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Nova Tradução na Linguagem de Hoje - Ney Brasil Pereira (2006)

 

BIBLIA SAGRADA, Nova tradução na Linguagem de Hoje, São Paulo, Edições Paulinas, 2005, 21cm x 13,5, 1472 p.

Ney Brasil Pereira*
* O Recensor é Mestre em Ciências Bíblicas e Professor no ITESC

 

Mais uma edição da Bíblia aqui no Brasil. A novidade está no subtítulo, “Nova Tradução na Linguagem de Hoje” (NTLH), e também no fato de que a edição é na realidade uma co-edição, de alcance ecumênico, de Edições Paulinas, católica, com a Sociedade Bíblica do Brasil, SBB, protestante.

Os tradutores não são identificados nominalmente. Mas se informa que os Direitos Autorais, quanto aos “Textos canônicos do Antigo e do Novo Testamento, com as Introduções, Notas e Auxílios ao Leitor”, são da SBB, desde 2000, cedidos agora, em 2005, com Direitos Reservados, para Paulinas Editora. Informa-se também que os Direitos dos “Textos deuterocanônicos (Tobias, Judite, Adições a Ester, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque e Adições a Daniel”, com as “Introduções e Notas”, são das Sociedades Bíblicas Unidas, SBU, desde 2003, cedidos agora, em 2005, com Direitos Reservados, para Paulinas Editora.

A edição conta com a Apresentação de Dom Eugênio Rixen, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação bíblicocatequética, o qual, em data de 10-12-2004, assim conclui as suas palavras: “Ao recomendar esta edição aos fiéis católicos, desejamos que as Sagradas Escrituras sejam fonte de vida, de comunhão entre os cristãos, alimentem nossa vida de oração e favoreçam o diálogo entre as Igrejas cristãs. Parabenizamos a Paulinas Editora pela publicação da “Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje”. Apreciamos o esforço de traduzir a Sagrada Escritura em linguagem atual, acessível ao leitor contemporâneo e à sua cultura”.

No Prefácio, não assinado, em data de janeiro de 2005, resume-se a história da Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Recorda-se que o empreendimento começou em 1973, com o lançamento do Novo Testamento em Tradução na Linguagem de Hoje (TLH). Quinze anos depois, em 1988, era lançada toda a Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH) sem os deuterocanônicos. Doze anos depois, em 2000, após cuidadosa revisão, foi lançada a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, (NTLH), ainda sem os deuterocanônicos, embora também eles tivessem sido traduzidos.

Como lembra o prefaciador, “os princípios seguidos na NTLH, como já na TLH, são os princípios de tradução de ‘equivalência funcional’, em que se reproduz o sentido dos textos originais hebraico, aramaico e grego, expressando-o de maneira simples e natural, como fala a maioria da população”.

O prefaciador apresenta também os recursos desta edição: 1) Introdução para cada livro, com dados relevantes sobre o seu autor e o contexto histórico em que surgiu, bem como a sua mensagem central; 2) Esquema do conteúdo, destacando os principais assuntos e divisões de cada livro; 3) Referências paralelas, no rodapé, possibilitando ao leitor a consulta de outras passagens bíblicas relacionadas ao assunto; 4) Notas explicativas, no rodapé, com variantes textuais e traduções alternativas; 5) Vocabulário, com esclarecimento de termos importantes; 6) Mapas, permitindo que o leitor situe geograficamente os acontecimentos narrados nas páginas da Bíblia.

Quanto aos deuterocanônicos, o prefaciador informa que, de 2002 a 2003, houve a colaboração de peritos católicos, designados pela CNBB, para a sua revisão, sendo os demais livros bíblicos “igualmente apreciados pela CNBB”. A recomendação para o uso da NTLH foi oficializada em 25-3-2003 por Dom Francisco Javier Hernandes Arnedo, então Bispo responsável pela dimensão bíblico-catequética da CNBB. São suas estas palavras:

“Esta tradução, além de manter uma fidelidade irrestrita aos textos originais, representa um significativo esforço por adequar-se á cultura e linguagem do homem contemporâneo, facilitando aos fiéis a compreensão dos conteúdos da Revelação de Deus e permitindo-lhes uma maior familiaridade com a sua Palavra (cf Dei Verbum, 25). Ao recomendar esta edição aos fiéis católicos de língua portuguesa, no Brasil e na África, expressamos nosso singelo desejo de que as Sagradas Escrituras sejam, não só fonte perene de espiritualidade para todos os cristãos, mas, também, um lugar privilegiado de encontro e diálogo entre as Igrejas cristãs. É a Palavra de Deus que nos pode dar a todos a Sabedoria que leva à salvação, pela fé em Cristo Jesus (cf 2Tm 3,15)”.

E o prefaciador conclui: “A Bíblia, com o texto da NTLH, está aí, portanto, para o uso comunitário e individual, familiar e geral, para a catequese, a liturgia e o estudo pessoal, trazendo os escritos bíblicos na linguagem simples do povo.”

 

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral 

Obra católica similar à Bíblia Sagrada, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, é a Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. Lançada em março de 1990, pela Editora Paulus, encontra-se já, no exemplar que tenho agora em mãos, na 56ª reimpressão. É um sucesso editorial inegável. Recordo o furor que causaram, no lançamento, suas Notas de rodapé, e igualmente o “Pequeno Vocabulário”, depois supresso, considerados esquerdistas demais. Quanto à Tradução, os editores observam o seguinte: “Conservando a fidelidade aos textos originais, procuramos traduzi-los em linguagem corrente, evitando construções rebuscadas e palavras de uso menos comum”. Quanto às Notas, alerta-se o seguinte: “Elas não pretendem esgotar o assunto, nem se apresentam como normas rígidas para a leitura do trecho: pelo contrário, são apenas início de reflexão. Nasceram de exame minucioso do texto, à luz da recente literatura disponível sobre o assunto tratado...” Última observação dos editores, reimpressa até hoje: “Não é nossa pretensão ter realizado um trabalho completo e intocável. Solicitamos, por isso, que os leitores nos enviem observações e sugestões, que serão muito úteis para aprimorar o trabalho até aqui realizado.”

 

Um julgamento severo 

Voltando agora à Bíblia Sagrada, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, surpreendeu-me a recensão feita pelo beneditino Estevão Bettencourt na sua apreciada publicação mensal, a revista “Pergunte e Responderemos”, das Ed. Lumen Christi, do Rio de Janeiro, no No. 523, de janeiro de 2006, pp. 7-14.

Reproduzo a síntese da recensão, relativamente longa, devidamente detalhada e fundamentada: “A ‘Bíblia na Linguagem de Hoje’1 é uma tentativa de traduzir em linguagem popular o texto sagrado para torná-lo 1 E. Bettencourt fala da “Bíblia na Linguagem de Hoje” (BLH), mas de fato quer referir-se à “Nova Tradução na Linguagem de Hoje” (NTLH) acessível ao grande público. A intenção dos tradutores é louvável, mas a obra é infeliz, pois, mais do que uma tradução, fizeram uma interpretação, por vezes nitidamente protestante. Além do quê, a adaptação do texto sagrado ao vocabulário popular faz que o novo texto deixe de apresentar termos bíblicos ricos de conotações e temas teológicos como ‘Tradição, depósito, mistério...’; assim empalidece a mensagem bíblica em vez de ser levada ao povo simples. A solução para o problema da difusão da Bíblia está, antes, em conservar o vocabulário típico e rico do texto sagrado, munindo-o, porém, de notas explicativas em rodapé, a fim de que o leitor não iniciado cresça em cultura bíblica, em vez de ser deixado na sua exígua cultura, com empobrecimento da mensagem sagrada.”

Reproduzo também a Conclusão da recensão, após uma Avaliação em 10 pontos: “Deixando de lado outras várias observações, concluímos que a BLH não é simplesmente uma tradução, mas vem a ser, em mais de um caso, uma interpretação. Verdade é que todo tradutor tem não raro que interpretar o texto que ele verte. Todavia este fato ocorre com mais freqüência e mais sérias conseqüências quando o tradutor, de caso pensado, procura evitar vocábulos consagrados pelo uso, como se dá na BLH. E diga-se de passagem: a interpretação dada ao texto da BLH, cá e lá, é evidentemente protestante. – Daí não se poder recomendar o uso da BLH nem para católicos, nem para protestantes, pois uns e outros necessitam, antes do mais, de ler o texto bíblico na sua identidade tão objetiva quanto possível.”

Continua a Conclusão: “Ademais, pode-se indagar se é oportuno usar linguagem rude (às vezes incorreta) na tradução da Sagrada Escritura. Está claro que esta não deve ser proposta ao grande público em linguagem rebuscada ou ‘preciosa’, mas, apesar de tudo, há de valer-se de vocabulário e estilo de bom timbre, condizentes com a dignidade da mensagem bíblica. O próprio povo aspira a elevar seu nível de cultura, de modo que só poderá mostrar-se grato a quem o ajude a compreender um bom linguajar português que não deixe de ser simples. Julgamos, pois, que não se devem evitar as palavras técnicas do vocabulário bíblico como Evangelho, justificação, mistério... e outras muitas, pois têm suas conotações que outras, tidas como equivalentes, não possuem; o que elas possam apresentar de insólito, seja explicado ao pé da página do texto bíblico ou em glossário próprio, de modo que percam sua estranheza para o leitor não iniciado. Eis o que nos convinha observar, em termos sumários, a respeito da BLH.”

Que dizer da opinião do redator de “Pergunte e Responderemos”? De minha parte, observo duas coisas: 1) É uma opinião que deve ser levada em conta, dado o conhecimento, a habilitação e o currículo do recensor, que fundamenta com detalhes a sua posição. Uma posição, aliás, que decididamente diverge da aprovação dada pela CNBB. 2) Quanto à acusação de protestantização do texto, creio que ela, da maneira como é feita, não contribui para o diálogo ecumênico. O questionamento do recensor poderia, deveria, ter sido expresso de maneira menos contundente.

 

Problema atual, problema antigo 

A dificuldade de traduzir está há muito tempo expressa pelo aforisma italiano traduttore, traditore, segundo o qual o tradutor pode ser um traidor, isto é, ele muitas vezes “trai”, não consegue ser fiel ao sentido do texto que traduz. Em relação ao texto bíblico, temos na própria Bíblia o testemunho de um tradutor do hebraico para o grego, no final do século II antes de Cristo. Trata-se do neto de Ben Sirá, o Sirácida, que comenta sua própria tradução do livro do avô, o livro deuterocanônico posteriormente chamado de “Eclesiástico”. Veja-se o que ele diz do seu trabalho (cito o texto da NTLH): “Fiz todo o possível para traduzi-lo bem. Mas, mesmo assim, se parecer que não fui feliz na tradução de algumas passagens, peço que me desculpem. É que as coisas escritas em hebraico não têm exatamente o mesmo sentido quando são traduzidas para outra língua. Isso não acontece somente com este livro que traduzi: a própria Lei, os livros dos Profetas e os outros livros são bem diferentes quando lidos na língua em que foram escritos.”

Isto dizia o neto de Ben Sirá comentando o próprio trabalho e referindo-se à primeira tradução da Bíblia, realizada em Alexandria desde meados do século III antes de Cristo, tradução depois chamada de “Septuaginta”, ou seja, a tradução dos “Setenta”, segundo informação da carta de Aristéias. Essa dificuldade, quase impossibilidade, às vezes, de traduzir, não impediu que se continuasse traduzindo, dada a barreira lingüística entre o texto bíblico e seus cada vez mais numerosos destinatários. Os rabinos helenistas do século II depois de Cristo, considerando tendenciosa a Septuaginta, então apropriada pelos cristãos, produziram mais três versões gregas. Surgiram as versões latinas antigas e, depois, a Vulgata de Jerônimo. Depois, no final da Idade Média, as primeiras versões nas línguas modernas. E hoje, com todos os recursos da lingüística e da técnica, não se pára de traduzir.

Assim, também a CNBB produziu a sua tradução da Bíblia, para uso oficial da Igreja Católica no Brasil. É a Bíblia Sagrada – Tradução da CNBB. Lançada em 2001, e numa segunda edição em 2002, ela continua em processo de revisão. Como recomenda o concílio Vaticano II (Dei Verbum, n. 22), a tradução da CNBB se baseia nos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos, cotejados criteriosamente com a Nova Vulgata, ela mesma baseada nos documentos originais. A apresentação desta segunda edição recorda que ela “se destina à leitura proclamada, à formação e à oração, à citação em documentos e à preparação das edições litúrgicas e, graças à dupla numeração de versículos, ao uso ecumênico. Mantém a segunda pessoa tu/vós, que dá maior clareza à proclamação e implica os pronomes correspondentes (te/vos, teu/vosso). Conforme o princípio de que o sentido literal seja compreendido, se possível, na hora da leitura ou proclamação, foram evitados certos termos, mesmo tradicionais (como homem, quando se quer dizer o ser humano em geral), que poderiam induzir uma compreensão espontânea não visada pelo original.” A apresentação conclui afirmando que “a tradução sempre terá de respeitar, o mais possível, o teor do texto original, deixando a explicação e a atualização para a homilia, a catequese e a formação permanente da fé”.

 

Conclusão 

Não tive tempo para uma leitura mais abrangente de todo o texto da Bíblia Sagrada – Nova tradução na Linguagem de Hoje. Mas penso que, no conjunto das traduções atualmente publicadas no Brasil, ela aparece como o resultado de um trabalho cuidadoso, persistente, de uma equipe abalizada, que levou em conta semelhantes “traduções na linguagem de hoje” em outras línguas, e agora oferece ao leitor cristão brasileiro, evangélico e católico, esta leitura que se pretende atualizada da eterna Palavra de Deus.

Quanto à “atualização” da Palavra, pessoalmente faço grandes reservas a certo tipo de atualização ou simplificação. Será que realmente contribui para o melhor entendimento a substituição de princípio por “começo”, serpente por “cobra”, óleo por “azeite”, evangelho por “boa notícia”, justos e injustos por “bons e maus”, mistério por “segredo”, tomar por “pegar”, manto por “roupa” etc etc? Não me parece válida, por exemplo, por uma série de detalhes, a tradução de Os 6,6: Eu quero que vocês me amem e não que me ofereçam sacrifícios; em vez de me trazer ofertas queimadas, eu prefiro que o meu povo me obedeça... Onde ficaram os conceitos de misericórdia/solidariedade interumana (hebr. hesed) e o do verdadeiro “conhecimento de Deus”, que leva à prática da justiça (cf Jr 22,16)? Da mesma forma, a tradução das Bem-aventuranças em Mateus deixa muito a desejar: é um caso típico em que uma interpretação determinada impede de o leitor ou ouvinte abrir-se para todas as implicações do original. Assim, não me parece exato que os pobres no espírito (Mt 5,3) sejam “os que sabem que são espiritualmente pobres”. Da mesma forma, a fome e sede da justiça (Mt 5,6) é muito mais do que “a fome e sede de fazer a vontade de Deus”...

Repito. Haveria muita coisa a discutir nos detalhes, assim como também as há, evidentemente, nas outras traduções. Jamais chegaremos a uma tradução perfeita. E neste sentido também não é perfeita esta Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Mas é uma alternativa valiosa, preciosa, benvinda, que poderá vir a ser aperfeiçoada, e que certamente fará muito bem. Neste sentido, alegro-me e congratulo-me com a Sociedade Bíblica do Brasil e as Edições Paulinas por este significativo e oportuno trabalho de co-edição.

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Fonte: Encontros Teológicos nº 43 Ano 21 / número 1 / 2006, p.148-154.