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Não à Bíblia Pastoral - Dom Marcos Barbosa (1990)

 


Não à Bíblia Pastoral

Dom Marcos Barbosa
* Membro da Academia Brasileira de Letras.


Quando menino, recebíamos em casa, em Maria da Fé, assinado por uma tia, o semanário O Lar Católico, em ótimo papel, que cumpria perfeitamente a sua finalidade. Um pouco mais tarde, em papel inferior e com menos folhas, chegava-nos O Lutador, mais polêmico, como o nome sugeria. E ambos se completavam. Com o tempo, justamente quando surgiram na Igreja os movimentos de casais, como as Equipes de Nossa Senhora e os Casais com Cristo (sem falar no malogrado Movimento Familiar Cristão, bem cedo tragado pela política), o semanário que lhes podia servir de veículo começou a se tornar ridículo, tratando dos assuntos de toda a imprensa como ecologia ou mais recentemente AIDS, e acabou por mandar às favas o lar católico (aqui com minúscula), terminando até por mudar de nome. E que nome, Santo Deus? Jornal de Opinião. Ora, opinião, em grego, significa escolha ou mesmo heresia. É o pensamento, para não dizer o “palpite” de cada um, e não a Revelação de Deus que — Puro Pirandello — “Assim é, se lhe parece.” Jesus teria dito a seus discípulos, em vez de “Ide e ensinai”, algo de muito mais agradável ao Pai da Mentira: “Ide e opinai”. Beto e Boff passaram a ser Pedro e Paulo, pelo menos até certa altura, pois deixei depois (et pour cause) de receber o jornal.

Quanto a O Lutador, perdi-o de vista por muito tempo, mas às vezes me chegava um ou outro número e agora o recebo sempre. Melhorara extraordinariamente de aspecto e conteúdo, passando a ser editado em Belo Horizonte e tendo à frente o padre Paschoal Rangel, que, além de teólogo, sociólogo, crítico literário e até poeta, sabe escrever. Quando se falou em transformar o Lar Católico num jornal católico oficioso, eu pensei com meus botões (e mons. Abílio Real Martins chegou a escrevê-lo no seu Escuta: “Por que não O Lutador?”). É claro que o título não servia para a ativa da Igreja que professa, segundo a expressão de Maritain, “o ajoelhamento diante do mundo”. Nem o título nem o conteúdo, fiel aos ensinamentos de Roma.

Sempre tenho querido recomendar aos meus leitores que assinem O Lutador, mas outros assuntos vão passando à frente e tinha receio de que meu apoio viesse a prejudicar o jornal. Agora constato que o padre Paschoal Rangel está mesmo decidido a empunhar a bandeira do padre Júlio Maria, do “bonus miles Christi” (o bom soldado de Cristo) e passamos a recomendar vivamente o seu jornal e a transcrever aqui um pequeno trecho em que nos alerta contra um grande perigo:

“Fomos obrigados hoje a tratar de um assunto desagradável: discutir a conveniência, ou não, de usar a Bíblia Sagrada — Edição Pastoral, de que se tem feito uma grande publicidade nos últimos tempos. Claro: ela tem qualidades boas, outras discutíveis, por exemplo, o uso meio indiscriminado de “você” em vez de “tu” ou “vós”. Essa questão, porém, é secundária (embora a tradução atinja aqui e ali problemas importantes). O relevante é a orientação geral da edição: ela atribui unilateralmente à Bíblia um sentido sociopolítico-libertador, que até se pode extrair da Bíblia, especialmente do Antigo Testamento, mas que não é nem o único nem o fundamental. E o fundamental (que é soteriológico, religioso, escatológico, sobrenatural) fica, se não estou muito enganado, completamente esquecido.

Mesmo quando se fala de Deus, de projeto de Javé, de aliança etc., tudo isto é tomado num sentido, digamos, horizontal. Sei — e não quero negar, nem disfarçar — que às vezes se tem explorado o sentido “espiritualizante”, que escorrega para o sentido contrário de incutir uma mentalidade alienada, quero dizer, desligada das realidades terrestres, incapaz de sensibilizar-se diante do social, do sofrimento material dos homens. Mas não se cura um mal desses arrastando as pessoas para o abismo oposto. Abismo é abismo, de um lado ou de outro. Acho importante que se aponte o sentido “libertador” da Escritura, onde ele estiver presente. Mas não forçar a barra, omitindo os outros sentidos. O homem de hoje não é alienado apenas no sentido sociopolítico, mas também — e muito — no sentido espiritual, religioso, cultural, escatológico. Por que não falar nisto, como se a Bíblia não tratasse deste assunto? É preciso descobrir na Bíblia o que Deus revelou e não o que interessa à nossa ideologia.”

Se possível, voltaremos a transcrever outros trechos do padre Paschoal Rangel sobre o assunto de vital importância. O melhor seria o leitor fazer uma assinatura de O Lutador (Cr$ 800,00), pedindo a inclusão dos números de 7 e 14 de outubro. Caixa Postal 2 428, Belo Horizonte, Minas Gerais — 30 161. Tel. 441-3622.

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Fonte:  Jornal do Brasil, 25 de outubro de 1990, Rio de Janeiro, p. 11.