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Governo argentino fecha duas editoras católicas (1976)

 


Governo argentino fecha duas editoras católicas

Buenos Aires — O Governo argentino decretou o fechamento de duas editoras dependentes de ordens religiosas católicas, Claretiana e Edições Paulinas, por “realizarem uma atividade de difusão ideológica destinada a provocar a desagregação social”, mediante a distribuição da revista Opulência e Miséria.

Ambas as editoras pertencem a ordens cujas matrizes são sediadas na Itália. Edições Paulinas depende do ramo masculino da Pia Sociedade de São Paulo, dedicada ao apostolado nos meios de comunicação social, e a distribuidora Claretiana, da Ordem dos Missionários Claretianos, há décadas atuando na Argentina.

ELEMENTOS DE ATRITO

Opulência e Miséria, da coleção Protesta, revista mensal, tira 100 mil exemplares, impressos na Venezuela. As duas editoras fechadas são também responsáveis pela distribuição das revistas Cristina, para jovens, com 5 mil exemplares por mês, e Família Cristã, que aborda temas gerais, com 100 mil exemplares, também impressos na Venezuela.

Edições Paulinas distribui na Argentina a Bíblia Pastoral para a América Latina, impressa no Chile, que desde 1972 até hoje atingiu 10 edições com mais de 800 mil exemplares, e cujo conteúdo provocou manifestações de protestos dos setores conservadores da Igreja Católica argentina, que o considera esquerdista e até marxista em alguns aspectos.

O decreto sobre o fechamento das duas editoras diz que “da análise da publicação intitulada Opulência e Miséria nº 31, adverte-se que seu conteúdo e intencionalidade ajudam a manter e a agravar as causas que determinaram a implantação do estado de sítio”, e que “a reiteração dessas publicações em forma de cadernos (...) introduz elementos de atrito que não se coadunam com os valores essenciais do ser argentino nem contribuem para alcançar os objetivos básicos fixados na nota sobre o processo de reorganização nacional”.

Além do fechamento das editoras, o decreto proíbe a venda e a circulação de Opulência e Miséria, bem como o sequestro de todos os exemplares.

A decisão governamental provocou surpresa entre vários padres e bispos argentinos, que ressaltam o fato de faltarem poucos dias para o início da instalação da Conferência Nacional dos Bispos da Argentina, marcado para o próximo dia 25, e se espera que a questão seja levantada em plenário.

A iniciativa do Governo parece ter-se originado nos protestos públicos do Bispo de San Juan, Dom Ildefonso Sansierra, e o Arcebispo do Paraná, Dom Adolfo Tortolo, também Capelão, contra o conteúdo da Bíblia Latino-Americana, distribuída pelas Edições Paulinas. Sansierra qualificou a obra de “marxista” e proibiu sua circulação entre seus fiéis, exemplo seguido por Tortolo.

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Fonte: Jornal do Brasil, Ano LXXXVI, nº 188,13 de outubro de 1976, Rio de Janeiro, p.9.