-->

Sobre um opúsculo anônimo denegatório (1941)

 

PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA
CARTA AOS EXCELENTÍSSIMOS SENHORES ARCEBISPOS
E BISPOS DA ITÁLIA
UM OPÚSCULO ANÔNIMO DEPRECIATIVO


Excelência Reverendíssima,

Chegou ao conhecimento da Pontifícia Comissão para os Estudos Bíblicos que, algumas semanas atrás, foi enviado aos Eminentíssimos Membros do Sacro Colégio, aos Excelentíssimos Ordinários da Itália e a alguns Superiores Gerais de Ordens Religiosas um opúsculo anônimo intitulado: *Um gravíssimo perigo para a Igreja e para as almas. O sistema crítico-científico no estudo e na interpretação da Sagrada Escritura, seus funestos desvios e suas aberrações* (48 páginas em oitavo).

O opúsculo traz no cabeçalho a inscrição: «Vale como manuscrito. Reservadíssimo de consciência». Mas, de fato, numa patente contradição, foi enviado por toda a Península em envelopes abertos.

Além disso, no final da última página contém a declaração: «Cópia conforme da exposição apresentada ao Santo Padre Pio XII». Sendo isso inteiramente verdadeiro, não é necessário acrescentar outra coisa para demonstrar a inconveniência — e Vossa Excelência Reverendíssima certamente a terá percebido imediatamente — de enviar simultaneamente a Sua Santidade e a muitas pessoas eclesiásticas um documento escrito com a intenção de apresentá-lo ao exame do Sumo Pontífice.

Esses dois simples fatos bastam para demonstrar quanto o autor do opúsculo, quem quer que seja, careça de discernimento, prudência e reverência, e poderiam dispensar-nos de outras observações. Entretanto, temendo que certas acusações ou insinuações possam perturbar algum Pastor e afastá-lo do propósito de proporcionar aos seus futuros sacerdotes aquele ensino sólido e correto da Sagrada Escritura que está profundamente no coração do Sumo Pontífice, os Eminentíssimos Padres que compõem a Pontifícia Comissão para os Estudos Bíblicos, reunidos em assembleia plenária para o exame do caso, decidiram submeter à benevolente atenção de Vossa Excelência Reverendíssima as seguintes considerações.

O opúsculo pretende ser uma defesa de determinada exegese chamada **exegese de meditação**; mas é, sobretudo, uma acusação virulenta contra o estudo científico das Sagradas Escrituras: o exame filológico, histórico, arqueológico etc. da Bíblia nada mais seria que racionalismo, naturalismo, modernismo, ceticismo, ateísmo etc.; para compreender bem a Bíblia, seria necessário deixar livre curso ao espírito, como se cada pessoa estivesse em comunhão pessoal com a divina Sabedoria e recebesse do Espírito Santo luzes especiais e individuais, como pretenderam os primeiros protestantes.

Por isso, o anônimo ataca com extrema violência pessoas e institutos científicos pontifícios; denigre o espírito dos estudos bíblicos científicos, chamando-o de «espírito maldito de orgulho, de presunção e de superficialidade, disfarçado de investigação severa e de escrupulosidade hipócrita da letra» (p. 40); despreza a erudição, o estudo das línguas orientais e das outras ciências auxiliares, e chega a graves erros acerca dos princípios fundamentais da hermenêutica católica, de acordo com a noção teológica da inspiração bíblica, desconhecendo a doutrina dos sentidos da Sagrada Escritura e tratando com extrema leviandade o sentido literal e sua cuidadosa investigação; por fim, como se ignorasse a história dos textos originais e das versões antigas, bem como a natureza e a importância da crítica textual, propõe uma falsa teoria sobre a autenticidade da Vulgata.

Como seria descabido, e pouco reverente para com os Pastores e Mestres da Igreja, voltar às noções elementares da inspiração e da hermenêutica bíblica, basta colocar diante das pretensões do anônimo algumas das mais recentes disposições da Santa Sé sobre o estudo científico da Sagrada Escritura, desde Leão XIII.

### 1. Do sentido literal

Embora o anônimo afirme, formalmente, que o sentido literal é a «base da interpretação bíblica» (p. 6), na prática preconiza uma exegese absolutamente subjetiva e alegórica, de acordo com a inspiração pessoal ou, antes, segundo a fantasia mais ou menos viva e fecunda de cada um.

Ora, embora seja proposição de fé, a ser mantida como princípio fundamental, que a Sagrada Escritura contém, além do sentido literal, um sentido espiritual ou típico, como nos ensinam a prática de Nosso Senhor e dos Apóstolos, nem toda sentença ou relato contém um sentido típico. Foi, contudo, um grave excesso da escola alexandrina querer encontrar em toda parte um sentido simbólico, mesmo em detrimento do sentido literal e histórico.

O sentido espiritual ou típico, além de fundamentar-se no sentido literal, deve ser comprovado tanto pelo uso de Nosso Senhor, dos Apóstolos ou dos escritores inspirados, quanto pelo uso tradicional dos Santos Padres e da Igreja, especialmente na sagrada liturgia, porque «*lex orandi, lex credendi*» — a lei da oração é a lei da fé.

Uma aplicação mais ampla dos textos sagrados pode certamente justificar-se com a finalidade de edificação nas homilias e nas obras ascéticas; mas o sentido que resulta até mesmo das mais felizes acomodações, quando não for comprovado como acima indicado, não pode ser chamado verdadeira e estritamente sentido da Bíblia, nem se pode dizer que foi inspirado por Deus ao hagiógrafo.

Entretanto, o anônimo, que não faz nenhuma dessas distinções elementares, quer impor as elucubrações de sua fantasia como sentido da Bíblia, como «verdadeiras comunhões espirituais da sabedoria do Senhor» (p. 45). E, desconhecendo a importância capital do sentido literal, calunia os exegetas católicos, acusando-os de considerar «somente o sentido literal» e de considerá-lo «de modo humano, tomando-o apenas materialmente, pelo que as palavras significam» (p. 11), chegando a dizer que eles estão «obcecados pelo sentido literal da Escritura» (p. 46).

Desse modo, rejeita a regra de ouro dos doutores da Igreja, tão claramente formulada pelo Aquinate:

> «Todos os sentidos se fundamentam em um só, isto é, o literal, do qual somente pode ser extraído um argumento.»(*Suma Teológica*, I, q. 1, a. 10, ad 1).

Regra que os Sumos Pontífices sancionaram e consagraram quando prescreveram que, antes de tudo, se procure com todo cuidado o sentido literal.

Assim, por exemplo, Leão XIII, na Encíclica *Providentissimus Deus*:

> «Por isso, ao estudo cuidadoso do que as próprias palavras significam, do que exige a sequência dos acontecimentos, do que requer a semelhança dos lugares e de outras coisas semelhantes, deve também juntar-se a aplicação dos recursos externos de uma adequada erudição.»(*Enchiridion Biblicum*, n. 92).

E mais adiante:

> «Obedeça religiosamente àquela regra sabiamente proposta por Agostinho, a saber: que não se deve afastar do sentido literal e, por assim dizer, evidente, a menos que a razão impeça mantê-lo ou a necessidade obrigue a abandoná-lo.» (*Enchiridion Biblicum*, n. 97).

Do mesmo modo, Bento XV, na Encíclica *Spiritus Paraclitus*:

> «Consideremos com toda diligência as próprias palavras da Escritura, para que fique certo o que o escritor sagrado disse.» (*Enchiridion Biblicum*, n. 498).

E, ao explicar o exemplo e os princípios exegéticos de «o maior doutor na exposição das Sagradas Escrituras», São Jerônimo, que «tendo colocado em segurança o significado literal ou histórico, procura os sentidos interiores e mais elevados, para alimentar o espírito com um alimento mais requintado» (*Enchiridion Biblicum*, n. 499), recomenda que os exegetas «se elevem do sentido literal aos sentidos mais elevados com moderação e equilíbrio» (*Enchiridion Biblicum*, n. 499).

Finalmente, ambos os Sumos Pontífices, Leão XIII e Bento XV, insistem, com as mesmas palavras de São Jerônimo, no dever do exegeta:

> «É dever do comentador expor não o que ele próprio deseja, mas aquilo que sente aquele que interpreta.»(*Enchiridion Biblicum*, nn. 91 e 500).

### 2. Do uso da Vulgata

Ainda mais evidente é o erro do anônimo acerca do sentido e da extensão do decreto tridentino sobre o uso da Vulgata latina.

O Concílio de Trento, contra a confusão causada pelas novas traduções latinas e vernáculas que então se difundiam, quis estabelecer o uso público, na Igreja Ocidental, da versão latina comum, justificando-o pelo uso secular que a própria Igreja havia feito dela. Mas não pensou de modo algum em diminuir a autoridade das versões antigas utilizadas nas Igrejas Orientais, particularmente a dos Setenta, usada pelos próprios Apóstolos, e muito menos a autoridade dos textos originais.

Além disso, o Concílio resistiu a uma parte dos Padres que queriam estabelecer o uso exclusivo da Vulgata como única versão autorizada.

Ora, o anônimo afirma que, em virtude do decreto tridentino, possuímos na versão latina um texto declarado superior a todos os outros, e censura os exegetas por quererem interpretar a Vulgata com o auxílio dos textos originais e das outras versões antigas.

Para ele, o decreto dá a «certeza do Texto Sagrado», de tal modo que a Igreja não precisa «continuar a procurar a autêntica letra de Deus» (p. 7), e isso não apenas *in rebus fidei et morum* — nas questões de fé e moral —, mas em todos os aspectos, inclusive literários, geográficos, cronológicos etc.

A Igreja, segundo ele, teria dado «o Texto autêntico e oficial, do qual não é lícito afastar-se» (p. 6), e fazer crítica textual seria «mutilar a Sagrada Escritura» (p. 8); seria «substituir-se presunçosamente à sua autoridade [da Igreja], que somente pode apresentar-nos um texto autêntico, e somente ela de fato o apresenta mediante o citado Decreto do Concílio de Trento» (p. 28).

Toda operação crítica sobre o texto bíblico tal como apresentado na Vulgata seria «o livre exame, ou antes, o exame pessoal delirante, substituído à Autoridade da Igreja» (p. 9).

Ora, tal pretensão não é apenas contrária ao senso comum, que jamais aceitará que uma tradução possa ser superior ao texto original, mas também contrária à intenção dos Padres do Concílio, como aparece nos Atos.

O Concílio, pelo contrário, estava consciente da necessidade de uma revisão e correção da própria Vulgata e confiou sua execução aos Sumos Pontífices. Estes a realizaram como puderam, segundo o pensamento dos mais autorizados colaboradores do próprio Concílio; fizeram uma edição corrigida dos Setenta, sob Sisto V, e depois ordenaram a edição do Antigo Testamento hebraico e do Novo Testamento grego, encarregando comissões específicas dessa tarefa.

Além disso, tal pretensão está manifestamente em oposição ao preceito da Encíclica *Providentissimus Deus*:

> «Todavia, não se deve deixar de levar em consideração as demais versões que a antiguidade cristã aprovou e utilizou, sobretudo as dos códices primitivos.»(*Enchiridion Biblicum*, n. 91).

Em suma, o Concílio de Trento declarou a Vulgata «autêntica» em sentido jurídico, isto é, no que diz respeito à sua «força probatória nas questões de fé e moral», mas de modo algum excluiu possíveis divergências em relação ao texto original e às versões antigas, como claramente expõe todo bom manual de Introdução Bíblica, segundo os próprios Atos do Concílio.

### 3. Da crítica textual

Diante da ideia, acima exposta, de um valor quase exclusivo da Vulgata e de um valor mínimo ou quase nulo dos textos originais e das outras versões antigas, não surpreende que o anônimo negue a necessidade e a utilidade da crítica textual, apesar de as recentes descobertas de textos preciosíssimos terem confirmado justamente o contrário.

Como «é a Igreja que nos apresenta e garante o Texto Sagrado» (p. 10), fazer crítica textual seria «tratar o Livro divino como um livro humano» (p. 23), e o único uso que se poderia fazer do texto original e das versões antigas seria consultá-los «em alguma dificuldade a ser esclarecida» (p. 6).

O texto grego não poderia «servir de testemunho» contra outro texto e «contra o próprio texto oficial da Igreja» (p. 8), e «não se pode de modo algum eliminar [...] do Texto, não somente da Igreja (= Vulgata), mas também do original, trechos inteiros ou versículos inteiros» (p. 7), portanto, nem mesmo se eles estiverem ausentes da tradição primitiva do texto e tiverem sido introduzidos posteriormente.

Tentar estabelecer o Texto Sagrado por meios críticos seria «massacrar» a Bíblia (p. 9).

Daí as várias páginas do opúsculo, repletas de invectivas contra o «criticismo científico», o «naturalismo» e o «modernismo».

Que a ciência bíblica católica, desde os tempos de Orígenes e São Jerônimo até à «Comissão para a revisão e correção da Vulgata», instituída precisamente pelo Papa da Encíclica *Pascendi*, tenha se esforçado para estabelecer a forma mais pura possível do texto original e das versões, incluindo — para não dizer principalmente — a Vulgata;

que Leão XIII recomende vigorosamente:

> «A disciplina da arte crítica, por ser muito útil para penetrar profundamente no pensamento dos hagiógrafos, sendo por Nós veementemente aprovada, seja cultivada pelos Nossos [estudiosos]. E que eles aperfeiçoem essa mesma faculdade, utilizando, quando for oportuno, a ajuda dos heterodoxos, sem que isso nos cause repugnância.»(*Carta Apostólica Vigilantiae*, *Enchiridion Biblicum*, n. 135);

que a Pontifícia Comissão Bíblica tenha respondido que, no Pentateuco — e, *servatis servandis*, isto é, guardadas as devidas proporções, também em outros livros bíblicos (cf. o decreto *De Psalmis*, *Enchiridion Biblicum*, n. 345) —, pode-se admitir que, «no decorrer de tão longo período de séculos, tenham ocorrido algumas modificações, tais como: acréscimos feitos depois da morte de Moisés ou acrescentados por um autor inspirado; glosas e explicações inseridas no texto; certas palavras e formas de uma linguagem antiga traduzidas para uma linguagem mais recente; finalmente, leituras errôneas atribuíveis à culpa dos copistas, acerca das quais é lícito investigar e julgar segundo as normas da arte crítica» (*Decreto sobre a autenticidade mosaica do Pentateuco*, de 27 de junho de 1906, *Enchiridion Biblicum*, n. 177);

que o Santo Ofício tenha permitido e permita aos exegetas católicos discutir a questão do *Comma Johanneum* e, «ponderados cuidadosamente os argumentos de ambas as partes, com aquela moderação e temperança que a gravidade da questão exige, inclinar-se para a opinião contrária à genuinidade» (*Declaração do Santo Ofício*, de 2 de junho de 1927, *Enchiridion Biblicum*, n. 121);

— tudo isso é esquecido ou dissimulado pelo autor do opúsculo, a fim de tornar objeto de horror a obra dos exegetas católicos, os quais, fiéis às tradições católicas e às normas inculcadas pela suprema autoridade eclesiástica, demonstram, pelo próprio fato de seus austeros e penosos trabalhos de crítica textual, quanta veneração têm pelo Texto Sagrado.


### 4. Do estudo das línguas orientais e das ciências auxiliares

Provocam ao mesmo tempo compaixão e indignação a leviandade e a incrível arrogância com que o anônimo fala sobre isso.

«O hebraico, o siríaco, o aramaico» seriam apenas matéria de orgulho dos «científicos» (p. 4), «exibição de erudição» (p. 14); «o orientalismo transformou-se em verdadeiro fetichismo», e «a sabedoria orientalista moderna é muitas vezes altamente discutível» (p. 46).

Tamanho desprezo, destinado a afastar os espíritos do árduo estudo e a fomentar a leviandade e a desenvoltura no tratamento dos livros divinos, com o resultado inevitável de diminuir a máxima reverência e a total submissão que lhes são devidas, bem como o salutar temor de fazer deles um uso menos conveniente, está em pleno contraste com a tradição da Igreja.

Esta, desde os tempos de São Jerônimo até os nossos dias, favoreceu o estudo das línguas orientais, sabendo que:

> «É necessário que os mestres da Sagrada Escritura conheçam aquelas línguas nas quais os livros canônicos foram originalmente escritos pelos hagiógrafos.» (Leão XIII, Encíclica *Providentissimus Deus*, *Enchiridion Biblicum*, n. 103).

E recomendou:

> «Que em todas as Academias [...] haja também professores das demais línguas antigas, especialmente das semíticas, bem como da erudição correspondente a elas.»(*Ibid.*).

E exorta a cuidar:

> «para que entre nós a ciência das antigas línguas orientais não seja tida em menor estima do que entre os estrangeiros.» (Leão XIII, Carta Apostólica *Vigilantiae*, *Enchiridion Biblicum*, n. 133).

O anônimo esquece que o estudo das línguas bíblicas, do grego e do hebraico, recomendado por Leão XIII para as Academias teológicas, foi tornado obrigatório por Pio X (*Enchiridion Biblicum*, n. 171), e que tal lei foi reproduzida na Constituição *Deus Scientiarum Dominus* (arts. 33-34; *Ordinationes*, art. 27, I).

Naturalmente, o estudo das línguas orientais e das ciências auxiliares não constitui, para os exegetas, um fim em si mesmo, mas está ordenado à compreensão e exposição precisa e clara da palavra divina, para que dela se alimente, tanto quanto possível, a vida espiritual.

É nesse sentido, e não por uma estreita pedanteria nem por uma desconfiança mal disfarçada em relação à compreensão espiritual, que se recomenda e inculca a busca do sentido literal com o auxílio da filologia e da crítica.

E desaprovar-se-ia quem fizesse uso desses recursos com excesso e exclusivamente, pior ainda se abusivamente, como se o livro não fosse divino.

Mas, ao mesmo tempo, não se pode permitir que, sob o pretexto do abuso, se tente tornar suspeito e retirar o uso dos verdadeiros princípios exegéticos:

> **«Abusus non tollit usum» — o abuso não elimina o uso.**

Ao opúsculo o autor acrescentou quatro páginas com o título «Confirmações extraídas da Encíclica *Pascendi*», como que para colocar sua infeliz empresa sob o patrocínio do santo Pontífice Pio X.

Artifício infeliz, porque, se o ensino da Sagrada Escritura recebeu de Leão XIII, na Encíclica *Providentissimus Deus*, a sua **Magna Carta**, que chamou a atenção de toda a Igreja para esse importantíssimo assunto, foi Pio X quem deu, por iniciativa pessoal, a organização definitiva a esse ensino, especialmente em Roma e na Itália, tendo ele, em sua experiência como Bispo, observado de perto tanto as deficiências do ensino bíblico quanto os efeitos desastrosos que delas resultavam.

Com efeito, começou instituindo, apenas alguns meses depois de sua eleição, em 23 de fevereiro de 1904, os graus de licenciatura e doutorado em Sagrada Escritura, sabendo muito bem que a criação de títulos especiais era um meio eficaz para conseguir que os estudantes se dedicassem especialmente ao seu estudo.

Não podendo, por falta de recursos, fundar imediatamente o Instituto de altos estudos bíblicos que tinha em mente, Pio X incentivou, em 1906, o ensino da Sagrada Escritura no Pontifício Seminário Romano; aprovou, nos anos de 1908 e 1909, a criação de um ensino superior de Sagrada Escritura na Gregoriana e no Angelicum; e, finalmente, criou no mesmo ano de 1909 o Pontifício Instituto Bíblico, cuja obra não deixou de se desenvolver sob os olhos dos Sumos Pontífices, com uma continuidade de orientações tão evidente que não necessita de demonstração.

Quanto o Instituto Bíblico fez para promover o progresso do estudo da Sagrada Escritura, especialmente na Itália, demonstra-o o número de alunos e ouvintes de nacionalidade italiana, bem como o número de inscritos nas Semanas Bíblicas, convocadas todos os anos com frequência e proveito crescentes.

Foi ainda Pio X quem estabeleceu as diretrizes para o estudo da Sagrada Escritura nos Seminários, quando publicou a Carta Apostólica *Quoniam in re biblica*, de 27 de março de 1906 (*Enchiridion Biblicum*, nn. 155-173), e providenciou sua aplicação nos Seminários da Itália mediante o programa especial da Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares, de 10 de maio de 1907.

Não é necessário insistir mais.

Seja qual for a identidade do autor do documento e quais sejam seus objetivos, o estudo da Sagrada Escritura deve continuar também nos Seminários da Itália, segundo as diretrizes dadas pelos últimos Sumos Pontífices, porque hoje, não menos que ontem, é importante que os sacerdotes e ministros da Palavra de Deus estejam bem preparados e sejam capazes de dar respostas satisfatórias não somente às questões relativas ao dogma e à moral católica, mas também às dificuldades levantadas contra a verdade histórica e a doutrina religiosa da Bíblia, particularmente do Antigo Testamento.

Por isso, é oportuno terminar com as mesmas palavras com que Bento XV, de santa memória, encerrava a Encíclica *Spiritus Paraclitus*:

> «Esforçai-vos, Veneráveis Irmãos, para que os ensinamentos do santíssimo exegeta [São Jerônimo] penetrem profundamente nas almas dos vossos clérigos e sacerdotes; pois é sobretudo vosso dever fazê-los voltar diligentemente a considerar o que exige deles a responsabilidade do divino ministério de que foram revestidos, se quiserem mostrar-se dignos dele: “Porque os lábios do sacerdote devem guardar a ciência, e de sua boca se há de procurar a lei, pois ele é o Anjo do Senhor dos exércitos” (Mal. 2,7).

> Saibam, portanto, que não devem negligenciar o estudo das Escrituras, nem abordá-lo por outro caminho que não aquele que Leão XIII prescreveu expressamente na Carta Encíclica *Providentissimus Deus*.»(*Enchiridion Biblicum*, n. 494).

O Santo Padre, a quem toda a questão foi submetida na audiência concedida por Sua Santidade, em 16 de agosto de 1941, ao Reverendíssimo Secretário da Pontifícia Comissão para os Estudos Bíblicos, dignou-se aprovar as deliberações dos Eminentíssimos membros da Comissão e ordenar o envio da presente carta.

Cumprindo, portanto, a tarefa que me foi confiada, peço a Vossa Excelência Reverendíssima que aceite os sentimentos de minha homenagem, enquanto me subscrevo,

de Vossa Excelência Reverendíssima,

humildíssimo servidor,

**E. Card. Tisserant, Presidente.**
**Fr. G. M. Vosté, O.P., Secretário.**

**Roma, 20 de agosto de 1941.**


------------------------------------

PONTIFICIA COMMISSIONE BIBLICA

LETTERA AGLI ECC.MI PP.DD. ARCIVESCOVI
E VESCOVI ITALIANI
UN OPUSCOLO ANONIMO DENIGRATORIO


Eccellenza Reverendissima,

Consta alla Pontificia Commissione per gli Studi Biblici che, settimane or sono, venne spedito agli Em.mi Membri del Sacro Collegio, agli Ecc.mi Ordinari d'Italia e ad alcuni Superiori Generali di Ordini Religiosi un opuscolo anonimo intitolato: Un gravissimo pericolo per la Chiesa e per le anime. Il sistema critico-scientifico nello studio e nell'interpretazione della Sacra Scrittura, le sue deviazioni funeste e le sue aberrazioni (48 pagine in 8).

L'opuscolo reca in testa l'iscrizione: «Vale come manoscritto. Riservatissima di coscienza». Ma di fatto, con patente contraddizione, fu spedito attraverso tutta la Penisola in buste aperte.

Inoltre al fondo dell'ultima pagina ha la dichiarazione: «Copia conforme dell'esposto presentato al Santo Padre Pio XII». Poiché è verissimo questo, non occorre altro a dimostrare la sconvenienza, - e l'Eccellenza Vostra Reverendissima l'avrà sicuramente rilevata subito - di spedire contemporaneamente a Sua Santità ed a molte persone ecclesiastiche un documento scritto con l'intento di presentarlo all'esame del Sommo Pontefice.

I due semplici fatti bastano a dimostrare quanto l'autore dell'opuscolo, chiunque sia, manchi di giudizio, di prudenza e di riverenza, e potrebbero dispensare da altri rilievi. Tuttavia, nel timore che certe accuse o insinuazioni possano turbare qualche Pastore e distoglierlo dal proposito di procurare ai suoi futuri sacerdoti quel sano e giusto insegnamento della Sacra Scrittura, che sta grandemente a cuore del Sommo Pontefice, gli E.mi Padri componenti la Pontificia Commissione per gli Studi Biblici, convenuti in adunanza plenaria per l'esame del caso, hanno deciso di sottoporre alla benevola attenzione dell'Eccellenza Vostra Rev.ma le seguenti considerazioni.

L'opuscolo vuole essere una difesa di una certa esegesi detta di meditazione; ma è soprattutto una virulenta accusa dello studio scientifico delle Sacre Scritture: esame filologico, storico, archeologico, ecc. della Bibbia altro non sono che razionalismo, naturalismo, modernismo, scetticismo, ateismo, ecc.; a capir bene la Bibbia, bisogna lasciare libero corso allo spirito, quasi che ognuno fosse in personale comunione con la divina Sapienza, e ricevesse dallo Spirito Santo speciali lumi individuali, come pretesero i primitivi protestanti. Perciò l'anonimo con estrema violenza attacca persone ed istituti scientifici pontifici; denigra lo spirito degli studi biblici scientifici, «spirito maledetto di orgoglio, di presunzione e di superficialità, palliata da accigliata indagine e da ipocrita scrupolosità della lettera» (pag. 40); disprezza l'erudizione, lo studio delle lingue orientali e delle altre scienze ausiliarie, e trascorre a gravi errori circa i principi fondamentali dell'ermeneutica cattolica consentanei alla nozione teologica della ispirazione biblica, misconoscendo la dottrina dei sensi delle Sacre Scritture, e trattando con somma leggerezza il senso letterale e la sua accurata indagine; da ultimo, come se ignorasse la storia dei testi originali e delle versioni antiche, nonché la natura e l'importanza della critica testuale, propugna una falsa teoria sull'autenticità della Volgata.

Poiché sarebbe fuor di luogo, e poco riverente verso Pastori e Maestri della Chiesa, ritornare sopra le nozioni primordiali dell'ispirazione e dell'ermeneutica biblica, basti porre di fronte alle pretese dell'anonimo qualcuna delle più recenti disposizioni della Santa Sede sullo studio scientifico della Sacra Scrittura, da Leone XIII in poi.

1. Del senso letterale. L'anonimo benché affermi pro forma che il senso letterale è la «base dell'interpretazione biblica» (pag. 6), di fatto preconizza una esegesi assolutamente soggettiva e allegorica, giusta l'ispirazione personale o piuttosto secondo la fantasia più o meno vivace e feconda di ognuno. Ora se è proposizione di fede da tenersi per principio fondamentale che la Sacra Scrittura contiene, oltre al senso letterale, un senso spirituale o tipico, come ci è insegnato dalla pratica di Nostro Signore e degli Apostoli, tuttavia non ogni sentenza o racconto contiene un senso tipico, e fu un eccesso grave della scuola alessandrina di voler trovare dappertutto un senso simbolico, anche a danno del senso letterale e storico. Il senso spirituale o tipico, oltre che fondarsi sopra il senso letterale, deve provarsi sia dall'uso di Nostro Signore, degli Apostoli o degli scrittori ispirati sia dall'uso tradizionale dei Santi Padri e della Chiesa, specialmente nella sacra liturgia, perché «lex orandi, lex credendi». Un'applicazione più larga dei testi sacri potrà bensì giustificarsi collo scopo dell'edificazione in omilie ed in opere ascetiche; ma il senso risultante anche dalle accomodazioni più felici, quando non sia comprovato com'è detto sopra, non si può dire veramente e strettamente senso della Bibbia né che fu da Dio ispirato all'agiografo.

Invece l'anonimo, che non fa veruna di queste distinzioni elementari, vuole imporre le elucubrazioni della sua fantasia come senso della Bibbia, come «vere comunioni spirituali della sapienza del Signore» (pag. 45), e misconoscendo la capitale importanza del senso letterale calunnia gli esegeti cattolici di considerare «solo il senso letterale» e di considerarlo «a modo umano, prendendolo solo materialmente, per quello che suonano le parole» (pag. 11), anzi di essere «ossessionati dal senso letterale della Scrittura» (pag. 46). Egli rigetta in tal modo la regola d'oro dei dottori della Chiesa, così chiaramente formulata dall'Aquinate: «Omnes sensus fundantur super unum, scilicet litteralem, ex quo solo potest trahi argumentum» (1, q. 1, 10 ad 1); regola che i Sommi Pontefici sancirono e consecrarono quando prescrissero che, prima di tutto, si cerchi con ogni cura il senso letterale. Così per es. Leone XIII nella Enciclica Providentissimus Deus: «Propterea cum studio perpendendi quid ipsa verba valeant, quid consecutio rerum velit, quid locorum similitudo aut talia cetera, externa quoque appositae eruditionis illustratio societur» (Ench. Bibl., n. 92), e più avanti: «Praeceptioni illi, ab Augustino sapienter propositae, religiose obsequatur (exegeta), videlicet a litterali et veluti obvio sensu minime discedendum, nisi qua eum vel ratio tenere prohibeat vel necessitas cogat dimittere» (Ench. Bibl., n. 97). Così pure Benedetto XV nell'Enciclica Spiritus Paraclitus: «Ipsa Scripturae verba perdiligenter consideremus, ut certo constet quidnam sacer scriptor dixerit» (Ench. Bibl., n. 498); dove, illustrando l'esempio e i principii esegetici del «Doctor maximus in exponendis Sacris Scripturis», S. Girolamo, il quale «litterali seu historica significatione in tuto collocata, interiores altioresque rimatur sensus, ut exquisitiore epulo spiritum pascat» (Ench. Bibl., n. 499), raccomanda che gli esegeti «modeste temperateque e litterali sententia ad altiora exsurgant» (Ench. Bibl., n. 499). Ambedue finalmente i Sommi Pontefici, Leone XIII e Benedetto XV, insistono, con le stesse parole di S. Girolamo, sul dovere dell'esegeta: «commentatoris officium esse, non quid ipse velit sed quid sentiat ille, quem interpretatur, exponere» (Ench. Bibl., n. 91 et 500).

2. Dell'uso della Volgata. Anche più palpabile è l'errore dell'anonimo circa il senso e l'estensione del decreto tridentino sull'uso della Volgata latina. Il Concilio Tridentino, contro la confusione cagionata dalle nuove traduzioni in latino e in vernacolo allora propalate, volle sancito l'uso pubblico, nella Chiesa Occidentale, della versione latina comune giustificandolo dall'uso secolare fattone dalla Chiesa stessa, ma non pensò per nulla menomare l'autorità delle versioni antiche adoperate nelle Chiese Orientali, di quella segnatamente dei LXX usata dagli stessi Apostoli, e meno ancora l'autorità dei testi originali, e resistette ad una parte dei Padri, che volevano l'uso esclusivo della Volgata come sola autorevole. Ora l'anonimo sentenzia che in virtù del decreto Tridentino si possiede nella versione latina un testo dichiarato superiore a tutti gli altri, rimprovera agli esegeti di voler interpretare la Volgata coll'aiuto degli originali e delle altre versioni antiche. Per lui il decreto dà la «certezza del Sacro Testo», cosi che la Chiesa non ha bisogno di «ancora ricercare l'autentica lettera di Dio» (pag. 7), e ciò non soltanto in rebus fidei et mororum, ma in tutti i rispetti (anche letterari, geografici, cronologici, ecc.). La Chiesa con quel decreto ci ha dato «il Testo autentico e ufficiale, dal quale non a lecito discostarsi» (pag. 6), e fare la critica testuale è un «mutilare la Sacra Scrittura» (pag. 8), è un «sostituirsi con presunzione alla sua autorità [della Chiesa], che sola può presentarci un testo autentico, e sola ce lo presenta difatti col citato Decreto del Concilio di Trento» (pag. 28): ogni operazione critica circa il testo biblico, quale viene presentato nella Volgata, è «il libero esame, anzi il farnetico esame personale, sostituito all'Autorità della Chiesa» (pag. 9).

Ebbene tale pretesa non è soltanto contro il senso comune, il quale non accetterà mai che una versione possa essere superiore al testo originale, ma è anche contro la mente dei Padri del Concilio, quale appare dagli Atti; il Concilio anzi fu consapevole della necessità di una revisione e correzione della Volgata medesima, e ne rimise l'esecuzione ai Sommi Pontefici, i quali la fecero, come fecero, secondo la mente dei più autorevoli collaboratori del Concilio stesso, un'edizione corretta dei LXX (sotto Sisto V), e poi ordinarono quella del Vecchio Testamento ebraico e del Nuovo Testamento greco, incaricandone commissioni apposite. Ed è apertamente contro il precetto dell'Enciclica Providentissimus: «Neque tamen non sua habenda erit ratio reliquarum versionum; quas christiana laudavit usurpavitque antiquitas, maxime codicum primigeniorum» (Ench. Bibl., n. 91).

Insomma il Concilio Tridentino dichiarò «autentica» la Volgata in senso giuridico, cioè riguardo alla «vis probativa in rebus fidei et morum», ma non escluse affatto possibili divergenze dal testo originale e dalle antiche versioni, come ogni buon libro d'Introduzione Biblica espone chiaramente secondo gli Atti del Concilio medesimo.

3. Della critica testuale. Con l'idea, sopra esposta, del valore pressoché unico, della Volgata, e minimo o quasi nullo dei testi originali e delle altre versioni antiche, non fa meraviglia che l'anonimo neghi la necessità e l'utilità della critica testuale, non ostante che le recenti scoperte di testi preziosissimi abbiano confermato il contrario. Poiché «è la Chiesa che ci presenta e garantisce il Testo Sacro» (pag. 10), fare della critica testuale è «trattare il Libro divino come un libro umano» (pag. 23), e l'unico uso che si può fare del testo originale e delle antiche versioni è di consultarli «in qualche difficoltà da illuminare» (pag. 6); il testo greco non può «far fede» contro un altro testo e «contro lo stesso testo ufficiale della Chiesa» (pag. 8), e «non si possono in nessun modo espungere... dal Testo, non solo della Chiesa (= Volgata), ma da quello originale, interi tratti o interi versetti» (pag. 7), dunque nemmeno se assenti dalla primitiva tradizione di esso e penetrativi dipoi; tentare di stabilire il Sacro Testo con mezzi critici è un «massacrare» la Bibbia (pag. 9). Indi le parecchie pagine dell'opuscolo, piene di invettive contro il «criticismo scientifico», «naturalismo», «modernismo».

Che la scienza biblica cattolica, dai tempi di Origene e di S. Girolamo fin alla «Commissione per la revisione ed emendazione della Volgata», istituita proprio dal Papa dell'Enciclica Pascendi, si sia affaticata a stabilire la forma più pura possibile del testo originale e delle versioni, compresa (per non dire anzitutto) la Volgata; che Leone XIII fortemente raccomandi: «Artis criticae disciplinam, quippe percipiendae penitus hagiographorum sententiae perutilem, Nobis vehementer probantibus, nostri excolant. Hanc ipsam facultatem, adhibita loco ope heterodoxorum, Nobis non repugnantibus, iidem exacuant» (Litt. Apost. Vigilantiae, Ench. Bibl., n. 135); che la Pontificia Commissione Biblica abbia risposto che, nel Pentateuco (e «servatis servandis» anche in altri libri biblici: cf. il decreto De Psalmis, Ench. Bibl., n. 345) si possa ammettere «tam longo saeculorum decursu nonnullas... modificationes obvenisse, uti: additamenta post Moysi mortem vel ab auctore inspirato apposita, vel glossas et explicationes textui interiectas; vocabula quaedam et formas e sermone antiquato in sermonem recentiorem translatas: mendosas demum lectiones vitio amanuensium adscribendas, de quibus fas sit ad normas artis criticae disquirere et iudicare» (Decr. De Mosaica authentia Pentateuchi, d.d. 27 iunii 1906, Ench. Bibl., n. 177); che il S. Offizio abbia permesso e permetta agli esegeti cattolici di discutere la questione del Comma Ioanneum e, «argumentis hinc inde accurate perpensis, cum ea, quam rei gravitas requirit, moderatione et temperantia, in sententiam genuinitati contrariam inclinare» (Declaratio S. Officii, d.d. 2 iunii 1927, Ench. Bibl., n. 121): tutto questo dimentica o dissimula l'autore dell'opuscolo per rendere oggetto di orrore l'opera degli esegeti cattolici, i quali, fedeli alle tradizioni cattoliche ed alle norme inculcate dalla suprema autorità ecclesiastica, provano, col fatto medesimo dei loro austeri e penosi lavori di critica testuale, in quanta venerazione tengano il Testo Sacro.

4. Dello studio delle lingue orientali e delle scienze ausiliarie. Muovono a commiserazione ed insieme a indignazione la leggerezza e l'arroganza incredibile, con cui l'anonimo ne parla. «L'Ebraico, il Siriaco, l'Aramaico» sarebbero soltanto materia di orgoglio degli «scientifici» (pag. 4), «sfoggio dell'erudizione» (pag. 14), «l'orientalismo s'è mutato in vero feticismo», e «la sapienza orientalista moderna è spesse volte discutibilissima» (pag. 46). Tanto disprezzo, nato fatto per alienare gli spiriti dal duro studio e per fomentare la leggerezza e la disinvoltura nel trattamento dei libri divini, col risultato inevitabile di sminuire la riverenza somma e la totale soggezione dovute ad essi ed il salutare timore di farne un uso meno conveniente, è in pieno contrasto con la tradizione della Chiesa, la quale, dai tempi di S. Girolamo fin ai nostri, ha favorito lo studio delle lingue orientali, sapendo che «Sacrae Scripturae magistris necesse est... eas linguas cognitas habere, quibus libri canonici sunt primitus ab hagiographis exarati» (Leone XIII, Enciclica Providentissimus Deus, Ench. Bibl., n. 103), e raccomandato «ut omnibus in Academiis... de ceteris item antiquis linguis, maxime semiticis, deque congruente cum illis eruditione, sint magisteria» (ibid.), ed esorta a curare, «ut minore in pretio ne sit apud nos quam apud externos, linguarum veterum orientalium scientia» (Leone XIII, Litt. Apost. Vigilantiae, Ench. Bibl., n. 133). L'anonimo dimentica che lo studio delle lingue bibliche, del greco e dell'ebraico, raccomandato da Leone XIII per le Accademie teologiche, vi è stato reso obbligatorio da Pio X (Ench. Bibl., n. 171), e che tal legge è riportata nella costituzione Deus Scientiarum Dominus (art. 33-34; Ordinationes, art. 27, I).

Naturalmente lo studio delle lingue orientali e delle scienze ausiliarie non è, per gli esegeti, fine a se stesso, ma ordinato all'intelligenza ed esposizione precisa e chiara della parola divina, affinché se ne alimenti al possibile la vita spirituale. In tale senso, e non per una gretta pedanteria né per una mal celata diffidenza contro l'intelligenza spirituale, si raccomanda ed inculca la ricerca del senso letterale coi sussidi della filologia e della critica, e si disapproverebbe chi se ne valesse con eccesso, ed esclusivamente, peggio se abusivamente, quasi non fosse divino il libro. Ma allo stesso tempo non si può permettere che col pretesto dell'abuso si attenti di rendere sospetto e di togliere l'uso dei veri principi esegetici: «abusus non tollit usum».

All'opuscolo l'autore ha aggiunto quattro pagine col titolo «Conferme tratte dall'Enciclica Pascendi», come a porre la sua sciagurata impresa sotto il patronato del santo Pontefice Pio X. Accorgimento infelice, perché, se l'insegnamento della Sacra Scrittura ebbe da Leone XIII nell'Enciclica Providentissimus Deus la Magna charta, che richiamava sull'importantissimo soggetto l'attenzione della Chiesa intera, fu Pio X che diede, di propria personale iniziativa, l'assetto definitivo a quell'insegnamento, specialmente in Roma ed in Italia, avendo egli, nella sua esperienza di Vescovo, osservato da vicino e le deficienze dell'insegnamento biblico e gli effetti disastrosi che ne derivavano.

Cominciò difatti coll'istituire, soltanto pochi mesi dopo l'elezione, il 23 febbraio 1904, i gradi di licenza e laurea in Sacra Scrittura, ben sapendo che la creazione di titoli speciali era mezzo efficace ad ottenere che studenti si dedicassero in modo speciale allo studio di essa. Non potendo poi, per mancanza di mezzi, fondare immediatamente l'Istituto di alti studi biblici al quale pensava, Pio X incoraggiò, nel 1906, l'insegnamento della Sacra Scrittura nel Pontificio Seminario Romano, approvò, negli anni 1908 e 1909, la creazione di un insegnamento superiore di Sacra Scrittura nella Gregoriana e nell'Angelicum, e, finalmente, creava nello stesso anno 1909 il Pontificio Istituto Biblico, la cui opera non ha cessato di svilupparsi sotto gli occhi dei Sommi Pontefici con una continuità di direttive così evidente da non esigere dimostrazione. Quanto l'Istituto Biblico abbia fatto per promuovere il progresso dello studio della Sacra Scrittura specialmente in Italia, lo dimostrano il numero degli alunni ed uditori di nazionalità italiana, e quello degli iscritti alle Settimane Bibliche, ogni anno convocate con frequenza e con frutto crescenti. Fu Pio X ancora che fissò le direttive dello studio della Sacra Scrittura nei Seminari, quando pubblicò la lettera apostolica Quoniam in re biblica del 27 marzo 1906 (Ench. Bibl., nn. 155-173), e provvide all'applicazione di esse nei Seminari d'Italia con lo speciale programma della Sacra Congregazione dei Vescovi e Regolari in data del 10 maggio 1907.

Non occorre insistere oltre: checché sia dell'autore dell'esposto, e delle sue mire, lo studio della Sacra Scrittura deve continuare, anche nei Seminari d'Italia, secondo le direttive date dagli ultimi Sommi Pontefici, perché oggi, non meno di ieri, importa che i sacerdoti e ministri della Parola di Dio siano ben preparati, e capaci di dare risposte soddisfacenti, non soltanto sulle questioni del dogma e della morale cattolica, ma anche alle difficoltà proposte contro la verità storica e la dottrina religiosa della Bibbia, particolarmente del Vecchio Testamento. Perciò piace terminare colle stesse parole con cui Benedetto XV, di s.m., chiudeva l'Enciclica Spiritus Paraclitus: «Exegetae sanctissimi [S. Hieronymi] documenta, Venerabiles Fratres, studiose efficite, ut animis clericorum et sacerdotum vestrorum altius insideant; nam vestrum in primis est diligenter revocare eos ad considerandum, quid ab ipsis divini muneris, quo aucti sunt, ratio postulet, si eo non indignos se praestare velint: "Labia enim sacerdotis custodient scientiam et legem requirent ex ore eius, quia Angelus Domini exercituum est" (Mal. 2,7). Sciant igitur, sibi nec studium Scripturarum esse negligendum, nec illud alia via aggrediendum, ac Leo XIII Encyclicis Litteris Providentissimus Deus data opera praescripsit» (Ench. Bibl., n. 494).

Il Santo Padre, al quale è stata sottoposta tutta la questione nell'Udienza concessa dalla stessa Sua Santità il 16 agosto 1941 al Rev.mo Segretario della Pontificia Commissione per gli Studi Biblici, si è degnato di approvare le deliberazioni degli E.mi componenti la Commissione e di ordinare la spedizione della presente lettera.

Assolvendo quindi il compito affidatomi, La prego, Eccellenza Rev.ma, di gradire i sensi del mio omaggio, mentre mi confermo

dell'Eccellenza Vostra Rev.ma
dev.mo per servirla

E. Card. Tisserant, Presidente.
Fr. G.M. Vosté, O.P., Segretario.

Roma, 20 agosto 1941

---------------------------------------