A BÍBLIA DE JERUSALÉM
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A Bíblia de Jerusalém foi publicada pela primeira vez na França, há uns vinte e cinco anos. É obra da Escola Bíblica de Jerusalém, sob a direção dos padres dominicanos. Herdeira da tradição científica do Fr. Marie-Joseph Lagrange, OP, a Escola Bíblica impôs-se no mundo das ciências bíblicas. A edição de uma bíblia em francês reuniu os melhores especialistas. E devia apresentar através de introduções e de notas o resultado de quase um século de pesquisas arqueológicas, filológicas, literárias e teológicas. Isto foi o resultado de longos trabalhos. O seu sucesso se comprovou pela imediata tradução da obra em várias línguas. Em 1973 uma nova edição foi realizada para atualizar os conhecimentos e as anotações.
No Brasil foi lançada esta mesma obra. Desde 1971 os trabalhos da tradução foram iniciados. A Escola Bíblica exigiu que a tradução se fizesse a partir dos textos originais. E que as opções de crítica textual e as notas seguissem fielmente a edição francesa. Foi o que se fez. Uma equipe de tradutores apresentou, então, o Novo Testamento. Já nesta ocasião experimentou-se a cooperação ecumênica, sendo que vários livros foram traduzidos por exegetas protestantes bem conhecidos.
O trabalho continuou na preparação do Antigo Testamento. Foram mais cinco anos de trabalhos. Finalmente a Bíblia toda é apresentada para o leitor brasileiro. Traduzida dos originais, foi revista por uma equipe de exegetas indicados e aprovados pela Escola Bíblica de Jerusalém. Depois deste exame, uma outra equipe fez a revisão literária. Os nomes destes revisores são bem conhecidos, e seja-nos permitido indicar alguns deles: Prof. Alfredo Bosi, Prof. Antonio Cândido de Mello e Souza, Prof. Flávio di Giorgio. Aspecto que mereceu particular cuidado foi a transcrição dos nomes próprios e geográficos. Adotou-se o princípio da simplificação da grafia, tendo sempre como critério da transcrição portuguesa a mediação do latim da Vulgata. Várias pessoas trabalharam nesta minuciosa tarefa. E seria de se desejar que chegássemos a uma unanimidade constante neste particular.
O texto da Bíblia apresenta-se dividido através de cortes e subtítulos. Esta divisão segue geralmente as aquisições da crítica literária dos últimos anos. Basta tomar como exemplo qualquer livro. Vejamos o Gênesis: a sua divisão indica as articulações literárias e teológicas do conjunto: a história das origens, a história patriarcal como os ciclos de Abraão, Isac e Jacó. Igualmente o livro de Isaías, uma verdadeira antologia de profecias escritas no decorrer da história, é dividido para mostrar estes diversos livretes e suas respectivas. O mesmo se diga dos livros do Novo Testamento: como exemplo servirão os evangelhos de Mateus e de João, ou ainda a carta aos Romanos.
As introduções aos conjuntos literários e aos livros em particular são um resumo das aquisições da ciência bíblica nestes últimos anos. A introdução ao Pentateuco, por exemplo, apresenta toda a história da crítica literária dos cinco livros de Moisés. Relembra a teoria documentária, mostra a sua evolução através da teoria da tradição oral e folclórica, e apresenta uma síntese das diversas perspectivas. O Pentateuco foi escrito durante a história de Israel, e as tradições do Javista, do Eloísta, do Deuteronomista e do Sacerdotal são os marcos sólidos da crítica literária. A partir daí ele poderá estudar a evolução dos códigos legislativos, das instituições sagradas, e será possível ver o pensamento de cada camada em sua determinada época. Digna de nota é também a introdução aos livros proféticos, e de modo especial a introdução e os comentários ao livro dos Salmos. Um livro como o Cântico dos Cânticos teve uma tradução bem cuidada, tentando traduzir a poesia em estilo hebraico. Também as notas de comentário refletem os problemas do verdadeiro sentido deste livreto: uma coletânea de cânticos de amor, e sua possível apresentação alegórica para exprimir o relacionamento entre Deus e o seu povo na linha dos profetas Oséias e Jeremias.
Para aproveitar desta obra, será bom ainda ver as notas e suas características. Finalmente, o quadro histórico e cronológico, no final do livro, deve ser cotejado e estudado com grande atenção. É igualmente uma apresentação da história do Oriente antigo e de Israel. Não se deixará nunca de louvar a precisão e o rigor científico, tanto do ponto de vista arqueológico, quanto histórico. Só este quadro cronológico bastaria para tornar a edição um instrumento seguro de estudo e de análise.
A Bíblia de Jerusalém, agora em português, quer ser um livro de base, primeiramente, para os estudiosos da Bíblia. O texto fiel ao original, as notas são instrumentos para uma leitura mais aprofundada do texto sagrado. Fazemos votos que essa obra se torne conhecida e utilizada por professores universitários e por seus alunos. É certamente um passo e uma aquisição nova em nossa cultura literária, histórica e teológica.
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Fonte: jornal O São Paulo, 28 de agosto a 3 de setembro de 1981, São Paulo, p.3
