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A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida - Herculano Alve (2006)


A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida

Autor: Herculano Alves, Ordem dos Frades Menores Capuchinhos Publicação: Revista Lusófona de Ciência das Religiões, ano V, 2006, n.º 9/10, pp. 289–302.

Herculano Alves — A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida

João Ferreira d'Almeida foi o primeiro tradutor da Bíblia para a língua portuguesa, no séc. XVII. O seu Novo Testamento foi publicado em 1681, em Batávia, actual Jacarta, onde Almeida viveu grande parte da sua vida. Esta primeira Bíblia passou, mais tarde, da Ásia para Portugal e daí para os países de língua portuguesa. Teve até hoje umas 2000 edições, num total de uns 150 000 000 de exemplares, o que faz deste tradutor o mais produtivo da língua portuguesa. É praticamente a única Bíblia editada pelos protestantes de língua portuguesa, mas o seu autor e a sua obra guardavam ainda muitos mistérios, antes deste estudo.

Abstract

João Ferreira Annes d'Almeida was the first biblical translator into portuguese, in the XVII century. His New Testament was published in 1681, in Batavia (Jakarta), where Almeida lived most of his life. This first Bible then went from Asia to Portugal and from there to the portuguese speaking countries. Until today, the text has had around 2.000 editions corresponding to a total amount of 150.000.000 copies. This, makes this translator the most productive author of the portuguese language. It is practically the only Bible published by the portuguese speaking protestants, but either the author and his work had still lots of unknowned aspects before this study.

Palavras-chave: Protestantismo; Tradução da Bíblia; João Anes Ferreira de Almeida; Bíblia de Ferreira de Almeida.

O impressionante número de edições faz de Almeida o maior escritor de língua portuguesa, pelo menos no que se refere à quantidade de edições e de exemplares editados. Esta foi uma das grandes descobertas desta investigação: encontrou-se a obra mais editada em língua portuguesa.

Este tema — A Bíblia de João Ferreira Annes de Almeida — foi objecto de uma tese de doutoramento defendida em Abril de 2005, em Salamanca, e foi desenvolvido em cinco capítulos. O desconhecimento quase completo de um autor e de uma obra tão importante parece ter uma resposta no facto de Almeida ser português, mas protestante calvinista; por isso, todos os seus livros eram vigiados de perto pelas leis da Inquisição — mesmo durante a sua vida — ou pela simples suspeita da Igreja Católica de serem heréticos. Um outro motivo não menos importante: Almeida viveu longe do seu país, no Extremo Oriente asiático, o que muito contribuiu para que a sua Bíblia não fosse conhecida no continente português.

Este estudo procurou abarcar o máximo de dados históricos e literários, não apenas para apresentar a temática em si mesma, mas também para fornecer aos seus eventuais futuros leitores algumas possíveis pistas em ordem ao aprofundamento de certos dados aqui fornecidos. No início, e mesmo ao longo da nossa investigação, notámos uma arreliadora falta de bibliografia portuguesa e de documentos sobre João Ferreira d’Almeida, mesmo em grandes obras que tinham por “obrigação” mencionar, pelo menos, o primeiro tradutor da Bíblia em língua portuguesa. Por isso, a investigação alargou-se à literatura estrangeira, que veio, por assim dizer, “salvar a honra do convento”. Esta foi sobretudo a literatura holandesa, como parece normal, já que Almeida trabalhou praticamente toda a sua vida no meio dos holandeses.

Apraz-nos informar que foram consultadas as bibliotecas que poderiam guardar alguns segredos de Almeida: Copenhaga (Biblioteca Nacional), Haia (Biblioteca Nacional), Leiden, Paris (Biblioteca Nacional), British Library, Bodleian de Oxford, da Universidade de Cambridge, Madrid (Biblioteca Nacional), Salamanca, várias do Rio de Janeiro e S. Paulo, Nova Iorque, Washington, Bóston, para citar apenas as principais. Foi a única maneira de reunir uma apreciável quantidade de material bibliográfico sobre Almeida, que é apresentado no capítulo I. Quisemos também traduzir as fontes mais lídimas de Almeida, que saíram da pena de Swellengrebel, certamente o melhor conhecedor da sua história, a fim de verificarmos a veracidade de algumas afirmações e dados constantes de certa literatura mais recente sobre o tradutor português. Fizemos o mesmo com várias outras “Fontes Holandesas”.

Há uma lógica rigorosa entre os cinco capítulos que integram esta investigação.

No capítulo I — Recensão Crítica das Fontes da Bíblia de João Ferreira d’Almeida, procura-se passar em revista a bibliografia portuguesa e estrangeira que fornece dados biográficos e bibliográficos de Almeida e sobre Almeida. Ficamos, assim, com uma panorâmica geral do material que existe e que é tratado e analisado nos quatro capítulos seguintes.

No capítulo II — Notas para uma Biografia de João Ferreira d’Almeida, utilizamos o material biográfico e organizamo-lo numa “biografia” o mais fiel possível.

No capítulo III — Contexto Histórico, Cultural e Religioso da Bíblia de João Ferreira d’Almeida, alargamos o nosso horizonte ao espaço histórico e geográfico asiático, português e holandês, onde Almeida traduziu a Bíblia. Ficamos a conhecer, resumidamente, as circunstâncias históricas, culturais e religiosas em que nasceu esta primeira Bíblia em língua portuguesa. Este capítulo é imprescindível, dado que as Fontes, tanto biográficas como bibliográficas, estão continuamente voltadas para essa geografia e cultura.

O capítulo IV — João Ferreira d’Almeida, Tradutor da Bíblia dá conta do trabalho manuscrito e das primeiras edições de Almeida impressas, sobretudo das obras póstumas (praticamente todas), com a sua história e análise de cada uma. Este capítulo tem o seu cume no Catálogo respectivo, que dá conta das muitas centenas de edições, que apareceram até ao séc. XX, com os lugares onde foram editadas, bibliotecas onde se encontram, cotas e outros dados importantes. Este Catálogo é parte integrante do capítulo IV e foi das partes mais trabalhosas da investigação, embora fique integrado nos Suplementos. No momento actual, o presente Catálogo das Obras Bíblicas de Almeida incluiu uns 110 milhões de exemplares, entre Bíblias completas, Novos Testamentos e outras partes da Bíblia. Este número não inclui aquelas a que não pudemos ter acesso, sobretudo no Brasil, e outras cujo número é hoje impossível obter — a maior parte. No que diz respeito a estas edições, no início da nossa pesquisa sobre o tradutor português, pensávamos encontrar um anão, mas, afinal, estamos hoje em presença de um gigante.

Finalmente, o capítulo V — Fontes do Texto Português de Almeida pretende fechar com chave de ouro este estudo: dar razões filológicas, estilísticas e linguísticas do texto bíblico de Almeida, ou seja, responder à simples pergunta: de que língua ou línguas traduziu Almeida a sua Bíblia e qual foi o contributo dos seus revisores?

Queremos ainda mencionar, a título de nota prévia, que esta investigação se apresenta em duas partes: a investigação propriamente dita, com estes cinco capítulos, e os Suplementos, que especificam e/ou prolongam alguns aspectos da mesma, sobretudo o Catálogo das Obras Bíblicas de Almeida.

Os cinco capítulos e os Suplementos oferecem-nos, ao mesmo tempo, uma visão ampla, abrangente e relativamente clara da génese, da história e do resultado da tradução de Almeida. E dizemos relativamente clara, porque, em vários aspectos da vida e obra de Almeida, permanecem ainda zonas sombrias que são melhor esclarecidas nos respectivos capítulos.

Capítulo I — Recensão Crítica das Fontes da Bíblia de João Ferreira d’Almeida

De entre estas Fontes, consideraremos primeiramente as mais antigas, que são estrangeiras, e que deram origem às Fontes Portuguesas, quase sempre, dependentes das primeiras. De entre essa bibliografia sobressaem os seguintes nomes:

Filippe Baldeo, 1672; Padre Guy Tachard, S.J., 1687; Fabricius, Johannes Albertus, 1731; João Lucas Niecamp, 1745; Francisco (François) Valentyn/Valentijn, 1726; J. Ferd. Fenger, 1863; Christian Jöcher; Rev. Caspar Adam Laurens van Troostenburg de Bruyn (Bruijn/Brijn); J. A. Grothe, 1884–1885; Vv., Memórias Diárias recolhidas no Castelo de Batávia, 1889, 1893, 1898, 1903, 1904, 1909, 1912; Vv., Procedimentos dos Sínodos Provinciais do Sul da Holanda (1621–1700), Haia, 1910, 1912, 1915, 1916; J. Mooij, I, II, III, 1927, 1929 e 1931; Pieter van Dam, 1927, 1929, 1932, 1954; C. W. Th. Dubbeldam, 1947; Jan Lodewig Swellengrebel, 1960, 1973; Edgar F. Hallock & Jan Lodewig Swellengrebel, 2000.

Além destes autores e das suas respectivas obras, foram consultados dezenas de catálogos onde são mencionadas obras do nosso autor.

Quanto às Fontes Portuguesas mais importantes, estas resumem-se a sete pequenos documentos, embora relativamente distantes do tempo em que viveu o autor que aqui estudamos. Os nomes mais importantes são Diogo Barbosa Machado, na sua Biblioteca Lusitana I–IV, 1741, 1747, 1752, 1759; António Ribeiro dos Santos, em Memória sobre algumas traducções, e edições Bíblicas menos vulgares em Língua Portugueza, especialmente sobre as Obras de João Ferreira de Almeida, 1806; Inocêncio Francisco da Silva, em Dicionário Bibliográfico Português, III, 1859; Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, João Ferreira de Almeida e a sua Traducção Portugueza da Bíblia, 1866; G. L. Santos Ferreira, A Bíblia em Portugal, 1906; Pedro de Azevedo, O Calvinista Português, Ferreira de Almeida, 1919; Eduardo Henriques Moreira, O Defensor da Verdade, João Ferreira de Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia em Língua Portuguesa, 1928.

Há ainda algumas outras fontes que falam também de J. Ferreira d’Almeida, tanto livros como dicionários ou outros pequenos documentos.

Depois destes testemunhos escritos sobre João Ferreira d’Almeida, fica-nos a convicção de que o primeiro tradutor da Bíblia em português mereceu figurar na praça dos nossos escritores, embora não com o relevo que mereceria. Constata-se que alguns, pelo menos, deram importância a um homem que, vivendo embora fora do seu país ao longo de praticamente toda a sua vida, não deixou de ser um dos seus grandes expoentes, no aspecto bíblico e literário, no séc. XVII português.

Fica-nos também a convicção de que os testemunhos sobre João Ferreira d’Almeida se resumem sobretudo a dois, a saber, António Ribeiro dos Santos e G. L. Santos Ferreira. Todos os outros testemunhos ou Fontes Portuguesas de João Ferreira d’Almeida vivem à volta destes e abastecem-se das suas informações. Assim, excluindo Diogo Barbosa Machado, António Ribeiro dos Santos leva no seu encalço Inocêncio da Silva e, indirectamente (por este seguir Inocêncio), Cunha Rivara.

Quanto a Santos Ferreira, por escrever uma obra bem organizada — chegando ao ponto de a considerar como Apontamentos para uma monografia sobre A Bíblia em Portugal — levará no seu encalço os que se lhe seguem: Pedro de Azevedo e, sobretudo, Eduardo Moreira. No entanto, não deixa de estar também ele dependente de Ribeiro dos Santos, não apenas no que diz respeito à história, mas também no que diz respeito à interpretação.

Por quanto foi dito, o testemunho de António Ribeiro dos Santos é o mais perfeito e consistente, apesar de não ter tido à mão as obras de que dispôs Santos Ferreira, por exemplo. Por isso, os sete testemunhos portugueses se completam e valorizam mutuamente, tanto no que toca à quantidade dos respectivos testemunhos, como à qualidade, tendo em conta o breve testemunho de Diogo Barbosa Machado, que, sendo embora materialmente pequeno, torna-se precioso, se o considerarmos quase contemporâneo de João Ferreira d’Almeida.

Quanto aos problemas que cada um destes testemunhos levanta, os mesmos serão resolvidos, ou terão a resposta possível, nos capítulos seguintes. Assim, as questões relacionadas com a vida de João Ferreira d’Almeida serão tratadas no capítulo imediato. Estas Fontes fornecem-nos o que se sabia no tempo destes escritores acerca de Ferreira de Almeida. Muitas das suas obras não eram ainda conhecidas na Europa.

Algumas edições modernas, mesmo estrangeiras, lembram certas obras de João Ferreira d’Almeida e oferecem-nos alguns traços da sua vida, nem sempre correctos ou fundamentados. Deixamo-los aqui, de modo a confirmar o nome que Almeida mereceu, não apenas na cultura portuguesa, mas também no cenário da cultura internacional. Isto não contradiz o que dissemos antes acerca do quase ostracismo a que o tradutor de Mangualde foi votado pelos portugueses; porque estamos convencidos que Almeida teria merecido muito mais atenção.

Uma simples comparação deste quadro com o Catálogo (mesmo tendo em conta apenas o mesmo período de tempo) manifesta-nos claramente a pobreza dos conhecimentos das Fontes Portuguesas acerca da pessoa e da obra de Almeida.

Capítulo II — Notas para uma Biografia de João Ferreira d’Almeida

Desde a desconhecida Torre de Tavares (1628) até Batávia, actual Jacarta, passando pela Costa de Coromandel e por Malaca (1642–1651). Poderíamos dizer que João Ferreira d’Almeida foi um pioneiro em vários aspectos, ou seja, bateu vários “records”: foi o primeiro português — conhecido até hoje — que se tornou ministro protestante ao serviço da Igreja calvinista holandesa, no Oriente; foi o primeiro a traduzir a maior parte da Bíblia para a língua de Camões; foi ainda o primeiro missionário calvinista português em terras do Oriente, desde a Costa do Malabar, na Índia, a Malaca e Batávia, passando por Ceilão. E foi também certamente um dos mais famosos emigrantes portugueses da Idade Moderna. Não um emigrante qualquer, para conquistar um mais desafogado nível económico, mas um emigrante ao serviço da Missão e da Cultura, como era apanágio dos homens grandes do seu tempo: “com um espírito jovem, estudioso, inquiridor, ambicioso, lutador e generoso”.

Trabalhou, pois, em Batávia, Malaca, Ponta de Gale, Colombo, Paleacate, Tuticorim, Negapatnam, Jafnapatnam, regiões que se situam no triângulo Sul da Península do Industão-Ceilão. Trabalhou sobretudo em Malaca e Batávia, actual Jakarta, capital da Indonésia. Em todos esses lugares, Almeida foi uma presença viva da língua e da cultura portuguesa, mas também do testemunho cristão, vivendo-o certamente o melhor possível, nas condições do espaço, do tempo e da Igreja em que lhe tocou existir. Em todo este imenso espaço geográfico não deixou mal a herança que levou da Terra que o viu nascer.

Esta conclusão acerca da “biografia” de Almeida poderia ser também uma espécie de “retrato-robot” do nosso herói e que poderíamos delinear em traços gerais como: homem de fé, mas também e sobretudo de convicções. Quando se converteu ao calvinismo não quis ficar a meio do caminho, mas seguiu sempre em frente, afrontando tudo e todos, com uma persistência impressionante.

Poderíamos ainda definir Almeida como um homem de temperamento primário, que “fervia em pouca água”, defeito que o acompanhou toda a sua vida. Por isso, protesta por tudo e por nada, sobretudo perante o seu Presbitério de Batávia. Essa persistência aparece no lema do fim deste seu poema: Per angusta ad augusta [pelas angústias, às coisas augustas].

Estes simples traços da vida de Almeida manifestam a forte personalidade do homem da Beira Alta: persistência a toda a prova, profundidade de convicções pessoais, luta por ideais, sejam eles cristãos ou portugueses; isto, mesmo contra as autoridades do Estado (em Ceilão) e da Igreja, no seio do Presbitério de Batávia, sobretudo a propósito do atraso “voluntário” com que este persiste presentear as suas edições bíblicas e de algumas ideias que ele próprio lhe apresenta: a Santa Ceia em português, a catequese obrigatória para os que recebem auxílio social da igreja calvinista local… Mas foram os seus escritos — sobretudo a Bíblia — que perpetuaram a sua memória até aos nossos dias. Esta firmeza de carácter vai a par de uma inteligência privilegiada, sobretudo para as línguas; efectivamente, vemo-lo a pregar em português, francês, espanhol, italiano e holandês.

Capítulo III — Contexto Histórico, Cultural e Religioso da Bíblia de João Ferreira d’Almeida

Aqui se mencionam os lugares da colonização portuguesa e outros que têm a ver, directa ou indirectamente, com o tradutor português. Por isso, uma primeira abordagem do contexto leva como título: Motivação Religiosa dos descobrimentos portugueses, passando, depois, à Geografia dos territórios portugueses do Oriente. Não se podia deixar de falar de Goa e da sua importância no Oriente, de Tuticorim, da Costa de Coromandel, dos diferentes lugares de Ceilão por onde passou Almeida. Passa-se, depois, a uma rápida visão dos territórios do Extremo-Oriente, igualmente frequentados por Almeida: Malaca e sobretudo Batávia.

Num terceiro parágrafo trata-se do problema do declínio do Império Português do Oriente, assim como do império seu rival — o Império Holandês. Isto serve de trampolim para uma abordagem das “Missões nos Impérios português e holandês”. Constata-se aqui que a Missão portuguesa sofreu as consequências negativas da união indissolúvel com a política portuguesa no Oriente. Portanto, a Missão portuguesa teve de enfrentar uma dupla rivalidade: a política e religiosa, pois os holandeses eram calvinistas e propugnavam a destruição, não apenas do Império Português, mas também das suas missões católicas.

Um quinto ponto aborda o Movimento Bíblico, a Reforma e o Concílio de Trento, sobretudo na perspectiva bíblica. Assim, pode verificar-se o evoluir da presença da Bíblia nos países protestantes e a sua ausência nos países de religião católica. Propositadamente, demos importância especial à presença da Bíblia (em latim) nas Universidades, sobretudo de Coimbra e de Évora, o que não impede de constatar que a mesma não chegou às mãos do povo, devido à proibição de a traduzir para as línguas modernas. É nesta altura que se aborda também o aparecimento das primeiras Sociedades Bíblicas, em países protestantes.

No fim do terceiro capítulo fica-se com uma visão geral do campo em que trabalhou J. Ferreira d’Almeida. Fica-se também com uma noção fundamental: foi este português um dos melhores divulgadores da língua de Camões, nesse imenso mundo asiático. A expansão da língua portuguesa nos territórios onde Almeida exerceu o seu ministério pastoral diz-nos bem o porquê e o para quem traduziu a Bíblia. Se a traduziu para a nossa língua é porque o português era muito falado e era necessário levar a Bíblia aos falantes do português. Deste modo, a Bíblia de Almeida é, sem dúvida, um argumento poderoso a favor da língua portuguesa nas paragens do Oriente dos séc. XVI–XVIII. Quando se traduz uma Bíblia pensa-se que ela irá ser lida por uma grande multidão de pessoas. Portanto, o próprio Almeida deveria ter consciência de que a sua Bíblia iria ter leitores ao longo de muitos anos. Não imaginava, certamente, que, tal como o Império Português estava a cair diante dos seus olhos, também o império holandês iria cair às mãos dos ingleses e outros.

Penso mesmo que Almeida imaginava todo o Oriente nas mãos dos holandeses a falar português por muitos anos. Talvez imaginação a mais, mas para afirmar uma convicção: certamente pensou traduzir a Bíblia para os seus paroquianos “portugueses” de Batávia e para os de outras colónias holandesas. Não sonhou, certamente, que a sua Bíblia chegasse a Portugal. O seu imaginário imediato não abrangeria tão ampla perspectiva. E, no entanto, foi o seu País que lhe “salvou” a Bíblia; pois, com o desaparecimento dos portugueses e a consequente desaparição da língua portuguesa no Oriente, a sua tradução da Bíblia ficaria relegada às estantes de bibliotecas e de museus. Foi Portugal e outros territórios onde a língua portuguesa se tornou língua oficial, que salvaram a tradução da Bíblia de Almeida até hoje.

No entanto, por não ter podido entrar livremente em Portugal, durante três séculos, e apenas na estreita faixa populacional do protestantismo português, a Bíblia de Almeida, como obra literária, não teve praticamente nenhuma influência no evoluir da língua portuguesa, nem mereceu um lugar na nossa História da Literatura. E este é um aspecto negativo, que não poderíamos esquecer. Mas a culpa não foi, logicamente, de Almeida.

Capítulo IV — João Ferreira de Almeida, tradutor da Bíblia

Neste capítulo, aborda-se a temática fundamental da obra; pois a tradução da Bíblia foi o contributo mais importante e o clímax da produção literária de João Ferreira de Almeida. Por isso, esta perspectiva mereceu a melhor atenção e constitui o centro desta investigação, que é situada em cada um dos espaços geográficos por onde ele andou na sua actividade pastoral: em Malaca, no Sul da Índia, em Ceilão e sobretudo em Batávia.

Mesmo no Oriente, a Bíblia fazia parte integrante da missão protestante. Por isso, os holandeses sentiram, desde o início, a falta de textos bíblicos nas línguas dos povos onde trabalhavam, como o provam as listas de livros que são pedidos à Holanda. O mesmo não acontecia, na mesma medida, com os missionários católicos. Ora, sendo a língua portuguesa a língua franca no Oriente, com maior razão se sentia a falta de traduções bíblicas em português. Filipe Baldeus, missionário holandês com Almeida, em Ceilão, fez aí algumas traduções, que ficaram manuscritas; o mesmo se diga de um certo Frontenius e de vários outros missionários holandeses, que deram o seu contributo na tradução de textos bíblicos para português. Neste sentido, podemos dizer que Almeida, com a sua tradução da Bíblia, irá prestar o melhor serviço, não apenas à Bíblia, mas sobretudo à missão holandesa no Oriente. Por isso, depois de Almeida ter feito as suas traduções, mesmo manuscritas, Batávia tornar-se-á no depósito de textos bíblicos em português, onde diferentes comunidades protestantes de língua portuguesa irão recorrer.

É já no período de Malaca que o português manifesta a sua vocação de tradutor da Bíblia. Porquê? Certamente, o jovem de Mangualde deve ter pensado que esta era a melhor maneira de evangelizar, sobretudo os católicos que havia em Malaca, pois há mais de um século que o catolicismo, levado pelos missionários portugueses, aí se tinha instalado. Ele sabia que a Bíblia era o específico da nova Igreja em que se encontrava, e sabia também que a Bíblia era o calcanhar de Aquiles dos católicos dessa cidade. Por isso, se terá resolvido a iniciar traduções de textos bíblicos, numa atitude de evangelização dos católicos, que eram os únicos cristãos que os holandeses encontraram em Malaca.

No centro deste estudo encontra-se uma apreciação de cada uma das grandes obras traduzidas por Almeida. Mereceu especial atenção a análise do Novo Testamento de 1681, considerando as três “edições” do mesmo: Lisboa, Novo Testamento a) e b) e Londres, Novo Testamento c). A Biblioteca Nacional de Lisboa possui o único exemplar conhecido no mundo, que é corrigido à mão pelo próprio Almeida (Novo Testamento b). Tivemos o grande prazer de o descobrir e maior prazer ainda de saber que se encontra na posse de uma instituição da pátria do próprio Almeida. Esta obra foi a única que Almeida viu publicada, pois faleceu em 1691.

Segue-se a análise do Novo Testamento de 1693, constatando que Portugal não possui nenhum exemplar desta edição, que é a correcção e revisão da edição de 1681. Almeida interveio na revisão desta edição, mas não chegou a vê-la editada. Seguidamente são analisadas as edições do Novo Testamento de 1712, de 1773, passando-se às edições da Bíblia de Almeida revista e editada pela missão luterana de Trangambar/Tranquebar: Novo Testamento de 1760/1765.

O Antigo Testamento de Almeida só foi editado depois do Novo Testamento. Em Batávia foi editado em dois volumes, apenas em 1748–1753. Já antes, em 1747, tinha sido editado o chamado Pentateuco de Genebra (porque aí se encontra o único exemplar conhecido dos três primeiros livros do Pentateuco). Quanto à revisão do Antigo Testamento de Tranquebar, foi editado antes do de Batávia, entre 1732 e 1757. A Bíblia de Almeida num só volume viu a luz do dia apenas em 1819, em Londres. Dessa possuímos vários exemplares em Portugal.

Especial atenção foi dada às diferenças que aparecem nas revisões das obras bíblicas de Almeida, nos séc. XVII–XVIII, com o título: Visão Sinóptica das Edições de Almeida.

Particular realce se concede ainda aos revisores de Almeida. Estes constituíam uma espécie de instituição holandesa encarregada de atrasar o mais possível as publicações bíblicas do tradutor português. O Conselho da Igreja de Batávia constituía outra instituição que, à força de tanto diálogo, não deixava que a Bíblia de Almeida saísse do armário, onde se guardavam os documentos mais importantes do dito Presbitério.

Questão importante deste capítulo é ainda a da história mais recente desta primeira tradução da Bíblia em português. Inicia-se no séc. XIX e vai até 2005: as grandes revisões feitas em Londres e Nova Iorque, as edições das Sociedades Bíblicas, as grandes editoras no Brasil e em Portugal… Este apartado deu origem ao Catálogo das Obras Bíblicas de J. F. D’Almeida, onde se apresentam as edições e reimpressões das Bíblias e suas partes da Bíblia encontradas em bibliotecas portuguesas e estrangeiras. É o primeiro catálogo que se faz das obras de Almeida, 325 anos depois da impressão do seu Novo Testamento.

Não restam dúvidas de que, apesar de todas as contrariedades surgidas em várias partes e por vários motivos, João Ferreira d’Almeida foi certamente o escritor mais célebre do seu tempo em todo o Extremo-Oriente, nos séculos XVII–XVIII; foi também um dos mais importantes escritores lusófonos da Idade Moderna.

De tudo quanto acabamos de verificar, sobressai o facto de serem colocadas contínuas dificuldades ao português Almeida. Por ser português? Por ter sido anteriormente católico? Talvez pelos dois motivos. A este propósito, podemos lembrar aqui o testemunho insuspeito do holandês Dubbeldam, a favor da língua portuguesa:

“Durante todo o tempo da Companhia, o portuguez manteve-se nas Índias, e em vários lugares era preciso que os pastores tivessem conhecimento desta língua. Parece que, principalmente em Ceilão, esse conhecimento foi mais difundido; mas também em Batávia se celebrou, até 1808, o serviço divino, em uma das igrejas em língua portuguesa. Sentiu-se em breve a necessidade de se possuir uma versão da Bíblia em português; porém, era preciso usar a língua com cuidado especial, pois a Companhia, desde o princípio, intentava contrariar as influências portuguesas, dado que era Portugal o seu mais perigoso adversário e concorrente no Arquipélago. Sob o ponto de vista político, era, assim, desejável expelir o português, mas isso não era possível em toda a parte, e os pastores sempre alegavam que, sendo o português a língua dos missionários e dos cristãos católicos, devíamos ensinar o Evangelho em português”.¹

¹ DUBBELDAM, De Gereformeerde Kerken; em Eduardo Moreira, O Defensor da Verdade, pp. 7–8.

Uma das causas principais dos atrasos na publicação das obras de Almeida foi, certamente, o ajustamento do seu trabalho à Statenvertaling holandesa (de 1618, 1632 ou de 1637), que exigia o resumo dos capítulos no início de cada um destes, assim como anotações marginais e outras.

A data tardia da publicação das obras de Almeida deve-se, pois, em grande parte, à oposição tenaz do governo holandês à língua portuguesa. Desse modo se explica que o Novo Testamento só tenha saído em 1681 e que o Antigo Testamento, que ele deixou quase pronto, só se tenha publicado em 1748 e 1753; e a 1.ª edição da Bíblia completa, apenas em 1819, ou seja, 66 anos depois do Antigo Testamento. Almeida trabalhara 47 anos no Oriente a divulgar a Bíblia na língua portuguesa. Por isso, não sem uma grande dose de exagero, Swellengrebel atreve-se a afirmar:

“É só lembrar que o seu nome talvez seja o nome português mais conhecido no mundo, porque, literalmente, dezenas de milhões das Escrituras têm circulado nas mãos dos leitores de língua portuguesa nos mais de três séculos, desde que o primeiro Novo Testamento apareceu em 1681”.

No entanto, o seu nome quase não aparece na literatura portuguesa. Este autor parece contradizer-se até, quando afirma que “as fontes portuguesas conhecem pouco de Almeida e este pouco foi ainda coberto com lendas e fantasias”, o que, aliás, era verdade, até ao presente estudo.

Capítulo V — Fontes do texto português de Almeida

Neste capítulo final do estudo da Bíblia de Almeida, a investigação orienta-se para a verificação do modo como o seu texto foi produzido. Fazêmo-lo a partir de quatro parâmetros ou possibilidades fundamentais:

a) Se é feita a partir dos originais (hebraico, aramaico e grego).

b) Ou é apenas uma tradução a partir das línguas vulgares, que Almeida conhecia.

c) Ou se a traduziu das línguas vulgares, mas cotejou o seu texto pelos originais, hebraico, aramaico e grego.

d) Que tipo de texto português resultou dessa tradução.

A tradução de um texto de uma língua para outra nunca foi tarefa fácil. Mas, na Bíblia, essa tarefa assume particular importância e gravidade. Trata-se de ser fiel, não apenas ao pensamento de um autor humano, mas à mensagem de Deus contida em palavras humanas. Este problema agrava-se ainda, se tivermos em conta as especiais circunstâncias históricas, culturais, linguísticas e outras, que são próprias dos textos originais da Bíblia. Traduzir as metáforas à letra, ou substituí-las por outras equivalentes nas línguas vulgares? Utilizar a paráfrase explicativa, ou deixar a linguagem concisa — eventualmente incompreensível — do texto bíblico?

A tarefa do tradutor da Bíblia reside, fundamentalmente, em tentar um difícil equilíbrio entre literalismo e paráfrase, de modo a conseguir, sobre o leitor de hoje, o mesmo efeito que causou o texto original sobre os primeiros leitores do texto bíblico. De uma boa tradução da Bíblia resulta a compreensão do texto inspirado e, desta compreensão, o efeito que o Espírito de Deus pode exercer sobre o leitor. Por outras palavras, a força e a amplitude da função informativa do texto bíblico está chamada a atingir, não apenas o âmbito humano, mas também e sobretudo, o âmbito da fé do leitor. Estas e muitas outras questões não são alheias a qualquer tradutor da Bíblia, e algumas delas foram certamente colocadas ao espírito do tradutor João Ferreira d’Almeida.

Uma primeira questão a colocar é a seguinte: Que estudos fez Almeida?

Antes de mais, interessa saber que estudos tinha feito Almeida sobre Teologia e Bíblia, que o capacitassem para uma boa tradução das línguas originais. A este propósito, sabemos que estudou em particular, embora devesse ter algum pastor que o orientasse nos seus estudos. É certo que nessa altura não havia um Seminário propriamente dito em Batávia, pois todos os pastores vinham da Holanda, com os estudos feitos e já ordenados pastores. Portanto, Almeida terá sido um aluno que estudou em privado, sem entrar num Seminário ou Faculdade de Teologia. No entanto, teve certamente o aconselhamento de algum pastor calvinista de Batávia.

Sabemos ainda que pediu livros várias vezes, e estes foram-lhe sempre concedidos. Isso denota que Almeida, para além da sua obrigação de estudar Teologia, deveria ter muita ânsia de saber. Isto leva-o a mostrar grande cultura nos seus escritos, sobretudo nas discussões com os padres católicos que viviam no Oriente.

Problema importante, para o qual não encontrámos qualquer resposta, é o do programa dos seus estudos de Teologia e de Bíblia. Ou seja, que disciplinas teológicas estudou Almeida, que o preparassem para tradutor da Bíblia?

A modo de resposta a estas questões, deixamos aqui um testemunho de Hallock/Swellengrebel, compreendendo-o no contexto apologético do seu próprio livro e tendo como pano de fundo o encontro informal de Almeida com Jerónimo de Sequeira:

“Almeida sempre estudou as Escrituras em profundidade (…). Conhecia os escritos e as ideias dos grandes líderes da Reforma. Mas era verdadeiro teólogo e autoridade em assuntos bíblicos (...). Nos seus encontros com líderes católicos, ele sempre vencia nos debates. Ele escreveu sobre o fundamento das doutrinas da igreja, e disse: ‘A Bíblia tem de si mesma bastantíssima autoridade e contém suficientissimamente em si toda a doctrina necessária para o culto e serviço de Deus e a nossa própria salvação’.”²

Questão fundamental é a de saber de que línguas traduziu Almeida a sua Bíblia. Uma análise do texto de Almeida, comparado com o de outras edições contemporâneas, mostra que o tradutor português se serviu da língua espanhola, holandesa, latina e, talvez, italiana. Quanto às línguas da Bíblia que conhecia, não é nada provável que soubesse o hebraico; o mesmo não se poderá dizer do grego que deveria saber, como ele próprio afirma em “Ao Discreto Leytor”.

Quanto ao modo de traduzir, diz-se que Almeida segue o critério da fidelidade ao texto original. Não se trata, porém, de uma questão simples: é necessário examinar a relação entre o texto português, as línguas bíblicas e as traduções que circulavam no seu tempo.

² A citação é apresentada pelo autor no contexto da discussão sobre os estudos de Almeida.

Quanto ao modo de traduzir, diz-se que Almeida segue o critério da fidelidade ao texto original. No entanto, além do hebraico e do grego, João Ferreira d’Almeida consultou Bíblias em línguas vulgares:

“Consultou as melhores Traducções, que então corrião, como taes, e mui particularmente a nova versão Hollandeza que se havia publicado em 1637, mandada fazer sobre o Texto Original pelo Pseudo-Synodo de Drodeck de 1618, em a qual se havião empregado grandes homens, e também a Castelhana de Cypriano de Valera de 1602. Seguio na sua composição as mesmas regras, que havia proposto aquelle Pseudo-Synodo a seus interpretes”,

como afirma Ribeiro dos Santos.

Esta fidelidade poderia definir-se como a fidelidade de Almeida ao texto original. No entanto, trata-se mais da fidelidade indirecta do que da fidelidade directa, ou seja, segue um texto em língua vulgar que foi traduzido directamente do texto original. Esta fidelidade de Almeida estava ainda constrangida pelas regras ou princípios de tradução emanadas do Sínodo de Dordrecht, utilizadas para a Bíblia holandesa de 1618–1619, e eram certamente estas em que insistiam os seus revisores:

  1. Não perder de vista o texto original.

  2. Sacrificar a elegância e harmonia da locução à fidelidade: seguindo o texto, palavra por palavra, transladando os mesmos termos e expressões, enquanto o permitia a clareza e propriedade da nossa língua.

  3. Para completar o sentido do texto, acrescentar o menor número possível de palavras, distinguindo-as com itálico ou parêntesis.

  4. Acrescentar lugares paralelos.

  5. Resumir o material dos capítulos, no início de cada um.

Ribeiro dos Santos diz que seguiram também estes princípios Cassiodoro de la Reyna, calvinista, e outros. O próprio Cassiodoro o confessa na sua Introdução à Bíblia del Oso:

“Conforme al prescrito de los antiguos concilios y doctores santos de la Iglesia, nos acercamos de la fuente del texto hebreo cuanto fuese posible (pues que sin controversia ninguna es la primera autoridad), lo cual hicimos siguiendo comúnmente la translación de Santes Pagnino, que al voto de todos los doctores en la lengua hebraica es tenida por la más pura que hasta ahora hay. En los lugares que tienen alguna dificultad, por pequeña que sea (…), hemos tenido recurso al mismo texto hebraico, y conferidos entre si los diversos pareceres, hemos usado de nuestra libertad de escoger lo que nos ha parecido más conveniente (…). De la vieja translación española del Viejo Testamento, impresa en Ferrara, nos habemos ayudado en semejantes necesidades más que de ninguna otra (…), por darnos la natural y primera significación de los vocablos hebreos y las diferencias de los tiempos de los verbos, como están en el mismo texto” (ib., p. 9). “Habémonos ayudado del juicio y doctrina ansí de los vivos como de los muertos, que en la obra nos han podido dar alguna ayuda, consultando las más versiones que hasta ahora hay y muchas veces los comentarios” (ib., p. 21).

Cassiodoro de Reyna segue o texto hebraico, tanto directa como indirectamente, mediante a tradução de Santes Pagnino e de Ferrara, apesar de também criticar esta, em aspectos em que a acha mal traduzida (ib., pp. 9–11). Foi certamente o que aconteceu com Almeida; só que este não era, certamente, tão versado em hebraico como Cassiodoro. Por isso, pensamos que a Bíblia holandesa foi para Almeida o que foi a de Pagnino e Ferrara para Cassiodoro; este seguiu a par e passo o texto original hebraico e grego, o que em Almeida poderá ter acontecido, mas do que temos sérias dúvidas, pelo menos, quanto ao hebraico.

Na edição de 1681, os revisores seguiram a edição espanhola de Cassiodoro de Reina. Nós, pelo contrário, acreditamos que, pelo menos, em algumas passagens, a edição de Trangambar preserva mais o sabor e estilo de Almeida.

Frequentemente deparamos com apreciações do português de Almeida referente às influências do holandês, por exemplo: “A sua tradução da Bíblia em português apresenta rico vocabulário, mas deficiente gramática, denotando a influência de certo servilismo ao original grego, que directamente traduzia, e a da língua do país em que vivia”.³

A comparação dos textos bíblicos, porém, levanta dúvidas quanto à hipótese de uma tradução inteiramente directa dos originais. O autor prossegue a análise das características linguísticas da tradução e da influência dos textos que Almeida poderia ter consultado.

Tudo indica que Almeida procurou seguir o texto original, traduzindo os seus aspectos formais, tanto no que se refere ao vocabulário, como na sua estrutura e demais aspectos gramaticais, sem especiais preocupações com os destinatários do texto. Isto, se é que ele traduziu dos originais.

É nisto que consiste a “fidelidade” ao texto original, em que insistem alguns analistas da Bíblia de Almeida. Trata-se de uma fidelidade que pode tornar-se, por vezes, “infiel” ao leitor do seu texto, tornando-o menos claro. No método da equivalência dinâmica o número de palavras é necessariamente maior; por outro lado, o tradutor não tem escrúpulos em eliminar certos termos e expressões de sabor semita, mesmo que já façam parte do seu património cultural e estejam vulgarizados no vocabulário bíblico e teológico.

Isto tem como consequência um certo literalismo. Este literalismo deve-se a uma prática universal e tradicional do tempo de Almeida e de todos os tradutores que vieram antes dele. Não podemos tão-pouco esquecer os princípios do sínodo de Dordrecht, que deram origem à Bíblia holandesa, que ele era “obrigado” a seguir. Segundo estes princípios, o conteúdo submetia-se à forma, ou seja, à filologia original, o que levava, por vezes, a sacrificar o próprio sentido do texto original.

Uma tradução ideal da Bíblia seria aquela em que o tradutor colocasse o autor de há dois ou três mil anos a pensar em português, seguindo os nossos padrões culturais e linguísticos. De outro modo, acontece o que bem exprime o tradicional provérbio italiano: “Tradutore, traditore”. Uma tradução será tanto mais perfeita quanto mais ponha em relevo o conteúdo da mensagem, e não a forma original da mesma, pois a Bíblia foi escrita para nos transmitir conteúdo, mensagem e não linguagem.

Ora, o que acabamos de dizer não acontece claramente na Bíblia de Almeida, devido aos métodos de tradução por ele seguidos. Outras traduções mais antigas tinham tal escrúpulo em seguir o texto original, que sacrificavam sistematicamente o próprio sentido do texto à sua configuração formal frásica.

A análise da tradução de João Ferreira d’Almeida transporta-nos ao ambiente do texto bíblico, mediante o método da correspondência formal, mais por motivos funcionais e pragmáticos do que por motivos de convicções; ou seja, a sua maneira literal de tradução da Bíblia não se deve tanto a princípios teológicos ou apologéticos, como à obediência a princípios tradicionais de tradução bíblica. O Estudo Comparativo de vários textos Bíblicos de que Almeida se terá servido mostra quanto acabamos de dizer.

³ Catálogo da Exposição de Bíblias, na Biblioteca Nacional de Lisboa, 1957, p. 23, n.º 102.

Portanto, quanto à tradução dos textos originais, ficámos com uma ideia menos positiva de Almeida. Queremos referir-nos, não tanto ao método — o da equivalência formal — que era o usado pelos protestantes da altura, mas quanto à utilização das línguas originais, sobretudo o hebraico. Não acreditamos que Almeida soubesse hebraico para traduzir directamente desta língua o Antigo Testamento. O que ele utilizou, certamente, foram diferentes Bíblias, sobretudo a holandesa e espanhola de Reina-Valera, talvez com o texto hebraico ao lado.

Quanto ao Novo Testamento, pensamos que estaria em condições para cotejar, pelo menos, o seu texto pelo grego. Já que estamos também a referir as sombras que encontrámos no nosso estudo, esta foi uma das nossas maiores desilusões, pois pensávamos que Almeida tinha traduzido o seu texto directamente dos originais. A comparação que efectuámos, colocando paralelamente alguns textos hebraicos, gregos, latinos e espanhóis não conseguiu vencer as nossas dúvidas sobre este assunto. E isto por um motivo fundamental: é que, se ele seguiu uma tradução moderna traduzida literalmente dos textos originais — como era de bom-tom no seu tempo — não é fácil detectar, hoje, se Almeida seguiu ou não o texto original.

Para concluir, deixamos aqui uma observação necessária a uma Bíblia traduzida há mais de três séculos, e que continua a ser publicada aos milhões: é o facto, normal, aliás, de ter sido de tal modo transformada, que o original de Almeida quase não se identifica com as edições actuais, todas elas atribuídas a ele. Além dos avatares normais de uma obra como esta, que sofreu necessárias revisões e correcções ao longo de todo este tempo, sabemos também que esta Bíblia, ainda durante a vida de Almeida, foi vítima de “maus-tratos”, por parte dos revisores holandeses.

O ponto mais negativo desta questão é o seguinte: depois de todas as revisões e correcções e, na falta de encontrar o seu manuscrito, ficamos sem saber onde encontrar o texto legítimo de Almeida, pois possuímos apenas o “Almeida corrigido” muitas vezes. Este facto inegável leva-nos a questionar, se não a legitimidade, pelo menos a oportunidade de continuar a editar um texto que tem uma história inigualável, mas que julgamos ter chegado ao fim.

Explicamos: se não sabemos, hoje, o que resta do texto legítimo de Almeida — depois de tantas revisões e adaptações — não será altura de as editoras que tradicionalmente o publicam procurarem outro texto? Isto não desdiz nada da importância histórica que teve a sua tradução e a sua pessoa.

Apraz-nos registar que uma das grandes novidades desta investigação foi a descoberta do Novo Testamento de 1681, que estava “perdido” na Biblioteca Nacional de Lisboa, pois em nenhuma bibliografia, nacional ou estrangeira, constava a sua existência em Lisboa. Aqui aparecia mal registado, não propriamente por incompetência do catalogador, mas porque este não conhecia o contexto histórico desta preciosa obra, única no mundo. Por isso, escreveu na ficha, como data: “17- -”. E dizemos única no mundo, porque desfizemos, de uma vez por todas, o autêntico mito do Novo Testamento de Londres “corrigido à mão por Almeida”. O Novo Testamento que quase sempre se citou na literatura portuguesa e estrangeira foi este último, e muita literatura pouco séria dizia que esse, sim, estava corrigido à mão como uma autêntica relíquia guardada no British Museum.

Ora, o que acontece é que a relíquia está em Lisboa e não em Londres. A edição de Londres foi, de facto, preparada para ser corrigida à mão, mas, de correcções à mão, nem rastos nem sinais. Assim, denunciou-se um erro, demasiadamente propagandeado, e revelou-se uma verdade há muito tempo escondida. Assim, Portugal pode orgulhar-se de possuir o único exemplar do mundo corrigido por Almeida, a menos que se encontre um outro, o que não acreditamos aconteça facilmente.

No Catálogo, se mostra que a tradução deste autor português nunca mais deixou de sair da imprensa, desde que o seu Novo Testamento saiu da tipografia, no longínquo ano de 1681. Hoje continua a ser editado, não apenas o Novo Testamento, mas toda a sua Bíblia aos milhões cada ano, sobretudo no maior país de língua portuguesa, o Brasil.

Encontramos neste catálogo 1763 edições bíblicas de Almeida, isto é:

  • 784 de Bíblias;

  • 130 do Antigo Testamento e suas partes;

  • 368 do Novo Testamento;

  • 77 do Evangelho de Mateus;

  • 95 do Evangelho de Marcos;

  • 92 do Evangelho de Lucas;

  • 129 do Evangelho de João;

  • 26 dos Actos dos Apóstolos;

  • 12 dos Evangelhos e Actos;

  • 28 das Cartas de Paulo;

  • 123 das Cartas Católicas e Apocalipse.

Se considerarmos que estas edições somam um total de 110.280.641 milhões de exemplares e que apenas encontrámos contabilizada uma pequena parte dos exemplares, poderíamos calcular, sem exagero, que as obras bíblicas de Almeida atingiram, até 2005, um total de uns 150 milhões de exemplares. Este impressionante número de edições faz de Almeida o maior escritor de língua portuguesa — pelo menos no que se refere à quantidade de edições e de exemplares editados. Esta foi uma das grandes descobertas desta investigação: encontrou-se a obra mais editada em língua portuguesa.

Nesta obra explicamos as circunstâncias históricas, geográficas, religiosas, políticas e outras, que explicam tão grande êxito. Um êxito que continua a manifestar-se, ainda hoje, pela presença, em todas as partes do mundo, de uma Bíblia nascida na longínqua Batávia do séc. XVII.

Consideração final destacada no artigo

O impressionante número de edições faz de Almeida o maior escritor de língua portuguesa — pelo menos no que se refere à quantidade de edições e de exemplares editados. Esta foi uma das grandes descobertas desta investigação: encontrou-se a obra mais editada em língua portuguesa.

Uma das grandes novidades desta investigação foi a descoberta do Novo Testamento de 1681, que estava “perdido” na Biblioteca Nacional de Lisboa, pois em nenhuma bibliografia, nacional ou estrangeira, constava a sua existência em Lisboa. Aqui aparecia mal registado, porque este não conhecia o contexto histórico desta preciosa obra, única no mundo. Por isso, escreveu na ficha, como data: “17- -”. E dizemos única no mundo, porque desfizemos, de uma vez por todas, o autêntico mito do “Novo Testamento de Londres corrigido à mão por Almeida”. O Novo Testamento que quase sempre se citou na literatura portuguesa e estrangeira foi este último, e muita literatura pouco séria dizia que esse, sim, estava corrigido à mão como uma autêntica relíquia guardada no British Museum. Ora, o que acontece é que a relíquia está em Lisboa e não em Londres.

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Fonte: ALVES, Herculano. A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida. Revista Lusófona de Ciência das Religiões, ano V, n. 9/10, p. 289–302, 2006.