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Vaticano ameaça de silêncio o biblista Carlos Mesters (1989)

VATICANO AMEAÇA DE SILÊNCIO O BIBLISTA CARLOS MESTERS


O teólogo brasileiro frei Carlos Mesters, especialista em Bíblia e assessor das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), está sendo ameaçado de silêncio por parte da Congregação Vaticana para a Doutrina da Fé por causa de sua metodologia de leitura bíblica, baseada na Teologia da Libertação. Um dos livros de Mesters — “Paraíso terrestre: saudade ou esperança?” — lançado há dez anos pela Editora Vozes de Petrópolis (RJ) e que já está na 14.ª edição, está sendo objeto de processo desde o mês passado, na mesma congregação vaticana, dirigida pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger.

As denúncias contra o livro partiram da Comissão Arquidiocesana para a Doutrina da Fé, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, cujo titular é o cardeal d. Eugênio Sales. Outro denunciante é o bispo auxiliar de Olinda e Recife (PE), d. João Evangelista Martins Terra, teólogo e membro da Pontifícia Comissão Bíblica. Considerado como um dos principais conselheiros e confidentes do papa João Paulo II, d. João Terra levou ao Vaticano uma síntese que preparou sobre o projeto “Palavra-Vida”, uma iniciativa de reflexão bíblica preparada por Mesters e outros teólogos para a Confederação Latino-Americana dos Religiosos (Clar), com vistas à celebração do 5.º centenário da evangelização do continente (1492-1992).

Mesters está sendo pressionado basicamente por três motivos: pelas teses defendidas no livro “Paraíso terrestre: saudade ou esperança?”, questionando uma leitura literal dos relatos bíblicos sobre a origem da humanidade e do universo; por sua colaboração com biblistas evangélicos numa coletânea bíblica que está sendo publicada pelas Editoras Vozes (dos franciscanos), Sinodal (dos luteranos) e Imprensa Metodista (da Igreja Metodista); e por causa de sua participação no projeto “Palavra-Vida”.

D. João Evangelista Martins Terra, jesuíta, criticou Carlos Mesters durante reunião privativa do episcopado brasileiro, durante a assembléia geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada de 5 a 14 de abril último, em Itaici. As críticas foram extensivas ao projeto “Palavra-Vida”. O bispo de Goiás Velho (GO), d. Tomás Balduíno, fez a defesa de Mesters, destacando o serviço que presta às pastorais da Igreja no Brasil e o caráter “original” de sua exegese bíblica.

Os representantes da corrente “progressista” da Igreja entendem que Mesters teria sido escolhido como “bode expiatório” para uma ofensiva de poderosos setores da Cúria Romana e do episcopado brasileiro e latino-americano contra o método de leitura bíblica “a partir da vida e da realidade dos empobrecidos”. Esta metodologia começou a ser sistematizada, no Brasil, há dez anos, pelo Centro de Estudos Bíblicos (Cebi), organismo fundado por Mesters e outros biblistas. (FSP, 15/5/89)

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Fonte:  VATICANO ameaça de silêncio o biblista Carlos Mesters. Folha de S.Paulo, 15 maio 1989. Reproduzido em Aconteceu no Mundo Evangélico, p.3.