O dominicano Marie-Joseph Lagrange, fundador da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, é considerado um dos principais fundadores da exegese católica moderna. Sua obra teve o mérito de devolver ao pensamento católico sobre a Bíblia o direito de cidadania no mundo acadêmico e fez com que ele ainda hoje seja respeitado muito além dos meios cristãos.
## No século XIX, a fé diante do desafio das ciências modernas
Como acontece frequentemente nas grandes obras, tudo começa com um desafio. Nascido em Bourg-en-Bresse em 1855, Lagrange iniciou seus estudos clássicos em Autun antes de preparar, em Paris, um doutorado em Direito. Proveniente de um ambiente católico, ingressou na Ordem dos Dominicanos depois de uma breve passagem pelo seminário de Issy-les-Moulineaux. A maior parte de sua formação religiosa ocorreu em Salamanca, na Espanha, onde recebeu uma sólida formação tomista. Ali demonstrou particular interesse pela Bíblia e pelas línguas antigas. Isso lhe valeu ser enviado a Viena, em 1888, para estudar línguas semíticas (siríaco, assírio, egípcio hieroglífico e hierático).
Ali tomou consciência do enorme desafio representado pelos progressos realizados pelas modernas ciências históricas. Desde a decifração da antiga língua egípcia por Champollion, em 1822, e a descoberta, em meados do século XIX, da civilização e das línguas mesopotâmicas, já não era possível contentar-se com uma leitura ingênua e literal da Bíblia, cuja cronologia estava sendo radicalmente questionada. Estava-se então em pleno positivismo, e era grande a tentação, sobretudo entre os protestantes, fundadores da arqueologia bíblica, de procurar verificar *in situ* se a Bíblia dizia ou não a verdade.
O questionamento era radical e levaria estudiosos como Ernest Renan (1823–1892), professor de hebraico no Collège de France, a rejeitar, em sua obra *Vida de Jesus* (1863), o ensinamento católico tradicional. Esse questionamento, promovido pelo protestantismo liberal, atingiria também os meios católicos, como demonstra o caso do abade Alfred Loisy (1857–1940), professor do Instituto Católico de Paris, provocando um verdadeiro terremoto que viria a ser chamado de “crise modernista”.
## A intuição fundadora: aproximar o documento e o monumento
Nesse contexto conturbado, Lagrange foi enviado a Jerusalém por seus superiores dominicanos, de acordo com o papa Leão XIII, para fundar uma Escola Prática de Estudos Bíblicos, inspirada no modelo da Escola Prática de Altos Estudos, fundada em Paris em 1868 por Victor Duruy. Ele não dispunha dos meios para fundar uma verdadeira universidade. Em contrapartida, desejava constituir uma equipe de pesquisadores, apaixonados como ele pela Bíblia e dispostos a enfrentar as novas questões colocadas pela ciência.
Aproveitando a presença em Jerusalém de jovens religiosos franceses que estudavam no exterior para escapar do serviço militar obrigatório depois da Lei Freycinet de 1889, chamada de “lei do padre mochila nas costas”, que havia suprimido as isenções do serviço militar para os eclesiásticos, Lagrange pôde rapidamente escolher e formar um grupo de jovens religiosos nas diversas ciências capazes de esclarecer a compreensão da Bíblia: história e arqueologia do Antigo Oriente Próximo (Louis-Hugues Vincent), geografia da Palestina (Félix Abel), epigrafia (Raphaël Savignac), línguas e civilizações das sociedades do Oriente Médio (Antonin Jaussen).
Outros, como o assiriólogo Édouard Dhorme, juntar-se-iam posteriormente a eles. Assim, ele aceitou o desafio de levar a sério as conquistas da ciência, considerando que **“a fé não deve ter medo da verdade”**.
## Uma nova abordagem da exegese: o método histórico
Com essa primeira geração de especialistas, Lagrange percorreu os diversos países da Bíblia, muito além da Palestina: a Transjordânia, o Sinai e o Egito, as regiões fronteiriças da Arábia, o Crescente Fértil (Síria, Iraque). As vastas fronteiras do Império Otomano e a intrépida disposição dessa primeira geração permitiram organizar extensas expedições, a cavalo ou em camelos, para identificar lugares bíblicos, procurar vestígios arqueológicos, fazer levantamentos de edifícios antigos ou decalques de inscrições.
Muito rapidamente, adotaram a fotografia para documentar e registrar suas descobertas. Num dia estavam em Petra, no outro em Palmira, prontos para enfrentar as dificuldades do clima e o risco de serem assaltados por saqueadores. Seu entusiasmo e sua competência rapidamente chamaram a atenção dos estudiosos.
Entre os empreendimentos mais audaciosos dessa época, deve-se mencionar a expedição arqueológica ao norte da Arábia, conduzida por Jaussen e Savignac antes da Primeira Guerra Mundial.
## Uma dura luta dentro do mundo católico
Lagrange definiu rapidamente seu método, que tornou público em conferências e em uma obra de 1904 intitulada *O método histórico*. Nela, ressaltava que a Bíblia utiliza diferentes gêneros literários e, portanto, não pretende necessariamente relatar os fatos de maneira literal.
Isso não impede que esses textos sagrados sejam textos inspirados: Deus utiliza mediações humanas para transmitir uma mensagem. Finalmente, certas convicções antigas, como a atribuição a Moisés da redação do Pentateuco, poderiam ser questionadas, pois não fazem parte do depósito da fé.
Essas ousadias, que abriam caminho para a exegese moderna, valeram-lhe fortes oposições dos meios católicos conservadores e algumas advertências de Roma. A Santa Sé pediu-lhe, por exemplo, que renunciasse à publicação de seu *Comentário do Gênesis*, cujo primeiro volume estava pronto em 1905, e que desistisse de estudar o Antigo Testamento, considerado demasiado problemático, em favor do Novo Testamento.
Lagrange submeteu-se, movido por um grande espírito de obediência à Igreja Católica, que amava, mas sofreu muito com isso. Os trabalhos de sua equipe, apesar de tudo, continuaram, sendo divulgados pela *Revue biblique*, que ele havia fundado em 1892.
## Um reconhecimento tardio
Em 1920, o valor dos trabalhos de Lagrange e da Escola Bíblica foi oficialmente reconhecido pela Academia das Inscrições e Belas-Letras, que pediu à Escola de Jerusalém que se tornasse a quarta Escola Arqueológica Francesa no exterior, depois das de Atenas (1846), Roma (1875) e Extremo Oriente (1898).
Para Lagrange, foi uma imensa consolação depois das provações sofridas, mas também uma confirmação da qualidade científica dos trabalhos de sua Escola, que passou então a ser chamada de **Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém**.
O reconhecimento eclesiástico viria mais tarde, com a encíclica de Pio XII *Divino afflante Spiritu*, de 1943, que oficializou as teses de Lagrange sobre os gêneros literários e a inspiração das Escrituras e, ainda mais, com a Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina *Dei Verbum*, do Concílio Vaticano II (1965).
Marie-Joseph Lagrange deixou uma obra científica imensa. Morreu em 1938. Sua obra continua. A Igreja Católica atualmente conduz seu processo de beatificação.
------------------------------------------------------------------------------------
Marie-Joseph Lagrange (1855-1938)
Jean-Jacques Pérennès, directeur de l'École biblique et archéologique française de Jérusalem.
Le dominicain Marie-Joseph Lagrange, fondateur de l’Ecole biblique et archéologique française de Jérusalem, est considéré comme un des principaux fondateurs de l’exégèse catholique moderne. Son œuvre a eu le mérite de rendre à la pensée catholique sur la Bible droit de cité dans le monde savant et fait qu’il est encore respecté très au-delà des milieux chrétiens.
Au XIXe siècle, la foi au défi des sciences modernes
Comme souvent dans les grandes œuvres, tout commence par un défi. Né à Bourg-en-Bresse en 1855, Lagrange fait d’abord des études classiques à Autun avant de préparer à Paris un doctorat en droit. Issu d’un milieu catholique, il entre chez les dominicains après un bref passage au séminaire d’Issy-les-Moulineaux. L’essentiel de sa formation religieuse se passe à Salamanque en Espagne, où il reçoit une solide formation thomiste. Il y montre un goût particulier pour la Bible et les langues anciennes. Cela lui vaut d’être envoyé à Vienne en 1888 pour des études en langues sémitiques (syriaque, assyrien, égyptien hiéroglyphique et hiératique).
Il y prend conscience de l’énorme défi que représentent les progrès faits par les sciences historiques modernes. Depuis le déchiffrement de la langue égyptienne antique par Champollion en 1822 et la découverte au milieu du XIXe siècle de la civilisation et des langues mésopotamiennes, on ne peut plus se contenter d’une lecture naïve et littérale de la Bible, dont la chronologie est mise en cause de manière assez radicale. On est alors en plein positivisme et la tentation est grande, surtout chez les protestants, fondateurs de l’archéologie biblique, de chercher à vérifier in situ si la Bible dit vrai ou non. La remise en cause est radicale et va conduire des savants comme Ernest Renan (1823-1892), professeur d’hébreu au Collège de France, à rejeter dans sa Vie de Jésus (1863) l’enseignement catholique traditionnel. Cette remise en cause, portée par le protestantisme libéral, va toucher les milieux catholiques comme le montre le cas de l’abbé Alfred Loisy (1857-1940) professeur à l’Institut catholique de Paris, entraînant un véritable séisme que l’on nommera la « crise moderniste ».
L’intuition fondatrice : rapprocher le document et le monument
Dans ce contexte troublé, Lagrange est envoyé à Jérusalem par ses supérieurs dominicains, en accord avec le pape Léon XIII, pour fonder une Ecole pratique d’études bibliques, sur le modèle de l’Ecole pratique des hautes études, fondée à Paris en 1868 par Victor Duruy. Il n’a pas les moyens de fonder une véritable université. En revanche, il souhaite constituer une équipe de chercheurs, passionnés comme lui par la Bible et prêts à affronter les questions nouvelles qui sont posées par la science.
Profitant de la présence à Jérusalem de jeunes religieux français qui étudient à l’étranger pour échapper à la conscription après la loi Freycinet de 1889, dite « loi curé sac à dos », qui avait supprimé les exemptions du service militaire pour les ecclésiastiques, Lagrange peut très vite choisir et former un groupe de jeunes religieux dans les diverses sciences à même d’éclairer la compréhension de la Bible : histoire et archéologie du Proche-Orient ancien (Louis-Hugues Vincent), géographie de la Palestine (Félix Abel), épigraphie (Raphaël Savignac), langues et civilisations des sociétés du Moyen-Orient (Antonin Jaussen). D’autres comme l’assyriologue Edouard Dhorme le rejoindront plus tard. Il relève donc le défi de prendre au sérieux les acquis de la science, estimant que « la foi ne doit pas avoir peur de la vérité ».
Une approche nouvelle de l’exégèse : la méthode historique
Avec cette première génération de spécialistes, Lagrange va parcourir les divers pays de la Bible, très au-delà de la Palestine : la Transjordanie, le Sinaï et l’Egypte, les confins de l’Arabie, le Croissant fertile (Syrie, Iraq). Les larges frontières de l’Empire ottoman et l’intrépidité de cette première génération permettent d’organiser de vastes tournées, à cheval ou à dos de chameau, pour identifier des sites bibliques, chercher des traces archéologiques, faire des relevés de bâtiments anciens ou des estampages d’inscriptions. Très vite, ils adoptent la photographie pour documenter et rendre compte de leurs trouvailles. On les trouve un jour à Pétra, l’autre à Palmyre, prêts à affronter les rigueurs du climat et le risque de se faire détrousser par des pillards. Leur ardeur et leur compétence attire très vite l’attention des savants. Parmi les entreprises les plus audacieuses de cette époque, on signalera l’expédition archéologique en Arabie du Nord, menée par Jaussen et Savignac avant la Première guerre mondiale.
Un rude combat au sein du monde catholique
Lagrange définit très vite sa méthode, qu’il rend publique dans des conférences et un ouvrage de 1904 intitulé La méthode historique. Il y souligne que la Bible procède par genres littéraires et ne prétend donc pas relater des faits de manière littérale. Cela n’empêche pas que ces textes sacrés soient des textes inspirés, Dieu passant par des médiations humaines pour faire passer un message. Enfin, certaines convictions anciennes comme l’attribution à Moïse de la rédaction du Pentateuque peuvent être remises en cause, car elles ne font pas partie du dépôt de la foi. Ces audaces, qui ouvraient la voie de l’exégèse moderne, lui valurent de vives oppositions des milieux catholiques conservateurs et certaines remontrances romaines. Le Saint-Siège lui demanda, par exemple, de renoncer à la publication de son Commentaire de la Genèse, dont un premier volume était prêt en 1905, et de renoncer à étudier l’Ancien testament, trop problématique, au profit du Nouveau testament. Lagrange se soumit, dans un grand esprit d’obéissance à l’Eglise catholique qu’il aimait, mais il en souffrit beaucoup. Les travaux de son équipe se poursuivirent malgré tout, diffusés par la Revue biblique qu’il avait fondée en 1892.
Une reconnaissance tardive.
En 1920, la valeur des travaux de Lagrange et de l’Ecole biblique fut officiellement reconnue par l’Académie des Inscriptions et Belles-Lettres qui demanda à l’Ecole de Jérusalem de devenir la quatrième Ecole archéologique française à l’étranger, après celles d’Athènes (1846), de Rome (1875) et d’Extrême-Orient (1898). Pour Lagrange, c’est une immense consolation après les épreuves endurées mais aussi une confirmation de la qualité scientifique des travaux de son Ecole désormais appelée Ecole biblique et archéologique française de Jérusalem. La reconnaissance ecclésiastique viendra plus tard, avec l’Encyclique de Pie XII Divino afflante spiritu de 1943 qui officialise les thèses de Lagrange sur les genres littéraires et l’inspiration des Ecritures et plus encore par la Constitution dogmatique sur la Révélation divine Dei Verbum de Vatican II (1965).
Marie-Joseph Lagrange laisse une œuvre scientifique immense. Il mourut en 1938. Son œuvre se poursuit. L’Eglise catholique instruit actuellement son procès en béatification.
------------------------------------------
Fonte: https://heritage.bnf.fr/bibliothequesorient/marie-joseph-lagrange-1855-1938