UMA EDIÇÃO PASTORAL DO NOVO TESTAMENTO*
Johan Konings S.J.
O Novo Testamento — Edição Pastoral não é "mais uma" tradução do N.T. Pretende ser um instrumento para a leitura popular da Bíblia na perspectiva da libertação. Isso se verifica em primeiro lugar pela apresentação. Os editores procuraram manter um preço razoável e usar uma tipografia muito legível. (Infelizmente, o papel é um pouco transparente e dificulta a leitura). A tradução apresenta um português ao mesmo tempo correto e corriqueiro. Substitui o "tu/vós" por "você/vocês" (menos nas orações dirigidas a Deus e casos análogos), evita o mais-que-perfeito e o futuro (usando os verbos auxiliares "ter" e "ir"), etc. Porém, o que mais justifica o subtítulo de "Edição Pastoral" são as introduções e as notas. A Introdução Geral aos Evangelhos oferece elementos para a abordagem econômica, política e sócio-religiosa dos textos. Além disso, cada evangelho é precedido por uma breve introdução histórico-literária. De modo semelhante encontramos uma introdução geral às cartas paulinas e introduções particulares a cada carta. Para os outros escritos só existem as introduções particulares. (Por um descuido, a introdução aos evangelhos recebeu a paginação em números romanos da parte pré-textual, enquanto a equivalente introdução às cartas paulinas está na paginação comum). O índice, colocado no início (como convém), inclui também os mapas.
O texto é subdividido em perícopes, como nas bíblias tradicionais. Cada perícope recebeu um título, geralmente sugerindo uma interpretação na ótica dos pobres. Além disso, para cada perícope encontra-se, no rodapé, uma nota explicativa de cunho teológico-pastoral. Eventuais observações sobre detalhes do texto são integradas nesta nota. Faltam as referências dos paralelos sinóticos e das citações explícitas do Antigo Testamento. Isso se deve certamente ao propósito de simplificar a apresentação, mas a nós parece-nos um excesso de sobriedade: na pastoral bíblica popular, estas referências são muito úteis. (A bíblia "Ave Maria", por exemplo, as insere discretamente no próprio texto).
Estas notas teológico-pastorais constituem de fato uma hermenêutica contínua do texto. Ora, aqui entra uma questão de ótica, que pode parecer discutível. A impostação da ótica dos pobres nos parece às vezes artificial. Assim, Mt 11, 25-30 é anunciado pelo título: "Os pobres evangelizam", enquanto o sentido óbvio do texto é que os "humildes" são evangelizados (como interpreta também o comentário em nota, acrescentando contudo "e partirão para evangelizar"). Mc 10, 13-16 (Jesus abençoa as crianças) é intitulado como "O Reino pertence aos pobres"; também esta interpretação ultrapassa o sentido óbvio do texto. Todavia, as notas são geralmente iluminativas e às vezes até muito perspicazes; cortam o mal da leitura espiritualizante ou individualista pela raiz (p.ex. Mc 9, 42-50). Por outro lado, às vezes contêm exegeses apressadas (ou atrasadas), como p.ex. a menção do evangelista João entre os personagens de Jo 1, 35-51; hoje em dia, os exegetas críticos já não encontram o filho de Zebedeu neste trecho...
Ainda quanto à tendência de expressar a interpretação da perícope no seu título, temos nossas reservas. O título da perícope deve ser sua "carteira de identidade"; a interpretação se encontrará na nota de rodapé. Assim, p.ex., seria melhor intitular Jo 13, 31-38 como "O mandamento do amor e a predição da negação", do que como "A expressão de fé em Jesus é o amor" (ainda mais porque o termo "expressão" aqui parece significar a encarnação objetiva da fé, o que o leitor popular provavelmente não adivinhará). Aconselhamos que, na próxima edição, alguns títulos de perícopes sejam substituídos por outros, mais objetivos.
Chegamos assim à tradução. Para a caracterizar, compará-la-emos com outras traduções que pretendem ser compreensíveis ao primeiro ouvido: o Lecionário Dominical (Ed. Paulinas, 1982-1984) (LD) e a Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH).
1) Mt 5, 3. A Edição Pastoral (EP) lê: "felizes os pobres em espírito", o LD: "bem-aventurados os pobres em espírito", BLH: "felizes os que sabem que são espiritualmente pobres". A tradução da BLH é tendenciosa e alienante. A EP traduz o grego makarios por seu equivalente mais óbvio em português moderno: "felizes".
2) Mt 6, 27.
EP: Quem de vocês pode crescer um só centímetro à custa de se preocupar com isso?
LD: id.
BLH: Nenhum de vocês pode viver alguns anos mais por estar preocupado com isso.
O texto grego lê, literalmente: "Quem de vós, preocupando-se, pode acrescentar à sua idade um só côvado". O mesmo texto, menos "só", ocorre em Lc 12, 25: "Quem de vós, preocupando-se, pode à sua idade acrescentar um côvado?" Comparemos novamente:
EP: Quem de vocês pode crescer um centímetro à custa de se preocupar com isso?
BLH: Qual de vocês, por mais que se preocupe, pode viver alguns anos a mais.
BLH traduz melhor o sentido da imagem (a questão é a longevidade e não o tamanho corporal!), mas não respeita a homogeneidade na tradução de frases iguais.
3) Mt 11, 25-27.
EP: "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Meu Pai entregou tudo a mim..."
LD: "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Meu Pai entregou tudo a mim..."
BLH: "Ó Pai, Senhor do céu e da terra, eu te agradeço, porque tens mostrado aos que não são instruídos aquilo que escondeste dos sábios e entendidos. Sim, Pai, isto foi feito assim pela tua própria escolha e vontade." Meu Pai me deu todas as coisas...
Enquanto a BLH é um tanto verborrágica, a EP coincide com o LD (corrigindo, com justeza, "estas" em "essas" — v. 25). A BLH traduz exomologein no v. 25 erroneamente por "agradecer" (em vez de "louvar"). Observamos que EP e BLH usam o mesmo vocabulário no paralelo lucano Lc 10, 21-22a, que também no grego é idêntico.
4) Mt 11, 28-30.
EP: "Venham para mim, todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve."
LD: "Venham para mim, vocês todos, que estão cansados de carregar o peso do seu fardo! E eu lhes darei descanso. Carreguem o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve."
BLH: "Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. Tornem-se meus seguidores e aprendam de mim, porque sou bondoso e humilde de espírito: e vocês encontrarão descanso. Os deveres que exijo de vocês são fáceis, e a carga que ponho sobre vocês é leve."
LD é melhor. A substituição de "meu jugo" (v. 29-30) por "minha carga", na EP, é infeliz, porque "jugo" significa, no rabinismo, a disciplina ou pedagogia do mestre. (A tradução da BLH, embora muito livre, acerta este sentido). O termo "carga" (além de ter uma "carga" emocional tão negativa quanto "jugo") torna-se problemático no v. 30: uma carga não pode ser "suave", e sim, pesada ou leve: um jugo/disciplina pode ser suave.
5) Mt 24, 37-44.
V. 37: EP e LD descrevem: "A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé"; é ambíguo; a BLH traduz mais claramente: "A vinda do Filho do Homem será como o que aconteceu no tempo de Noé".
No v. 38, a BLH evita os semitismos "casar" (do homem) e "dar-se em casamento" (da mulher) e traduz de modo certo e compreensível: "os homens e as mulheres casavam".
V. 39: EP e LD: "E eles nada perceberam..."; BLH: "Porém, não sabiam o que estava acontecendo". Mais expressivo teria sido: "eles não tinham consciência daquilo que estava acontecendo".
No v. 40, EP/LD é preferível à BLH ("campo" não é "fazenda"!).
No v. 43, "compreender" (EP/LD) é mais exato que "lembrar-se" (BLH). Porém, na segunda parte da frase, a BLH é mais fluente.
No v. 44, "estejam preparados" (EP/LD) é mais exato que a tradução da BLH, que repete indevidamente o "fiquem vigiando" do v. 42. Ao nosso sentir, "estejam prontos" teria sido mais popular.
6) Lc 10, 25.
EP/LD fala num "especialista em leis". Preferível é a BLH: "um professor da lei". Mas o termo tradicional "um doutor (mestre) da lei" nos parece melhor ainda.
7) Jo 1, 1-3.
EP: "No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus. No começo ela estava voltada para Deus. Tudo foi feito por meio dela, e de tudo o que existe, nada foi feito sem ela."
LD: "No princípio existia a Palavra e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. No princípio, ela estava com Deus. Tudo foi feito por meio dela e nada do que existe foi feito sem ela."
BLH: "Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus. Assim, desde o princípio, a Palavra estava com Deus. Deus fez todas as coisas por meio dele, e em toda a criação nada foi feito sem ele."
LD é preferível. A expressão pros ton theon (v. 1b e 2), no grego "koiné", tem como sentido óbvio "junto a Deus" e não "voltado para Deus", como traduzem certos S. Padres platonizantes e também a EP. Também no v. 3, o LD é mais objetivo e mais fluente.
8) Jo 1, 13.
EP: Estes não nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem do desejo do homem, mas nasceram de Deus.
LD: Estes não nasceram do sangue, nem do desejo da carne, nem da vontade do homem, mas nasceram de Deus.
BLH: Eles se tornaram filhos de Deus, não por nascimento natural, nem pelo desejo de alguém, mas somente pela vontade de Deus.
A BLH tentou ser tão clara, que dispensasse explicação; porém, mesmo se os leitores entendessem as palavras desbotadas, não entenderiam o sentido bíblico (que, aliás, sempre exigirá explicação). O texto original (grego) fala de "sangues" (masculino e feminino), significando a procriação; de "vontade da carne", indicando sobretudo a humanidade (carne); e de "vontade do varão", significando o impulso sexual. Traduzir "nascer de Deus" por "ser filho de Deus" (BLH) destrói a referência ao novo nascimento, fundamental para a leitura do Jo 3. A EP se engana, entendendo "carne" como sexualidade e não como humanidade. A melhor tradução é a do LD.
9) Jo 1, 14 (e 16).
No v. 14a, EP e BLH traduzem "a Palavra se fez homem" e não "a Palavra se fez carne" (literal e LD). Apesar de essa tradução ser mais clara à primeira vista, parece-nos que se deveria conservar o termo "carne", por este ser um termo técnico no 4º Ev.
No v. 14b, EP substitui a tradicional tradução "graça e verdade" (cf. LD) por "amor e fidelidade"; a BLH, que modifica a ordem da frase, lê "amor e verdade". Quanto ao sentido, a EP é mais adequada. Porém, surge novamente o problema da estereotipia da linguagem joanina; "graça" (v. 14) tem uma associação no v. 16, que não pode ser expressa pelo termo "amor". Será difícil dispensar o leitor do 4º Ev. de alguma iniciação na terminologia própria de João. (Aliás, nenhum brasileiro popular acha extravagante aprender os termos técnicos do futebol...).
10) Jo 20, 5.
EP/LD: "Eles não tinham compreendido a escritura que diz: Ele deve ressuscitar dos mortos". Esta tradução dá a impressão de que existe um texto escriturístico que fala nestes termos. Não existe. Jo quer dizer: eles ainda não tinham entendido a Escritura no sentido de que Jesus devia ressuscitar dos mortos, ou seja, eles ainda não tinham realizado uma releitura pascal das Escrituras. A BLH acertou melhor: "Eles ainda não tinham entendido as Escrituras Sagradas, que dizem que era preciso que Jesus ressuscitasse."
Concluímos que o parentesco da nova tradução com a do Lecionário Dominical é mais que evidente¹. Às vezes aproxima-se também da Bíblia na Linguagem de Hoje. As modificações com relação ao LD não significam sempre uma melhora, sobretudo do ponto de vista exegético. Por outro lado, o texto, globalmente considerado, é mais feliz do que a BLH, que perde a continuidade com a linguagem bíblica à qual o povo se acostumou. A BLH especifica demais sua tradução e opera assim um fechamento hermenêutico, empobrecendo o potencial hermenêutico do texto. Mais conservadora, a EP escapa deste perigo.
Em princípio, concordamos com o tipo de tradução que a EP oferece. Mas a semelhança com o Lecionário Dominical nos leva a uma observação crítica. Como se sabe, o LD está sendo completado e virá a constituir, por volta de 1990, uma completa "Bíblia Litúrgica". A Edição Pastoral das Ed. Paulinas deve também completar o A.T. por aquela mesma época. Visto a pouca diferença, por que não "procurar resolver o caso com o adversário enquanto estão a caminho" (Lc 11, 58) e, superando todos os interesses editoriais particulares, procurar oferecer uma tradução única, na Bíblia Litúrgica e na Edição Pastoral, sendo que a primeira teria sua especificidade na diagramação tipográfica com vistas à leitura litúrgica, e a segunda, nas notas e introduções orientadas para a leitura popular libertadora? Tal solução seria um primeiro passo para a tão desejada "Vulgata brasileira" e certamente um magnífico serviço à pastoral.
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Notas:
Bíblia Sagrada. Novo Testamento. Edição pastoral. Tradução, introdução e notas: Ivo Storniolo, Euclides Martins Balancin. — São Paulo: Ed. Paulinas, 1986. XVI + 445 pp., 18,8 × 13,5 cm. ISBN 85-05-00518-X.
¹ Isto vale sobretudo para os textos evangélicos, traduzidos pelos mesmos tradutores em ambas as edições. No resto do NT, a semelhança se limita ao estilo em geral.
Endereço: Caixa postal 5047 — 31611 Belo Horizonte — MG.
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Fonte: KONINGS, Johan. Uma edição pastoral do Novo Testamento. Perspectiva Teológica, v. 19, p. 239–244, 1987. Acesso em: 14 out. 2026.