Aclamado como o pioneiro do atual movimento bíblico no Brasil — Filho de Irmã Zélia, irmão de 2 sacerdotes e 5 religiosos — Tradutor da Bíblia — Fundador do Centro Bíblico — Faleceu Santamente
Dia 31 de maio último, quarta-feira, às 2,30 hs. da madrugada, faleceu no Hospital Bom Jesus na cidade de Tremembé (perto de Taubaté), o padre franciscano Frei João José Pedreira de Castro, vítima de gangrenas nos pés.
FILHO DE IRMÃ ZÉLIA E IRMÃO DE 7 RELIGIOSOS
Era Frei João José o filho mais novo de Jerônimo de Castro Abreu e Magalhães e de D. Elisa de Bulhões Pedreira Magalhães. Todos os seus 7 irmãos ingressaram no convento: 2 se tornaram sacerdotes e 5 irmãs se fizeram religiosas. A própria mãe, após a morte do marido, entrou por sua vez também no convento, com o nome de Irmã Zélia, cognominada “a Santa Brasileira”. Vivem, ainda, seu irmão jesuíta Padre Fernando de Castro e suas irmãs religiosas, residindo aqui na capital de São Paulo.
FOI PROFESSOR DE MAIS DE 300 SACERDOTES E 4 BISPOS
Durante 25 anos foi Frei João José P. de Castro foi professor de Bíblia na Faculdade Teológica de Petrópolis, Estado do Rio, sua terra natal. Foram seus alunos mais de 300 sacerdotes franciscanos, inclusive 4 que hoje são bispos: Dom Henrique G. Trindade, arcebispo de Botucatu, D. Carlos Bandeira de Mello, bispo de Palmas (Paraná), Dom Carlos Schmitt, bispo de Dourados (Mato Grosso) e Dom Quirino Schmitz, bispo de Teófilo Otoni (Minas Gerais).
TRADUTOR DA BÍBLIA
Em 1956 fundou aqui em São Paulo o Centro Bíblico e o Curso da Sagrada Escritura por Correspondência. Um ano mais tarde, principiou Frei João José a tradução da Bíblia completa para o português, confiando a edição à Editora Ave Maria, e agora atinge já sua 3.ª edição com 100.000 exemplares.
CONTINUAM O CENTRO BÍBLICO E O CURSO DE BÍBLIA
O Centro Bíblico de São Paulo, à Pr. Clóvis Bevilacqua 45, e o Curso de Sagrada Escritura por Correspondência, iniciados por Frei João José, prosseguirão em sua missão de propagação da Bíblia, agora sob a direção do Padre Franciscano Frei Paulo Avelino, que durante os últimos 5 anos foi auxiliar direto de Frei João José. Deseja-se assim levar avante a obra de divulgação bíblica, tão bem começada pelo “Pioneiro do Movimento Bíblico no Brasil”.
JÁ EM 1960, FREI JOÃO JOSÉ ÀS PORTAS DA MORTE
Sempre atacado de diabete e de mal-estar geral, procurou Frei João José em 1959 um revigoramento de sua saúde na cidadezinha de Embu, perto de São Paulo.
Meio ano mais tarde, em 19 de março de 1960, vitimado de mal-súbito, quase morreu no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Recebeu ali a extrema-unção, e foi dado então como morto. Recuperou-se, porém, e durante dois anos foi restabelecer-se na cidade climática de Tremembé, perto de Taubaté, onde era capelão do Hospital local, e onde veio a falecer a 31 de maio último, com a idade de 65 anos.
MORTE SANTA
Frei João José teve morte santa, digna de inveja. Acometido das dores mais cruéis e agudas, produzidas pelas duas gangrenas nos pés, não emitia uma queixa sequer, a ponto de pasmar o médico, irmãs enfermeiras e os visitantes. Rezava o tempo todo, durante todos os dias, com fé viva e inteligente que comoveu e impressionou seus próprios confrades. De vez em quando mandava que lessem para ele algum trecho da Bíblia, por ele indicado. Teve assim morte bíblica, depois de uma vida bíblica.
LEVANTAVA-SE À MEIA-NOITE PARA REZAR
Dois meses antes da morte, quando ainda podia andar e gozava de relativa saúde, todas as noites levantava-se à meia-noite e ia à capela rezar com seu companheiro Felipe Brand, senhor que há 40 anos o acompanhava nos trabalhos apostólicos. Ali ficava a rezar, a ler na Bíblia e meditar até 1 ou 1,30 ou 2 horas da madrugada. Depois ia repousar. Em seguida, supondo que Felipe Brand já dormia, retornava silencioso para a capela para continuar em orações.
Segundo depois se apurou, as intenções destas suas orações noturnas eram pelos sacerdotes e pelos futuros sacerdotes, e por amigos particulares.
“PIONEIRO DO MOVIMENTO BÍBLICO NO BRASIL”
Foi Frei José quem principiou no Brasil, com intensidade, assim chamadas “Semanadas Bíblicas”, com intuito de incrementar no território nacional o conhecimento da Bíblia Sagrada.
Nesta nobre missão evangelizadora, percorreu vários estados da federação, chegando por vêzes, como em janeiro de 1959, a realizar 87 conferências bíblicas em apenas 23 dias.
Por seu dinâmico apostolado em prol da divulgação da Bíblia, mereceu em julho do ano passado, no Congresso Nacional de Bíblia realizado em Viamão (Pôrto Alegre) ser aclamado por todos os biblistas como o “Pioneiro do atual Movimento Bíblico no Brasil”.
PRECURSOR DO CONCÍLIO ECUMÊNICO
Em 1957, portanto muito antes de ser anunciado o Concílio Ecumênico no Vaticano, iniciou Frei João José aqui em São Paulo um movimento simpático de aproximação dos pastores protestantes. Reunia os chefes de vários credos (dos “Irmãos Separados”, como êle na sua delicadeza os “chamava em denominações) para estudarem em comum a Bíblia Sagrada. Não se tratava de alguma fusão de religiões, mas o quanto possível de uma confraternização. Grande foi o proveito que destas reuniões amigas tiraram os “Irmãos Separados”. Através da singeleza cordialidade e nobreza de Frei João José, ficaram êles conhecendo melhor a Igreja Católica, viram que a doutrina católica era acha fundamental na Bíblia Sagrada, e constataram pelo exemplo de Frei João José que na Igreja é grande o amor e respeito pela Bíblia, muito mais do que imaginavam. Tornou-se assim Frei João José um precursor do próximo Concílio Ecumênico do Vaticano que deseja reaproximar os “Irmãos Separados”.
ESCRITOR
Além das obras supra citadas e dos inúmeros artigos em revistas e opúsculos, escreveu Frei João José os livros: “Davi” e “O Sermão da Montanha”, versando sôbre temas bíblicos. Traduziu também “A Vida de Jesus no país e no povo de Israel”, obra valiosa para o conhecimento dos costumes da Palestina e maior elucidação dos evangelhos.
Elaborou um Curso de Missa por Correspondência, em 20 aulas, para o povo. Depois de êle alguns anos pessoalmente corrigir as lições, entregou o Curso para sua Irmã Religiosa, Madre Castro, das Irmãs Dorotéias de São Paulo, que a partir de então vem corrigindo as lições dos alunos e administrando o curso.
SUAS ÚLTIMAS PALAVRAS
Assistido por um sacerdote franciscano e pelo sr. Felipe Brand, Frei João José manteve consciência lúcida até ao último momento.
Três minutos antes de falecer, proferiu estas 4 últimas frases:
— “Máezinha do céu, eu não sei rezar, nem sei sofrer, eu só sei te amar, e quero ir contigo!” — “Meu Deus meu tudo!” — “Aproxima-se a morte!”
— “Faça-se, Jesus, a tua santíssima vontade!”
OS FUNERAIS
Às 4 horas da madrugada rezou-se a primeira missa pelo extinto sacerdote. Às 10 hs. cantou-se a missa solene na igreja matriz de Tremembé, à qual assistiram o Exmo. Sr. Bispo de Taubaté Dom Francisco Amaral e Dom Carlos Schmitt, bispo de Dourados, e muitos sacerdotes provindos de Taubaté, São Paulo e cidades circunvizinhas. Às 11 hs., Padre Fernando de Castro, irmão do falecido, celebrou outra missa. O povo de Tremembé acorreu em massa para os funerais, porquanto tinha Frei José como um santo.O enterro se deu no cemitério do Seminário Franciscano Frei Galvão em Guaratinguetá.Com Frei João José Pedreira de Castro perde a Igreja Católica do Brasil um santo sacerdote, um erudito escritor e um apóstolo da Bíblia, e conquista no céu um vigilante protetor para a continuação do movimento bíblico no Brasil, por êle tão apostòlicamente iniciado.
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Fonte: Jornal O São Paulo, SP, 10 de junho de 1962, p.2.
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