Pio, Papa X
CARTA NA QUAL PIO X, PAPA, ELOGIA O ZELO DA PIA ASSOCIAÇÃO DE SÃO JERÔNIMO PARA A DIFUSÃO DOS SANTOS EVANGELHOS
Ao Nosso Venerável Irmão Francisco de Paula, Cardeal Cassetta, da Santa Igreja Romana, Protetor da Pia Associação de São Jerônimo para a divulgação dos Santos Evangelhos.
Venerável Irmão Nosso,
saudação e Bênção Apostólica.
Quando administrávamos a Igreja Patriarcal de Veneza, já havíamos acompanhado com nossas orações e com felizes auspícios a Pia Associação de São Jerônimo; agora, não tendo passado muitos anos, desde a suprema Sé da Igreja, vemos que podemos experimentar uma particular alegria, ao compreendermos que, em breve espaço de tempo, ela fez tantos progressos e produziu frutos tão abundantes.
Com efeito, a Associação de São Jerônimo não penetrou somente na Itália — onde sabemos que, pela fecunda eficácia de sua obra, foram estabelecidas três sedes da associação nas cidades —, mas também alcançou a América mediante a divulgação dos Evangelhos, levando seus livros até onde encontrasse a língua italiana sendo falada, sobretudo para auxiliar aqueles que haviam emigrado da Itália.
Que tenham sido publicados e oportunamente distribuídos ao povo quase quinhentos mil exemplares, demonstra magnificamente que os associados se dedicaram a esta obra com um zelo verdadeiramente extraordinário e que a Associação abraçou um campo de ação de enorme extensão.
É, sem dúvida, uma obra admirável, e tanto mais quanto se considerem os modestos meios de que se dispõe para realizá-la; é também uma obra agradável e felizmente iniciada, se considerarmos o bem que a Associação se propõe: oferecer à multidão a oportunidade e a facilidade de ler e contemplar o Evangelho, sobretudo nas necessidades destes tempos, quando, mais do que em qualquer outra época, se dedica ardorosamente à leitura, embora muitas vezes de coisas nocivas às almas.
É igualmente uma obra fecunda e salutar, tanto porque o próprio conteúdo dos Evangelhos, por si mesmo, está repleto da força divina das coisas de Cristo, isto é, da descrição de sua vida, para a qual nada há de mais excelente ou eficaz em vista da santidade dos costumes; quanto, sobretudo, porque ela é de grande utilidade para o magistério da Igreja, seja para preparar mais adequadamente as almas para receberem a pregação divina, seja para gravar mais profundamente na memória e conservar com maior clareza aquilo que anteriormente foi explicado pelos párocos a respeito do Evangelho.
Além disso, não deve ser contado entre os últimos benefícios desses mesmos livros o fato de que, conforme exigem as circunstâncias dos tempos, mediante sua divulgação e leitura, uma espécie de imagem da voz divina chega também àqueles que, dominados pelo desespero da vida, pelo ódio ou pelo erro, não têm nenhuma relação com o sacerdote.
É certamente para Nós um grande e muito desejável benefício que, por meio dos livros, onde não é possível fazê-lo pela voz, se possa cuidar das almas dos homens e restaurar, tanto na vida pública quanto na privada, as situações perturbadas mediante os ensinamentos da vida de Cristo.
Já conhecemos e comprovamos a diligência com que a Associação se empenha no cumprimento de seu dever; por isso, julgamos oportuno exortar os associados e estimulá-los, para que perseverem com maior ardor em sua iniciativa.
Contudo, para que sejam alcançados diariamente frutos mais abundantes no crescimento da obra, não vos escape isto: a obra mais útil de todas é aquela que corresponde melhor às necessidades do tempo; e aquela que, em pouco tempo, demonstrou de tal maneira, pelos bens que trouxe, o seu valor, deve ser impulsionada com forças redobradas.
Por isso, solicitai que seja fomentado o comum desejo de ler o Evangelho, despertado pelo vosso zelo, e que, à medida que aumente o número de exemplares, esse desejo seja continuamente exercitado, não sem fruto. Isso será útil também para eliminar aquela opinião segundo a qual a Igreja se oporia à leitura das Sagradas Escrituras na língua vernácula ou colocaria algum impedimento a ela.
Ora, sendo de máxima importância não somente perseguir, acima de tudo, este propósito da Associação — entre aqueles que podem atrair sua atividade e seu entusiasmo —, mas também persegui-lo com forças que de modo algum estejam dispersas, será igualmente conveniente que vossa associação considere como suficientemente amplo o campo de trabalho que lhe foi confiado na divulgação dos livros que contêm os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos.
Prossegue, portanto, Venerável Irmão Nosso; prossegue em promover, com tua autoridade e conselho, esta obra que Nos é tão cara; e prossigam os associados dedicando-se à obra como anteriormente se dedicaram, isto é, com a máxima diligência e zelo.
Àqueles que desejam restaurar todas as coisas em Cristo, nada é certamente mais desejável para Nós do que ver os Nossos filhos adotarem este costume: ter consigo exemplares dos Evangelhos e lê-los não somente com frequência, mas também diariamente. É sobretudo deles que se aprende de que modo, afinal, todas as coisas podem e devem ser restauradas em Cristo.
Como penhor dos dons divinos e testemunho de Nossa benevolência, concedemos de todo o coração, no Senhor, a ti e aos associados, bem como a todos aqueles que prestam auxílio à associação, a Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia XXI de janeiro do ano de MCMVII, quarto do Nosso Pontificado.
PIO PP. X
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Venerabilis Frater Noster,
salutem et Apostolicam benedictionem
Qui piam a Sancto Hieronymo Sodalitatem iam inde precatione bona felicibusque auspiciis sumus prosecuti, quum Patriarchalem Venetiarum administraremus ecclesiam, nunc, nec tamen multos post annos, ex Ecclesiae suprema sede singularem quamdam videmus voluptatem posse percipere, quod, brevi tempore, profectus eamdem fecisse tantos fructusque tulisse tam uberes intelligamus. Non enim Italiam modo, cuius in urbibus tria condita scimus, pro fecundiore efficacitate rei, consociationis domicilia, sed etiam Americam Hieronymiana Sodalitas vulgatis Evangeliis pervasit, eo usque proferens libros, ubi italicam comperiret personantem linguam, iis maxime .adiuvandis qui ex Italia migrassent. Equidem exemplariorum ferme quingenta millia esse edita et opportuno iudicio disseminata in vulgus, ista splendide commonstrat res, socios operis institisse negotium incredibili quodam studio, praegrandemque agendi campum Sodalitatem esse complexam. Mirum procul dubio facinus, tantoque id magis si tenuia assequendae rei praesidia cogitentur: iucundum etiam et fauste auspicatum, si propositum Sodalitio bonum spectemus, opportunitatem nempe, facilitatemque multitudini offerendam Evangelii perlegendi contemplandique, horum potissimum in necessitatibus temporum quando nimis, quam unquam alias, ardentius lectioni opera datur, animis, ut plurimum, noxiae; frugiferum quoque et salubre, quum quidem ipsum per se, quippe vi abundat divina rerum, Christi, id est, describenda vita, qua ad sanctitudinem morum nihil praestantius aut efficacius; tum vero ideo praesertim quia magisterio Ecclesiae usui magno est, sive aptius comparandis animis ad divina excipienda praeconia, sive iis defigendis in memoria clariusque custodiendis, quae antea fuerint a curionibus de Evangelio explanata. Ad haec, non illud est in postremis eorumdem librorum beneficiis censendum, si quidem tempora species, quod istis, vulgandis legendisque, imago divinae vocis quaedam ad eos etiam pertingit, quibus, desperatione vitae aut odio aut errore occupatis, cum sacerdote necessitudo nulla est: magnum certe et peroptandum Nobis benefactum, libris posse, ubi per vocem non licet, mederi animis hominum, et perturbatas publice privatimque res documentis vitae Christi restituere. Iam, sollertia Nobis perspecta est et explorata, qua in munere obeundo suo Sodalitas incumbit, proptereaque none re esse arbitramur hortari socios et acuere, quo alacrius in incepto perstent. Hoc tamen, ad uberiora quotidie incrementa operis accuranda, ne fugiat: eam esse omnium utilissimam rem, quae tempori magis respondeat; eamque oportere duplicatis urgere viribus, quae brevi, adeo se, allatis bonis, probavit. Communem idcirco legendi Evangelii cupidinem, studio excitatam vestro, poscite progrediente exemplariorum vi non sine fructu exerenda unquam; erit id ad eam etiam abolendam opinionem utile, Scripturis Sacris, vernacula lingua legendis repugnare Ecclesiam aut impedimenti quidpiam interponere. Quum autem illud maxime intersit, non modo hoc tale Sodalitatis propositum prae ceteris persequi, quae alacritatem eius actuosam possint allicere, verum etiam viribus persequi nulla ratione disiectis, id quoque erit commodi factum, si in libris vulgandis qui Evangelia et Apostolorum acta continent satis esse amplam adlaborandi provinciam consociatio vestra positam putet. Perge tu igitur, Venerabilis Frater Noster, perge probatissimum Nobis opus auctoritate consilioque provehere; pergant sodales se ita operi addicere, quemadmodum addixere antea, id est, diligentia et studio summis. Omnia in Christo instaurare volentibus, nihil certe Nobis optatius quam ut id moris filii Nostri usurpent, Evangeliorum exemplaria non solum frequenti, sed quotidiana etiam lectione tenere, e quibus maxime addiscitur quo demum pacto omnia in Christo instaurari possint ac debeant. Auspicem divinorum munerum Nostraeque testem benevolentiae, Apostolicam benedictionem tibi et sodalibus, iisque universis qui ferant consociationi opem, peramanter in Domino impertimus.
Datum Roma e apud S. Petrum die XXI Ianuarii anno MCMVII, Pontificatus Nostri quarto.
PIUS PP. X
*AAS, vol. XL (1907), pp. 134-136.