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A Bíblia de Jerusalém em Português (1974)

 


A BÍBLIA DE JERUSALÉM EM PORTUGUÊS

Finalmente teremos em português uma edição da Bíblia de Jerusalém. Em 1956, a Escola Bíblica de Jerusalém lançou a primeira edição francesa desta Bíblia que logo se impôs em todo o mundo por sua qualidade. Foi um acontecimento importante no mundo teológico tanto pela tradução, pelas introduções quanto pelas notas sintéticas explicativas. Firmou-se como um trabalho sólido realizado com objetividade por uma equipe de especialistas de renome.

Por que traduzi-la em português, uma vez que neste momento as traduções proliferam? Uma tradução da Escritura traz sempre algo de novo. Uma linguagem bem cuidada, fluente e bela é um instrumento tanto da expressão da Palavra de Deus para um determinado povo, quanto na maneira de povo chegar mais facilmente à mensagem que Deus lhe diz. Uma tradução feita com objetividade, seriedade e no gênio de uma língua é sempre um valor novo para melhor compreendermos a Palavra de Deus em sua mensagem eterna e circunstancial.

Esta tradução portuguesa, levada à frente pelas Editoras Paulinas aparecerá em 1975 com a publicação do Novo Testamento. Ela conservará as características da Bíblia de Jerusalém, na sua edição francesa. Contém introduções e notas extensivas que facilitarão a melhor compreensão do texto por parte dos padres, dos religiosos, dos agentes de pastoral, dos leigos responsáveis por comunidades, e pelos homens à procura de maior cultura religiosa e de reflexão teológica.

A tradução será feita dos originais em hebraico, aramaico e grego. Seguiremos a edição francesa somente nas opções mais importantes de crítica textual, e na compreensão das passagens mais difíceis. Quanto ao mais a equipe tradutora terá plena liberdade para realizar uma tradução que obedecerá ao gênio da língua portuguesa e que seja, de fato, um serviço para o povo que vive em nossas Igrejas Particulares.

O trabalho da tradução já demonstrou grande riqueza, e muitos benefícios já foram percebidos pelos próprios tradutores. Há um espírito ecumênico bastante sincero, e com grande objetividade que vem da análise científica dos textos. O trabalho em equipe assegura a objetividade e traz o enriquecimento para a compreensão e para a própria tradução. Conseguiu aliar os especialistas de duas grandes cidades, uma vez que a maioria dos tradutores trabalham no Rio de Janeiro e em São Paulo. E realizaram periodicamente encontros de estudo, de crítica das traduções e de revisão dos trabalhos.

A primeira etapa do trabalho já está concluída. Os manuscritos das traduções do Novo Testamento já estão prontos. Um enviado da Escola Bíblica de Jerusalém, Fr. Jerome Murphy O'Connor veio especialmente a São Paulo para uma revisão e crítica deste primeiro trabalho e para dar a opinião da Escola a respeito da expansão e adaptação de várias notas explicativas, e para verificar a fidelidade exegética das traduções. E agora está sendo levado a termo a revisão literária e estilística que estará a cargo de grandes nomes, no mundo da literatura portuguesa. Mais uma reunião da equipe tradutora, no próximo mês de novembro, dará o consentimento final para entregar os manuscritos às Editoras Paulinas que lançarão o Novo Testamento no decorrer de 1975.

Esta edição do Novo Testamento mereceu a visita do Fr. Jerome Murphy O'Connor, O. P., professor na Escola Bíblica de Jerusalém há sete anos. Ele é autor de quatro livros editados em português. E o seu interesse teológico principal é o sentido da comunidade na história da revelação e na vida da Igreja. Aqui em São Paulo ele entrou em contato com a Igreja viva, através de encontros com leigos, religiosos e sacerdotes. Esteve no Setor de São Mateus, em Osasco, na Região Norte, no litoral paulista, entrou em diálogo com vários movimentos leigos em nossa capital.

Ele testemunhou o seu contentamento ao ver o interesse de nosso povo pela vida em comunidades concretas. Percebeu na consciência do povo um desejo de viver numa Igreja que seja de fato uma comunhão, e de perceber que os seus dirigentes estão convencidos de que o futuro da vida da Igreja está nestas comunidades visíveis, responsáveis e missionárias.

Ficou contente ao perceber que os leigos de nossa periferia engajam-se não somente com idéias mas entregam as suas vidas pela construção de comunidades locais bem vivas. E afirma mesmo que as experiências em curso na Igreja de São Paulo constituem uma inspiração e um estímulo para pesquisas mais aprofundadas no campo da Exégese do Antigo e do Novo Testamento: o povo de Deus, o povo messiânico, a comunidade da salvação; a comunidade como realidade da salvação e de testemunho para o mundo não pode deixar de estimular as pesquisas de uma instituição científica das Escrituras, como a Escola Bíblica de Jerusalém, afirmou o visitante ao nos deixar e ao prometer uma nova visita nos próximos anos.

Legenda da fotografia: Frei Jerome Murphy O'Connor

Legenda da fotografia: O grupo de tradutores da Bíblia de Jerusalém

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Fonte: Jornal O São Paulo, 14 a 20 de setembro de 1974, São Paulo, p.2