ECUMENISMO E TRADUÇÕES
Dom Vicente Scherer
Cardeal e Arcebispo de Porto Alegre
[...]ro ou entre as festas da Ascensão e Pentecostes. Em geral no hemisfério-sul, o segundo período se prefere, visto ser janeiro tempo de férias. Assim, no Brasil, estavam indicados, no corrente ano, os dias de 26 de maio a 2 de junho.
A finalidade desta promoção vai indicada no próprio título. Visa a favorecer o ecumenismo, a plena unidade religiosa dos 900 milhões de batizados, 32 por cento de toda a família humana, que crêem em Cristo, na sua mensagem, nas suas promessas de elevação e de imortalidade. Estão eles, porém, lamentavelmente, divididos em centenas de confissões ou grupos, que divergem entre si em pontos fundamentais de fé e de entendimento ou interpretação das palavras de Cristo, contidas nas Escrituras que em tese todos admitem.
As maiores cisões datam dos séculos sete, onze e dezesseis. A todos os cristãos talvez anime o sincero desejo de unidade perfeita. A separação e as divergências contradizem o conceito fundamental do cristianismo e se opõem ao ardente anseio do coração do Salvador, de indestrutível amor e unidade. Entretanto, dificuldades humanamente insuperáveis impedem a concretização feliz da aspiração comum. Erroneamente, ecumenismo não raramente se confunde com irenismo, indiferença em pontos de doutrina, abandono leviano de convicções, avaliação niveladora das expressões mais opostas e contraditórias de fé religiosa. Tal atitude conduz logicamente ao afastamento de qualquer séria prática e orientação religiosa.
O Concílio Vaticano II, que deu vigoroso e decisivo impulso ao movimento ecumênico na Igreja Católica, o define como o conjunto das “atividades e iniciativas suscitadas e ordenadas, segundo as várias exigências da Igreja e as oportunidades dos tempos, no sentido de promover a unidade dos cristãos”. (U. R. nr. 4).
LINGUAGEM POPULAR
Este desejo de favorecer a unidade levou, sem dúvida, a Comissão Episcopal de Pastoral da Conferência dos Bispos do Brasil a uma iniciativa que não parece acertada e feliz, a de aprovar e recomendar a tradução da “Bíblia na linguagem de hoje — Novo Testamento” da Sociedade Bíblica do Brasil. E' que em várias passagens não se limita ela a traduzir o texto mas o faz de tal forma que a versão vale por uma interpretação que contraria claramente a fé católica.
No prólogo da edição se avisa que ela “traduz fielmente o sentido e não somente as palavras” (Pág. IV).
Assim, por exemplo, se lê que “Maria deu à luz o seu primeiro filho”. Insinua esta expressão, em nossa língua, que Maria depois teve outros filhos. Não é este, porém, o sentido da palavra original “primogênito” na linguagem bíblica e semita (Lc. 2,7).
De maneira semelhante, se colocam nos lábios de Nossa Senhora as palavras “Ainda sou virgem”. O leitor conclui que a Mãe de Jesus teve outros filhos ou pelo menos não exclui a possibilidade nem a intenção de ter relações conjugais. E' uma interpretação arbitrária que não corresponde à expressão do texto grego. Nele não consta a palavra “ainda”, mas Maria declara “Não conheço varão” o que significa simplesmente não ter ela convívio marital. Outros exemplos semelhantes se encontram no volume.
COCHILOS
Também cochilou no assunto a Liga de Estudos Bíblicos que congrega os professores católicos de exegese. Ela, porém, já se penitenciou alegando que baseou o seu parecer favorável na opinião de apenas um dos seus associados e que “o tempo foi demais curto para um exame mais detido e profundo de tantas questões sérias que um tal empreendimento exige” (Boletim, junho-dezembro ... 1973).
A própria Comissão Pastoral da CNBB reconheceu que houve precipitação em conceder a recomendação e, segundo a palavra do seu Presidente, “torna-se indispensável a correção de falhas” ocorridas. Condicionou, por isso, a aprovação de uma “ulterior impressão da citada obra” à emenda das referidas falhas (Comunicado Mensal, fev. de 1974, pág. 113). “Apareceram outrossim críticas da parte de não católicos, inclusive de antigas denominações evangélicas” (Boletim. 1.c.).
Podem-se mesmo questionar a oportunidade e a conveniência de se fazer traduções da Bíblia “na linguagem do povo”. Qual é a linguagem do povo? Dos que não sabem ler? Dos que têm o curso do primeiro ciclo, o curso médio ou possuem diploma universitário? No momento está-se discutindo vivamente a proibição do Ministério de Comunicações de empregar linguagem de gíria no rádio e na televisão. Também ela é linguagem do povo. “Acrescente-se que a presente tradução nem sempre, de fato, traduz a fala popular” (Boletim, 1.c.).
Não sem razão pergunta-se neste ensejo se o homem moderno só entende a linguagem em que ele mesmo habitualmente se exprime. A Bíblia trata de conceitos e realidades que substancialmente ultrapassam nossa rotina do cada dia. Nem por isso ficam de todo incompreensíveis nem têm caráter alienante. A própria sacralidade e transcendência da verdade revelada, para as quais o povo tem sintonia profunda e um instinto quase divinatório, parecem aconselhar uma expressão mais elevada e respeitosa do conteúdo.
Esta também se entende com um pouco de estudo que em todos os assuntos se torna indispensável. De outra forma, facilmente se descamba para a vulgaridade, o prosaico e até mesmo o ridículo.
EXPRESSÃO DO MISTÉRIO
No intuito de tornar facilmente compreensível o estilo menos corriqueiro a Igreja sempre exigiu notas ou esclarecimentos ao pé da página nas edições da Bíblia, precisamente para explicar termos ou passagens menos em uso e de sentido difícil, sem dúvida frequentes na Escritura. Não se pode renunciar, por amor à popularidade, a certa nobreza e elevação de linguagem. Nem a leitura da Bíblia se faz mais atraente e amena ajustando sua linguagem a preferências passageiras da moda.
A profundidade do mistério, que apresenta, da infinitude de Deus, as riquezas insondáveis do Verbo Encarnado talvez fiquem melhor manifestas e sentidas em fórmulas de mais alto nível que o linguajar usual nas rodinhas íntimas de amigos e no acerto acalorado das feiras.
“O tratamento dialogal de ‘você’, indistintamente, dos Apóstolos da Bíblia pelas Edições ‘Loyola’. A tradução é aderente ao texto original” (Boletim 1.c.).
Somente o estudo da Bíblia nos dará a suspirada e necessária unidade. Requer-se a abundância das luzes e das moções do Espírito que se invocou especialmente na “Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos”.
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Fonte: Jornal O São Paulo, 29 de junho de 1974, São Paulo-SP, p.2.
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