BÍBLIA SAGRADA (Coordenação Geral: L. Garmus). Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1982. 1548 pp., 24 x 16 cm.
Pouco mais de um ano depois de as Edições Paulinas terem editado a Bíblia de Jerusalém (= BJ), também a Editora Vozes lança sua Bíblia (= BV). É inevitável que uma recensão desta última a compare com a primeira, sem a pretensão de manifestar preferência por nenhuma, mas apenas mencionar vantagens e desvantagens.
A BV tem o mérito de ter engajado os biblistas brasileiros não apenas num trabalho de tradução, mas também na confecção das introduções e das notas. Estas são de diversa natureza. Há as que tratam de explicar uma unidade fechada em si (um salmo, p. ex.). Outras, de acordo com o gênero do livro, explicam cada unidade menor em seu contexto (ex.: Coélet, Rm, Hb). Em outros livros não se segue esse critério, mas simplesmente se esclarecem aleatoriamente pontos isolados (ex.: Jr, 1-2 Mc, Mc). Em outros ainda, há como que um sistema misto, oferecendo apenas algumas vezes a explicação da unidade no contexto (ex.: Is). É uma pena que não se haja optado uniformemente por notas do primeiro/segundo tipo. Seria a originalidade maior desta Bíblia e utilíssimo para o leitor médio brasileiro. É para eles, aliás, que via de regra estão voltadas as notas. Não há preocupação com observações sobre a variedade das fontes e a época de composição de cada perícope, como é o caso especialmente no AT da BJ. Embora tais observações de história das formas e da redação sejam de inestimável valor para a compreensão do texto, só são acessíveis a um círculo restrito de leitores. A BV, ao contrário da BJ que visava ao leitor médio europeu, quer ser em nosso meio uma Bíblia popular.
Entretanto nem sempre os autores das introduções e das notas conseguem manter o estilo inconfundivelmente claro, agradável e popular da magistral “Introdução Geral” feita por Carlos Mesters. A título de exemplo, veja-se à p. 365 a menção à “recensão luciânea”, sem que se encontre, em parte alguma, explicação do assunto; à p. 543 fala-se em “midraxe hagádico”, mas o leitor brasileiro médio não encontrará como solucionar o enigma, pois o “vocabulário básico de termos bíblicos” no final do volume só traz um verbete sobre midraxe e nada sobre hagadá; paralelismo antitético e paralelismo sintético são termos familiares para quem já estudou exegese ou literatura, mas o leitor comum encontrará dificuldade nessas expressões usadas à p. 756, igualmente sem explicação.
O que se diz da linguagem, vale mais ainda do conteúdo. Não houve cuidado de manter um horizonte comum nas notas e introduções. Tomando novamente como ponto de comparação a introdução de Carlos Mesters que, sem dúvida, em questão de exegese é o que há de mais nosso (prova de que o lugar de nascimento não é decisivo para a nacionalidade de alguém...), encontram-se notas que nada explicam. Preocupadas por serem mais “religiosas” que intelectuais (de acordo com a idiossincrasia de nosso povo [? !]), acabam por se apresentar carregadas de um espiritualismo oco, numa linguagem e mentalidade que mais lembram certa literatura ascético-mística de vulgarização (é o caso, p. ex., das notas a Sl 39/38; 62/61; 72/71; 102/101). Há outras que causam estranheza por serem inúteis (ex.: nota a Mc 15,38). Outras por desatualizadas (ex.: a explicação do termo “porneía” na cláusula mateana do divórcio [nota a Mt 5,31s]; compare-se com a nota a Mt 19,9 da BJ, onde se adota a explicação em torno à qual parece vigorar atualmente um amplo consenso). Outras ainda se distinguem por falta de reflexão teológica (ex.: na introdução ao Gn, diz-se que este é “o livro da graça divina, apesar de ser o primeiro livro da Lei de Moisés” [26, grifo do recenseador], opondo assim lei e graça, contra a própria concepção vétero-testamentária [Dt], segundo a qual a lei é consequência da graça, resposta do homem à ação libertadora de Javé). Mas os senões e os exemplos não querem desqualificar a maioria das notas e introduções, algumas das quais se distinguem por sua qualidade (p. ex., a introdução a Dn) ou por sua originalidade (p. ex.: a introdução ao Ct e a nota a Rm 9,2-5).
A tradução pretende ser mais popular do que a da BJ. Entretanto, nem sempre o consegue. A linguagem é ainda elevada, o que não significa um defeito, mas não corresponde ao que a propaganda promete. Nesse tocante, o tradutor do NT, p. ex., muitas vezes obscurece e rebusca inutilmente o texto original. Assim ao usar a palavra “solidarismo” em Rm 6,5 e Fl 2,7 para o grego “en homoiômati”. Se, pelo menos, tivesse preferido “solidariedade”, ainda seria vernáculo. Veja-se outro exemplo pior ainda na incompreensível tradução de Cl 3,35: “... ela [a paz de Cristo] é bem o tempo do apelo que vos reuniu num só corpo”. A BJ traduzirá: “à qual fostes chamados em um só corpo”. Por que aquela tradução? Vontade de ser exato? Não parece que o texto grego dê razão a complicar desta forma. Enquanto às vezes se afasta assim inutilmente do texto grego e impede a compreensão, outras mantém-se numa literalidade já não mais admissível, como ao traduzir Mc 14,24 “sangue do testamento”, quando até a liturgia já traduz “diathéke” não segundo a literalidade do grego clássico, mas pelo sentido hebraico de “aliança”. Mais grave em sua literalidade pelas consequências dogmáticas provenientes de tradução semelhante é o caso de Rm 5,12 traduzido “naquele em quem todos pecaram”. A BJ, levando em consideração estudos filológicos suscitados pela problemática do pecado original, traduz de forma atualizada: “porque todos pecaram”.
Na tradução do AT há opções que não se entendem bem, como o uso de “israelitas” em abandono da tradução literal e consagrada de “filhos de Israel”. Dos salmos se pode tirar outro exemplo: é a tradução de “hesed wemet” (amor [de eleição] e fidelidade [à aliança]) por “indefectível lealdade”. A expressão não é, como pode parecer, uma hendíadis, mas evoca dois artigos de fé: a eleição e a aliança. Além disso, a tradução em questão chega a truncar a poesia. Assim no Sl 57/56. No v. 4, lê-se “indefectível lealdade”, o que acarreta dificuldade quando no v. 11 as duas palavras voltam separadamente. O leitor não percebe sua repetição, pois “emet” sozinho vai ser traduzido por “fidelidade”, mas à distância de tantos versículos não se percebe mais a sinonímia entre “fidelidade” e “indefectível”. O mesmo problema tem mais peso no Sl 89/88, v. 25 (“indefectível lealdade”), pois tal tradução sintética faz desaparecer aí a dupla de conceitos que é central no desenrolar do pensamento do poeta (cf. v. 2,3, 15 e 34; interessante que no v. 15, embora os dois termos apareçam ligados, opta-se pela tradução em dois substantivos, porque seria violentar demais o texto, onde “hesed wemet” em 15b está em paralelismo com “justiça e direito” em 15a).
Do ponto de vista estilístico, nota-se um estranho esforço por evitar o uso de adjetivos possessivos, onde o original os traz. São omitidos em português, mesmo em detrimento da clareza e da eufonia, como se pode verificar, p. ex., na leitura de Jo 11.
Sem compromissos com uma tradução já padronizada como a BJ ou a TOB, os tradutores da BV puderam sentir-se mais à vontade nas opções por variantes e no modo de traduzir. É interessante comparar textos do mesmo tradutor na BV e na BJ. Luís Stadelmann traduziu Jó e Eclesiastes para ambas as Bíblias. Eis como soa a mais famosa frase de Coélet: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (BJ); “Ilusão, pura ilusão! Tudo é ilusão” (BV). Compare-se também em ambas as Bíblias a tradução de Jó 42, 2-6. Ou ainda, na tradução de Ney Brasil Pereira, as partes poéticas de 1 Mc. Leia-se ainda a tradução de Prov 30, 1-6 na BV (trad. L. Stadelmann), comparando com o mesmo texto traduzido por Ivo Storniolo na BJ. Não parece ser tradução de um mesmo original. Deixando de lado a questão sobre quem traduz correto (pois tal decisão não é da competência deste recenseador), sem dúvida a tradução da BV é muito mais saborosa e provocante, talvez expressão da “luta” pela compreensão de um texto difícil. Em resumo: a liberdade dos tradutores da BV frente a padrões europeus significou indubitável vantagem para a tradução.
Desde o ponto de vista exterior a BV é mais manuseável, pode-se carregar mais facilmente, enquanto a BJ é um volume para ser usado à mesa de trabalho. Mas essa vantagem da BV tem um alto preço a pagar. A apresentação gráfica da BJ é mais agradável aos olhos: os livros poéticos em uma única coluna, o que permite cada verso em uma linha e deixa espaços amplos na página; as introduções e cada livro começam nas páginas ímpares, mesmo a custo de páginas inteiras ou grandes espaços em branco; as estrofes nas obras poéticas são marcadas por espaçamento entre elas; margens largas, onde se distribuem as (abundantes) referências bíblicas de forma prática e visualmente agradável; notas em duas colunas, que facilitam a leitura. A BV, pelo contrário, é um livro “abarrotado de letras”. Toda ela em duas colunas, é necessário interromper os versos das poesias no meio, continuando na outra linha. Quase não deixa espaços, nem mesmo entre dois livros (a introdução a Mc, p. ex., começa no último quarto de uma página com numeração par). Os salmos e outras obras poéticas são, graficamente, de difícil e desagradável leitura, porque não há espaços para marcas e divisão em estrofes, solução adotada com grande vantagem não só pela BJ, mas até pela “Liturgia Horarum” e pela “Oração do Tempo Presente”. As margens são demasiadamente estreitas. A referência ao alto de cada página dificulta encontrar o livro que se quer, pois o número da página — que numa Bíblia não tem muito interesse — está na parte de fora da página (à esquerda nas páginas pares, à direita nas ímpares), enquanto o título do livro ocorrente está no interior. Com isto, não basta folhear, é preciso abrir completamente a Bíblia para descobrir a que altura se está. Além disso, no Cântico dos Cânticos a referência do alto da página é estranhamente “Cânticos” (com s). As poucas referências bíblicas situam-se mal, ao pé da página. A opção por notas quase só no rodapé da segunda coluna não foi das melhores. O recenseador discorda do apresentador, para quem essa solução gráfica se destina a “não entravar a fluência da leitura” [9]; na opinião do recenseador é exatamente o contrário o que acontece.
Os tradutores optaram por traduzir o nome de Deus por “Senhor” em itálico, em vez de transcrever Javé. SENHOR, em capitais, já teria sido uma opção melhor. Mas não se entende por que não optar pelo termo “Javé”, já tão familiar ao leitor cristão. Mas escrevendo Javé mesmo e não a rebuscada forma Yahweh, da BJ. A opção estaria magnificamente respaldada na explicação de Carlos Mesters na “Introdução Geral”: “o resumo da Bíblia, a sua mensagem central, é o Nome de Deus... Javé significa Emanuel, isto é, Deus conosco, Deus presente no meio do seu povo para libertá-lo” (16). Além disso, a opção por Senhor cria dificuldades onde ocorre em hebraico “Adonai Javé”. Neste caso, Javé tem que ser traduzido por Deus para evitar a repetição (p. ex., Jr 1,6).
Para estimular a leitura popular e o uso em escola e família, a BV é ilustrada por gravuras e mapas. Os mapas são excelentes. Muitas vezes estão acompanhados de explicações bem elucidativas (ex.: 28,427, 435, 436, 576). Há mapas difíceis de serem encontrados em outras obras acessíveis ao público não especializado (ex.: 58,96). Estão localizados em lugares estratégicos, coincidindo com a leitura (p. ex.: as viagens de Paulo em quatro mapas é uma ótima solução [1316, 1321, 1325, 1333], pois seu itinerário e o avanço para o Ocidente ficam muito mais claro que na habitual apresentação em um único mapa). No tocante à localização estratégica dos mapas, há, é claro, exceções: o mapa da Jerusalém pós-exílica está à p. 435, no interior de 2 Rs, quando só será de utilidade a partir da p. 502 (Esd) ou antes a partir da p. 512 (Ne).
Se os mapas são excelentes, o mesmo não se pode dizer das gravuras de Gustavo Doré. Para que desenterrá-las, quando temos no Brasil um grande acervo de arte sacra? Só para citar alguns exemplos, pense-se nas obras do tempo colonial, conservadas nas igrejas e museus de Ouro Preto, Salvador, Recife..., nas esculturas das reduções jesuíticas no Rio Grande do Sul, e mesmo em obras mais recentes como os painéis de Portinari (Pampulha, Belo Horizonte) e de Locatelli (Caxias do Sul, RS). Ilustrar a Bíblia com reproduções dessas obras teria sido uma louvável iniciativa da Ed. Vozes. Sem dúvida também se haveria de encontrar no acervo artístico brasileiro algo mais significativo para a gravura da capa, sem precisar recorrer à “National Gallery of Art”, de Washington.
São dignos de menção os apêndices. Além das habituais tabelas de pesos, medidas e moedas (1473), do índice temático, sempre problemático (1493-1511), e da tabela cronológica, bem mais modesta que a da BJ (1541-1548), há um interessante e prático “Vocabulário básico de termos bíblicos” (1513-1539) e o quadro das leituras para a liturgia dominical, festiva e ferial, em vigor na Liturgia Romana (1475-1492). De fato, a intenção era uma Bíblia que facilitasse o acesso do leitor médio brasileiro à Palavra de Deus.
Esta recensão quis apresentar apenas algumas observações esparsas e nem podia pretender muito mais. Um recenseador exegeta talvez encontrasse observações mais doutas a fazer. Nem por isso as feitas parece deixem de ser pertinentes. Em todo o caso, fica clara a necessidade de fazer uma edição revisada.
Francisco Taborda S.J.
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Fonte: TABORDA, Francisco. Recensão de: Bíblia Sagrada (coordenação geral: L. Garmus). Petrópolis: Vozes, 1982. Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, v. 15, n. 36, p. 279–283, 1983.