica no país. A primeira edição tem 70 mil exemplares.
Como recomenda o Concílio Vaticano 2º (1962-65), a tradução se baseia nos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos, cotejados com a Nova Vulgata -a tradução oficial católica.
O projeto teve início em 1991, após a aprovação da Assembléia Geral da CNBB. A edição integral foi produzida por sete editoras -Vozes, Paulinas, Paulus, Santuário, Salesiana, Ave Maria e Loyola-, várias delas com traduções próprias. Textos citados em documentos eclesiais serão extraídos dessa tradução, que integra as comemorações dos 50 anos da CNBB, fundada em 1952.
O texto, mais fluido que o existente em outras versões, apresenta-se simples nas narrativas. Conserva, porém, as metáforas comuns no texto bíblico. A linguagem mantém relativa homogeneidade e evita o uso de termos excessivamente característicos de uma região -o léxico procura atender à diversidade linguística brasileira. Foram evitados ainda termos como "homem", em referência ao ser humano em geral, e tempos verbais complexos.
A diferença se mostra clara, por exemplo, numa comparação com a Bíblia de Jerusalém (editora Paulus), recomendada para estudos bíblicos. Os versículos 29-33 do capítulo primeiro do Evangelho Segundo São Marcos dessa Bíblia dizem: "E logo ao sair da sinagoga, foi à casa de Simão e de André, com Tiago e João. A sogra de Simão estava de cama com febre, e eles imediatamente o mencionaram a Jesus. Aproximando-se, ele a tomou pela mão e a fez levantar-se. A febre a deixou e ela se pôs a servi-los. Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta".
Já a tradução oficial da CNBB, mais fluida, diz: "Logo que saíram da sinagoga, foram com Tiago e João para a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e logo falaram dela a Jesus. Ele aproximou-se e, tomando-a pela mão, levantou-a; a febre a deixou, e ela se pôs a servi-los. Ao anoitecer, depois do pôr-do-sol, levavam a Jesus todos os doentes e os que tinham demônios. A cidade inteira se ajuntou à porta da casa".
D. Walmor Oliveira de Azevedo, 47, um dos nove tradutores responsáveis, disse à Folha que "a primazia é o texto, que se aproxima muito da linguagem comum". Segundo ele, esta Bíblia não invalida outras versões. "Outras traduções são importantes e necessárias", disse. Entre as dificuldades, citou as variações regionais.
Mais próxima das atuais leituras litúrgicas, a Bíblia deverá servir, com as devidas adaptações, para uma futura atualização dos livros litúrgicos. "Escutar o mesmo texto na catequese e na liturgia facilita a memorização", explicou o coordenador-geral da tradução, d. Francisco Javier Hernández Arnedo, responsável pela dimensão bíblico-catequética da CNBB.
O texto contém uma introdução geral à Bíblia, glossário de conceitos, tabelas cronológicas, mapas e sucintas notas de rodapé, que indicam outras formas do texto nos antigos manuscritos e versões, além da tradução literal, quando a adotada tiver sido muito livre.
A preocupação com o ecumenismo aparece na numeração de capítulos e versículos, que segue a Nova Vulgata, mas indica em subscrito itálico as numerações divergentes encontradas em outras edições. (PAULO DANIEL FARAH)
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Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u22610.shtml