Dom Estevão Bettencourt
Em síntese: A “Bíblia. Edição Pastoral”, em tradução e notas de Ivo Storniolo e Euclides Balancin, não preenche a finalidade que se propõe. Inspirada por ideologia marxista, deturpa as concepções da história sagrada e da teologia; a leitura materialista aplicada ao texto sagrado torna a mensagem imanentista, fazendo-a perder o seu caráter transcendental.
O
Vocabulário do fim do volume e as notas de rodapé dão as chaves de
interpretação dos livros bíblicos; a própria tradução portuguesa, num ou noutro
ponto, deturpa o sentido do texto sagrado. Em conseqüência, deve-se lamentar a
difusão de tal obra nos ambientes eclesiásticos do Brasil. A Pastoral não
significa incitamento à luta de classes e às divisões entre os homens.
As Edições
Paulinas publicaram uma nova tradução da Bíblia dita “Pastoral” (BP),
acompanhada de notas de rodapé e Vocabulário, que vêm suscitando perplexidade:
há os que defendem tal edição, devida a Ivo Storniolo e Euclides Martins
Balancin, como sendo “o livro ideal” (ver “Jornal de Opinião”, 1-7/7/90, p. 3).
Mas há também os que a impugnam com argumentos sérios, mostrando graves falhas
na inspiração básica e na confecção de tal tarefa. O assunto já foi abordado em
PR 337/1990, pp. 285s. Voltamos ao problema, aduzindo novas observações,
provenientes, em grande parte, de D. João Evangelista Martins Terra S. J.,
Bispo Auxiliar de Olinda-Recife, Membro da Equipe Teológica do CELAM e da
Pontifícia Comissão Bíblica.
1. Três observações básicas
A tradução
do texto bíblico da Edição Pastoral é aceitável com algumas ressalvas, que
indicaremos à p. 523s deste artigo. Todavia, as notas de pé de página e o
Vocabulário, encontrado às pp. 1616-23, pretendendo dar a chave de leitura e
interpretação da Bíblia, são alheios à Tradição bíblica judeo-cristã e
distorcem a mensagem sagrada para o setor da ideologia
sócio-político-econômica. Sem o perceber, o leitor desprevenido vai absorvendo
uma concepção filosófica não cristã sob a capa de Palavra de Deus. Isto se
depreende facilmente desde que se dê um pouco de atenção ao Vocabulário dessa
Edição.
1.1. O elenco do Vocabulário
Eis os
principais verbetes que interessam aos estudos e ao linguajar bíblicos ou os
principais vocábulos da mensagem bíblica tomada como tal: Aarão, Abel, Abraão,
Ação de graças, Adão, Adoração, Adultério, Água, Alma, Anjo…
Bem
diferentes são os verbetes do Léxico da Edição Pastoral dispostos segundo a
ordem alfabética: Aliança, Alienação, Amor, Autoridade, Auto-suficiência,
Campo, Celebração, Cidade, Comércio, Compaixão, Comunidade, Conflito,
Consciência, Conversão, Corrupção, Dinheiro, Direito, Discernimento, Dominação,
Educação, Encarnação, Escravidão, Esperança, Exploração, Fé, Fraternidade,
Gratidão, Herança, História, Idolatria, Injustiça, Integridade, Javé, Jesus,
Julgamento, Justiça, Lei, Liberdade, Libertação, Liderança, Lucro, Memória,…
Poder,…Produção, Projeto de Deus, Prosperidade,… Repressão,… Riqueza, Roubo,
Tributo,… Violência… Estes vocábulos têm sua repercussão nas notas de rodapé,
inspirando uma doutrina que já não é bíblica, mas preponderantemente marxista.
Os próprios vocábulos tipicamente bíblicos que ocorrem no Léxico Pastoral, são
esvaziados de seu conteúdo próprio e característico para assumir significação
ideológica. Assim, por exemplo:
“Aliança:
É o centro da Bíblia. Deus se alia com os pobres e oprimidos para construir uma
sociedade e uma história voltadas para a vida”.
Ora é de
notar que a Aliança de Deus com os homens não começa na época dos pobres e
oprimidos, mas é universal ou destinada a todos desde o início; o segundo Adão,
Jesus Cristo, Mediador da nova e definitiva Aliança, tem sua imagem ou seu
esboço no primeiro Adão, pai de toda a humanidade, conforme Rm 5, 14; é com os
primeiros pais que Deus trava a primeira Aliança, voltada para todos os homens,
conforme Eclo 17, 10.
“Amor:
Mistério de Deus e do homem. Gera a relação de onde brotam a liberdade e a
vida”.
“Celebração:
Reunião do povo para comemorar os fatos centrais da vida e conservar a
lembrança dos acontecimentos que marcaram a caminhada do povo”.
Este
conceito se aplica às celebrações cívicas, não, porém, às celebrações
litúrgicas, nas quais se torna presente e atuante a Páscoa (morte e
Ressurreição) de Jesus Cristo para fazer que os homens participem da obra da
Redenção.
“Esperança:
Dinamismo que mantém o povo aberto para realizar plenamente o projeto de Deus.
A esperança leva o povo a buscar transformações econômicas, políticas, sociais
e religiosas”.
Silencia-se
o objeto supremo da esperança cristã, que é a vida eterna com a visão de Deus
face-à-face.
“Fraternidade:
… Relação igualitária, onde todos, como irmãos, podem participar das decisões
que constroem a sociedade, e juntos usufruir dos bens que cada um produz”.
“Javé: É o
misterioso Deus vivo que se manifesta respondendo ao clamor dos pobres e
oprimidos para os libertar dos exploradores e opressores. Ele é a fonte e a
meta da liberdade e da vida. Por isto é aliado daqueles que buscam liberdade e
vida, opondo-se a todas as pessoas e estruturas que produzem escravidão e
morte”.
“Justiça:
Realização do projeto de Deus. A justiça se concretiza na partilha e na
fraternidade, dirigindo-se a sociedade para a solidariedade e a paz. Exige,
para todos, a distribuição igualitária dos bens e a possibilidade de participar
das decisões que regem a vida e a história do povo. Na Bíblia a justiça é
eminentemente partidária, visando a defender a causa dos indefesos”.
Como se
vê, os conceitos bíblicos são todos analisados em chave sócio-política, que
supõe a luta de classes na sociedade.
Duas
noções merecem especial atenção.
1.2. A Revelação
Eis como a
apresenta o Vocabulário:
“Revelação:
Manifestação de Deus através das realidades da vida e dos acontecimentos da
história. Mostra o caminho que o povo deve seguir. Exige a atenção do homem,
pois Deus está continuamente se revelando”.
O conceito
de Revelação que até hoje se prolonga, é ambíguo. A fé católica distingue:
1) A
Revelação de Deus normativa que manifesta o desígnio de Deus e os meios de
salvação; encerra-se com Jesus Cristo, como diz a própria S. Escritura:
“Outrora muitas vezes e de muitos modos Deus falou aos pais pelos Profetas. No
período final, em que estamos, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1,1s).
2) Após Jesus
Cristo, não há Revelação normativa; Deus proporciona “os sinais dos tempos” que
reavivam no homem a consciência das verdades da fé, mas nada acrescentam de
novo; estamos nos últimos tempos relativamente à doutrina (cf. 1Jo 2, 18).
O Papa Pio
X condenou explicitamente a proposição modernista que dizia:
“A
Revelação que constitui o objeto da fé católica, não se encerrou com os
Apóstolos” (Denzinger-Schönmetzer, Enchiridion n.º 3421 [2021]).
O Concílio
do Vaticano II reafirmou a clássica doutrina:
“Jesus Cristo
aperfeiçoa e completa a Revelação e a confirma com o testemunho divino de que
Deus está conosco… A economia cristã, como aliança nova e definitiva, jamais
passará, e não há que esperar nova revelação pública antes da gloriosa
manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6,14 e Tt 2,13)” (Const. Dei
Verbum n.º 4).
Vê-se
pois, que o Vocabulário da Bíblia Pastoral está longe do genuíno pensamento
católico.
1.3. Projeto de Deus
Todo o
Vocabulário e as notas de rodapé são perpassadas pela noção de projeto de Deus,
que dá o sentido aos demais verbetes. Ocorre mais de seiscentas vezes na Edição
Pastoral, e até mesmo cinco ou seis vezes na mesma frase.
Ora
“projeto de Deus” no contexto dessa obra não é uma noção teológica; não
significa nem Providência nem desígnio de Deus, mas, sim, algo de tipicamente
marxista, como se depreende a seguir:
“Projeto
de Deus: Aliando-se aos que são marginalizados pelo sistema injusto. Deus entra
na história com novo caminho: promover a liberdade e a vida para todos. Todavia
esse projeto está sempre em conflito com o projeto das nações que alicerçam sua
riqueza e poder sobre a escravidão e a morte do povo. A luta para manter vivo
dentro da história o projeto de Deus é o ponto de honra do povo de Deus”.
Como dito,
a expressão “projeto de Deus” entra na composição de muitos outros verbetes do
Vocabulário como um chavão ideológico. Eis alguns espécimens:
“Comércio:
Atividade econômica fundamental da cidade, destinada… a gerar lucro, exploração
e riqueza. No projeto de Deus, o comércio é superado pela partilha e
gratuidade”.
“Conflito:
Choque entre grupos que têm objetivos e interesses diferentes. Na Bíblia, o
principal conflito aparece entre o projeto de Deus para a vida e os projetos da
auto-suficiência, que geram a morte”.
“Consciência:
Compreensão que o povo tem da realidade, a partir do projeto de Deus. Ela
demitiza a ideologia da classe dominante, e cria discernimento para se
construir uma sociedade fundada na justiça e na fraternidade”.
“Educação:
Relação entre gerações (pais-filhos), na qual se transmite a memória das lutas
do povo, a fim de que a nova geração aprenda com os erros e acertos de seus
pais. Dessa forma, a nova geração poderá criar caminhos novos e alternativos
para realizar o projeto de Deus na história. As tradições da Bíblia se
conservaram graças a esse processo”.
“Encarnação:
Deus encarna-se na vida e na história humanas, mostrando o valor inestimável
que elas têm diante dele. A coerência com a fé exige que nos encarnemos também
para que o projeto de Deus transforme as estruturas políticas e econômicas,
dirigindo a história para a liberdade e a vida”.
“Propriedade:
O direito de propriedade é sagrado, e o mundo deve ser igualitariamente
distribuído entre todos. A acumulação de propriedade, formando latifúndios, e a
especulação imobiliária são contrárias ao projeto de Deus”.
“Ressurreição:
Passagem da morte para a vida. Não se refere apenas à morte física, mas a todas
as mortes geradas por projetos contrários ao projeto de Deus”.
“Sociedade:
Grupo humano que realiza um projeto em comum, organizado em nível econômico,
político, social e ideológico. Nem sempre a sociedade vive o seu projeto de
acordo com o projeto de Deus, que provoca transformações profundas nas relações
sociais”.
Estes
poucos espécimens mostram que a mensagem bíblica é toda repensada e posta
estritamente a serviço de transformações sócio-político-econômicas imanentes,
sem que haja acenos à transcendência para a qual devem caminhar o homem e a
história. A justiça e a reta ordem social neste mundo são germens do Reino de
Deus, que só estará consumado no fim dos tempos ou no Além, jamais no decorrer
da história. O materialismo marxista é que julga poder prometer a plena
realização das aspirações dos homens no decurso da história mediante a redistribuição
dos meios de produção material.
2. A filosofia subjacente
Quem lê
atentamente os verbetes do Vocabulário e as notas de rodapé da BP verifica que
são devedores ao que se chama “a leitura materialista da Bíblia”. Esta não nega
Deus e os valores espirituais, mas julga que são “super-estrutura” ou derivados
da “infra-estrutura” ou do jogo dos bens materiais no curso da história. Com
outras palavras: supõe que os fatores decisivos da história sejam de ordem
material (econômica) e política; a procura de posse dos bens materiais e do
poder moveria todos os acontecimentos da história e condicionaria a crença em
Deus, o culto religioso e a definição das normas morais. Adotando teses do
marxismo, os fautores da leitura materialista da Bíblia contrapõem entre si
campo e cidade, como, aliás, fazem I. Storniolo e E. Balancin:
“Campo: É
o polo fundamental da produção que sustenta a vida. É explorado pela cidade”.
“Cidade:
Lugar da riqueza e do poder, que se concentram na mão de poucos, produzindo
conflitos, principalmente com o campo” (p. 1616).
Partindo
destes conceitos, os autores das notas da BP comentam o texto bíblico de
maneira artificial e deformante:
Assim, por
exemplo, o livro do Gênesis refere que Lote se separou de Abraão, ficando
aquele com as cidades, e este com os campos. A nota a Gn 13,1-18 diz então o
seguinte: “Ló escolhe a região onde estão as cidades; assim ele entra no âmbito
de uma estrutura que se sustenta graças à exploração e opressão do povo.
Abraão, ao invés, fica aberto para uma história nova, fundada unicamente no
projeto de Deus” (p. 26).
O
comentário de Js 4,1-24 justifica a partilha da terra de Canaã pelos filhos de
Israel nos seguintes termos:
“Antes da
instalação de Israel, Canaã era um conjunto de cidades-Estado que oprimiam e
empobreciam a população camponesa, através do sistema tributário. A conquista
realizada por Israel derrotou esse sistema e implantou o sistema das doze
tribos…, visando construir uma sociedade justa e igualitária… A nova geração
deve ser educada a não voltar para trás, reproduzindo o sistema social injusto”
(p. 244).
Vejam-se
as notas paralelas:
“Só existe
verdadeira paz quando se erradica completamente o sistema injusto que explora e
oprime o povo” (p. 253).
“A
conquista da terra… destrói um sistema classista injusto” (p. 255).
“As
Cidades-Estado de Canaã justificavam a política opressora e exploradora dos
seus reis” (p. 272).
“Sem poder
mais explorar os camponeses e suas terras, tais cidades não conseguiram
oferecer sacrifício… seus armazéns ficaram vazios por falta de trigo. Enquanto
isso, os camponeses vitoriosos conseguiram livrar-se dos tributos e puderam
gozar da fartura” (p. 274).
“Para uma
volta ao projeto de Javé, é necessário romper… o sistema opressor das cidades”
(p. 276).
A leitura
materialista da Bíblia, julgando que as cidades se enriquecem mediante o
tributo cobrado dos camponeses, afirma que os tempos religiosos vêm a ser
centros econômicos e políticos nos quais se deposita o lucro resultante da
exploração comercial e tributária. É por isto que na p. 1237 se lê em rodapé:
“No tempo
de Jesus o templo (de Jerusalém) possui imensas riquezas e toda a cúpula
governamental age a partir daí. Desse modo a casa de oração e ofertas a Deus se
torna um imenso Banco e lugar de poder político. Em outras palavras, a religião
se torna instrumento de exploração e opressão do povo”.
Desnecessário
é dizer que esta descrição fantástica do Templo no tempo de Jesus carece de
toda base histórica. Esse Templo, devido ao rei Herodes, ainda estava em fase
de acabamento na época de Jesus; as obras de decoração demoravam por falta de
recursos, como descreve pormenorizadamente o historiador judeu contemporâneo de
Jesus, Flávio José (Antigüidades Judaicas 15, 380-425).
Pelos
mesmos motivos é despropositado o comentário feito em rodapé a Mc 11,15
(expulsão dos vendilhões do Templo):
“Acusando
e atacando o comércio existente dentro do Templo, Jesus retira as bases sobre
as quais se apoiava toda uma sociedade. Com efeito, era com esse comércio que
se sustentava grande parte da economia do país. O gesto de Jesus mexe não só
com um modo de vida religiosa, mas com toda uma estrutura que usa a religião
para estabelecer e assegurar privilégios de uma classe e sustentar uma visão
mesquinha de salvação. Por isso, os que se favorecem desse sistema, pensam em
matar Jesus, mas temem o povo” (p. 1298).
Este
comentário fica longe da realidade histórica. O que ocorria no tempo de Jesus,
era o seguinte: como em todos os santuários (ou mesmo como em todos os lugares
onde se aglomera muita gente), no Templo de Jerusalém acorriam, nos dias de
festa, camelôs e vendedoras ambulantes que armavam suas bancas para vender
alimentos, objetos para o culto (vítimas), lembranças ou para fazer o câmbio
das moedas estrangeiras. Esses pequenos comerciantes prestavam serviço aos
milhares de peregrinos que afluíam ao Templo nas grande solenidades; mas o
acúmulo de gente, com suas necessidades, dava ocasião propícia à ganância e à
exploração. Entende-se então que Jesus tenha reagido contra esses abusos; tal
reação, porém, não teve, em absoluto, as proporções que a Bíblia Pastoral lhe
atribui:
“Acusando
e atacando o comércio existente no Templo, Jesus retira as bases sobre as quais
toda uma sociedade se apoiava. De fato, era com esse comércio que se sustentava
grande parte da economia do país. O gesto de Jesus abala não apenas um sistema
de vida religiosa, mas toda uma estrutura que usa da religião para estabelecer
e assegurar privilégios de uma classe e para sustentar uma visão mesquinha de
salvação. Jesus é apresentado como o rei legítimo, centro de nova aliança: ele…
é aclamado pelas crianças como o Messias. Aqueles que são privados de apoio
oficial e de poder, estão prontos para receber Jesus, enquanto as autoridades o
rejeitam” (p. 1267).
Eis alguns
espécimens da leitura materialista realizada pelos responsáveis da BP. Não se
encontra nesta alguma alusão aos Santos Padres, à Tradição e ao Magistério da
Igreja; o que aí se incute, é a perspectiva de uma sociedade estruturada
segundo o marxismo e não a imagem do Reino de Deus em demanda de sua consumação
escatológica.
“Mc
8,27-33: A ação messiânica de Jesus consiste em criar um mundo plenamente
humano, onde tudo é de todos e repartido entre todos. Esse messianismo destrói
a estrutura de uma sociedade injusta, onde há ricos à custa de pobres, e
poderosos à custa de fracos. Por isto, essa sociedade vai mater Jesus antes que
ele a destrua”.
É este o
comentário a uma passagem evangélica que fala da morte e ressurreição de Jesus.
Estas são simplesmente silenciadas pelos comentadores, como se não tivessem,
antes do mais, importância transcendental.
Além de se
ressentir de inspiração ideológica marxista, a Edição Pastoral comete seus
erros teológicos e exegéticos, como se verá a seguir.
3. Erros doutrinários
1. No
tocante à vida póstuma, os autores das notas parecem professar a ressurreição
dos corpos logo após a morte do indivíduo, em desacordo com a doutrina oficial
da Igreja e dos textos da própria Bíblia. Com efeito, eis o que se lê à p.
1476:
“Em
Corinto alguns pensam que, depois da morte, a alma imortal continua vivendo
sozinha… Outros pensam que tudo termina com a morte… Paulo mostra que ambas as
opiniões são contrárias ao núcleo da fé cristã”.
Na
verdade, a própria S. Escritura (ou o próprio São Paulo) professa a sobrevivência
da alma sem o corpo, ficando a ressurreição da carne reservada para o fim dos
tempos. Ver, por exemplo:
1Cor 15,
22-24a : “Assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida.
Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; aqueles que pertencem a
Cristo, por ocasião da sua vinda (parusia). A seguir, haverá o fim”.
1Ts 4,16s:
“Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina,
descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida,
nós, os vivos que estivermos lá, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o
encontro com o Senhor nos ares”.
Estes dois
textos situam a ressurreição dos mortos no momento da parusia ou da segunda
vinda de Cristo. – Entre a morte do corpo e a ressurreição no fim dos tempos, a
alma separada do corpo goza da sua sorte eterna (bem-aventurada, se a pessoa
morreu em graça):
2Cor 5,8:
“Estamos cheios de confiança, e preferimos deixar a mansão deste corpo para ir
morar junto do Senhor”.
Fl 1,23:
“Meu desejo é partir e estar com Cristo, pois isto me é muito melhor”.
Lc 23, 43:
Disse Jesus ao bom ladrão pouco antes de morrer: “Em verdade eu te digo: Hoje
estarás comigo no paraíso”.
A
Congregação para a Doutrina da Fé explicitou esta doutrina numa Instrução
datada de 17/05/1979, onde se lê:
“…3) A
Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento
espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o “eu humano”
subsista, mesmo sem corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a
palavra “alma”, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada Escritura e a
Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos
significados, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para
o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento
verbal para sustentar a fé dos cristãos…
5) A
Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a gloriosa manifestação
de nosso Senhor Jesus Cristo, que Ela considera como distinta e diferida em
relação àquela condição própria do homem imediatamente depois da morte.
6) A
Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem após a morte, exclui
qualquer explicação que tirasse o sentido à Assunção de Nossa Senhora naquilo
que ela tem de único; ou seja, o fato de ser a glorificação corporal da Virgem
Santíssima uma antecipação da glorificação que está destinada a todos os outros
eleitos”.
2. Algumas
vezes as notas de rodapé da BP, de índole histórica, são derivadas da Bíblia de
Jerusalém. Mas nem sempre de modo inteligente. Assim, por exemplo, no
comentário de Ex 23, 14-19 a Bíblia Pastoral repete o mesmo erro que já ocorria
na Bíblia de Jerusalém em português, afirmando que a festa das Semanas era
celebrada durante sete semanas ou cinqüenta dias (p. 96). Ora a Festa das
Semanas, chamada Pentecostes em grego, era celebrada cinqüenta dias após o
começo da colheita, como explicam Dt 16,9 e Lv 23,16, mas não durava cinqüenta
dias; durava um dia apenas!
3. A BP
traduz 1Cor 7, 36-38 nos seguintes termos:
“Se alguém,
transbordando de paixão, acha que não conseguirá respeitar a noiva, e que as
coisas devem seguir o seu curso, faça o que quiser. Não peca; que se casem. Ao
contrário, se alguém, por firme convicção, sem constrangimento e no plano uso
de sua vontade, resolve respeitar a sua noiva, está agindo bem. Portanto, quem
se casa com sua noiva faz bem; e quem não se casa, procede melhor ainda”.
Ora o
texto grego original fala de virgem (parthénos), e não de noiva (nymphe). A
tradução clássica é apresentada pela Bíblia de Jerusalém:
“Se alguém
julga agir de modo inconveniente para com a sua virgem, deixando-a passar da
flor da idade, e que portanto deve casá-la, faça o que quiser; não peca. Que se
realize o casamento! Mas aquele que, no seu coração, tomou firme propósito, sem
coação e no pleno uso da própria vontade, e em seu íntimo decidiu conservar a
sua virgem, esse procede bem. Portanto procede bem aquele que casa a sua
virgem; e aquele que não a casa, procede melhor ainda”.
Em nota a
Bíblia de Jerusalém alude à tradução adotada pela BP como sendo pouco habitual.
A BP prefere a nova maneira de traduzir, sem dar informações sobre o seu
caráter muito hipotético.
4. Conclusão
É louvável
a intenção de tornar o texto bíblico acessível e compreensível ao maior número
possível de leitores. Isto, porém, não significa incutir determinada opção
ideológica, de mais a mais que a ideologia marxista se apresenta ao mundo de
hoje como fracassada e ultrapassada. A Justiça Social é sumamente desejável,
sim; ela decorre da própria mensagem bíblica que a Doutrina Social da Igreja,
através das encíclicas papais, vem desenvolvendo e aplicando aos nossos tempos.
A Igreja não precisa de recorrer a sistemas heterogêneos para propor aos homens
a autêntica mensagem da salvação.
Notemos a
grande responsabilidade que toca a tradutores e editores da Bíblia: a linguagem
do texto sagrado penetra e forma a mentalidade do povo que a lê. A tradução de
Lutero plasmou a língua alemã. Permita Deus que a sua santa Palavra não sirva
de instrumento para levar o povo cristão à deterioração e a desvios da fé!
Fonte: Pergunte e Responderemos, D. Estevão Bettencourt, osb. Nº 342 – Ano 1990 – Pág. 514.