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Segunda edição da “Bíblia da CNBB” - Johan Konings (2002)


Segunda edição da “Bíblia da CNBB”

Como ex-colaborador da tradução da Bíblia da CNBB, creio poder dar algumas informações relevantes a respeito da segunda edição desta obra, que agora está entrando no comércio. Segunda edição providenciada pelas mesmas editoras que a primeira (Paulinos, Paulinas, Vozes, Loyola, Santuário, Salesiana, Ave Maria) e que se tornou necessária bem antes do tempo previsto, confirmando a demanda do produto. Só não chegou mais cedo ao mercado por causa de um acidente mecânico na hora da impressão.

A primeira coisa que cai na vista é o drástico emagrecimento: o número de páginas caiu de 1662 para 1490. Isso foi conseguido pela unificação das chaves de leitura e referências dos paralelos (que na 1ª edição encabeçavam as perícopes) com as notas de rodapés, dispostas em forma de friso contínuo, que se apresenta como um comentário corrido à Bíblia. A disposição geral do texto e o tamanho da letra ficaram inalterados; as introduções aos respectivos livros (levemente corrigidas) foram diagramadas em duas colunas, o que as torna mais legíveis (coluna menos larga). Para deixar claro que os entretítulos não pertencem ao texto, eles aparecem sempre em linha separada, em negrito e entre [ ].

Na p. IV, logo depois da Apresentação da Presidência da CNBB da 1ª ed., que ficou conservada tal qual por causa de seu valor histórico, aparece uma nota à 2ª edição, assumida pela Assessoria. Reafirma o caráter próprio da tradução – proclamabilidade e fidelidade aos originais – e observa, no fim, que a Bíblia é um documento e que nenhuma tradução dispensa a explicação (na homilia, na formação dos fiéis e em outras oportunidades). A Nota Prévia da 1ª edição foi reduzida a algumas enxutas observações técnicas para o uso. O texto da Dei Verbum e a Introdução Geral continuam como na 1ª edição.

Como observa a nota introdutória, o texto propriamente não recebeu muitas correções: só os erros gráficos já detectados e algumas expressões que suscitaram reações significativas. Assim, em Jo 21,17, desistiu-se da tentativa de distinguir entre “amar” (gr. agapan) e “ser amigo” (filein). Em Lc 1,34, optou-se pela tradução tradicional “como acontecerá isso, se eu não conheço homem?”, depois de verificado que o povo simples a entende muito bem. Em Fl 2,6-11, “condição divina... humana...” foi trocado para a tradução mais literal, “forma divina... humana...”, que evidentemente exigirá alguma explicação (como, aliás, qualquer tentativa de tradução destes versos).

Algumas correções são discretas, porém exegeticamente refinadas: assim, em Mt 5,20-48 a fórmula antitética “eu, porém, vos digo” foi substituída pela fórmula explicativa “ora, eu vos digo”, porque Jesus, de fato, não se opõe à antiga Lei, mas lhe dá uma interpretação aperfeiçoadora. Em diversos lugares foram ainda expurgados alguns “masculinismos” reminiscentes da 1ª edição (“homem” no sentido de “pessoa” ou “alguém”).

Nas introduções, o controvertido exemplo didático para explicar os anacronismos no livro de Judite (o presidente Fernando Henrique governando na “Casa Rosada” de Buenos Aires) recebeu uns retoques. No quadro cronológico do Novo Testamento (p. 1147 na 2ª ed.) foi explicitado que Jesus nasceu em Belém e passou sua infância em Nazaré, porque algumas pessoas concluíram que, na 1ª ed., a disposição “Nascimento de Jesus / [nova linha] Jesus em Nazaré” suprimia o nascimento em Belém – mero argumento ex silentio... (cf. Pergunte e Responderemos, maio de 2002).

Os mapas e as informações litúrgico-bíblicas receberam algumas correções gráficas. Não foi possível reformular o glossário, nem introduzir notas de rodapé num estilo menos enciclopédico e mais pastoral. A nota da Assessoria observa que a presente forma de edição evolui na direção de uma verdadeira bíblia de estudo, e que deve ser preparada uma outra forma, de cunho mais pastoral (além de divulgação eletrônica etc.). Quem trabalha neste setor bem sabe que é mais fácil escrever em forma erudita do que mastigar as informações até dar-lhes uma adequada forma popular. Só com o tempo e com o empenho da CNBB neste sentido será possível atender a demanda de uma edição verdadeiramente popular.

A nova edição ganhou muito em praticidade, sem modificação das características gerais, o que justifica que, no frontispício, mencione-se apenas “segunda edição”, sem ressaltar as modificações acima apontadas. Enquanto se espera a médio prazo uma revisão mais profunda, de caráter interdisciplinar, a atual edição, na sua forma bastante “escolar”, cumprirá muito bem seu papel – sobretudo no âmbito da proclamação litúrgica e da formação de presbíteros, religiosos, ministros etc. – no universo das traduções bíblicas divulgadas no Brasil (só as completas: católicas: Ave Maria, Mensagem de Deus, Bíblia de Jerusalém, Vozes, Edição Pastoral; protestantes: Almeida, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Nova Versão Internacional; ecumênica: Tradução Ecumênica da Bíblia).

Johan Konings
Cx. Postal 5047
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Fonte: KONINGS, Johan. Segunda edição da “Bíblia da CNBB”. Revista Eclesiástica Brasileira, v. 62, n. 248, p. 911–912, 2002.