Bispos debatem violência, Bíblia e direitos humanos na Argentina
Aluízio Machado — Enviado especial
Revista denuncia ação da esquerda
Buenos Aires — A revista Cabildo, dirigida por um setor católico de direita, denunciou o Governo por fim à hipocrisia diplomática e admitir que na Argentina existem violações dos direitos humanos, que são inevitáveis.
Chegou o momento em que o discutido tema dos direitos humanos deve ser denunciado por nosso convívio de uma vasta e dada sutil ação da esquerda internacional contra a estabilidade do Governo militar”, afirma a revista em seu editorial.
Três condições
Assinado pelo diretor, Ricardo Curutchet, um conhecido nacionalista de direita, Cabildo, que chegou a ser fechada durante o Governo peronista, afirma que “para fazer esta denúncia e passar à contra-ofensiva necessária são indispensáveis três condições: realismo, franqueza e valor moral”.
“A primeira”, prossegue, “para declarar que a Nação está em estado de guerra interna e encarar essa convicção como conduta do Estado; a segunda, para reconhecer que essas violações dos direitos humanos existem e são frutos, lamentavelmente inevitáveis, de uma situação não aceita nem promovida pela sociedade argentina; e a terceira: para enfrentar as consequências desta atitude, quaisquer que sejam elas. Por exemplo: um crédito oferecido em condições políticas, um campeonato de futebol ou entrar na imagem do país no exterior”.
Na mesma edição em que elogia Monsenhor Lefebvre, o Bispo francês tradicionalista, qualificando de “santa e consoladora desobediência sua luta contra o Papa Paulo VI”, Cabildo recomenda no editorial: “Basta de falsos legalismos. Basta de hipocrisias diplomáticas. Basta de disputas aos convencionalismos suicidas. Basta de colocar a honra argentina, em um prato da balança comercial”.
Maria Estela tem prisão preventiva
Buenos Aires — A ex-Presidente Maria Estela Martinez de Peron teve decretada sua prisão preventiva por delitos de associação ilícita e defraudações reiteradas. O Juiz federal Tulio Garcia Moritan decretou também o embargo de seus bens até 100 milhões de pesos (Cr$ 4 milhões e 800 mil).
Da mesma forma e pelos mesmos delitos o Juiz pediu prisão preventiva para o ex-Ministro José Lopez Rega, seu genro, Raul Lastiri, ex-Presidente da Câmara dos Deputados, e sua filha, Norma Beatriz Lopez. Lastiri e Norma estão detidos numa prisão militar. Lopez Rega está sendo procurado em diversos países que têm tratado de extradição com a Argentina, e Maria Estela encontra-se na residência do Governo na província de Neuquen, sob prisão domiciliar.
Inimigo errado
Buenos Aires — A chamada Bíblia Pastoral para a América Latina, ou Bíblia Latino-Americana, coordenada pelos setores conservadores da Igreja, que veem nela certos aspectos de índole marxista, mas recomendada pelos grupos conhecidos como progressistas, será um dos temas mais importantes da agenda da Conferência do Episcopado argentino, que começou ontem em San Miguel, província de Buenos Aires.
Além deste tema, que ganhou conotação política com a intervenção recente do Governador de Buenos Aires, outros assuntos igualmente delicados serão tratados: a violência, a subversão, os direitos humanos, situação econômica, casos de sacerdotes desaparecidos, detidos ou mortos, apelo aos sacerdotes para localização de pessoas desaparecidas. A Conferência terminará no sábado, quando deverá ser divulgado um comunicado sobre as decisões.
Como tema de debate, a Bíblia Latino-Americana ganhou mais importância com a recente intervenção pública do Governador da Província de Buenos Aires, General (reformado) Ibérico Saint Jean, em discurso pronunciado para uma selecionada platéia de empresários reunidos no último almoço mensal do Instituto para o Desenvolvimento de Executivos da Argentina.
Nesse discurso em que, entre outras coisas, afirmou que “somente vivendo fora da realidade pode-se conceber que ali ainda existam empresários que apoiam economicamente publicações, fundações, organizações ou programas dissolventes”, o General Saint Jean advertiu que “essa Bíblia e evangelhos liberadores de produtos de teólogos marxistas são utilizados por alguns estabelecimentos aos quais muitos de vocês (empresários) pagam para que eduquem seus filhos”.
O discurso provocou reações diferentes em dois importantes jornais de Buenos Aires: La Nación, que o aprovou totalmente, num pequeno editorial, e La Opinion, que pôs em causa as teses nele defendidas, chegando a publicar um artigo de seu influente diretor, Jacobo Timerman.
Para La Nación, “o Governador disse com franqueza algumas verdades cujos destinatários foram precisamente os homens que se sentaram a seu lado e a tese do discurso foi a necessidade de se tomar partido em relação ao mais grave problema do nosso tempo: portanto, não pode haver mais meias tintas”.
Para Timerman, entretanto, a intervenção do Governador — “o primeiro funcionário que entra na polêmica” — reveste “um perigo maior na criação de inimigos artificiais” do processo que se desenvolve atualmente no país.
Ressaltando que “é discutível o direito de qualquer pessoa entrar na discussão, no momento em que o Episcopado prepara-se para examinar o problema do seu ponto-de-vista natural”, adverte o diretor de La Opinion que “não se pode admitir que um membro importante do Governo, como o é o Governador de Buenos Aires, transgrida normas que outros membros do Poder Executivo cuidaram de respeitar”.
“Buscar adeptos e inimigos num debate em que os bispos ainda não chegaram a um acordo e pretender defini-los — acrescentou —, mais uma vez, é sumar a identidade do verdadeiro inimigo”.
Assim, o tema que até agora dizia respeito apenas aos chefes religiosos, que devem encaminhá-lo certamente a Roma, ganhou conotações políticas. Numa crítica anterior, um articulista de La Opinion perguntava: “Em que situação Saint Jean deixaria o Governo se a Conferência dos Bispos resolver finalmente aprovar essa Bíblia?”
Fotos criticadas
Saint Jean tem seus partidários entre os Bispos. A obra, já com quase 1 milhão de exemplares distribuídos em toda América Latina, tem sido criticada não tanto por suas sagradas escrituras como por suas notas e comentários nas quais os Bispos conservadores veem o dedo do marxismo que o regime argentino se propôs eliminar como tarefa prioritária.
O Arcebispo de La Plata, Monsenhor Antonio Plaza, por exemplo, afirma que a Bíblia teria sido elaborada em sua forma atual para obter a permissão de circular em Cuba em 1974. Num recente depoimento à revista Gente, de Buenos Aires, Monsenhor Antonio Plaza disse que a edição de 1972 era normal, mas a de 1974 contém dados corrigidos por Fidel Castro, como certos textos e fotografias “tendenciosas”. O grupo de religiosos que fizeram o pedido ao Premier cubano concordou, por considerar que essa seria a única forma da Bíblia entrar no país.
Impressa no Chile, a Bíblia Latino-Americana tem sua distribuição a cargo das Edições Paulinas, empresa católica com sede em Roma, cuja filial na Argentina foi recentemente fechada por determinação governamental, assim como a Edições Claretianas, também fechada (este será outro tema da conferência).
O que mais chama a atenção de seus críticos são uma fotografia de um comício em Havana em que aparecem, num grande painel, um guerrilheiro empunhando uma metralhadora, uma bandeira com a inscrição “Viva nossa Revolução Socialista” e, no meio da multidão, um retrato de Lênin com uma bandeira com a foice e o martelo. Uma outra foto de uma Avenida de Nova Iorque tem a legenda: “Vem que vou te mostrar a cidade grande. Com ela todos se prostituiram.”
Na opinião de Monsenhor Antonio Plaza, “essa Bíblia foi inventada por Fidel Castro para se promover através dela. Não a proíbo, mas a desaconselho. Sua existência não significa nenhuma melhoria em Cuba, que é um cárcere”.
Já o Arcebispo de Neuquen, Monsenhor Jaime Francisco de Nevares, defendeu a obra em recente homilia, na qual afirmou que sua diocese recomenda sua leitura. “Enquanto o Papa — única pessoa que pode fazê-lo — não disser o contrário, a Bíblia Latino-Americana será por mim recomendada, calorosamente”, assegura ele.
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Fonte: Jornal do Brasil, 26 de outubro de 1976, Rio de Janeiro, p.12.
