Cronologia dos fatos
1962–1965 — Contexto do Concílio Vaticano II
1. 14 a 21 de novembro de 1962: começaram as discussões conciliares sobre a revelação divina e sua transmissão. O debate contribuiu para a elaboração da constituição Dei Verbum, que incentivou o acesso dos fiéis à Sagrada Escritura e a produção de traduções adequadas em diferentes idiomas.
2. 1963: o sacerdote francês Bernardo Hurault chegou ao Chile para exercer seu ministério pastoral na região carbonífera, na paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Villa Mora, Coronel. Ao perceber que muitos fiéis tinham dificuldade para compreender a Bíblia e pouco acesso a edições católicas, começou a desenvolver a ideia de uma tradução pastoral em linguagem acessível.
1970–1975 — Preparação, publicação e expansão
3. 1970: segundo Pablo Uribe Ulloa, após sete anos de trabalho, surgiu a Biblia Latinoamericana, concebida para aproximar a linguagem bíblica da realidade cotidiana das comunidades latino-americanas.
4. 1972: a Bíblia foi publicada em Madrid sob o título La Biblia. Latinoamérica, com autorização eclesiástica (imprimatur) de Dom Manuel Sánchez, arcebispo de Concepción, no Chile. O projeto foi dirigido por Bernardo Hurault e Ramón Ricciardi e empregou o princípio da equivalência dinâmica, buscando comunicar o sentido do texto em espanhol acessível ao público latino-americano. A edição também ficou conhecida como Biblia Latinoamericana e Biblia Pastoral.
5. 1974: uma edição posterior passou a ser objeto de críticas relacionadas às ilustrações e às legendas. Dom Antonio Plaza, arcebispo de La Plata, alegou que algumas imagens e textos teriam sido modificados para facilitar a entrada da Bíblia em Cuba. Essa acusação aparece nos relatos jornalísticos da época e deve ser entendida como uma alegação atribuída ao arcebispo.
6. 1975: segundo o relato de Pablo Uribe Ulloa, as editoras San Pablo e Verbo Divino estabeleceram uma parceria para a divulgação da Bíblia. A obra ampliou sua circulação na América Latina e passou a ter grande importância no trabalho pastoral.
1976 — A controvérsia na Argentina
7. 24 de março de 1976: um golpe militar derrubou o governo constitucional argentino e instaurou a ditadura que governaria o país até dezembro de 1983. O contexto de repressão política e de polarização ideológica influenciou a controvérsia em torno da Bíblia Latino-Americana.
8. 15 de maio de 1976: a Conferência Episcopal Argentina publicou uma carta pastoral sobre a situação nacional. O contexto político e as tensões entre setores da Igreja e o governo militar passaram a se cruzar com o debate sobre a Bíblia.
9. 26 de agosto de 1976: a revista argentina Gente publicou o artigo “Esto salió en una Biblia”, criticando as fotografias e os comentários da edição, que foram apresentados como expressão de influência marxista.
10. 5 de setembro de 1976: o bispo de San Juan, Dom Idelfonso María Sansierra, condenou publicamente a Bíblia, classificando-a em termos extremamente severos e pedindo que os fiéis que a possuíam a destruíssem ou a devolvessem. Na mesma época, o arcebispo Adolfo Servando Tortolo restringiu sua circulação na arquidiocese de Paraná.
11. 6 de setembro de 1976: órgãos de inteligência do governo militar argentino produziram documentos que classificavam a Bíblia como instrumento de doutrinação marxista e pressionavam a Conferência Episcopal a se pronunciar.
12. 11 de outubro de 1976: o governo militar fechou as instalações das Edições Paulinas na Argentina e apreendeu exemplares da Bíblia em diferentes localidades, segundo o estudo histórico de Arturo Campillo Salcedo.
13. 25 de outubro de 1976: o Diário de Pernambuco noticiou as divergências entre os bispos argentinos sobre a conveniência de autorizar a circulação da obra. Enquanto alguns setores a consideravam ideologicamente perigosa, o bispo Jaime de Nevares defendia sua leitura.
14. 26 de outubro de 1976: o Jornal do Brasil publicou uma reportagem sobre a discussão episcopal, que também envolvia a violência política, os direitos humanos e a situação das editoras católicas. A reportagem registrou as críticas de Dom Antonio Plaza e a defesa da Bíblia por Dom Jaime de Nevares.
15. 30 de outubro de 1976: a Conferência Episcopal Argentina publicou sua declaração sobre a Bíblia Latino-Americana. Os bispos consideraram a tradução substancialmente fiel, mas criticaram determinadas notas, introduções e ilustrações, julgando algumas ambíguas ou inadequadas. Decidiram promover uma revisão e preparar um suplemento obrigatório para a Argentina.
16. 6 a 12 de novembro de 1976: o jornal O São Paulo publicou o artigo “A Palavra traduzida”, de Domingos Zamagna, defendendo a proposta pastoral da Bíblia e a importância de uma tradução compreensível para os pobres e os jovens. O texto sustentava que a equivalência dinâmica procurava aproximar a mensagem bíblica da experiência dos leitores.
1977–1979 — Intervenção romana e suplemento obrigatório
17. 25 de fevereiro de 1977: o cardeal Jean-Marie Villot, secretário de Estado do Vaticano, encaminhou à Conferência Episcopal Argentina as conclusões da Congregação para a Doutrina da Fé. O documento considerava fiel a tradução dos textos originais, mas pedia que as ambiguidades e imprecisões das notas e introduções fossem eliminadas ou esclarecidas e que determinadas fotografias fossem retiradas.
18. 4 de maio de 1977: uma notícia publicada na Espanha divulgou as reservas da Congregação para a Doutrina da Fé em relação às notas, introduções e imagens da Bíblia Latino-Americana, reiterando a avaliação favorável à fidelidade substancial da tradução.
19. 9 de dezembro de 1978: a Conferência Episcopal Argentina publicou o suplemento obrigatório, cumprindo a decisão de 1976. Determinou que a Bíblia não fosse utilizada nem vendida, em seu território eclesiástico, sem o suplemento. Reafirmou também que aquela edição não era apropriada para uso litúrgico nas igrejas, capelas e cerimônias sob sua jurisdição.
20. 1979: o material reunido pelo Bibliarium registra a continuidade da polêmica em torno da Bíblia Latino-Americana, incluindo manifestações de organizações católicas contrárias ao que consideravam influência marxista na Igreja.
2004 — Retomada crítica
21. 2004: o teólogo Miguel Antonio Barriola publicou um novo estudo crítico sobre a Bíblia Latino-Americana, retomando objeções à interpretação bíblica e às notas explicativas da obra. O texto demonstra que a controvérsia continuou a ser discutida muito depois dos acontecimentos da década de 1970.