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Sobre o caráter histórico dos três primeiros capítulos do Gênesis (1909)


PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA

SOBRE O CARÁTER HISTÓRICO
DOS TRÊS PRIMEIROS CAPÍTULOS DO GÊNESIS

I. Pergunta-se se os diversos sistemas exegéticos que foram elaborados e defendidos sob o pretexto da ciência, com o objetivo de excluir o sentido literal histórico dos três primeiros capítulos do livro do Gênesis, estão apoiados em sólido fundamento.

Resposta: Negativamente.

II. Pergunta-se se, não obstante o caráter e a forma histórica do livro do Gênesis, a relação peculiar dos três primeiros capítulos entre si e com os capítulos seguintes, os múltiplos testemunhos das Escrituras tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, o consenso quase unânime dos Santos Padres e o sentido tradicional que a Igreja sempre manteve, transmitido também pelo povo israelita, pode-se ensinar que os três referidos capítulos do Gênesis não contêm narrativas de fatos verdadeiramente acontecidos, que correspondam, portanto, à realidade objetiva e à verdade histórica; mas que seriam:ou narrativas fabulosas, extraídas das mitologias e cosmogonias dos povos antigos e adaptadas pelo autor sagrado à doutrina monoteísta, depois de expurgado todo erro politeísta;ou alegorias e símbolos, destituídos de fundamento numa realidade objetiva, apresentados sob a forma de história para inculcar verdades religiosas e filosóficas; ou, finalmente, lendas, em parte históricas e em parte fictícias, livremente compostas para instrução e edificação das almas.

Resposta: Negativamente a ambas as partes.

III. Pergunta-se, em particular, se o sentido literal histórico pode ser posto em dúvida quando se trata dos fatos narrados nesses mesmos capítulos que dizem respeito aos fundamentos da religião cristã, como, entre outros: a criação de todas as coisas por Deus no princípio do tempo; a criação especial do homem; a formação da primeira mulher a partir do primeiro homem; a unidade do gênero humano; a felicidade original de nossos primeiros pais no estado de justiça, integridade e imortalidade; o mandamento dado por Deus ao homem para provar sua obediência; a transgressão do preceito divino, por instigação do demônio sob a aparência de serpente; a expulsão de nossos primeiros pais daquele estado primitivo de inocência; e também a promessa do futuro Redentor.

Resposta: Negativamente.

IV. Pergunta-se se, na interpretação daqueles trechos desses capítulos que os Padres e Doutores entenderam de maneiras diversas, sem transmitirem algo certo e definido, é permitido, sem prejuízo do juízo da Igreja e conservando a analogia da fé, seguir e defender a interpretação que cada um, prudentemente, considerar mais provável.

Resposta: Afirmativamente.

V. Pergunta-se se todas e cada uma das palavras, isto é, as palavras e frases que aparecem nos referidos capítulos, devem sempre e necessariamente ser tomadas em seu sentido próprio, de tal modo que nunca seja permitido afastar-se dele, mesmo quando as próprias expressões manifestamente pareçam empregadas de maneira imprópria, isto é, metafórica ou antropomórfica, e quando a razão impeça conservar o sentido próprio ou a necessidade obrigue a abandoná-lo.

Resposta: Negativamente.

VI. Pergunta-se se, pressupondo-se o sentido literal e histórico, pode-se empregar de maneira sábia e útil, na interpretação de alguns trechos desses mesmos capítulos, uma interpretação alegórica e profética, seguindo o exemplo luminoso dos Santos Padres e da própria Igreja.

Resposta: Afirmativamente.

VII. Pergunta-se se, ao escrever o primeiro capítulo do Gênesis, não tendo sido intenção do autor sagrado ensinar, de maneira científica, a constituição íntima das coisas visíveis e a ordem completa da criação, mas antes transmitir ao seu povo um conhecimento popular, conforme a linguagem comum daqueles tempos, adaptada aos sentidos e à capacidade de compreensão dos homens, deve-se sempre e rigorosamente procurar, na interpretação desses textos, a exatidão própria da linguagem científica.

Resposta: Negativamente.

VIII. Pergunta-se se, naquela denominação e distinção dos seis dias mencionados no primeiro capítulo do Gênesis, a palavra Yom (dia) pode ser entendida tanto em seu sentido próprio, como dia natural, quanto em sentido impróprio, como determinado período de tempo, e se é permitido aos exegetas discutir livremente entre si essa questão.

Resposta: Afirmativamente.

No dia 30 de junho de 1909, em audiência concedida benignamente aos dois Reverendíssimos Consultores ab actis, o Santíssimo Senhor aprovou as respostas acima e ordenou que fossem tornadas públicas.

Roma, 30 de junho de 1909.

Fulcranus Vigouroux, P.S.S.
Laurentius Janssens, O.S.B.
Consultores ab actis.


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PONTIFICIA COMMISSIO BIBLICA
DE CHARACTERE HISTORICO
TRIUM PRIORUM CAPITUM GENESEOS

I. Utrum varia systemata exegetica, quae ad excludendum sensum litteralem historicum trium priorum capitum libri Geneseos excogitata et scientiae fuco propugnata sunt, solido fundamento fulciantur?

Resp. Negative.

II. Utrum non obstantibus indole et forma historica libri Geneseos, peculiari trium priorum capitum inter se et cum sequentibus capitibus nexu, multiplici testimonio Scripturarum tum veteris tum novi Testamenti, unanimi fere sanctorum Patrum sententia ac traditionali sensu, quem, ab israelitico etiam populo transmissum, semper tenuit Ecclesia, doceri possit, praeditta tria capita Geneseos continere non rerum vere gestarum narrationes, quae scilicet obiectivae realitati et historicae veritati respondeant; sed vel fabulosa ex veterum populorum mythologiis et cosmogoniis deprompta et ab auctore sacro, expurgato quovis polytheismi errore, dottrinae monotheisticae accommodata; vel allegorias et symbola, fundamento obiectivae realitatis destituta, sub historiae specie ad religiosas et philosophicas veritates incultandas proposita; vel tandem legendas ex parte historicas et ex parte fictitias ad animorum instructionem et aedificationem libere compositas?

Resp. Negative ad utramque partem.

III. Utrum speciatim sensus litteralis historicus vocari in dubium possit, ubi agitur de factis in eisdem capitibus enarratis, quae christianae religionis fundamenta attingunt: uti sunt, inter caetera, rerum universarum creatio a Deo facta in initio temporis; peculiaris creatio hominis; formatio primae mulieris ex primo homine; generis humani unitas; originalis protoparentum felicitas in statu iustitiae, integritatis et immortalitatis; praeceptum a Deo homini datum ad eius obedientiam probandam; divini praecepti, diabolo sub serpentis specie suasore, transgressio; protoparentum deiectio ab illo primaevo innocentiae statu; nec non Reparatoris futuri promissio?

Resp. Negative.

IV. Utrum in interpretandis illis horum capitum locis, quos Patres et Doctores diverso modo intellexerunt, quin certi quippiam definitique tradiderint, liceat, salvo Ecclesiae iudicio servataque fidei analogia, eam quam quisque prudenter probaverit, sequi tuerique sententiam?

Resp. Affirmative.

V. Utrum omnia et singula, verba videlicet et phrases, quae in praedictis capitibus occurrunt, semper et necessario accipienda sint sensu proprio, ita ut ab eo discedere numquam liceat, etiam cum locutiones ipsae manifesto appareant improprie, seu metaphorice vel anthropomorphice, usurpatae, et sensum proprium vel ratio tenere prohibeat vel necessitas cogat dimittere?

Resp. Negative.

VI. Utrum, praesupposito litterali et historico sensu, nonnullorum locorum eorumdem capitum interpretatio allegorica et prophetica, praefulgente sanctorum Patrum et Ecclesiae ipsius exemplo, adhiberi sapienter et utiliter possit?

Resp. Affirmative.

VII. Utrum, cum in conscribendo primo Geneseos capite non fuerit sacri auctoris mens intimam adspettabilium rerum constitutionem ordinemque creationis completum scientifico more docere; sed potius suae genti tradere notitiam popularem, prout communis sermo per ea ferebat tempora, sensibus et captui hominum accommodatam, sit in horum interpretatione adamussim semperque investiganda scientifici sermonis proprietas?

Resp. Negative.

VIII. Utrum in illa sex dierum denominatione atque distinctione, de quibus in Geneseos capite primo, sumi possit vox Yom (dies), sive sensu proprio pro die naturali, sive sensu improprio pro quodam temporis spatio, deque huiusmodi quaestione libere inter exegetas disceptare liceat?

Resp. Affirmative.

Die autem 30 Iunii anni 1909, in audientia ambobus R.mis Consultoribus ab actis benigne concessa, Sanctissimus praedicta responsa rata habuit ac publici iuris fieri mandavit.

Romae, die 30 Iunii 1909.

Fulcranus Vigouroux, P.S.S.
Laurentius Janssens, O.S.B.
Consultores ab Actis.