Edição da Bíblia vai ser revisada
Bispos consideram notas de rodapé políticas demais
José Maria Mayrink
SÃO PAULO — A Comissão Episcopal de Doutrina da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) determinou aos organizadores da Bíblia Sagrada — Edição Pastoral que façam uma revisão dos comentários de rodapé, considerados “inaceitáveis” por alguns bispos, pela ênfase dada ao aspecto social, político e econômico, em prejuízo do sentido histórico e religioso. A decisão, que ainda não chegou às mãos dos padres paulinos, donos das Edições Paulinas e responsáveis pelo texto, foi confirmada pelo secretário-geral da CNBB, Dom Celso Queiroz. Segundo ele, as alterações recomendadas não se estendem à tradução, limitando-se às notas explicativas.
“A tradução é boa e não precisa ser mexida, mas as notas e comentários, que salientam uma preocupação social, serão revistos para apresentar uma abertura maior”, disse Dom Celso, juntando sua opinião pessoal à recomendação da Comissão Episcopal de Doutrina. A intervenção da CNBB é consequência da reunião que bispos e cardeais brasileiros tiveram, no dia 8 de março, com membros da Cúria Romana, no Vaticano, na presença do papa João Paulo II. A questão da Bíblia Pastoral, nome com o qual se popularizou a edição, foi levantada durante a reunião, mas o papa não interveio na discussão.
Simples e direto — Lançada em março do ano passado, a Bíblia Pastoral já vendeu mais de 150 mil exemplares, segundo o padre Manoel Quinta, diretor-geral das Edições Paulinas, com boa aceitação entre as comunidades eclesiais de base e movimentos populares. Os tradutores optaram por um texto simples e direto.
“Nossa intenção foi simplificar o vocabulário ao máximo, para tornar compreensível em nossa cultura uma linguagem que não é fácil traduzir”, observa o diretor editorial, padre José Bortolini. Ele discorda da interpretação de que o texto da Bíblia Pastoral seja unilateral, com ênfase nos aspectos social, político e econômico, “pois não falta a visão religiosa e histórica”. Segundo Bortolini, quem critica a tradução e os comentários de rodapé não deve ter lido com atenção o texto completo.
Os maiores críticos da edição foram Dom Eugênio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, e Dom João Evangelista Martins Terra, bispo auxiliar de Olinda e Recife. Os dois chamaram a atenção para o que consideraram uma interpretação excessivamente política e social da Bíblia, com a publicação de notas, comentários e vocabulários inaceitáveis. “A CNBB já tomou providências, mas o mal realizado ainda perdura”, escreveu o cardeal, em artigo publicado no último dia 16 no JORNAL DO BRASIL.
O bispo da diocese fluminense de Itaguaí, Dom Vital Wilderink, que deu o imprimatur (aprovação eclesiástica) para a Bíblia Pastoral, preferiu não comentar ontem a decisão da Comissão Episcopal de Doutrina, mas deu sua opinião pessoal sobre o texto publicado nas quatro edições já lançadas. “Pode ser que, na visão de alguns leitores, não se tenha acentuado a dimensão espiritual, mas não acho que tenha havido um reducionismo ao social, como algumas pessoas sugerem”, disse o bispo. “Se houve a impressão de reducionismo, certamente não foi essa a intenção dos editores”, acrescentou. Segundo Dom Wilderink, responsável pela Linha 3 (catequese) da CNBB, não parece que “a Bíblia Pastoral induza a erros”.
Cristo em português — O diretor editorial, padre José Bortolini, informa que a equipe das Edições Paulinas está disposta a fazer as correções e alterações que forem necessárias, se for apontado o que se deve mudar. “Queremos saber o que, onde, como e por que alterar”, observa ele, à espera de sugestões. “Se há alguma coisa, que digam onde ela está”, insiste Bortolini. Ontem, ele tentou entrar em contato com o presidente da CNBB, Dom Luciano Mendes de Almeida, mas não conseguiu saber se a decisão tomada pela Comissão Episcopal de Doutrina já foi enviada à editora.
“Apesar de algumas críticas, o que mais temos notado é que a Bíblia Pastoral vem contribuindo para aumentar a espiritualidade nas comunidades cristãs”, observou. Como prova dessa contribuição, ele cita o testemunho de um leigo de São Sebastião, no litoral paulista. “Ele escreveu que nessa edição Nosso Senhor Jesus Cristo está falando português”, conta Bortolini. A tradução, feita a partir de textos originais em aramaico, hebraico e grego, exigiu seis anos de trabalho.
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Fonte: Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 de março de 1991, p. 8.
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