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Frei Gorgulho: Um Evangelizador (2014)

 




Frei Gorgulho: Um Evangelizador
Ana Flora Anderson 


Resumo

Este artigo apresenta um resumo biográfico sobre Frei Gilberto da Silva Gorgulho. Frei Gorgulho estudou filosofia com os dominicanos no Brasil e, posteriormente, rumou para Toulouse, França, onde fez estudos teológicos na graduação e pós-graduação. Na École Biblique et Archéologique de Jérusalem fez sua pós-graduação. Em São Paulo lecionou na Escola Dominicana de Teologia, na Faculdade Nossa Senhora da Assunção, no Instituto Pio XI e na PUC-SP, onde atuou no Departamento de Ciências da Religião. Foi assessor teológico do Cardeal Paulo Evaristo Arns, por ocasião dos Sínodos dos Bispos, em Roma, bem como nas conferências da Igreja Católica, organizadas pelo Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), em Puebla e Santo Domingo. Em companhia do Cardeal Paulo Evaristo Arns, atuou na defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar. Programou e coordenou um vasto programa para a formação de ministros da palavra, envolvendo milhares de pessoas na Arquidiocese de São Paulo.

Palavras chaves: Bíblia. Direitos humanos. Comunidade de base.

Abstract

This article presents a biographical resumé about Friar Gilberto da Silva Gorgulho. He studied philosophy with the Dominicans in Brazil and did his undergraduate and graduate studies in theology in Toulouse, France. He did more graduate studies at the École Biblique et Archeologique in Jerusalem. Friar Gorgulho taught at the Dominican School of Theology, the school of theology Nossa Senhora da Assunção, the Instituto Pio XI and at PUC-SP in the Department of Ciências da Religião. He was Cardinal Paulo Evaristo Arns theological advisor at the Celam meetings in Puebla and Santo Domingo and at the Synods in Rome. They worked together in defense of human rights during the military dictatorship and in a vast program for the formation of ministers of the word that reached several thousand people in the Archdiocese of São Paulo.

Keywords: Bible. Human rights. Community-base.

O evangelizador

Gilberto da Silva Gorgulho nasceu nas altas colinas do sul de Minas Gerais, na cidade de Cristina, no dia 9 de julho de 1933. Foi caçula numa família de doze irmãos. Com doze anos ele ingressou no Seminário Menor, em Campanha, onde concluiu o ensino médio. Em seguida estudou em Mariana. Foi nesse tempo que ele assistiu a uma palestra de Frei Estevão Cardoso de Avelar sobre a vida intelectual dos dominicanos. Atraído por uma vida de estudo, com 19 anos, Gilberto entrou na Ordem dos Pregadores (OP) e Frei Estevão o agraciou com o nome de Luis Bertrando!

Concluída a Filosofia, Frei Gorgulho foi estudar a Teologia em Saint Maximin, no sul da França. Ele sempre gostava de brincar dizendo que estudou anos ao lado de Maria Madalena, pois a lenda diz que ela foi enterrada em Saint Maximin! Fez Mestrado em Toulouse e, em seguida, estudou na École Biblique et Archéologique de Jerusalém e na Universidade Santo Tomás de Aquino, em Roma.

Frei Gorgulho voltou ao Brasil no fim de 1960 e no ano seguinte começou a lecionar na Escola Dominicana de Teologia e depois no Seminário Central do Estado de São Paulo, no bairro do Ipiranga. Com o advento do Concílio Vaticano II e, na busca de renovação teológica e pastoral, surgiram vários Institutos Teológicos. Frei Gorgulho soube dividir bem o tempo e colaborou no IFT, ISPAC e ISPAL. Publicou vários artigos de exegese em revistas especializadas em português e em francês.

No final do Concílio, o Cardeal Dom Agnelo Rossi, então Arcebispo de São Paulo, cuidou para que os documentos conciliares chegassem às bases da Igreja. Para tanto, escolheu um padre para coordenador de grupos de estudo sobre cada documento conciliar. Ele pretendia que o coordenador formasse uma equipe para estudar e divulgar um documento e, depois, pudesse aplicá-lo à vida da Igreja em São Paulo. Para o documento sobre a Palavra de Deus – Dei Verbum – Dom Agnelo escolheu Frei Gorgulho. Ele, Frei Carlos Mesters e eu, juntamente com outros padres e leigos, fizemos um programa de difusão deste documento em toda a Arquidiocese. Em vista deste trabalho, Dom Agnelo nomeou frei Gorgulho para o Conselho dos Presbíteros.

Essa aproximação com os sacerdotes da Arquidiocese foi providencial. Pois, quando os estudantes dominicanos foram presos, em novembro de 1969, pela repressão militar, Frei Gorgulho pediu ajuda de Dom Agnelo para localizá-los. Dom Paulo Evaristo Arns, então bispo auxiliar na região Norte, da capital, se prontificou para ajudar a encontrá-los e a protegê-los, na medida do possível. Eis o início de uma longa e tenaz luta desses dois evangelizadores – Dom Paulo e Frei Gorgulho – em defesa dos Direitos Humanos.

Nesta mesma época começou um tempo de graça para a evangelização na cidade. O Papa Paulo VI havia escrito várias cartas sobre a importância dos ministérios dos leigos. Surgiu o apelo para formar Ministros da Palavra. Dom Paulo, ainda na Região Norte, iniciou um trabalho de evangelização e convidou a Frei Gorgulho e a mim para coordená-lo. Na primeira equipe, ainda na Região Norte, havia umas 20 pessoas, padres e religiosas, leigos casados e consagrados, junto com jovens da Pastoral da Juventude.

Um ano depois, quando Dom Paulo foi nomeado Arcebispo, este trabalho foi estendido a cada uma das oito regiões episcopais. Na visão de Dom Paulo, Frei Gorgulho e eu prepararíamos as equipes de cada região. Estas, por sua vez, formavam outras equipes nas suas respectivas regiões. Depois, este grupo pregava nos setores, e quem participava no setor pregava nas paróquias. Os paroquianos, por sua vez, pregavam nas suas vizinhanças completando assim a dinâmica da transmissão da Palavra de Deus. Como resultado de todo esse trabalho articulado, participativo e constantemente avaliado, em pouco tempo, vimos se espalharem, por toda Arquidiocese, as Comunidades de Base.

Para facilitar o estudo nestas comunidades, Frei Gorgulho traduziu os quatro evangelhos numa linguagem que ele descrevia como “perto do povo e perto do grego!” Os colegas da época brincavam dizendo: “Aqui vem o padre, perto do povo e perto do grego!”

Durante 40 anos, Frei Gorgulho escrevia artigos e colunas no jornal da arquidiocese O São Paulo e preparava comentários bíblicos para o programa radiofônico de Dom Paulo. Algumas dessas séries foram reunidas em livro, como por exemplo as Mulheres da Bíblia.

Em 1974 Dom Paulo levou esta experiência para o Sínodo dos Bispos sobre a evangelização, do qual nasceu o documento Evangelii Nuntiandi. Frei Gorgulho acompanhou Dom Paulo e foi seu assessor e colaborador direto.

Frei Gorgulho era Presidente do Conselho dos Presbíteros que reunia padres de todas as oito regiões da Arquidiocese. Durante a ditadura militar, houve ocasiões em que Dom Paulo o convocava diariamente para reuniões onde refletiam e tomavam decisões sobre o rumo da Pastoral da Cidade e em defesa de muitas pessoas que corriam risco de vida por causa da repressão.

Recordo que um dos momentos mais difíceis na vida pastoral de frei Gorgulho foi a morte violenta do operário Santo Dias da Silva, no dia 30 de outubro, de 1979. A Polícia Militar havia invadido as Subsedes do Sindicato dos Metalúrgicos, no dia 28. O Comando de Greve passou a se reunir na Capela do Socorro. Como líder do movimento, Santo Dias deixou a Capela e foi até a fábrica Sylvânia para conversar com seus companheiros, que formavam o turno da tarde. Chegam viaturas da Polícia Militar e Santo Dias começou a dialogar com os policiais sobre os sindicalistas presos. No momento da conversa, Santo Dias foi alvejado, pelas costas. Sua morte marcou profundamente a vida e a produção bíblico-teológica de frei Gorgulho. Santo Dias havia colaborado conosco na formação de ministros da palavra na região Santo Amaro. Assistimos sua primeira pregação, quando, diante dos membros da comunidade, falou sobre o significado do Pai-nosso. Creio ser relevante acentuar este triste episódio na vida da Igreja de São Paulo.

O funeral de Santo Dias foi marcado pela presença de mais de 30 mil pessoas. Na saída de seu enterro houve muita confusão, com a tentativa do Sindicato dos Metalúrgicos de se apoderar do caixão durante a procissão que ia da igreja da Consolação até a Catedral. Dom Paulo designou Frei Gorgulho e padre Pedro Curran como guardiões do corpo, escalando, um de cada lado do esquife, durante todo o cortejo. A multidão, formando uma enorme procissão, ocupou as ruas centrais da cidade. Aos brados, numa só voz, repetiam insistentemente: Santo Dias vive! Ele está aqui conosco!

Frei Gorgulho jamais esqueceu a morte do amigo Santo Dias. Lembrava, com frequência do fato nos inúmeros cursos e formação, palestras que amiúde realizamos. Hoje, percebo o quanto marcou seu modo de refletir sobre a vida e sobre a morte, a experiência vivida naqueles anos em que a “Igreja era a voz daqueles que não tinham vez nem voz”. Penso que a condição da morte e a vigilância do caixão com o corpo do operário Santo Dias marcaram profundamente a alma de Frei Gorgulho. Quando escrevemos o comentário sobre o evangelho de Mateus – a justiça dos pobres¹, Frei Gorgulho escreveu a seguinte dedicatória: Em memória de Santo Dias da Silva, que entregou a sua vida pela justiça do reino de Deus.

Em 1980, depois de ter participado da Terceira Conferência do Episcopado Latino-Americano em Puebla (1979), em companhia do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, Frei Gorgulho ajudou a organizar em São Paulo o IV Congresso Internacional Ecumênico de Teologia, promovido pela Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo (AETTM), entre os dias 20 de fevereiro ao dia 2 de março. Recordo que nessa ocasião reuníamos, à noite, nas dependências da PUC-SP, mais de 3.000 pessoas de toda a cidade de São Paulo.

Durante o Congresso, junto com Frei Carlos Mesters, formamos um grupo de biblistas. Organizamos encontros periódicos, uma vez ao ano, em Angra dos Reis, no Convento dos Carmelitas. A cada ano estudávamos um livro da Bíblia. Como resultado desses frutuosos encontros foi publicado a série Comentário Bíblico e, pouco tempo depois, surgiu a revista Estudos Bíblicos. Em 1984, junto com Frei Carlos Mesters, Milton Schwantes e eu, iniciamos o curso de pós-graduação em Sagrada Escritura na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção.

Entre 1975 e 1985, Frei Gorgulho orientou a tradução para a língua portuguesa da Bíblia de Jerusalém. Para tão grande empreitada, soube com maestria reunir um grupo ecumênico de exegetas. O resultado deste trabalho é reconhecido até hoje. Ao mesmo tempo, trabalhou com a equipe de Paulo Freire, produzindo breves subsídios e slides sobre quatro parábolas do evangelho, no desejo de fomentar o trabalho de conscientização política e eclesial.

Dono de uma inteligência singular, Frei Gorgulho sabia conciliar, com maestria, os anseios de transformação oriundos da caminhada das Comunidades de Base, da vida do povo com as grandes teses que vigoravam nas Academias. Por inúmeros anos foi convidado a ministrar cursos na Escola de Verão em Maryknoll, Nova York. A Igreja Católica da Inglaterra, por sua vez, o convidou para ministrar cursos, sempre nos finais de semana, em cinco regiões do país. Os cursos serviram para motivar os participantes a intensificarem o espírito de ajuda mútua entre Igrejas do Norte e do Sul. Em 1984, foi também para Navan, Irlanda, onde ministrou, em uma semana de trabalho, conferências sobre Fé e Justiça no mundo.

Em 1998, aceitou o convite da Universidade de Dallas para participar do International Bible Commentary, que então se organizava. No conjunto da obra, Frei Gorgulho escreveu os comentários sobre o Livro do profeta Joel e o livro dos Provérbios. O trabalho teve sua publicação em holandês e em espanhol.

Desde 1961, quando voltou de seus estudos para São Paulo, seu desejo foi sempre promover os alunos e professores que estudavam com ele. Incentivava e encorajava de modo prático alunos e alunas a enfrentarem o estudo da Sagrada Escritura. Possuía uma maneira toda particular de animar as pessoas para se tornarem multiplicadores da palavra na evangelização. Creio que nisso esteve o coração de sua vida ministerial. Não se tratava tanto de realizar, mas de ajudar os outros a realizarem. Ele era conhecido e respeitado nas Faculdades de Teologia por sua competência intelectual, enquanto que entre os mais pobres era estimado como o padre de coração generoso.

¹ GORGULHO, Gilberto; ANDERSON, Ana Flora. A justiça dos pobres: Mateus. São Paulo, Paulinas, 1981.

Referência: ANDERSON, Ana Flora. “Frei Gorgulho: um evangelizador”. Estudos Bíblicos, vol. 31, n. 123, p. 243–247, jul./set. 2014. ISSN 1676-4951.


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Fonte: Estudos Bíblicos, vol. 31, n. 123, p. 243-247, jul/set 2014